A análise da complexidade da organização
discursiva
como instrumento de ensino da escrita
Gustavo Ximenes Cunha (UFMG)
O objetivo do trabalho “A análise da complexidade da organização discursiva como instrumento de ensino da escrita” é mostrar que o professor de língua portuguesa, ao observar e ao desconstruir a organização de textos autênticos, pode ajudar o aluno a descobrir e a dominar os mecanismos de construção textual que se observam em textos de autores considerados proficientes (Roulet, 1999). Nesse trabalho, proponho que a análise de um importante aspecto da construção do texto escrito seja feita em sala de aula. Partindo da hipótese de que as propriedades materiais de uma interação restringem a organização do discurso (Roulet, Filliettaz & Grobet, 2001), apresento uma análise em que se estabelece a correlação entre o quadro interacional e a organização informacional de um discurso jornalístico impresso. A análise do discurso jornalístico se apóia nos postulados do Modelo de Análise Modular e se desenvolve em duas etapas. Na primeira, são descritas as características do quadro interacional do discurso escolhido, relativas ao tipo de canal (oral ou escrito), ao grau de co-presença espaço-temporal dos interlocutores e à reciprocidade ou não entre eles. Ainda nessa etapa, descreve-se a organização informacional, que se ocupa, basicamente, da progressão das informações do discurso. Com essa primeira etapa, o aluno é levado a perceber que o quadro interacional de um discurso jornalístico se caracteriza pelo canal escrito, pela distância espaço-temporal entre autor e leitor e pela não-reciprocidade entre eles; ele é levado a perceber ainda que a organização informacional desse discurso é muito marcada, ou seja, traz uma grande quantidade de expressões nominais e de pronomes verbalizando os tópicos discursivos. Na segunda etapa da análise, procede-se à combinação das informações sobre o quadro interacional e das informações sobre a organização informacional do discurso jornalístico. Com essa segunda etapa, o aluno é levado a observar que as características interacionais do discurso analisado trazem restrições para a sua organização informacional. Isso porque a distância espaço-temporal entre autor e leitor e o caráter monogerado da interação, decorrente da não-reciprocidade entre os interlocutores, favorece o emprego de expressões nominais e de pronomes marcando os tópicos. Em outras palavras, a impossibilidade de trocas reparadoras ou de esclarecimentos nessa interação conduz o autor a marcar os tópicos com mais freqüência, fornecendo uma maior quantidade de “pistas” para o leitor construir sentidos e, conseqüentemente, compreender seu discurso. O que esse trabalho busca é mostrar que o professor, ao realizar a análise de observação e de desconstrução da organização de textos escritos, pode fornecer ao aluno os instrumentos necessários para a escrita de seu próprio texto. A razão disso é que o estudo em sala de aula dos recursos utilizados por um autor proficiente pode ser levado em consideração pelo aluno no momento de escrever um texto. Permitindo a percepção de que as características da interação têm influência sobre o emprego de marcas lingüísticas, o professor pode ajudar o aluno a dominar os mecanismos envolvidos na construção não só de um texto jornalístico, como o escolhido para essa apresentação, mas também na construção de textos cujo quadro interacional seja semelhante, como os textos pedidos em exames vestibulares e outros.
Palavras-chave: ensino de língua escrita, organização do discurso, modularidade.