VIDA URBANA, MARGINÁLIA, FEIRAS E MAFUÁS:
A MODERNIDADE URBANA NAS CRÔNICAS DE LIMA BARRETO

José Luiz Matias (UERJ)

 

Este trabalho analisa as crônicas de Lima Barreto, sob a perspectiva da inserção do Brasil na modernidade das primeiras décadas do século XX, diante dos impactos ocorridos no país durante a Primeira República, tais como o avanço técnico, o cientificismo, o cosmopolitismo, a reurbanização do Rio de Janeiro e outros aspectos que avassalavam principalmente o cotidiano da sociedade urbana à época.

O corpus da pesquisa é formado por crônicas de Lima Barreto extraídas dos livros Feiras e Mafuás, Marginália e Vida Urbana, cujo critério de seleção se orientou pela maior possibilidade de mostrar a representação das manifestações culturais em contraponto com a modernidade compulsória do Rio de Janeiro; a crônica na interface da imprensa com a literatura; a reflexão sobre os aspectos culturais nas crônicas de Lima Barreto e a crônica em diálogo com as imagens do cotidiano. Já a abordagem teórica busca conceituar a modernidade e seus desdobramentos no Brasil, a partir dos pensadores da cultura brasileira e dos críticos que estudam a crônica e a imprensa do início do século XX.  Tendo como referência a obra de Lima Barreto, reflete-se também sobre o papel do intelectual, como mediador e intérprete da modernidade e suas tensões.

No desenvolvimento do trabalho, verifica-se que Lima Barreto debate a maneira pela qual ocorria a modernização do espaço urbano, com a supressão do interesse público, a demolição do patrimônio cultural, o prestígio desmesurado dos políticos à frente das reformas, os benefícios dos empreiteiros das obras contratadas, apesar de reconhecer a necessidade de o país progredir e superar suas dificuldades.

Posta na intersecção entre a linguagem jornalística e o discurso literário, a crônica se apresenta como veículo primordial para o debate destas questões.  Além disso, caminha entre o fato colhido no dia-a-dia da cidade e a verossimilhança, desafiando a inventividade do cronista em convencer o leitor da assertividade da sua narrativa ou dos seus comentários.

Por outro lado, a crônica se caracteriza por dar um tratamento inovador ao tempo da narrativa.  Fatos que são narrados como acontecidos na Primeira República se presentificam por sua semelhança com o que ocorre nos dias de hoje.  Sendo o intérprete de uma cultura que se constrói historicamente, o cronista recria os fatos do cotidiano e sua narrativa acaba se projetando ao longo dos tempos. É por isso que algumas crônicas daquela época dão a impressão de serem referência a assuntos atuais.

Outro aspecto que também emerge durante o estudo das crônicas é o posicionamento do intelectual diante da cultura brasileira, pois ele é considerado um mediador na interpretação do país para o povo. Como menciona a Professora Carmem Lúcia, “o homem brasileiro comum habituou-se a pensar a partir de imagens criadas por seus intelectuais” (FIGUEIREDO, 1997: XIX).  E é a literatura que divulga essas imagens a ponto de elas começarem a fazer parte da cultura popular. Entretanto, a atitude dos intelectuais, especialmente quando se trata de literatos, nem sempre cumpre com essa responsabilidade, quando preferem exercitar a sabedoria vazia manifestada apenas pelo acúmulo de leituras, reproduzidas mais para impressionar pelo efeito da sonoridade do discurso do que pela articulação das idéias.

Em contrapartida, Lima Barreto propõe uma literatura militante, que desperte reflexões no leitor sobre o que deve ser exigido para o bem-estar da humanidade, em vez de configurar apenas um extrato do que é publicado nas antologias.  Daí, a ironia com que registra esses discursos vazios, sem objetividade ou clareza, com intenção exclusiva de extasiar os leitores pelo arcabouço filosófico e beletrista.

 

Palavras-chaves: Lima Barreto; modernidade; crônica; imprensa.