Um novo objeto de ensino:
o texto. Mas de que texto estamos falando?

Ana Paula Kuczmynda da Silveira (UFSC)

 

As propostas de ensino que ora servem de parâmetro para o ensino de Língua Portuguesa e Língua estrangeira no Brasil (Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs, proposta curriculares estaduais, etc.) sugerem ao professor um foco na idéia de interpelação do aluno enquanto sujeito através de uma abordagem centrada no texto, que passa a constituir um novo objeto de ensino/aprendizagem. Texto este compreendido, em Bakhtin, como enunciado, portanto, atrelado a uma cadeia de outros tantos enunciados construídos sócio-historicamente e que são compartilhados nas diversas esferas discursivas que permeiam a sociedade. Entretanto, percebe-se que este novo objeto de estudo (o texto) é freqüentemente considerado apenas como texto verbal. Conseqüentemente, toda uma variedade de textos que se entrelaçam em diversos materiais semióticos são analisados e discutidos apenas levando em conta a dimensão verbal, o que compromete a sua apreensão como um todo. Mesmo os PCNs, se por um lado alinham entre os objetivos do ensino fundamental promover a utilização de diferentes linguagens - verbal, musical, matemática, gráfica, plástica e corporal - de maneira a proporcionar ao aluno a produção, expressão, interpretação e comunicação de idéias em contextos diversos, atendendo a diferentes intenções e situações de comunicação; por outro, dão, por vezes, atenção única à linguagem verbal que é valorada de maneira diferente frente a outras linguagens compartilhadas socialmente. Assim, num segundo momento, encontramos, no mesmo documento, um conceito de texto compreendido enquanto seqüência verbal constituída por um conjunto de relações que se estabelecem a partir da coesão e da coerência. Igualmente, ao conceber texto como resultado da interação discursiva, portanto atrelado à idéia de gêneros (Bakhtin), os PCNs listam, dentre os diversos gêneros aos quais deveria ser dada maior atenção na esfera da educação, gêneros assinalados pela multimodalidade, como, por exemplo, a propaganda e a charge, cuja interpretação depende de uma articulação entre diversas linguagens articuladas semioticamente. No entanto, ainda aqui se observa nos documentos oficiais um discurso que tende a valorar mais positivamente a expressão verbal em detrimento ao pictórico, corporal, etc.; tomado como saliência textual, logo, acessório, ou subordinado, à linguagem verbal.  Esta apresentação procura, a partir do estabelecimento de uma ponte entre as idéias de Bakhtin, Barthes e Kress relacionadas ao reconhecimento do texto como enunciado, refletir sobre a relação dialógica e multidirecional entre a linguagem verbal e outras materialidades semióticas (principalmente, a imagem), bem como sobre as implicações que esta interação tem sobre a concepção de texto como objeto de ensino e aprendizagem. A partir dessa reflexão, busca-se demonstrar, a título de exemplificação, os ecos de tal concepção de texto em um projeto de estágio para obtenção do grau de professor licenciado em Letras Português/Inglês em uma universidade situada no Vale do Itajaí (SC), o qual se centrou na interpretação e produção de textos multimodais da área da propaganda. A análise dos dados obtidos, constituídos pelo projeto e relatório de estágio, apontou para uma noção intuitiva da abordagem de gêneros multimodais, em contraposição a uma noção formalizada destes, e para uma atenção centrada quase que exclusivamente na dimensão verbal.

Palavras-chave: Texto. Gêneros multimodais. Formação do professor.