A tradicional teoria do romance conceitua o gênero ora conforme a predominância do espaço, do tempo ou dos personagens, como se percebe em Muir e Forster, ora consoante ao sociológico, como as reflexões de Lúkacs. Como se pode notar, tais categorias são pertinentes ao modo narrativo de organização do discurso, conforme Charaudeau, não sendo necessariamente um critério constitutivo do romance enquanto gênero textual. Na análise de qualquer romance em sala de aula, percebe-se que a mistura entre os conceitos de modos de organização do discurso e gênero textual não satisfazem os questionamentos dos educandos, tampouco a compreensão da tessitura enunciativa do romance.
Devido à sua complexidade enunciativa, o romance requer uma análise transdisciplinar, ou seja, uma reflexão que enfoque os aspectos lingüísticos e sociológicos para a compreensão da estética. Como afirma Bakhtin, o romance se diferencia dos demais gêneros por incorporar gêneros da comunicação cotidiana na tessitura enunciativa, o que denominou paródia. Com isso, a fala do narrador do romance é plurilíngüe por excelência, uma vez que se imbrica a fala do outro ao mesmo tempo em que reflete e faz o leitor refletir sobre a enunciação literária.
O artigo discute o conceito de romance conforme a teoria da paródia e do dialogismo de Bakhtin, segundo o autor, bases para o entendimento da enunciação deste gênero, bem como a discussão de Linda Hutcheon sobre a paródia como enunciação da literatura pós-moderna, ao invés do pastiche, analisado por Jameson. Para verificar a pertinência da escolha teórica por Bakhtin e Hutcheon na leitura do romance brasileiro pós-moderno, será estudado Minha mãe morrendo e o menino mentido, de Valêncio Xavier. Ao trazer o romance contemporâneo para a sala de aula, o educando aproxima-se ainda mais da literatura, tendo em vista que a paródia no romance enuncia gêneros que lhes são conhecidos, como a propaganda, os quadrinhos, posters de filmes, dentre outros, fazendo com que o leitor pense sobre a literatura e a intencionalidade dos outros gêneros textuais em seu contexto original, bem como a própria sociedade.
Palavras-chave: Analise do discurso, Romance brasileiro, Estética