CONVIVENDO COM OS ESTRANGEIRISMOS
Isabella de Macedo (UERJ)
Durante séculos, os estrangeirismos foram alvo de perseguição. Ainda hoje não cessaram as tentativas de reprimi-los. O objetivo do presente trabalho é defender a idéia de que os estrangeirismos – que tanto encontram rejeição por puristas, negligentes de sua trajetória histórica e seu papel edificante, e temerosos do efeito de extinção da língua nacional que tais empréstimos supostamente acarretariam – não constituem ameaça à língua, sendo constitutivos do incessante processo de mudança lingüística, com a qual a sociedade brasileira convive sem conflitos.
Eminentemente, a escolha por esse tema vinculou-se à tentativa de promover uma reflexão no âmago desta questão: de qual ameaça querem puristas, políticos “patriotas” extremados e certos gramáticos defender a língua portuguesa, enraizada num solo inúmeras vezes apossado por falantes de diversas línguas?
Para execução deste trabalho, foram tomadas como alicerce idéias de estudiosos da língua portuguesa fundamentadas na análise da língua sob uma perspectiva sincrônica, com o intuito de entender o fenômeno da mudança lingüística, ao qual os estrangeirismos são inerentes.
O corpus consiste em uma pesquisa experimental sobre a publicidade brasileira, nos últimos quatro anos. Através dessa compilação, foi possível verificar que o uso dos estrangeirismos é bastante recorrente nas propagandas brasileiras, fazendo parte, portanto, da rotina dos cidadãos em geral.
Embora a introjeção de termos estrangeiros concernentes ao desenvolvimento científico e tecnológico seja preponderante na atualidade, observou-se que tal fenômeno figura em diversas épocas. E por esse mesmo motivo, estrangeirismos não ameaçam a língua de extinção; pelo contrário, trata-se de algo extremamente enriquecedor, pois os idiomas constituem um palco no qual encenam a interculturalidade e a interação étnica. Numa sociedade miscigenada como a brasileira, apesar da já presente convivência com os estrangeirismos, urge erigir de maneira definitiva a tolerância quanto às mudanças lingüísticas e suscitar a consciência de sua inevitabilidade.