Literatura
romanesca da
época
dos staufer
Álvaro Alfredo Bragança
Júnior (UFRJ)
BIRKHAN, Helmut.Geschichte
der altdeutschen Literatur im Licht ausgewählter Texte. Wien: Edition
Praesens, 2003. 277 Seiten. Band 9, Teil IV: Romanliteratur der Stauferzeit.
Dando continuidade à
série
por
nós comentada na
resenha
anterior, Helmut Birkhan prossegue
em
seu
intento de
fornecer aos
estudiosos uma
visão
geral,
porém
factual e
prática
sobre as
principais
obras
que compuseram a
Idade
Média alemã,
por
mais
que saibamos da
não
existência de
um
estado
alemão
até 1871. O
volume
que
ora comentamos
talvez seja
um dos
mais
importantes
dentro do
plano da
obra
completa,
pois
trata da
produção romanesca
em médio-alto-alemão,
ápice do trovadorismo
em
língua alemã,
que se dá
nos
séculos XII e XIII.
No
comentário da
última
capa do
volume lê-se:
A
leitura
não exige
conhecimentos
prévios
especiais, os
textos
são oferecidos
em
médio-alto-alemão e
em
versão. O
objetivo é
apresentar o
surgimento do
romance,
seu
enraizamento
na
ideologia
amorosa
cavaleiresca e
seu
desenvolvimento
para o
modelo de
Demanda (no
romance do
Graal e
em Lancelote).
Tal
postulado
para a
composição do
texto é
extremamente
útil ao
estudioso,
normalmente
com poucas
informações a
respeito da
produção
medieval
em
língua alemã. Ao se
estudar o
trabalho de Birkhan, nota-se
que a
fusão dos
conhecimentos de
germanista, filólogo,
lingüista,
especialista
em
literatura
medieval,
em
suma, medievalista, conferem ao Studienbuch
–
livro de
iniciação ao
estudo
universitário –
não
um
caráter simplista,
porém
extremamente
didático e possuidor do
grau de
academicismo desejado.
Como
introdução, Birkhan apresenta o
pano de
fundo histórico (p. 9-11), dedicando duas
páginas à
discussão
sobre os
conceitos de
cavalaria e da
ideologia cavaleiresca, (co)-formadoras de
um
ideal comportamental muitíssimo difundido
pelos
trovadores e incorporado pelas
grandes
cortes dos
senhores feudais.
O
autor comenta,
e.g., de
forma
tabelar, a
procedência
das
principais
temáticas
recorrentes
nos
romances
medievais
em
médio-alto-alemão; “matéria
da Bretanha 40%,,matéria
de Roma (mais
corretamente
´romances
antigos´)
25%,
matéria
de França 14%,
épica
heróica
germânica
11%”, sendo os restantes 10%
oriundos de
romances
orientais,
sem a
presença dos
personagens
Artur e Tristão (BIRKHAN, op. cit, p. 9.).
Em
seguida (p.
14-17), ao
tratar da
literatura da
corte e
sua
forma,
são abordados
aspectos do
mundo
ideal
idealizado
nos
romances,
mostrados
como
legitimadores da
forma de
vida da
nobreza e dos
cavaleiros. Do
mesmo
modo
discute-se
sobre a
versificação de
tais
romances,
em
sua
grande
maioria,
pares de
versos
finais e
sobre o
vocabulário
empregado nas aventiûre.
A
segunda
parte da obra
(p. 18-250) é dedicada ao
romance
cortes,
onde o
estudioso de
Viena discorre
sobre o
romance
antigo, a
matéria da
Bretanha
com as
obras
arturianas e outras de
temática
similar. Nesse
momento,
talvez seja
importante
elencar o
capítulo e os
sub-capítulos
teóricos, a
fim de se
perceber a
tentativa de
organização do
mesmo
com
vistas ao
estabelecimento
de
um
quadro
totalizante da
produção romanesca das
cortes à
época dos Staufer:
B. O
romance
cortês
I. O
romance
antigo (matéria
de Roma)
II. A
matéria da
Bretanha
1 O Artur
histórico
2 O Artur da
saga
3 O
reino
arturiano na
Literatura
4 A
matéria da
Bretanha nas
artes
plásticas e
happening
5 O
romance
arturiano
6 O
complexo da
tradição
em Tristan e
Isolda
a A
estória e o
desenvolvimento
da
saga de
Tristão
b Thomas da Bretanha
c Gottfried von Strassburg e
sua
reelaboração
posterior
d
Tradições
paralelas ao
tema de
Tristão
O
simples
arrolar dos
títulos
acima
demonstra a
intenção de
Birkhan
em
cobrir, de
maneira
mais
ampla
possível, o
espaço
cronológico dos
séculos XII e
XIII,
onde
aquele
tipo de
literatura
era o
mais
prestigiado
em
grande
parte do
continente
europeu
ocidental,
fundamentando-o
com a
inserção de
dados
historiográficos e de
história da
literatura.
Como
principais
cuidados
nos
romances
analisados têm-se uma
paráfrase
ou
exegese dos
principais
versos (p. 29 et alii),
explicações
sobre o
plano das
obras (p. 76 et alii) e
sobre o
conteúdo (p. 86 et alii). De
grande
utilidade é o
quadro
sinótico da
análise dos
motivos dos
textos
mais antigas
de Tristão, p. 160-163,
onde a
compilação
das
variantes,
labor
essencialmente
filológico, é priorizada.
Fato
comum na
série organizada
pelo
catedrático da
Universidade de Viena é a
colocação, no
final de
cada
volume, de
Anexos, da
mais variada
ordem,
que servem
para
ilustrar
visualmente
seu
texto. O
conteúdo dos
Anexos
versa
desde a
genealogia dos otônidas, sálios e Staufer,
já
presente na
parte 8,
reproduções de
iluminuras
acerca dos
personagens dos
romances citados no
livro, algumas
bem
posteriores à
época medieval (p. 268),
folhas de manuscritos (p. 270 e 275),
um
burgo medieval (p. 272), a
genealogia de Artur e do Graal (p. 273)
até o “Acorde de
Tristão” no
início e
fim da
ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner
(p. 277).
Pelo
exposto, o
mundo
medieval é
levado ao
leitor
contemporâneo
em sus diversas
formas e
apropriações.
Por
fim, sugeriríamos a
versão
completa de
todos os
textos e
fragmentos
para o Neuhochdeutsch, moderno-alto-alemão. Cremos
que
um
leitor
com
formação
deficiente
em
língua alemã se beneficiaria
muito
com a
organização de
um
glossário
com os
termos
em
alemão dos
séculos XII e XIII e
seus
correspondentes
lexicais
atuais,
pois o
acesso às
fontes tornar-se-ia facilitado.
Uma
segunda
proposta,
já
expressa
anteriormente,
relaciona-se
com os
critérios de
seleção e
indexação dos
testemunhos
literários
constantes do
volume.
Aventamos a
hipótese de
que a
tradição
canônica,
aliada à
prática e
experiência de
pesquisa de
Birkhan, tenha justificado as
normas
condutoras do
processo.
História
da
antiga
literatura
em
alemão à
luz
de
textos
escolhidos –
parte
IV:
literatura
romanesca da
época dos
Staufer,
mesmo
com a
finalidade
precípua de
ser uma
obra de
introdução aos
estudos de
Medievística Germanística e
Filologia
Germânica é
uma
obra
cuidadosamente
preparada,
com
linguagem
simples,
porém
normativa, e
que instiga ao
estudioso
perseguir o motto
do
provérbio
em
latim
medieval
Quidquid homo nescit,
vix
discit,
quando
senescit.
O
que o
homem
desconhece, dificilmente aprende
quando
envelhece!
- Cf. BRAGANÇA
JÚNIOR,
Álvaro Alfredo.Resenha
de BIRKHAN, Helmut.Geschichte der altdeutschen Literatur im Licht
ausgewählter Texte.
Wien: Edition
Praesens, 2002. 217 Seiten. Teil I: Althochdeutsche und altsächsische
Literatur..
In: KESTLER, IZABELA (Org.)
Rio
de
Janeiro:
UFRJ,
Faculdade
de
Letras,
2005.
Volume
IX (no
prelo).