in Jornal Cultura, n.º 11, Rio de Janeiro, da Casa de cultura Lima Barreto, Sindicato dos Escritores do Rio de Janeiro, 1986, p.12-13.
Hilma Ranauro é dessas poetas que vieram para ficar; não está a passeio, não faz da poesia escudo ou tábua de salvação. Para ela o poema é essencial, como o ar que respira. Ser poeta é participar, enfrentar a contenda que a todos atinge e que no poeta repercute com mais força e mais sofrimento. Como já disse Reynaldo Valinho Alvarez, Hilma costuma armar seu acampamento na frente de combate mais próxima. É essa sua disposição.
O que é para você a poesia? O estado poético ?
Hernani
Cidade, ao falar de Fernão Lopes (cronista português do séc. XV), a ele se
refere como “o maior poeta do seu século”.
No grego, poíesis se referia ao próprio
ato de criação artística. Não a representação pura e simples, a linguagem
dita referencial, mas a forma de (re)ver e (re)velar o universo sentido,
percebido e recebido, pelos sentidos todos. Hoje, costuma-se chamar poeta ao que compõe/dispõe em versos. O que há é o dizer/fazer
poético, que pode sê-lo em prosa ou versos. Quanto ao “estado poético”, o
que seria? O “antes” e/ou o “durante” da realização poética? O estado
mobilizador e gerador da criação poética? Haveria possibilidade de o
“estado poético” existir independente da sua materialização em algo?
Não
me atreveria a fechar numa resposta a nenhuma dessas questões, em termos de análise
e resposta. Em termos de linguagem poética já o terei dito em muitos dos meus
poemas. Sei, por exemplo, que “faço
versos como quem empunha uma arma/mas também como quem brinca e ri/e goza/e ama”
como disse em “Decisão”, que termina dizendo serem meus versos “disjuntores que ligam
e desligam nos curto-circuitos de mim”. Como leitora de meu texto, talvez
possa ler em “curto-circuito”, “estado poético”, que terei representado
de várias maneiras em outros metapoemas, mas daí a teorizar sobre isso...
E
a poesia-arte, no confronto com leis da crítica ou até extrapolando para as
preocupações de vanguarda?
Dizer “poesia-arte” me
parece uma redundância.
Quando
às leis da crítica, rio delas. Que vêm a ser? Os verdadeiros críticos
(leia-se Barthes – Critique et Vérité),
são, na realidade, recriadores da obra de arte, toda e qualquer, por eles (re)lida,
(re)escrita, (re)criada. Esses são raros. As “leis da crítica”
naturalmente estão ligadas ao crítico-juiz, que julga (com que direito?) a
obra de arte, decidindo sobre seu valor ou validade, e sei lá mais o quê. Que
Deus e o diabo nos livrem dele.
Quanto
às “preocupações de vanguarda”, é bom que se lembre sempre que os que
foram “de vanguarda” (aceitemos o termo) não se preocuparam em sê-lo. Deve
haver, sempre, a busca de novos caminhos e formas de dizer e criar, e em
qualquer arte. Essa busca nascerá espontânea, e é natural ao artista. Advirá
disso, ou não, um bom trabalho, que será novo para ele ou para o grupo ou para
toda uma geração, abrindo, ou não, novos horizontes e perspectivas para a
criação. De qualquer forma, terá valido enquanto busca–pesquisa de novas
formas de dizer, fazer, criar, enfim.
Reynaldo
Valinho Alvarez, no seu estudo crítico (JL e UH) sobre Descompasso,
meu livro de estréia, disse que eu armo meu acampamento na frente de combate
mais próxima. É assim que eu me sinto, como mulher, mãe, professora, cidadã
e poeta.
Quanto
ao termo “minorias”, gostaria de questionar (olha eu armando meu
acampamento) seu emprego em contextos como esse. Naturalmente refere-se aos
oprimidos, que, na realidade, são maioria. O emprego do termo em contextos como
esse faz com que os oprimidos se vejam como minoria, e não o são. Minoria é o
grupo que domina e oprime. Há, sim, uma minoria privilegiada. Ao falarmos na
“minoria branca” na África do Sul, estamos salientando/denunciando o fato
de poucos dominarem e decidirem sobre muitos. E assim deve ser dito. Falar dos
oprimidos como minoria no Poder e em termos de representatividade dentro do
estabelecido é uma coisa, mas referir-se a eles como minoria... É a linguagem
arma poderosa de informação, deformação, conformação. Não podemos
descuidar.
Poesia tem sexo? Seria por
aí a nova caminhada poética para fugir de uma evolução puramente vocabular
?
Não é que a poesia tenha sexo. O que se coloca – e isto está a cobrar um estudo – é que há uma linguagem dita feminina e outra dita masculina. O poeta e crítico Gilberto Mendonça Telles, num telefonema, após ler meu livro, falou da quinta parte dele, “O Império do Sem Sentido”, como portadora de uma linguagem “máscula”. A professora Doutora Sônia Salomão Khéde, numa situação semelhante (e ainda não a conheço pessoalmente), levantou essa questão, dizendo da necessidade de se estudar o assunto, e salientou a linguagem feminina de meus poemas. Assim como há variantes lingüísticas referentes aos sexos, deverá havê-las em relação à linguagem literária, ou, mais especialmente, à poética, como não? Se a maneira de ver, perceber e sentir o mundo e dele participar é diferente, diferente deve ser a forma de retratá-lo e recriá-lo.
Não haverá, me parece, uma diferença temática somente – temas femininos e temas masculinos (coisa de mulher e coisa de homem) – mas sim, uma diferenciação também no nível da linguagem. Há poemas infantis que o são em termos também e principalmente de linguagem. O escritor se fez criança ao escrever. Está lá a “linguagem infantil”. E há textos escritos para criança, mas numa linguagem de adulto. Há a linguagem infantil, como deve haver a feminina, a “máscula”, não obrigatoriamente realizada por uma criança ou mulher ou homem, respectivamente.
Num
dos concursos de contos que coordenei, o primeiro lugar coube a um texto que
fora escrito por uma mulher, e todos nos surpreendemos com isso. Foi uma
surpresa geral ao abrirmos o envelope de identificação. A linguagem, a forma
de expressão nos criara a expectativa/certeza de que estávamos ali, então,
uma linguagem não comum à mulher.
Torno
a dizer, faz-se necessário um levantamento, uma pesquisa sobre o assunto. Até
então, estaremos a teorizar sobre o assunto, com base no “achismo”, no
“me parece”, e isso não é bom.
O que mais a preocupa
num poema? Atirar-se nele de cabeça ou “de mãos limpas”, como diz João
Cabral ?
Ao realizar um poema, minha preocupação é realizá-lo e ver se me realizei ou não com ele, e é com essa relação o meu compromisso primeiro. Alguns poemas vêm prontos, outros me exigem um trabalho braçal, como se me estivessem a dever algo ou eu a eles. Às vezes os retomo, refaço, retoco. Creio que isso ocorre com qualquer criação. Sinto que a poesia, enquanto criação, é que mergulha em mim, saindo, enquanto linguagem, aos borbotões ou aos pingos.
Quanto
ao “sair de mãos limpas” de João Cabral, não sei em que texto/contexto
ele usou essa expressão. Seria o lavar as mãos de Pôncio Pilatos?
Em
“Porta-Estandarte”, um de meus poemas ainda inéditos, me leio dizendo “há que sair das vísceras a minha voz em meu canto-choro/para que seja
ouvida verdade...” E termino dizendo: “...há
que conclamar ao grito e incitar/à luta e à busca de liberdade, para que valha
a pena.” Tudo isso, para que essa voz “tenha
eco e não soe oco no tempo”.
Pelo
que posso deduzir, há, em mim, a poetisa (não me repugna a flexão do termo em
gênero), preocupada com a sua criação, seu fazer poético, e há a cidadã, o
ser humano, desejando-a algo que incite e induza a uma (re)ação, num efeito de
gatilho. Agora, não me permito ser dos que cobram um compromisso, um
engajamento ideológico do artista, enquanto tal. O primeiro compromisso do
artista é com sua criação, e ela se realiza num ato solitário. Não sou, por
exemplo, dos que acham o poema lírico alienado ou alienante. A libertação do
ser se fará também pela liberação de seus sentimentos e emoções. Não
concebo o patrulhamento ideológico, pois não concebo a censura, de espécie
alguma. Para que serviria, então, a música em si mesma e a maioria das
pinturas e esculturas? Sou contra o “patrulheiro ideológico”, como sou
contra o censor e o crítico-juiz. É uma questão de coerência.