Quando apalavra reduz o homem a coisa
a
coesão lexical em Sargento Getúlio

Denise Salim Santos (UNIG)

 

Elemento importante que garante a coesão e a coerência de um texto é o léxico empregado nas formações enunciativas. A relação semântica entre os itens lexicais e a co-presença de traços semânticos total ou parcialmente idênticos sinalizam dois mecanismos de coesão lexical, segundo Elisa Guimarães (1995: 29): a simples iteração ou repetição e a substituição léxica. Fávero (1997: 18) afirma que “há certos itens da língua que têm a função de estabelecer referência, isto é, não são interpretados semanticamente por seu sentido próprio, mas fazem referência a alguma coisa necessária à sua interpretação”, constituindo-se num primeiro grau de abstração, pois o interlocutor/leitor estabelece uma relação sígnica para um objeto tal como ele o percebe dentro do contexto cultural que o envolve. Estamos falando, então, de um tipo de coesão: a coesão referencial que pode ser realizada a partir de mecanismos de substituição e de reiteração.

É também a parte da língua que em primeiro lugar arquiva o saber lingüístico de uma determinada comunidade, representando simbolicamente o mundo extralingüístico e partilhado pelos falantes dessa comunidade. Sendo a lexicologia a ciência que estuda o léxico de uma determinada língua, uma de suas funções é apresentar informações acerca das unidades lexicais necessárias à produção do discurso.

Nesta pesquisa pretendemos levantar as ocorrências lexicais empregadas por João Ubaldo Ribeiro na construção do discurso da personagem Getúlio dos Santos Bezerra, o sargento Getúlio, que empresta seu nome ao romance publicado em 1971, com o recorte específico da coesão em relação às formas de se referir a outra personagem do romance: o preso político.

Nesse percurso buscaremos criar interseções entre léxico, discurso, e textualidade na construção do texto literário, abrindo espaço para a observação de novas unidades lexicais que possam ocorrer e suas implicações semânticas, bem como a natureza de suas formações.

A aplicação da repetição e da sinonímia como estratégias de coesão textual e sua eficiência na concatenação das partes do discurso narrativo serão avaliadas aqui. Nessa etapa também nos interessará verificar as relações de hiponímia e hiperonímia entre as palavras ou grupos de palavras, isto porque Getúlio estará fazendo referência ao preso durante a narrativa, sem nunca dizer-lhe o nome:

Então eu lhe digo: lhe faço as piores coisa [...]. Nem acredita mais, eu acho. Ou então acredita, nem está nem vai chegando mas talvez nem se lembre mais do nome dele. Ninguém se lembra mais nem do nome da gente e me lembro do nome do Amaro e se quisesse me lembrava do nome do peste, mas não quero e esqueci (SG: 103).

Esse fato demandará um trabalho de garimpagem lexical em busca das formas nominais que atendam à necessidade expressiva do escritor, às características e à visão de mundo de Getúlio, sua ideologia, os sentimentos provocados pela frustração diante dos desmandos do coronel Acrísio Nunes e extravasadas na agressividade verbal, explicável pela possível interpretação de incompetência profissional do sargento que sempre cumpriu o que lhe foi ordenado; às variantes lingüísticas de natureza diatópicas, diastráticas e diafásicas adequadas para não incorrer na armadilha textual das iterações cansativas, desnecessárias ou inadequadas ao contexto discursivo.

 

Coesão e léxico

O recurso à substituição atém-se ao emprego de pró-formas, elementos gramaticais representantes de uma categoria. Assim, são encontradas as pró-formas pronominais; pró-formas numerais; pró-formas verbais; pró-formas adverbiais.

Quanto à reiteração, os recursos são mais amplos. Vejamos:

·    repetição do mesmo item lexical;

·    sinonímia, sem perder de vista que a sinonímia perfeita não existe. O contexto possibilita a expansão da característica polissêmica do signo, dependendo do contexto em que ele é empregado a partir da essência semântica da palavra. Assim a questão semântica da sinonímia desloca-se do plano lexical para o textual e contextual.

·    hiperonímia, quando se estabelecem relações entre primeiro termo para o segundo do tipo todo-parte; classe-elemento – do geral para o mais específico.

·    hiponímia, quando o processo é inverso à hiperonímia, ou seja, a relação do primeiro termo para o segundo é a mesma de elemento-classe; parte– todo, do específico para o geral.

·    expressões nominais definidas, ou seja, repetição do mesmo fenômeno por formas diversas, baseadas no conhecimento de mundo e não somente nos conhecimentos lingüísticos.

·    Nomes genéricos (gente, pessoa, coisa, negócio etc.) que funcionam como itens de referência anafórica.

·    elipse[1]

A reiteração vazia de intenções coesivas pode ser avaliada pelo leitor como incompetência do produtor do texto que, por algum motivo, não sabe como utilizar os mecanismos de reiteração, ou seja, substituir um lexema por outro ou outros, formalmente distintos, mas que semanticamente lhe são próximos, assim considerados por apresentarem semas afins, o que possibilita a substituição léxica sinonímica.

Talvez o desconhecimento de que nãosinônimos perfeitos e que a busca de uma acepção no dicionário não deve ser aleatória, mas sim contextualizada, seja uma das causas do emprego de itens lexicais inadequados que acabam por gerar incoerência num texto. Para afastar-se de uma falha textual – a repetição pura e simples, sem implicações semântico-estilísticas– incorre-se em outra: a substituição inadequada de determinados itens lexicais descontextualizados.

Uma das característica da literatura contemporânea brasileira é a de trazer para o seu interior os traços de oralidade que marcam a fala do usuário da língua nas suas variações diatópicas, diastráticas e diafásicas na tentativa de dar à personagem ou narrador em primeira pessoa um tom discursivo mais próximo da realidade.

Ainda que esse tipo de texto pertença ao universo da modalidade escrita e por isso tenha como pressuposto um projeto de elaboração, de escolhas, de organização (o que à primeira vista o colocaria em oposição à fala, ao processo imprevisível da interação face-a-face próprio do uso oral) é comum observar-se o esforço empreendido pelos escritores no sentido de se apropriarem das variantes lingüísticas como estratégia de construção das personagens e da conseqüente delimitação do contexto em que a situação narrativa ocorre.

No texto literário, em que a expressividade é convidada a construir, desviar ou acentuar significados, a simples repetição de uma palavra ou expressão pode produzir efeitos de sentido inusitados de grande relevância para a significação geral do texto ao mesmo tempo em que, além de assumir força articulatória dos elementos significativos ali presentes, trabalha a sua coerência. (Guimarães, 1995: 29)

Assim acontece no romance de João Ubaldo Ribeiro, Sargento Getúlio, publicado em 1971, ao qual pretendemos aplicar os princípios de coesão em relação à maneira como o escritor trabalha o léxico de referência a uma das personagens do livro, o preso político, que deverá ser conduzido de Paulo Afonso a Aracaju por Getúlio dos Santos Bezerra, homem de confiança do coronel Acrísio Nunes, mandante da captura. Portanto, a narrativa vai ocorrer no agreste nordestino, feita por um narrador em primeira pessoa, com pouca ou nenhuma instrução, cuja origem e infância foram passadas miseravelmente em Sergipe. Ele mesmo conta:

Mas se eu não sou um homem despachado ainda estava no sertão sem nome, mastigando semente de mucunã, magro como filho do cão, dois trastes como possuídos, uma ruma de filhos, um tico de comida por semana, um cavalo mofino para buscar sa tresmalhadas de qualquer dono. (SG[2]: 14)

... e eu sendo eu, quando eu era menino comi barro e entrei por dentro do chão, comendo barro, cagando barro e comendo de novo, oi coisa,... (SG: 155)

Saído de lá, foi para Aracaju onde, depois de sobreviver algum tempo como engraxate, ocupa o posto de sargento da Polícia Militar, vislumbrando a oportunidade de afastar-se da miséria até então vivida:

Em Aracaju tenho as costas quentes e não é assim que Getúlio vai se ver de uma hora para outra. Principalmente depois que levar vosmecê. Tem ambientes em Aracaju, gente a seu favor. Coisas. Não gosto desse serviço, não gosto de levar preso. Avexame. Depois de levar vosmecê lá, assento os quartos num lugar e largo essa vida de cigano. (SG: 13)

A partir daí, a intuição artística, a vivência do escritor, seu conhecimento do meio ambiente e dos tipos que povoam os contextos narrativos (Preti, 2004: 121) aproximam a linguagem literária da realidade falada.

Um das áreas em que mais se verifica a infiltração da oralidade na literatura é o campo lexical. As variantes regionais, a gíria, o repertório comum, o palavrão ou expressões de insulto e ironia estão presentes como manifestação da variante oral, além das inovações lexicais, frutos da necessidade expressiva do produtor do texto, os neologismos, que podem ser fonológicos, sintáticos, semânticos e neologismos por empréstimo, segundo a classificação de Ieda Maria Alves (1994).

Em Sargento Getúlio, foram encontrados muitos trechos que servirão de exemplos para os pressupostos teóricos apresentados até aqui. Mas antes julgamos pertinente apresentar o quadro de ocorrência das lexias simples que estabelecem coesão referencial e a freqüência com que aparecem

Ocorrência

Função adj /subst

Freqüência.

Homem

substantiva

21

Paciente

Substantiva

14

Infeliz

Substantiva

2

Cristão

Substantiva

1

Vivente

Substantiva

1

Sacrista

Substantiva

1

Capadócio

Substantiva

1

Preso

Substantiva

2

Cabrunco

Substantiva

1

Cabrunquento

Substantiva

2

Pirobo

Substantiva

1

Pirobão

Substantiva

2

Ordinário

Adj/subst

2

Capadócio

Substantiva

1

Ordinário

Adj/Subst

1

Criaturo

Substantivo

1

Espécie

Substantiva

1

Peste

Substantiva

25

Bexiguento

Subst/adjetiva

2

Apustemado

Adjetivo

1

Cão

Substantiva

3

pustema

substantiva

2

Coisa

Substantiva

13

Traste

Substantiva

14

Trem

Substantiva

2

Lixo

Substantiva

1

Troço

Substantiva

2

Trempe

Substantiva

6

Mala

Substantiva

1

Arreio

Substantiva

2

Carga

Substantiva

1

Bosta

Substantiva

4

Presente

Substantiva

3

Encomenda

Substantiva

1

Pacote

Substantiva

1

À exceção das duas unidades lexicaishomem e presotodas as demais formas de referenciação estão carregadas de pejoratividade, ironia ou agressividade. Comparativamente, a condição humana é recuperada no texto pela repetição muito freqüente do substantivo homem. Essa escolha não nos parece aleatória, porquanto o aumento de freqüência se dá em três momentos narrativos específicos:

a) logo no início da narrativa, quando Getúlio refere-se ao preso, deixando ainda transparecer respeito e certa consideração pelo preso político

1) Tomando uma chuvinha está se vendo que é um homem distinto, um homem muito asseado, com suas costeletas trevessadas e tomando um banhozinho essas horas. (SG: 37)

2) Botamos o homem em marcha até a casa, atrás do hudso... (SG: 47)

b) quando está diante de outras pessoas discutindo o destino do preso

3) Seu Nestor, melhor o homem ficar inteiro. Minha obrigação é entregar o preso inteiro. (SG: 59)

4) Digo que o homem bateu com a cara no vrido, depois de dar dois tombos na estrada. (SG: 60)

5) Vosmecês vão e eu fico e converso com o padre e depois solto o homem. (SG: 98)

6¨) Vosmecês me contaram que o chefe não quer mais saber disso, creio, creio. Assim sendo, eu posso soltar o homem, mas com vosmecês aqui não solto, de formas que espero vosmecês ir saindo na mesma paz que entraram e depois que vosmecês sair eu solto o homem e vou embora. (SG: 98)

Observe-se que em (3) aparece uma relação de hiperonímia entre homem e preso sendo a primeira palavra a de sentido mais geral e a segunda, a de sentido mais delimitado, deixando o texto menos vago. Nos demais excertos, a ocorrência dessa palavra cumpre a função de reiterar ao longo do texto um elemento importante para a interpretação dos fatos narrados.

Em torno do traço sêmico [+humano] vai girar uma série de formas nominais, que contribui para a construção de um universo referencial com relação ao preso, a partir do discurso de Getúlio que, aos poucos, vai pincelando toda sua ira em relação à possívelcausa” da desconstrução de seu mundo interior. Os objetos ou seres são percebidos por seus atributos e, de atributo em atributo, o escritor vai tecendo redes de sentido com as quais caracteriza seus personagens. No quadro 1 são encontradas lexias simples empregadas fora de sua função primeira. Ali estão relacionadas formas nominais, quer adjetivas quer substantivas. Constata-se que a ocorrência de substantivos é enormemente superior, tornando mais concreto o objeto referido. Consultando-se dicionários gerais[3], verifica-se que as entradas paciente, infeliz cristão, vivente, ordinário, cristão têm como categoria gramatical primeira a de adjetivo, como mostramos a seguir, embora apresentem também a acepção com função substantiva, o que contempla a nuança de sentido empregada no texto:

paciente adj. 2g. (sXIV cf. FichIVPM) 1 que tem paciência ('virtude'); sereno, conformado 2 que aguarda tranqüilamente, que sabe esperar; calmo <passageiro p. > <ouvinte p. > 3 que persiste na realização de um trabalho; perseverante <pesquisador p. > 4 que revela ou exige paciência <descobertas científicas exigem observação p. >  s. 2g. (sXV) 5 pessoa que espera calmamente, que persiste com serenidade 6 indivíduo doente 7 indivíduo que está sob cuidados médicos 8 réu que vai ser submetido à pena de morte[...];

infeliz adj. 2g. s. 2g. 1 que ou aquele que não é feliz 2 que ou aquele que não foi favorecido pelas circunstâncias, pelo destino ou pela natureza; desgraçado, fracassado, miserável <candidato i. > <as i. vítimas da catástrofe> <os i. saíram do campo sob estrondosa vaia> <socorrer os i. > 3 B que ou aquele cuja presença não é desejada, bem-vinda 4 B N. E. infrm. que ou aquele que é marcado pela excepcionalidade; danado, desgraçado <cabra i. para ganhar no jogo> <o i. jamais perdia uma partida>  adj. 2g. 5 que tem desfecho desfavorável; infausto <experiência i. > <expedição i. > <destino i. > 6 que exprime infortúnio, desdita, infelicidade <olhar i. > <uma notícia i. > 7 não apropriado; inadequado, inconveniente, lamentável <palpite i. >

cristão adj. s. m. (sXIII cf. IVPM) 1 diz-se de ou aquele que professa ou freqüenta igreja de uma das modalidades do cristianismo <a doutrina c. > <os filósofos c. > <o c. das catacumbas> 2 diz-se de ou o que é conforme ou compatível com os princípios do cristianismo <teve uma vida c. > <embora sem o hábito, continua um c. na ética>  adj. 3 que recebeu influência do cristianismo ou de seus princípios <a poesia c. de Jorge de Lima> <o existencialismo c. > 4 infrm. apropriado, claro, razoável <desenvolveu uma explanação c. >  s. m. 5 SC em Santa Catarina, entre 1847 e 1860, alcunha dada pelos liberais, ditos judeus, aos conservadores 6 infrm. qualquer pessoa, criatura humana <assaltava com impropérios qualquer c. que passasse> 6. 1 infrm. us. como indeterminador de pessoa <– Sem trabalho, como pode um c. sustentar a família?> 7 SC infrm. m. q. cresto  não há c. que agüente B infrm. diz-se de situação, fato ou pessoa, de aceitação insuportável  gram a) fem

vivente adj. 2g. (sXIV cf. FichIVPM) 1 que vive, tem vida; vivo <dizem que o ancião ainda é v. > <os seres v. >  s. 2g. 2 qualquer criatura viva; ser vivo <não sabemos que futuro nosso planeta reserva aos seus v. > 3 RS indivíduo, pessoa  etim lat. vivens, éntis part. pres. de vivère 'viver, estar em vida'; ver viv-; f. hist. sXIV vivente, sXIV viuete, sXIV uyuete, sXV vyuentes

Nas ocorrências citadas acima registra-se a presença do artigo que funciona como translativo, na terminologia de Tesnière, e que anteriormente foi citada por Guimarães (1994) e Fávero (1997) como expressões nominais definidas, fazendo a transposição do adjetivo a substantivo no processo de conversão que resulta, também, em alguma alteração de sentido explorada expressivamente pelo escritor. Vejamos, então, a ocorrência dessas lexias na exemplificação a seguir, chamando a atenção para o alto valor de pejoratividade e de desprezo comentado:

7)... sargento, pegue o paciente. Como é, seu padre? Pegue o paciente. E foi que eu ri porque achei mesmo o bicho com cara de paciente... vamos, seu paciente, doutor paciente, ôi, ô i. Apois não tem cara de paciente mesmo? Fico com vontade de fazer como se fosse um animal, sui aí, paciente, cada gaitada, mestre, cada gaitada, ui. O paciente se viu, é um paciente escrito. (SG: 66-67)

8)Padre, que foi que teve o infeliz? (SG: 65)

9)... botamos água e sal na boca do infeliz. (SG: 66)

10)... ou um fim direto nesse cristão. (SG:82)

11) O padre também vem ensinar umas rezas e eu e Amaro ficamos aprendendo as rezas e o vivente quer se meter por vezes. (SG: 90)

12)... lhe faço uma desgraça, pirobo semvergonho, pirobão sacano xibungo bexiguento chuparino do cão dagota do estupor balaio. (SG:27)

13) Dois gritos o ordinário não deu. (SG: 130)

Esgotam-se nos exemplos apresentados as reiterações que atendem ao traço semântico [+ humano]. Passamos agora a outro conjunto de lexias exploradas por João Ubaldo Ribeiro, configurando a referência [– humano, + animal] que formaliza o processo de degradação do preso, a partir do uso dos vocábulos animal e bicho.

14)... para mim esse peste é bicho; está virando bicho. (SG: 44)

15) É bicho pode crer. (SG:58)

16) Pra mim ele é bicho, não faz diferença. (SG:59)

17) O bicho, acho que não vai poder falar mesmo nem para rezar... (SG: 64)

18) É preciso entregar esse bicho. (SG: 84)

19) Vez por outra, pego o animal e espio nas gengivas. (SG: 107)

20) Isso é boi de matadouro é animal cheio de idéias. Não pode morrer no mato. (SG:56

21)... não bom pendurar esse animal pelum ? (SG: 135)

22) É por isso que eu vou levar esse animal. (SG: 136)

Cabe ainda acrescentar a ocorrência de lexias complexas que fazem referência ao prisioneiro através de expressões metafóricas relacionadas a animais, tais como cachorro bexiguento, capão da peste, capão do rabo entortado, viado corredor (SG: 27) ou às lexias composta a partir da aglutinação das bases constituintes como fidumaégua, fidumavaca, fidumajega (SG: 27)

Dando continuidade ao processo de degradação da condição humana, um outro vocábulo é empregado com de altíssima freqüência, conforme é apresentado no quadro 1. É o signo peste que carrega uma carga semântica negativa na maioria das acepções dicionarizadas ligadas ao seu sentido de base, conforme verificamos no fragmento do verbete abaixo

Peste s. f. (sXV cf. FichIVPM) 1 infect doença infectocontagiosa que se manifesta sob a forma bubônica, pulmonar ou septicêmica, provocada por Bacillus pestis, que é transmitido ao homem pela pulga do rato 2 mal contagioso; pestilência 3 epidemia que acarreta grande mortandade 4 tudo que corrompe física e moralmente 5 coisa funesta 6 excesso de qualquer coisa prejudicial ou danosa 7 mau cheiro, fedor 8 P infrm. coisa malfeita, ordinárias. 2g. 9 B infrm. pessoa de maus bofes, mal-humorada, criadora de problemas <aquele p. voltou a incomodar minha família (...)

Eis algumas ocorrências retiradas do romance:

23)... atar esse peste num lugar (SG: 42)

24)... dar uns benefícios nesse peste. (SG: 37)

25) Foi ou não foi, peste?(SG: 49)

26) E o peste nisso todo descomposto e arreado... (SG: 66)

27) Olhe, peste, se gritar, eu mando tocar o sino para não se ouvir o barulho. (SG: 91)

28)... até parece que esse peste está indo indo a locé às vezes... (SG: 107)

29) O chão é como minha mãe, seu peste. (SG: 138)

30)... seu peste, puto, peste, peste, peste, peste, , seu pirobão. (SG: 138)

Outras lexias estarão gravitando em torno das acepções “doença, malcom a função básica adjetiva dicionarizada, mas que no texto aparecem exercendo função substantiva como ocorre com a lexia bexiguento:

31) Fugir para Paulo Afonso, fugir para Paulo Afonso feito uma vaca, bexiguento! (SG: 27)

32) E quem vai levar esse bexiguento para Aracaju?(SG: 135)

É interessante observar que algumas das palavras simples apresentadas até aqui podem ser encontradas em formações sintagmáticas complexas, mantendo o valor expressivo no discurso e a acepção de base memorizada que permitem ao leitor apreender a intenção do discurso ofensivo do narrador:

33)... lhe faço uma desgraça, seu pirobão sacano xibungo bexigueno chuparino do cão da gota do estupor balaio. (SG: 27)

34)... capão da peste, tiro um cunhão seu fora nesse minuto (SG: 27)

35)... cachorro bexiguento, está pensando o quê, agora? (SG: 27)

36) Você sabe que esse apustemado é de Muribeca... (SG: 12)

37)... cão da pustema apustemado, lhe faço uma desgraça (SG:27).

38)... e de hoje em diante todo mundo vai xingar esses nomes. Crazento da pustema... (SG:138)

As formas pustema e apustemado não foram encontradas nos dicionários consultados, mas a base pus está, o que significa dizer que os formadores acrescentados a ela, conhecidos que são do usuário da língua, permitem chegar ao sentido que escritor atribuiu a esses vocábulos, ou seja um substantivo e um adjetivo semanticamente ligados à idéia de asco, repulsa e ainda, doença.

A associação do conceito de coisa ruim ao de algo esteticamente desagradável deve ter motivado o emprego de vocábulos cabrunco e cabrunquento[4] como lexias simples e como elemento constituinte de lexias complexas:

cabrunco s. 2g. (1913 cf. CF2) RJ (Campos) 1 pessoa ou coisa muito feia <que c. !>  interj. RJ (Campos) 2 exprime espanto por coisa boa ou bela, ou asco por coisa muito feia ou desagradável  etim orig. obsc.

39) Tire a mão daí, cabrunquento. Não queria mostrar?Pois pode mostrar. (SG:55)

A rede semântica fortalece a trama de seus fios como uso do vocábulo cão, que no texto ubaldiano funciona como sinonímia lexical de diabo:

40)... magro como o filho do cão. (SG:14)

41)... cão da pustema apustemado, lhe faço uma desgraça (SG:27).

Caminhando para a derrocada final da degradação humana, o referente perde o status de ser vivo animado e estaciona na classe dos seres inanimados. A lexia que funciona como hiperônimo nesse universo semântico é coisa, repetida ao longo de toda a narrativa, num processo de reiteração lexical, devidamente flexionada no gênero masculino e exercendo sua função de item de referência e de coesão. O sema [-animado], presente em uma das acepções dicionarizadas está contido na série de hipônimos a ela subordinados:

coisa s. f. (1352 cf. IVPM) 1 tudo quanto existe ou possa existir, de natureza corpórea ou incorpórea <as c. do mundo> 2 qualquer ser inanimado <os viventes e as c. > 3 realidade, fato concreto, em relação ao que é abstrato ou assim considerado <importam mais as c. que as palavras> 4 algo que não se quer ou não se pode nomear <uma porção de c. >(...)

Os excertos a seguir apresentam algumas das palavras encontradas no discurso literário de Sargento Getúlio que constroem a rede sinonímica de referência:

34) Queria que o coisa ouvisse tudo. (SG: 48)

35) Acho que vai estrompar as sua gengivas, coisa. (SG: 60)

36)... dei um arrasto no coisa... (SG: 62)

37) Amaro foi tirando e o trem chiando, chiando. (SG:64)

38) Também espiei o coisa com os beiços inchados (SG:66)

39)... e até alisei a cabeça do traste. (SG:66)

40)0 Eu levo esse lixo de qualquer jeito... (SG: 84)

41)... é isso mesmo e esse troço está me dando uma ingrizilha que eu não agüento... (SG: 91)

42)... encarca as esporas nos quartos do traste. (SG:103)

43)Teiú sem sal. melhor que nada e até o trempe comeu uns pedaços. (SG: 107)

44) Esse agora é deputado, eu acho, me mandou buscar esse traste em Paulo Afonso (SG: 123)

45)... ou então nem ouviu porque o traste grita fraco mesmo. (SG: 131)

46) chego por água na Barra dos Coqueiros para ver como é que está tudo e de atravesso a carga (SG: 150).

47)... estou com um pouco de vontade de chorar agora, seu coisa, seu traste, seu trempe, possa ser que eu chore agora... (SG: 173)

Em duas passagens do texto encontramos formas nominais de caráter neológico: espécie e criaturo, ambas devidamente acompanhadas do determinante (o), definindo o gênero masculino de seu referente. Em criaturo, o escritor não satisfeito com a determinação do gênero através do uso de artigo sugere a flexão na própria palavra, o que ocorrera em (28) com a forma sacano. Classificadas com substantivos femininos nos verbetes dicionarizados, os vocábulos funcionam como substantivos concretos, como exige o contexto, quando lhes é atribuído o traço [+ masculino]:

47)Essa altura, o espécie parou de mostrar os dentes sentado na raiz do imbuzeiro. (SG: 48)

48)... ver pajeú do velho retinindo de amolada, coriscando na mão para separa um ovo do criaturo... (SG: 58)

49)... quem o senhor mandou para Paulo Afonso para buscar esse criaturo... (SG: 151)

Sabemos que as palavras que constroem um enunciado são cúmplices umas das outras, acrescentando ou modificando, ampliando ou restringindo sentidos entre si. Assim, ao fim da narrativa, através da coesão lexical o produtor reata as pontas dos fios de referência e retoma a figura do preso através das lexias presente, pacote e encomenda que remetem sem dúvida a outras passagens da narrativa em que Getúlio relata os ordens de Acrísio Nunes: “pedir para levar”, “buscar”, “levarem relação ao objetopreso”. O sargento Getúlio se imagina cumprindo sua missão:

50) Olha aqui esse presente e sabe o que é que vou fazer com esse presente? Vou enforcar esse presente para todo mundo ver (SG: 123)

51)... vosmecê não vai assim não. Vai até a casa do chefe, que eu quero levar e quero olhar a cara dele e dizer: olha sua encomenda. (SG: 151)

52) Hum, seja homem, sustente o seu, que eu sustentei o meu, tome seu pacote. (SG: 152).

 

Neologismo: algumas considerações

Outras palavras e expressões são encontradas no percurso da narrativa que também servem como elementos de coesão lexical, constituindo lexias simples, complexas ou compostas. São formações neológicas que segundo a própria personagem, suprem uma grande necessidade de expressividade, posto que aquelas que foram usadas perde(sic) a força os nomes quando eu lhe xingo e por isso vou inventar uma porção de nomes para lhe xingar e de hoje em diante todo mundo vai xingar esses nomes. (SG: 138)

Tais formações distribuem-se em neologismos fonológicos como disfricumbado firigufico do azeite ou retrelequento do estrulambique, carniculado da isbirriguela (SG: 27) em que a camada sonora repleta de sons fechados, vibrantes e nasais predominam, sugerindo um termo forte, agressivo pela camada sonora própria a “palavrões” e expressões injuriosas, numa ênfase obsessiva de seu estado interior.

Outras lexias complexas neológicas foram encontradas, mas nestas houve o recurso a combinações de lexias existentes no repertório lingüístico dicionarizado, embora o resultado semântico seja novo, como ocorre em cabeça de bosta, coração de toloco[5], filho de um cabrunco, maricão estrumado, cara de caceta, cafetino desterrado (SG: 28), todas carregadas de pejoratividade, depreciação Como exemplo de neologismo formado por composição registramos mija-na-vareta.

Segundo Alves (1994: 11) não basta que um significante esteja de acordo com o sistema da língua para que ele se torne um elemento integrante do léxico desse idioma.. A aceitação da inovação lexical vai depender de vários fatores, dentre os quais destacamos a divulgação pelo uso nos meios de comunicação, da boa vontade do lexicógrafo em aceitá-la com efetiva unidade lexical da língua e registrá-la nos dicionários e obras dessa natureza, além do prestígio de seu criador.

As formações apresentadas são bons exemplos desse pensamento, ainda mais por estarem restritas ao contexto da literatura, no caso, especificamente ao romance de João Ubaldo Ribeiro, campo propício aos grandes desvios do estilo e da expressividade.

Como diz Guilbert (apud Martins, 2004: 53) Ela (criação neológica estilística) é própria a todos aqueles que têm algo a dizer, que se sentem à vontade e querem dizer com suas palavras, seus arranjos de palavra., Ela é própria dos escritores.

 

Considerações finais

Apresentamos aqui a diversidade vocabular com que João Ubaldo Ribeiro municia sua personagem, sargento Getúlio, para ocultar intencionalmente, como foi apresentado em etapa anterior deste trabalho, o nome de seu prisioneiro. Foram encontradas 35 lexias simples, 11 lexias complexas e 4 lexias compostas. Nesse repertório estão incluídas unidades neológicas, de função expressiva dentro do contexto literário em que se encontram.

Tal variedade facilita o trabalho de entrelaçamento das partes do texto, estabelecendo a coesão a partir dos elementos que permitem não a progressão textual, mas também a recuperação, durante a narrativa, de referentes importantes para a interpretação e compreensão dessa obra literária por parte do leitor. A utilização da repetição de termos não prejudica a dinâmica textual. Ela tem ali função expressiva. A sinonímia, girando em torno de eixos semânticos, retrai e distende sentidos a partir do emprego de hipônimos e hiperônimos.

No trabalho de consulta aos dicionários, verificou-se que à exceção de (o) espécie e (o) criaturo, as demais lexias simples tinham dicionarizadas acepções que se enquadravam semanticamente às intenções do escritor. E esta é uma característica nas composições literárias de João Ubaldo: a falsa ilusão de neologia. Muitas vezes, no papel de leitores pensamos estar diante de novas lexias, mas na maioria dos casos, as ocorrências não o são. Apenas o domínio de um repertório exuberante por parte de nosso escritor, que viaja com competência pelos diversos níveis de variação lingüística, recupera termos fora do uso comum, emprega habilmente os regionalismos, brinca com as propriedades fônicas das palavras, sempre em nome de um estilo muito peculiar e competente. Neologismos, porém, são proporcionalmente poucos.

E assim, através do léxico empregado, o escritor deixa sua personagem ser construída pela exteriorização de seus sentimentos. Seu temperamento rude, agressivo, suas angústias existenciais e a necessidade de cumprir seu dever. Afinal, ele é

Getúlio dos Santos Bezerra e meu nome é um verso que vai ser sempre versado e se tem lua alumia e se tem sol queima a cara e se tem frio desaquece, ai dois bois de barro e uma caixa de fósforos e um garajau cheio de barro, aboio eu aboia tu, hem Amaro, ecô, ecô, nós semos marinheiros larguemos a grande vela, por isso larguemos a grande vela, olhe aí, Amaro, eu sou maior do que o reis da Hungria.. (SG:155).


 

ReferênciaS bibliográficaS

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FÁVERO, L. L. Coesão e coerência textuais. 4ª ed. São Paulo: Ática, 1999.

FERREIRA, A. B. de H. Novo Aurélio Século XXI: o dicionário da língua portuguesa. 3ª ed. ver. e ampl. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

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VILELA, M Estudos de lexicologia do português. Coimbra: Almedina, 1994.

 


 


 

[1] Fávero (1995) não apresenta no capítulo sobre coesão referencial a elipse como elemento coesivo de referenciação, mas, ao final do livro, quando se põe a analisar textos, lança mão dessa estratégia.

[2]A partir de agora usaremos sigla SG substituir o título do romance Sargento Getúlio, de João Ubaldo Ribeiro, publicado em 1971 pela editora Nova Fronteira. Este trabalho foi feito a partir do texto da 22ª reimpressão.

[3] Os dicionários que nos serviram de referência e, no caso de neologismos, de corpora de exclusão estão relacionados nas referências bibliográficas.

[4] O termo cabrunquento não foi localizado nos corpora de exclusão, devendo ser considerado aqui como um neologismo sintático

[5]A lexia toloco não está dicionarizada. Por esse critério, seria considerado uma lexia simples neológica.

 

 

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