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MARCIA CAMARGOS VILLA KYRIAL CRÔNICA Adelto Gonçalves
Publicado na revista Colóquio/Letras, de Lisboa, nºs.161-162, de julho-dezembro de 2002, pp. 483-485. Prefácio de Antonio Candido São Paulo, Editora Senac/2001
Se poucos méritos pode ter por ressuscitar um literato medíocre ¿ cuja obra faz jus ao esquecimento em que jazia ¿, Villa Kyrial: crônica da Belle Époque paulistana vale pelo trabalho de pesquisa que Márcia Camargos realizou para traçar o retrato de um tempo perdido da cidade de São Paulo em que seus escritores e artistas viviam em torno de dois ou três mecenas. O livro conta a história de José Freitas Valle, figura típica da Primeira República (1899-1930) que, manejando com mestria as relações pessoais e familiares, soube ocupar o espaço que, mais tarde, seria outorgado ao Estado: o de promover a cultura. Nascido em 1870, Freitas Valle, filho de um pecuarista e comerciante bem sucedido, que triunfara na vida em Alegrete, no Rio Grande do Sul, era neto pelo lado paterno de um português de Penafiel que se estabelecera em Ilhabela, no litoral paulista, no começo do século 19. Aos 16 anos, foi para São Paulo estudar na vetusta Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde teve como colegas de turma nada menos que três futuros presidentes da República ¿ Washington Luís, Venceslau Brás e Delfim Moreira. Para alicerçar ainda mais o seu futuro, casou-se, aos 22 anos, com Antonieta Egídio de Sousa, moça bem-nascida, irmã de Euclides, pai de Osvaldo Aranha, futuro ministro do governo Getúlio Vargas (1930-1945). Embora tenha sido sempre advogado obscuro e professor de Francês no Ginásio do Estado e ocupado cargos políticos ligados à cultura, Freitas Valle soube como consolidar em breves anos a sua posição na elite paulistana. Em 1904, com dinheiro herdado do pai, comprou uma chácara com seu palacete no bairro de Vila Mariana, em São Paulo, à qual rebatizou com o nome de Villa Kyrial. Como intelectual típico do período, organizou em sua casa conferências, reunindo em aparente cordialidade escritores que, freqüentemente, travavam polêmicas por meio da imprensa. Fruto de uma época em que a elite tinha vergonha de ser brasileira e falar português e perseguia um afrancesamento que chegava à beira do ridículo, vestindo-se sob o sol dos trópicos como se andasse por boulevards parisienses em pleno inverno, Freitas Valle, em estilo ancien regime, chegava a recepcionar os convidados ao som do clarim de duas colunas de músicos postadas à porta de entrada. A decoração altamente sofisticada de sua casa, em harmonia com os padrões estéticos do art nouveau, os trajes, o idioma francês e os pratos servidos por ocasião dos jantares que oferecia, tudo procurava criar a ilusão de modernidade e sintonia com os países europeus que a elite tanto buscava. A poltrona do chefe da casa se destacava das demais e dali Freitas Valle comandava as palestras, as conferências e dava o tom correto do Hino dos cavalheiros da Villa Kyrial, cuja letra pouco inspirada compusera. Teve sorte de não atrair para sua casa nenhum Bocage, senão acabaria ridicularizado como o conde de Pombeiro. Apesar da pompa que já à época era motivo de chacota por parte de jornalistas e escritores menos comprometidos como Monteiro Lobato, a ação de Freitas Valle não deixou de ter importância para a história cultural de São Paulo, num tempo em que a cidade, ocupando desde 1880 uma situação de preeminência na economia brasileira, progredia a ritmo acelerado e começava a se rivalizar com o Rio de Janeiro, a capital federal. Basta ver que foi ele quem patrocinou a primeira exposição do pintor de origem russa Lasar Segall. Apesar de sua predileção pela arte acadêmica, o mecenas revelava certa abertura estética e fina percepção artística. Na área de música, igualmente, a ação de Valle foi importante: nem Villa Lobos, nome já de reputação consolidada, prescindia dos seus favores. Entre os escritores, João do Rio, Coelho Neto e Olavo Bilac, sempre que iam a São Paulo, hospedavam-se na Villa Kyrial. Aliás, foi na mansão de Valle Freitas que Bilac pronunciou a famosa conferência em que pediu a reabilitação de Bocage como um dos grandes poetas da Língua Portuguesa, em troca do esquecimento de sua fama de chocarreiro. Entre os convivas habituais da Villa Kyrial, estavam Mário e Oswald de Andrade, Antonio Piccarolo, formado em Literatura, Filosofia e Direito pela Universidade de Turim e fundador do Centro Socialista Paulistano em 1908, e o poeta e militante anarquista José Oiticica, filho de um senador proprietário de terras em Alagoas. Sem contar o francês Blaise Cendrars, presença constante durante a época em que esteve em São Paulo. Como poeta, Freitas Valle começou cedo, aos 18 anos, com Rebentos, que reuniu 94 poemas, alguns traduzidos de poetas franceses. A acolhida ao livro não foi das mais calorosas. Talvez resida aqui a gênese da decisão de Freitas Valle de passar a escrever sob o pseudônimo Jacques d´Avray e em francês. Publicou livros em edições reduzidas e os exemplares eram encaminhados criteriosamente a amigos e conhecidos. Um desses, o escritor Coelho Neto, em artigo de 1919, surpreendeu no poeta um ¿cultivador excêntrico¿, derramando-se em babosos elogios. Para justificar a atitude, Freitas Valle dizia que se recusava a comercializar seus versos, pois vendê-los seria aviltar o seu valor intrínseco, conspurcar sua nobreza, trair sua essência. Mas talvez fosse apenas receio de mais críticas azedas. Por trás do pseudônimo, Valle desenvolveria os tragipoemas, modalidade poética constituída por pequenas peças em verso nas quais recontava um incidente que o impressionara. João do Rio, outro que descobriu qualidades em Freitas Valle, dizia que Jaques d´Avray fazia recordar os trovadores medievais. Contagiado por Rimbaud, Mallarmé, Verlaine e Leconte de Lisle, D´Avray criava, em versos livres, soneto ou rondel, uma atmosfera penumbrista por onde desfilavam figuras melancólicas. Outro que se derramou em elogios a D´Avray foi o simbolista Alphonsus de Guimaraens, para quem Freitas Valle era o prince Royal du symbole et grand poète inconnu. Não se sabe se havia sinceridade nesses elogios, já que Alphonsus de Guimaraens, perdido em Mariana, por entre as montanhas de Minas Gerais, recorria ao amigo todo-poderoso sempre que precisava de um favor político ou mesmo de socorro pecuniário. Durante muito tempo, Freitas Valle reinou soberano na Comissão Fiscal do Pensionato, órgão do governo do Estado que selecionava candidatos a bolsas de estudo na Europa. Seu poder durou até 1930, quando ocorreu o golpe que afastou do poder as oligarquias cafeeiras. Com Getúlio Vargas na presidência, setores da classe média ascenderiam à cena política e o poder cultural migraria dos salões particulares para organismos do Estado. Freitas Valle teve o seu mandato de senador estadual cassado, mas só não continuou a influir na vida política porque não quis e preferiu ser fiel aos antigos companheiros do Partido Republicano Paulista: Osvaldo Aranha, seu sobrinho, seria um dos homens fortes do novo regime. Morreu em 1958, no ostracismo. Vítima do crescimento urbano, a Villa Kyrial e o palacete em que Freitas Valle dava as suas festas memoráveis seriam demolidos em 1961 para dar lugar a construções cinzentas e sem nenhum toque artístico. Originalmente apresentado em 1999 como tese de doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo, Villa Kyrial: crônica da Belle Époque paulistana nada tem do ranço acadêmico que costuma permear esse tipo de trabalho. Explica-se: sua autora é jornalista de profissão e soube como compor um texto leve e atraente, encadeando a massa enorme de informações que resultou de sua pesquisa. Com admirável competência, Márcia Camargos mostrou como a trajetória de Freitas Valle transcendeu e extrapolou o papel de poeta excêntrico ou herói decadentista, ressaltando a sua importância como fomentador cultural e a sua decisiva contribuição nos movimentos de renovação social, política e artística do Brasil do começo do século 20. |