A FOTOGRAFIA ENTRE O ÍNDICE E O ÍCONE:
POR UMA DUPLA ABORDAGEM

Karliane Macedo Nunes (UFBA)

 

Apesar da onipresença das imagens fotográficas no cotidiano da vida moderna, as teorias em relação a esse meio ainda têm muito para refletir. Por um lado, durante muito tempo os estudos acerca da fotografia ocuparam-se do caráter de registro do real que o dispositivo fotográfico encerra. Assim, o aspecto indicial da fotografia foi (e continua sendo) o ponto de partida de por  análises que supervalorizam apenas os assuntos tratados nesse tipo de imagem. Por outro lado, há reflexões que se esforçam em acentuar um traço já não específico da imagem fotográfica, mas que a diferencia das comunidades das imagens em geral de outros objetos significantes, e por isso mesmo, se faz também pertinente às analises fotográficas: sua analogia ou iconicidade.

O trabalho    que ora se apresenta considera a fotografia um meio expressivo complexo e marcado por dualidades e paradoxos, que possui múltiplas possibilidades informativas e geradoras de conhecimento. Trata-se, desse modo, de uma abordagem que pretende colocar em diálogo o aspecto indicial e o analógico, o documental e o expressivo, o espontâneo e o construído numa imagem fotográfica. Esses modos de abordagem não são antagônicos e se colocados em inter-relação podem tratar dos diferentes aspectos constituintes da fotografia e da experiência fotográfica, valorizando suas diversas facetas e se aproximando de uma análise mais abrangente do meio.

Ao superar pressuposições ingênuas quanto ao objetivismo fotográfico, que queriam considerar a fotografia um “espelho do real” e ao tratar a iconicidade como um elemento constitutivo, mas não diferenciador da essência do que é fotográfico, torna-se possível pensarmos em uma via que considere as duas categorias citadas (indicial e icônica), ampliando e diversificando os modos de analisar fotografias.

Ressalvas expostas, podemos afirmar que a fotografia só existe na medida em que existe algo para se fotografar (fotografia de algo), o que ressalta a característica indicial do meio. Para que aconteça a materialização fotográfica numa superfície plana de um dado fragmento do espaço e do tempo, é necessário, além do aparato tecnológico, a ação de um fotógrafo, que se constitui num fluxo cultural e que imprime, de modo consciente ou não, suas visões de mundo na composição.

É importante acrescentar que uma fotografia só existe a partir do momento em que é percebida e interpretada, ou seja, quando é investida de sentido pelo receptor. Nesse caso, muito dessa percepção se dá por conta da dimensão icônica da imagem, que possibilita, na recepção, a seleção de códigos de reconhecimento pertinentes. E é essa reivindicação do olhar do receptor, através de sua percepção não inocente, mas marcada por culturas, que permite o exercício interpretativo de significação semiósica.

Dentro dessa proposta, analisaremos uma fotografia do fotógrafo baiano Mario Cravo Neto, na qual buscaremos observar o modo como os elementos que caracterizam a composição dessa imagem (contrastes, cores, profundidade, luminosidade), inseridos no contexto cultural que envolve o tema capturado, nos dá a ver Exu, entidade do candomblé à qual Mario Cravo dedica a fotografia, e que, através da articulação dos elementos e discursos propostos, torna-se visível na recepção.

Palavras-chave: Fotografia. Análise. Semiótica.