O imaterial:
fundamentos filosófico-semióticos
da produção de subjetividades
Guilherme Nery Atem (UFF e UERJ)
Este artigo tem como objetivo mapear, por uma revisão da literatura da área, os fundamentos filosóficos e semióticos da produção de subjetividades contemporânea. Para isso, são retomadas e articuladas a filosofia do empirismo (Hume) e a teoria semiótica (Peirce), a partir de uma interpretação ontológica (Deleuze) da subjetividade contemporânea. Se a cultura em geral já produz subjetividades, as mídias em particular especificam e intensificam algumas dessas formas de subjetivação. Os processos midiáticos de semiose pressupõem um “modo” de constituição dos sujeitos – mais pela forma do que pelo conteúdo –, e isso traz desdobramentos tanto ontológicos quanto políticos.
Hoje em dia, já são muito comumente encontradas pesquisas, em nível de pós-graduação em diferentes áreas do conhecimento, sobre a “produção de subjetividades”. Este é um tema tipicamente contemporâneo. Sabe-se que a nossa subjetividade não “nasce pronta”, e sim que ela é formada, constituída ao longo de toda a vida de um sujeito. Justamente por isso é que esse tema de investigação é interdisciplinar. É preciso concatenar, em um discurso cientificamente relevante, toda uma multiplicidade de saberes. É só assim que se demonstra ser a “produção de subjetividade” submetida à História. Cada época e lugar produziria suas formas de subjetivação próprias.
Entretanto, se muito se discute sobre as conseqüências da “produção de subjetividade” contemporânea, pouco se tem visto discussões realmente de fundo, fundamentais, no que se refere às causas ou origens desses processos de subjetivação. É justamente aí que procura se estabelecer este artigo: defendemos aqui que essas causas, ou origens, são radicalmente semióticas e estéticas. A constituição de uma subjetividade é, portanto, tributária de um processo de individuação semio-estética, o qual obriga o sujeito a oscilar, em modulação infinita, entre o que lhe vem de fora e o que lhe é próprio.
No ato mesmo de contrair semio-esteticamente as informações do mundo, o sujeito é afetado (mesmo que disso não se dê conta conscientemente), é modificado, movendo-se de si. Como disse Merleau-Ponty, “uma mordida do mundo”. Se essas informações do mundo lhe trazem modelos ou regras de organização de si, trazem também a possibilidade de esse sujeito derivar, fazer diferente do que fez até ali. Esse sujeito, imerso semio-esteticamente no mundo, terá sofrido uma “transformação incorporal”, imaterial, simplesmente por possuir uma “potência de ser afetado”. Portanto, aquilo que denominamos “Semiocapitalismo” (ou “Capitalismo Semiótico”) se tornou a instância fundamental dos atuais “modos de subjetivação” – o que pressupõe novas relações semio-estéticas de individuação, bem como novas potências e impotências de existir.
Palavras-chave: Semiocapitalismo; interpretante; mídias; individuação; subjetividade