Peripécias na
Construção Textual
O Contrato de Planos de Saúde
Uma Linguagem que não Comunica
Maria Teresa Tedesco Vilardo Abreu (UERJ)
Hilma Ribeiro de Mendonça Ferreira (UERJ)
O ato de ler, definitivamente, não é efetuado mediante o simples “passar dos olhos” sobre o texto, pois, diferentes saberes e competências devem ser ativados no momento em que um texto é lido. O conhecimento prévio, necessário à leitura, envolve algumas competências específicas, que contribuirão para promover a compreensão necessária aos leitores.
Cada gênero textual exige um determinado conhecimento prévio e conhecimentos lingüísticos específicos, exigências necessárias para que o leitor seja capaz de uma leitura competente. Tais conhecimentos poderão tornar o leitor proficiente para dado tipo de leitura. O gênero textual objeto de nossa pesquisa – os contratos de planos de saúde –, requerem de seus leitores a ativação de conhecimentos de diferentes domínios discursivos, e, sem os quais, Por vezes, as marcas na superfície textual podem não ser suficientes, ou pelo menos, podem não auxiliar efetivamente no processamento cognitivo da leitura.
Isto ocorre porque os contratos de planos de saúde são norteados por uma linguagem própria de diversos setores da sociedade, havendo muitos conceitos dos domínios discursivos da área da medicina, do direito e da economia. Isso faz com que o leitor, não conhecedor da linguagem comum a esses segmentos sociais, perca informações no processamento cognitivo da leitura, ficando a compreensão desses textos, conseqüentemente, comprometida.
Os fatores de coerência textual – o conhecimento de mundo e o conhecimento partilhado_, são mecanismos importantes que podem medir se um texto é ou não vinculador de significação. Da coerência depende a interação entre o enunciador, os enunciatários e o texto. Logo, o conhecimento de mundo dos interactantes deve ser minimamente partilhado, para que um texto faça sentido àqueles que o lêem.
Os textos serão estabelecedores de sentido somente se houver a interação entre os interactantes do discurso, essa conclusão traz à tona alguns questionamentos sobre a real funcionalidade de um determinado gênero discursivo, pois, sem uma concordância entre os saberes dos enunciatários e do enunciador, o que estará sendo expresso, fará com que aquele gênero textual deixe de cumprir a principal função de um gênero textual. Sobre isso Marcuschi (2002) afirma que
Os gêneros surgem, situam-se e integram-se funcionalmente nas culturas que se desenvolvem. Caracterizam-se muito mais por suas funções comunicativas do que por suas peculiaridades lingüísticas e estruturais...
(MARCUSCHI, 2002: 20)
Dessa forma, mais do que possuidor de determinadas peculiaridades nos campos micro ou macroestrutural, a real função dos gêneros é estabelecer a comunicação no dia-a-dia dos falantes da língua, nas diferentes situações comunicativas em que os indivíduos se encontrarão.
Por conta dessas reflexões, escolhemos desenvolver estudo sobre os mecanismos de construção dos textos dos contratos, bem como dos diferentes saberes que devem ser ativados a fim de que os sentidos possam efetivamente ser construídos cognitivamente pelos enunciatários desses textos.
Para isso, analisamos cinco textos de contratos de planos de saúde largamente utilizados na cidade do Rio de Janeiro, fazendo um cotejo crítico entre os livros específicos sobre o assunto e as diferentes proposições expostas na superfície textual, a fim de buscar respostas para um suposto obscurecimento dos sentidos e, como conseqüência, o não-estabelecimento da comunicação entre o enunciador e os enunciatários dos textos desse gênero discursivo.
Os resultados obtidos ratificam a hipótese inicial de que a seleção lexical do gênero estudado não contribui para o entendimento do texto. Ao contrário, geram certo obscurecimento, prejudicando a interação entre os sujeitos e seu propósito comunicativo. Neste sentido, algumas atitudes que deveriam ser tomadas pelos interactantes desse gênero discursivo. Os produtores desses textos poderiam lançar mão de uma linguagem mais voltada para o domínio discursivo dos seus interlocutores, possibilitando maior autonomia de leitura deste gênero discursivo.
Neste sentido, há de se entender a necessidade de um trabalho específico em sala de aula, envolvendo a questão da textualidade, especificamente, a contribuição da seleção lexical em diferentes gêneros discursivos. Da mesma forma, a ampliação do espectro de textos oferecidos aos alunos em aulas de língua materna, a fim de que, efetivamente exercem sua “ cidadania lingüística” contribuirá, certamente, para o ensino da leitura e, por conseguinte, o ensino da escrita dos alunos em fase de escolarização.
Palavras-chave: Leitura; Gêneros Discursivos; Contratos de planos de saúde; Coerência Textual; Coesão Textual