A São Paulo transfigurada
na ficção e nas cartas de Álvares de Azevedo

Mônica Gomes da Silva (UFF)
Matildes Demetrio dos Santos (UFF)

 

A comunicação estuda a representação da cidade de São Paulo nas obras Macário e Noite na taverna e na correspondência de Álvares de Azevedo (1831-1852). Procura-se analisar a transfiguração do cenário prosaico e tedioso das cartas no palco sombrio e pecaminoso da literatura.

A cidade de São Paulo, província estagnada e acanhada do século XIX, com ruas estreitas e imundas, parcamente habitada, com uma população em sua maioria de gente que ocupava construções miseráveis retratada nas correspondência pessoal, irá se contrapor a uma cidade tingida pelo fantástico da ficção azevediana, com pântanos vaporosos que lembram “fogos errantes”, casas negras cobertas por uma sombra mortal e o diabo como um flâneur deste ambiente de decadência e perdição. No entanto, em ambos os casos, tanto da São Paulo documental como da São Paulo literária, serão perpassados pela visão irônica e cética de Álvares de Azevedo.

Cabe ressaltar que a composição deste imaginário negativo, que atravessa os dois tipos de texto, advém da relação com os motivos românticos. Álvares de Azevedo, sob o influxo dos pressupostos do Romantismo, estabelece um diálogo com essa tradição e elabora um imaginário criador em que predominam os temas noturnos, o satanismo, o grotesco, a digressão e a ironia, os quais pontuam as obras  Macário e A noite na taverna. Nessas obras, Álvares de Azevedo inaugura a construção de uma São Paulo mítica, tingida pelas sombras espessas da noite, misteriosa e fantástica. No meio da turba enfumaçada das tavernas ou nas ruas quase desertas, surgem tipos angustiados e estranhos à procura de parceiros amorosos eventuais ou de ouvintes para contar suas experiências bizarras, falar de “vícios” e confessar perversões.

A obra Macário é um drama com dois episódios, no qual se contrapõe o personagem principal, Macário a Satã, num “debate moral e psicológico muito denso desenvolvido com excelente articulação.” (CANDIDO, 1989: 11). Em A Noite na taverna, as cinco pequenas narrativas independentes tecem uma rede de referenciais cultos para contar histórias fantásticas, repletas de lances sobrenaturais. O manto negro da noite envolve o relato dos personagens, espaço/tempo propício às confissões de crimes e transgressões. Se em Macário, somos remetidos a uma São Paulo incipiente por meio das pistas de Satã e depois levados a uma Itália idealizada, em Noite na taverna, o local da reunião dos participantes da orgia é indeterminado, a localização em uma taverna à noite só reforça o clima de mistério.

A cidade se transforma em uma paisagem, um cenário, uma floresta de signos de sentidos incertos, instáveis e ambíguos. Sob olhar de Álvares de Azevedo, a cidade à noite permite o afloramento de forças antagônicas. A ironia se conjuga à linguagem num aspecto duplo, revelando o caráter insano dos personagens e a atmosfera fantástica e mórbida da cidade. A narrativa é marcada por um jogo textual de esconde-revela: as citações literárias mascaram ou prenunciam o que vai acontecer em cada um dos contos.

Em contrapartida, na correspondência endereçada à família ou ao amigo querido, surge um missivista inadaptado e solitário que reclama porque vive numa cidade provinciana, onde nada acontece de importante ou interessante. No entanto, o imaginário romântico do autor extrapola os limites do ficcional e invade o espaço privado das cartas, estabelecendo tensões entre os dois tipos de texto, construindo pontos de convergência e divergência entre eles.

Deste modo, a comunicação tem por objetivo apresentar uma síntese dos resultados do projeto “A São Paulo inventada por Álvares de Azevedo”, partindo da análise dos motivos românticos que ajudaram a compor o imaginário criador de Álvares de Azevedo, passando ao estudo das obras literárias, e sua posterior articulação com o conteúdo da correspondência pessoal.

 

Palavras-chave: Ironia, noite, cidade, Romantismo, epistolografia.