Considerações sobre o devir-animal
no conto “Alguém dorme nas cavernas”, de Rubens Figueiredo

Gabriel Cid de Garcia (UERJ-CNPq)

 

Situar a literatura contemporânea e suas variadas formas de produção de sentido e expressividade é uma tarefa que se impõe como indissociável de uma certa relação com outras áreas do conhecimento. Os impasses teóricos encontrados na contemporaneidade permitem a aliança entre áreas afins, com o intuito de potencializar o pensamento presente em ambas. Se nas literaturas de outrora pudemos demarcar um lugar específico para o sujeito em uma obra literária, assim como uma função delimitada para o narrador, este solo de definições se torna cada vez mais fluido na literatura contemporânea. O narrador não está preocupado com a verdade que possa advir de sua narrativa, se existe um respaldo real para o narrado que possa garantir para ele a certeza a respeito daquilo que se conta. Para colocar de forma própria a questão, portanto, precisamos nos aproximar do conto contemporâneo. A particularidade do conto, sua qualidade de inclassificável enquanto gênero, associada à pluralidade de estilos que comporta, explicita a aproximação do fazer literário à idéia de devir, de vir a ser, a um fluxo permanente e ininterrupto que possibilita as mudanças que dissolvem qualquer remissão a identidades e essências. Parte-se do pressuposto de que o conto “Alguém dorme nas cavernas”, de Rubens Figueiredo, apresenta propriamente aquilo que Gilles Deleuze chamou de registro de devires, uma vez que o filósofo relaciona o devir à componente fragmentária dos contos. Para sustentar tal pressuposição, analisaremos a presença do devir-animal no personagem Simão, explicitando sua importância para se pensar a arte desvinculada de qualquer relação com a verdade em termos de identidade, correspondência ou adequação às instâncias transcendentes que sempre pautaram a tradição do pensamento ocidental. De acordo com Deleuze, o devir-animal não designa a transformação gradual do homem, no caso específico do conto estudado, em animal, mas antes, se coloca como condição suficiente do entrelaçamento irredutível de ambos, alcançando uma dimensão impessoal que não diz respeito mais a uma ou outra espécie determinada.  O devir forma blocos que desterritorializam os termos antes pautados pela idéia de identidade e unidade, apresentando em si sua imbricação em uma dimensão impessoal. A unidade do conhecimento, tributária da idéia de verdade, é perturbada pela potência de matilha formada pelos devires, que destituem a razão de suas propriedades universais, dando a ver a condição híbrida do homem, a partir do personagem Simão e também da própria narrativa rubiniana. Com esta teorização, talvez seja possível perceber, por meio do conceito deleuzeano estudado, uma forma de análise literária própria a atender às exigências da plural expressividade da literatura contemporânea. Neste cenário onde as referências se desestabilizam, a literatura viria a cumprir-se como uma escrita lupina, um esforço para destruir a ordenação significante e se instaurar no limiar entre a convenção e a destruição desta mesma convenção, dissolvendo as posturas predicativas que ao longo da tradição privilegiaram o verbo ser em detrimento do devir. Desta forma, rompe-se com o regime de interioridade do sujeito, desprovido já de qualquer essência formal universal. O que existe é apenas a capacidade engendradora de semioses múltiplas, fluxos impessoais pré-individuais que confundem conteúdo e expressão, tomando conta do narrador, que deixa de possuir qualquer certeza e domínio sobre o narrado, a ponto de evidenciar, por fim, a própria incapacidade de escrever.

 

Palavras-chave: Teoria do conto; devir; literatura contemporânea