O HOMEM – CRIADOR E CRIATURA.

Maria Thereza F. I. de Sulima Arczyńska

 

Na Conferência de abertura do II Simpósio latino-americano de terminologia e I Encontro brasileiro de terminologia técnico-científica, realizados em Brasília, em 1990, o saudoso professor Antônio Houaiss denominou a palavra “monstro celeste e diabólico, de mil faces mais uma”.

Lembrou ainda, que “a amplitude da palavra confunde-se no conhecimento humano com amplitude das línguas”, estas com seu rico e constantemente ampliado vocabulário através dos tempos, ligado ao número crescente de profissões e seus conseqüentes neologismos.

Observou, igualmente, que, graças aos médicos, desde a Antigüidade, bem como a Lineu, na botânica, “os termos técnicos que já se exemplificaram aqui e ali nos léxicos das línguas clássicas, são a fonte por excelência da explosão vocabular do mundo moderno”.

As palavras são os símbolos que, como meio de comunicação oral, superam os gestos sendo capazes de expressar experiências passada ou futura, ou qualquer conceito abstrato.

Podem elas mudar de significado e até ser substituídas por outras, às vezes sem qualquer explicação. Trata-se de uma área de dimensões variáveis – a semântica. Etimologia e semântica são duas partes do estudo das palavras, a indagação mais curiosa feita pela humanidade.

A história das palavras apresenta especialização e/ou generalização das mesmas, com troca de aplicação entre espaço e tempo, tamanho e quantidade, quantidade e número, com extensão, mudança e transferência.

Neologia é o processo de criação lexical que enriquece o vocabulário de uma língua, e o elemento resultante desse processo, portanto, a nova palavra, denomina-se neologismo – um ato e um fato social, formado por processos autóctones, ou por estrangeirismos, através de mecanismos diversos, inclusive o hibridismo, diacrônica e sincronicamente elaborado.

A neologia lexical, segundo L. Guilbert, é “a possibilidade de criação de novas unidades lexicais, em virtude das regras de produção inclusas no sistema lexical”, criação essa ligada ao mundo e à sociedade, no espaço e no tempo.

As culturas grega e latina têm sido fonte inesgotável para a formação de compostos eruditos, fornecendo radicais para os neologismos da linguagem tecnico-científica, geralmente internacionalizados. Existem até terminólogos, “encarregados de nomear as descobertas técnicas, científicas, de modo que o vocábulo se adapte bem, sobretudo às línguas ocidentais”.

Nosso escopo é apontar, aqui, alguns itens interessantes do léxico do mundo da Informática, cuja aceitação, no Brasil, não quer dizer que se trata de “subserviência mental” para com os norte-americanos. É uma ciência do século XX, com unidades lexicais, cunhadas, às vezes, em fontes muito antigas, hoje partes integrantes do nosso sistema lingüístico, resultantes da necessidade de se comunicar uma experiência nova: “Verba res sequuntur”, como dizia o poeta latino Horácio.

Realmente, a ciência é apenas um aspecto da cultura e um dos seus compromissos é fazer-se entender.

Estamos vivendo em uma sociedade computadorizada e, a cada dia, a terminologia da Informática “torna-se mais importante para o desenvolvimento pessoal e o sucesso profissional.

A Informática e seus desdobramentos não são mais do que um novo passo de um velho processo evolutivo e de desenvolvimento tecnológico que continua a sua escalada para o futuro, tendo como fio diretor a Lógica (política) – plano da estrutura fundamental do mundo objetivo ao lado do concreto (econômico) e do simbólico (cultural). Nascida da informatização, é um rolo compressor sobre o homem moderno.

A informatização exige do homem o domínio do processo metafísico do poder de realizar a organização, não só do seu mundo, mas também do universo, muito mais do que integrar a ciência e a técnica – um só processo, contínuo, em todas as áreas do conhecimento (enfoque interdisciplinar). Ela usa a Informática como ferramenta para “realizar o desenvolvimento de atividades mentais de forma integrada ao desenvolvimento da sensibilidade, intuição, criatividade etc.” (enfoque transdisciplinar).

O próprio item lexical Informática é um neologismo, do século XX. É o “emprego da ciência da informação com o computador eletrônico”, é a “ciência do tratamento automático e lógico da informação.”

Origina-se de informação, do latim informatio, -onis> in-form-a-ção, do radical latino forma, por sua vez, do i.- e. dher – ‘segurar, manter.’

É a information science, informatics (inglês), informática (espanhol), informatique (francês), Informatik (alemão), por exemplo.

No vasto e sempre crescente vocabulário da informática e seus desdobramentos, encontramos, em todas as línguas, cognatos – compostos e até mesmo híbridos, como infonauta ‘o que pesquisa informação, geralmente através de meios eletrônicos’, por analogia a astronauta, assim como internauta e cibernauta, termos usados no Internetês –, assim como infoseek ‘um mecanismo de pesquisa na Internet’.

O computador, este maravilhoso elemento que faz parte da ciência da Informática, é uma ferramenta utilíssima e indispensável para o atual estágio do conhecimento humano. Tem como objetivo a agilização e a otimização da atividade humana, em todos os setores, e o seu uso, para a valorização do ser humano. Uma de suas características é a sua rápida perecibilidade. É uma atividade-meio, altamente dinâmica, e não uma atividade-fim.

A palavra latina computare, já usada por Cícero e outros autores (< cum + putare >), provém de putare ‘pensar; estabelecer; julgar; ajustar’, da raiz i. – e. pu-III ‘idéia de pureza’. Assim, a noção primária de putare teria sido ‘tornar limpo’, depois, ‘trazer pureza; tornar claro’, e, de acordo com uma concepção genuinamente romana, ‘calcular; avaliar; pensar’.

No francês do séc. XIII, havia compteur ‘aquilo ou aquele que contava’, de compter ‘calcular’, passando a existir, no séc. XVI, o verbo computer ‘computar o tempo; computar’, de onde provém o inglês to compute (séc. XVII), daí computer (1646). Na década de 1950, passou a significar esta palavra computador eletrônico, criando-se então, o item lexical computador, em portuguêse espanhol.

Apesar de a língua francesa ser, indiretamente, a origem do item lexical computador, prefere usar a palavra ordinateur (1491), proveniente do latim ordinator -oris ‘ordenador, regulador’, de ordinare ‘pôr em ordem, ordenar’, o que faz lembrar o Criador.

De ordo-inis ‘ordem, arranjo’, provém este do radical ord – ‘idéia de pôr em ordem’, como em ordiri ‘urdir uma trama, começar’. Cerca de 1950, o item lexical ordinateur tornou o sentido de ‘computador eletrônico’.

A palavra italiana calcolatore origina-se do baixo latim calculare, havendo existido, no latim imperial, calculator ‘aquilo ou aquele que calcula’, daí a forma calcolatore eletronico ‘computador’.

Já vai longe o tempo em que o homem fazia seus cálculos usando os dedos (e ainda hoje) e pedrinhas, talvez. Aliás, cálculo provém do lat. calculu ‘pedrinha’, usada pelas crianças para aprender a calcular, daí, por extensão, ‘calculo, conta’. É o diminutivo de calx – cis, da raiz mediterrânea khalk – ‘cal’.

Este sistema é ainda hoje usado em vários países orientais, no ábaco, ou quipos, dos incas.

No teclado do computador, encontram-se teclas, dentre as quais:

1)     CTRL (control) / control – que se combina com outras para executar comandos de programa. A palavra origina-se do fr. ant. contre – role ou contre – rolle, sendo que role, do lat. tardio rotulu ‘rolo, cilindro’.

2)    DEL. (delete) / delete – tecla que apaga o caráter localizado à direita do cursor, corrigindo eventual erro de digitação. Do inglês to delete ‘apagar, remover’, que provém do port. pass. deletus do verbo delere ‘destruir’. Do port. delete formou-se o verbo deletar.

3)    ENTER / enter – tecla que confirma um comando, ou inicia novo parágrafo. O inglês to enter provém do lat. intrare ‘entrar, penetrar ’.

 

Acrescento alguns termos:

1)     Cache / cache – ‘área de armazenamento, uma espécie de memória rápida para permitir acelerar o desempenho normal de um sistema’. Do francês cache ‘lugar secreto para esconder’, é um deverbal de cacher ‘esconder’, do lat. vulg. *coacticare ‘prensar, apertar’, freqüentativo do coactare ‘constranger’, que substitui a forma latina abscondere > *excondre> escondre> esconder (port.). Esta forma se conservou nas línguas meridionais, como o português. Origina-se da raíz i.-e. ag- ‘empurrar diante de si’.

2)     Data / dados – ‘elementos de informação que são transmitidos ao computador, ou produzidos por ele’. É o plural do neutro latino datum, que, no lat. clássico, era empregado para marcar o tempo e o lugar do que era escrito, como: datum Romae. Provém do part. pass. do verbo dare ‘dar’.

3)     Digit / dígitodigitization / digitaçãodigital / digitalto digitize /digitarteclar’ e digitalizar ‘representar ou expressar em forma digital dados contínuos’ – todos cognatos, geralmente derivados sufixais, provenientes do lat. digitu ‘dedo’,daí, ‘número, em aritmética”, por se contar pelos dedos; da raíz i.-e. deik- ‘mostrar’.

4)    Diskette / disquete – ‘meio de entrada e saída de dados num pequeno disco magnetizável’ – um hibridismo: disk ou disc (ingl) ‘prato redondo’, do latim discu,e o sufixo francês – ette, de diminutivo. A forma latina provém do gr. dik –‘ lançar’, de onde, também, o inglês dish ‘prato’, aliás a forma primitiva de disk.

5)    Fax / fax – abreviação vocabular do inglês facsimile, que, como fac-simile, foi usada, primeiramente em 1661, como ‘uma cópia exata’. Provém da 2º pessoa singular do imperativo presente do verbo lat. facere (fac) ‘fazer’ e do substantivo neutro simile ‘parecença’, de onde facsimile machine ou fax machine ‘equipamento de fax’. Simile é da mesma família de semel ‘uma vez’.

6)    Interface / interface ‘ponto de contato entre o computador e dispositivos externos’- derivado prefixal (lat. inter) de face. Em física, ‘uma superfície formando uma fronteira comum entre duas regiões’, é ‘um ponto onde a interação ocorre entre dois sistemas, processos, assuntos etc.’. A palavra face (ingl.) provém do fr. ant. face, do lat. facie, por sua vez, da raiz i.-e. dhe – I ‘colocar’.

7)    Language / linguagem ‘conjunto de instruções que “ensinam” ao computador dispor e ordenar os símbolos e caracteres, a fim de se obter uma informação: Assembler, Basic, Cobol, Fortram etc.’ A palavra origina-se do fr. langage (langage, no inglês med.), derivado sufixal de langue, do lat *dingua, mais tarde lingua (por influência de lingere ‘lamber’); assim é no português; da raiz i.-e. dinghw – ‘língua’.

8)    Menu / menu ‘elemento de interface que apresenta na tela as opções de comando disponíveis’. Do francês menu ‘uma breve conta, ou momento; o pequeno’, provém do latim minutu ‘pequeno’, part. pass. do verbo minuere ‘tornar pequeno’; da raiz i.-e. mei-I ‘diminuir’.

Para não alongar mais o texto, não apresento outros ítens lexicais deste vocabulário.

Não poderia esquecer a copiosa siglonimização ou acronímia, onde a língua latina aparece preponderantemente, como em:

1)     ASCIIAmerican Standard Code for Information Interchange / Código Padrão Americano para Intercâmbio de Informações.

2)     Bit / bit – Binary digit / Dígito binário ‘a menor unidade de informação armazenada na memória do computador’ (1948 – C.E. Shannon). Observe-se que o sistema binário é de origem chinesa, antiqüíssimo.

3)     Byte / byte – ‘conjunto de 8 bits que representam um dado no computador; a menor unidade endereçável’. Talvez da sigla bit e bite (germ.) ‘morder’.

4)     DOS / DOSDisk operating system ‘sistema operacional baseado no uso de discos magnéticos.’

5)     FORTRAN / FORTRANFormula translator / tradutor de fórmulas. ‘linguagem de programação que pode ser representada por notação algébrica’.

6)     LOGO / LOGO – Do elemento gr. lógos ‘idéia de palavra, estudo’, é ‘linguagem de programação de alto nível, especialmente adequada ao ensino dos conceitos fundamentais de programação a crianças.’ Da raiz gr e lat. leg. – I ‘colher, escolher’.

7)     OCR / OCROptical character recognition ‘capacidade da máquina reconhecer um texto impresso ou datilografado’.

8)     ODBC / ODBC – acrônimo de Object database connectivity. ‘padrão que permite, inclusive aos navegadores da WEB, a comunicação de aplicações.’

As gírias também têm seu espaço aqui, além de infonauta e internauta, já mencionadas:

1)     Infomaníaco ‘um fanático por Informática’ – composto da abreviação vocabular info (de Informática) e de maníac/o/ (séc. XVI), do lat tardio maniacu ‘demente, furioso’, originário do gr. maniakós < mania ‘loucura, demência’; da raiz i.- e. men-I ‘que indica os movimentos do espírito.’

2)     Internetês – termo inventado por Antônio Miguel Ferreira, em 1995, significa ‘língua ou dialeto na Internet.’ Uma analogia a economês, também palavra híbrida = lat + ingl + port.

3)     Micreiro ‘pessoa fanática por microcomputadores’. Ao elemento gr. micro – acrescentou-se o sufixo port. –eiro.

4)     Netizen / netizen ‘alguém (cidadão) que utiliza recursos da rede Internet’. Palavra- -valise, formada de Internet e citizen ‘cidadão’, esta do anglo-fr. med. citezein e citizein, do ant. fr. citeain, de cite (hoje, cité ‘cidade’), do lat. civitate, por síncope, de civis, -is ‘cidadão’. Da raiz i.-e. kei –II ‘estar deitado’.

5)     Navegar ‘ato de consultar sucessiva, mas aleatoriamente, páginas www diferentes’. Do lat. navigare, de nave ‘nau, navio’, origina-se da raiz i.-e. naw – ‘navio’. Difere de surfar.

6)     Surf / surfarsurfing / surfe ‘explorar / exploração do www, de forma descontraída, através de links interessantes’. A palavra ingl. surf (também suff ou suffe) , do final do séc. XVII, tem, aparentemente, o sentido original do ‘impulso da água formando ressaca’. É , então, um item lexical onomatopaico. A prática do surfe originou-se nas sociedades primitivas do Pacífico, nas áreas costeiras em frente ao alto mar, havendo sido observada pelo capitão Cook, no Tahiti, em 1777. Como este esporte é praticado na crista das ondas, poder-se-ia justapor surface / superfície a surf. Assim, o inglês surface, originário do derivado fr. surface, tem o prefixo sur –, forma contrata do lat. super –, daí superficie (<facie).

Ao sair do elemento líquido, onde este esporte (com prancha ou sem ela) tem encontrado um número cada vez maior de adeptos em todo o mundo, por conotação semântica, levou o homem a adaptá-lo á neve, ao ar, e, sempre perigosamente, a inventar outra modalidade, urbana – o surfe ferroviário – com pingentes viajando em cima do teto do trem, no máximo pulando de um vagão para o outro.

Na Informática, outra modalidade, porém prazerosa, cunhou as expressões “surfar na Internet” e “surfar no www” – uma aplicação de semântica sincrônica.

Em suma – Como se pôde notar, o extenso e inesgotável vocabulário da Informática compõe-se de uma grande e variada gama de neologismos, formados por: derivação, composição, abreviação, palavra-valise ou entrecruzada, acronímia ou siglonimização, deverbal, onomatopéia, hibridismo – que incluem gírias, imperando os estrangeirismos, mormente do inglês, vernaculizados ou não, traduzidos ou não.

Interessante é observar o círculo vicioso em que se situa o homem, desde a Antigüidade até aos nossos dias, calculando por meio de pedrinhas (calculu), contando nos dedos (digitu) e usando-os para escrever (digitar) no computador.

Finalizando, lembro que, para conservar a biunivocidade (um só sentido para um só vocábulo), com sua internacionabilidade, ou universabilidade, frisou Antônio Honaiss que o ideal será que “voltemos aos recursos greco-latinos que, longe de starem esgotados em suas potencialidades, não só ofereceram a base de abertura do mundo moderno, (...) mas são ainda uma base segura com que se possa prosseguir no imperativo da criação neológica.”

Concretamente , como disse Mário Gilberto Cortopassi, “os computadores não entendem nem portunhol, nem casteguês, apenas termos e expressões padronizadas.”

O homem é desafiado, diariamente, na sua criatividade, em todos os níveis, inclusive nolexical. Em contrapartida, um processo de graves conseqüências políticas é a progressiva perda de autoridade da línguagem natural, que se esvazia progressivamente. Até onde chegaremos? Não será somente o alto preço de uma era de transição? Oxalá!!!

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

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