A iconicidade recorrente:
o objeto dos desfiles de carnaval do Rio de Janeiro
e as reminiscências dos cortejos monárquicos
Rosana Costa Ramalho de Castro (UFRJ)
Os desfiles de carnaval do Rio de Janeiro mostram representações similares às dos cortejos da monarquia, presente na mesma cidade no século XIX. Há, nas duas representações, objetos correlatos com diferentes fundamentos e interpretantes. Os do passado - festejos de rua para a família real - indicavam valores para constituir a imagem da monarquia e nas alegorias e fantasias dos desfiles da atualidade percebem-se intenções de apresentar o luxo, apesar de usarem materiais sem valor real. As similaridades nos levam a crer na existência de espelhamentos, na atualidade, das manifestações do passado. E também nos cortejos dos monarcas de Portugal no Brasil copiavam-se objetos e realizavam-se monumentos de acordo com o modelo acadêmico francês denotando a intenção de representar-se conforme as cortes da Europa, para “ver-se” como os europeus.
Nas manifestações da atualidade percebe-se a visualidade da estética barroca, rococó e neoclássica. E o significado das representações é o de “ver-se” como a família real pelo uso de elementos que remetem ao requinte e à riqueza. Mas os objetos são simulacros que imitam o ouro, a prata e todas as preciosidades. Também nos cortejos do século XIX os artistas pintavam a madeira, o barro e suportes sem valor procurando imitar os materiais valiosos.
Ressaltam-se os indícios de similaridades entre as duas manifestações: no passado, os monarcas e suas esposas saíam nos cortejos festivos sendo aplaudidos e aclamados, afirmando-se a condição de reino ao país, ex-colônia de Portugal. E no presente, entram na Avenida do samba as principais figuras dos desfiles de carnaval - os mestres-sala e as portas-bandeiras, principescos representantes das Escolas de Samba. Mas enquanto os passistas desenvolvem uma manifestação similar a dos representantes do poder social mais elevado (dos monarcas), o público percebe a representação de uma cultura local, daí entende-se um outro signo.
Os elementos visuais do passado na atualidade podem afirmar a importância dos monarcas na constituição da brasilidade, porque as imagens que os representavam tornaram-se modelos de “desejabilidade” 1
A metodologia empregada na análise baseia-se na teoria semiótica peirciana, priorizando os elementos da semiose: o fundamento, o objeto e o interpretante.
Os elementos do signo foram relacionados no estudo em questão e encontramos o seguinte: em primeiro lugar, como fundamento do signo entende-se que são todos os componentes culturais, amalgamados, no tempo, no imaginário do grupo social. Seja por meio de ícones, de índices ou de símbolos, os componentes da cultura do outro se associaram, como híbridos, formando um novo repertório da expressão local. Estes devem permanecer enquanto forem necessários para representarem o desejo popular. E estarão alinhados no imaginário durante um tempo imprevisível, enquanto forem importantes exemplares do outro, assimilados e assumidos pelo grupo social.
Em segundo lugar, entende-se como objeto do signo a todo o estado físico do signo: sua aparência ou sua forma. É pelo objeto que se revela visualmente seu fundamento.
O resultado dos estudos evidencia o interpretante: “fazer-se” como similares monárquicos é o desejo da população que o expressa nos desfiles de carnaval que são manifestações “kitschs” porque são portadoras de um valor implícito, porque tem similaridades com marcas de um estilo almejado e pertencente a uma classe social inatingível. E perante a realidade que frustra a possibilidade de “ver-se” como figuras da corte, só resta viver um sonho. Portanto, frustração e sonho se alinham por um meio efêmero – o desfile de carnaval.
Em suma, há evidências do desejo de “ver-se” como a corte do século XIX. E, por esse meio, percebe-se a recorrência dos ícones do passado nas representações atuais.
Palavras-chave: Semiótica visual; semiótica cultural; análise das imagens; análise das representações culturais.