FLUTUAÇÃO DE
SENTIDO
UM
ESTUDO NA
ILHA DE
SANTA CATARINA
Ronaldo Lima (UFSC)
Ana Cláudia de Souza (UNESC)
RESUMO
O
objetivo
deste
artigo
é
trazer à
tona
alguns
aspectos
referentes
ao
processo de
variação de
sentido
do
termo
Manezinho,
outrora
criado
e
empregado
para
fazer
referência
aos
colonos
da
Ilha de
Santa
Catarina.
Como
veremos, os utilizadores da
língua
se submeteram a
dispositivos
históricos
que
os levaram a
administrar
modificações de
sentido.
O
interesse
principal é
evocar e
discutir
alguns
dos
fatores
implicados neste
processo
que,
nos
últimos
anos,
adquiriu
grande
importância
local,
tendo
em
vista
os
movimentos
de
populações
que
vêm ocorrendo no
Sul do Brasil.
Naturalmente,
serão
discutidas algumas
questões
teóricas,
com
a
finalidade
de
pôr
em
evidência
que
os
sentidos
são
administrados e atualizados
constantemente
e
em
relação
direta
com
as
configurações
estabelecidas
em
função
das alterações
sociais.
Palavras-chave:
Semântica,
Variação,
Diacronia,
Sociolingüística
Introdução
Como observa Orlandi (1996), os
sentidos
não estão soltos,
eles
são administrados e
postos
em
movimento
pelos utilizadores da
língua. Há
naturalmente uma
ordem
histórica
que determina a significação e
suas
flutuações. Os utilizadores da
língua
são
afetados
por
cores ideológicas e
por
dispositivos
históricos
que os levam à
determinação do
sentido.
Enquanto participantes deste
processo,
para
significar, estamos, de
certo
modo,
subordinados ao
sítio de significação no
qual estamos inseridos.
Nosso
objetivo, neste
artigo, é
mostrar a
administração do
sentido da
palavra Manezinho,
normalmente
empregada
coloquialmente na
Ilha de
Santa Catarina (Florianópolis),
ora
com uma
carga
semântica
altamente
pejorativa,
ora adquirindo uma
conotação
bastante
oposta,
isto é, passando a
ser utilizada
como
forma
elogiosa de
tratamento. O
fato
curioso nesta
questão é
que o referente (na
concepção de
Frege, 1978) continuaria sendo,
em
grandes
linhas, o
mesmo, conduzindo,
assim, à
seguinte
indagação: O
que mudou?
Tendo
permanecido geograficamente isolada
durante
um
certo
período de
tempo, e
em
função do
seu
processo de colonização, a
Ilha de
Santa Catarina se tornou
um
sítio
rico
em
elementos
passíveis de serem submetidos a
análises sociolingüísticas.
Inclusive, colocaremos
em
evidência algumas
semelhanças
entre esta
pesquisa e o
estudo realizado
por Labov (1963) na
Ilha de Martha’s Vineyard.
Para
situar o
problema, evocaremos
alguns
aspectos histórico-sociais e
geográficos implicados no
processo de significação da
palavra
em
questão. Tentaremos
mostrar
que,
atualmente,
dois
sentidos coexistem e evoluem das
mais variadas
formas, trazendo uma
série de
implicações às
relações
entre os
membros das
comunidades envolvidas. Trata-se, na
verdade, de uma
verificação, acompanhada de
argumentos,
que
leva
em
conta
fatos do
passado e do
presente.
Breve
histórico
A
partir de 1749, o Brasil recebeu
fluxos de
imigrantes portugueses —
açorianos e madeirenses —
que se instalaram
principalmente na
faixa
litorânea do
Estado de
Santa Catarina.
Como se tratava de
populações de
origem
insular, foi provavelmente
com a
intenção de
facilitar o
processo de
adaptação desses portugueses às
novas
terras
que
eles foram alocados
junto à
faixa
litorânea. A
Ilha de
Santa Catarina abrigou,
por
suas
características
naturais, boa
parte desses
imigrantes. Essas
populações se organizaram, na
sua
grande
maioria,
em
comunidades
bastante isoladas da
área
que
progressivamente se tornaria
urbana,
em
suas “Colônias de
Pescadores"
onde se dedicaram,
principalmente,
até os
anos 60 à
atividade
pesqueira.
Permanecendo
relativamente isolados, conservaram
muitos
hábitos trazidos da
terra de
origem e
desenvolvidos ao
longo dos
anos,
que os diferenciaram dos
habitantes da
cidade. O
contato
com os
indivíduos da
áreas portuárias, e
por
extensão
urbana,
era motivado,
sobretudo,
pelo
comércio de
produtos
artesanais produzidos nessas
comunidades:
rendas de
bilro,
tarrafas,
gaiolas,
balaios,
além de
alguns
produtos
alimentícios:
farinha de
mandioca,
entre
outros.
Como se pode
observar
ainda
hoje, a
parte
central da
cidade se localiza
em uma
estreita
área
relativamente
plana no
centro da
Ilha, uma
espécie de
istmo, no
ponto
mais
próximo ao
continente. A
área
urbana fica,
assim, geograficamente separada do
resto da
Ilha
por
elevações.
Na
época da
vinda desses
imigrantes portugueses, a
cidade estava
em
processo de
formação e,
através de
seu
porto, mantinha
contatos
permanentes
com as
novidades trazidas do
Rio de
Janeiro e
até da Europa,
pelos
viajantes e
comerciantes. A
população do
interior da
Ilha, de
modo
geral, esteve consideravelmente,
até os
anos 60, à
margem desse
desenvolvimento.
Flutuação
de
sentido
Como sabemos,
em
alguns
países da Europa,
ainda
hoje, a
adoção de
prenomes obedece a
práticas
diferentes daquelas
que conhecemos no Brasil. No
continente
europeu, de
modo
geral, os
prenomes variam
muito
menos, prevalecendo o
nome da
família.
Entre os portugueses, o
prenome Manuel
era, e
ainda parece
ser,
muito
comum.
Em
português,
este
prenome é muitas
vezes abreviado
ou transformado
pelo
uso do
registro
familiar, dando
origem a
Mané. A
língua portuguesa oferece
ainda a possibilidade de
utilização do
diminutivo Manezinho1,
com uma
alta
carga de
traços
pejorativos, do
mesmo
gênero do —ette francês (Lorette,
Grisette, Janette). A
forma Manezinho começou a
ser usada,
em
algum
momento
não localizado da
história da
Ilha de
Santa Catarina,
para
fazer
referência
àqueles
indivíduos
que chegavam à
cidade
em
seus
carros de
boi, usando
calças de pescador (ou
calças na
altura das
canelas), muitas
vezes
descalços, falando uma
variedade do
português
diferente do
português de Portugal e
muito
diferente das outras
variedades do
português do Brasil,
mas
sobretudo
diferente daquela praticada
pela
população
urbana.
O
termo se generalizou e passou a
ser utilizado
para
menosprezar,
ridicularizar e
diminuir
qualquer
comportamento
ou
hábito considerado
fora dos
padrões
ditados
pela
classe
dominante. Nas
escolas,
até a
metade dos
anos 70, as
crianças
ainda usavam o
termo Manezinho
para
tratar os
colegas
que vinham à
escola,
por
exemplo, vestindo
sandálias de
dedos
ou manifestando
certos
hábitos
lingüísticos
que os caracterizavam,
como o
próprio
sotaque. Criaram-se
também possibilidades de
uso deste
termo
como
adjetivo, permitindo
qualificar
objetos e
comportamentos
diversos,
ou
ainda
como
advérbio: João
fala
manezinho; Essa
cor
é manezinha;
Que
carro
manezinho!
A
partir dos
anos 70, a
cidade começou a
receber
novos
fluxos de
imigrantes. Desta
vez,
não eram
mais
europeus, tratava-se de migração
interna.
Não
era o
resultado
direto do êxodo
rural
que
já se havia
iniciado, há
alguns
anos, nas
grandes
cidades brasileiras. A
imigração
em Florianópolis estava
apenas
indiretamente
ligada a
este
processo.
Com o
crescimento
desordenado
de
cidades
como
Porto
Alegre e
São Paulo,
gerado
pelo êxodo
rural e
pela
conseqüente
queda da
qualidade de
vida de
seus
habitantes,
grandes
parcelas da
população
destas
cidades foram
rapidamente atraídas
pela
tranqüilidade
e
belezas
naturais de
uma
pequena
cidade de
aproximadamente 70
mil
habitantes,
capital de
um
Estado
brasileiro,
mas
também
pela
possibilidade de
instalar
aqui
seus
negócios,
visto
que a
cidade
era
muito
carente
em
serviços de
diversas
ordens
exigidos pelas
populações
que chegavam.
Como possuíam
uma
visão
mais
ampla,
fruto da
experiência de
um
processo de urbanização
anterior, os
novos
habitantes da
Ilha de
Santa Catarina
viram
que o
potencial
comercial e
turístico do
local
era
promissor.
Fazendo
um
breve
retorno ao
passado, é interessante
observar
que
quando as
levas de
imigrantes portugueses chegaram ao Brasil,
encontraram a
Ilha e
seus
arredores
em
estado
quase
que
totalmente
selvagem;
ou seja, a
ocupação
humana
anterior,
apanágio dos tupis-guaranis e dos
tapuias, seguidos de algumas
fazendas no
modelo
senhores e
escravos,
não havia sido
ostensiva.
Os
melhores e
mais
bonitos
locais da
Ilha foram
por
eles eleitos
para
abrigar
suas
comunidades,
onde permaneceram,
em
sua
grande
maioria,
por
mais de
dois
séculos numa
espécie de
estado
latente, de
letargia,
que os manteve à
margem do
desenvolvimento do
centro
urbano.
Com a
chegada dos
novos moradores e das
práticas veranistas, a
partir dos
anos 70, iniciou-se
um
processo de
especulação
imobiliária, seguido de uma
ocupação
intensiva e desordenada da
faixa
litorânea da
Ilha e de
seus
arredores. As
populações costeiras, “manezinhas”
em
sua
maior
parte,
não possuíam qualificação
suficiente
para
defender
seus
interesses e, rapidamente, foram cedendo
seus
espaços
vitais
para as
atividades
que os
imigrantes
desenvolviam.
Por
falta de
formação
específica,
não tiveram
condições de
participar
em
igualdade das
novas
ordens economico-sociais e,
por
extensão, da
cultura,
que se desenvolvia de
modo
muito
rápido no
ambiente
urbano.
Na
grande
parte dos
casos, estas
comunidades perderam,
por
excesso de
ocupação
imobiliária,
até
mesmo o
acesso aos
seus
antigos
locais de
pesca,
onde ficavam os
abrigos
para
suas
embarcações,
chamadas
baleeiras. De
qualquer
forma,
com o
processo de
industrialização da
pesca, a
partir dos
anos 70, esta
atividade
já
não seria
mais economicamente
viável. A
concorrência
com as
companhias pesqueiras se tonou
impossível e a competição,
desleal. Estas
comunidades estavam desintegrando-se rapidamente,
cedendo
lugar aos
novos moradores e aos turistas
cada
vez
mais
numerosos. O
trabalho
artesanal,
paralelo às
atividades pesqueiras,
também foi praticamente
suprimido da
economia ilhoa.
Enquanto
isso, no
centro-oeste da
Ilha,
ou seja, na
área
urbana, o
espaço sócio-econômico e cultural
também
vinha sendo administrado
pelos
novos
habitantes.
Como
resultado, uma
grande
parcela da
população
urbana
local começou a
apresentar
sinais de
identificação
com a
cultura do
interior da
Ilha.
Primeiramente, introduziu-se
um
certo
orgulho
em
ser
ilhéu
ou
como se convencionou
também
chamar:
nativo,
para
marcar e
garantir
um
espaço
virtual
que
já
não
mais existia. O
título de
ilhéu foi
também reivindicado
por
muitos
indivíduos
que, tendo
chegado no
início da
ocupação desordenada, julgavam
possuir
mais
direitos
que
aqueles
que chegaram
depois, numa
espécie de
competição
por
um
lugar ao
sol.
Assim, o
contingente dos
ditos
nativos cresceu
em
proporções geométricas. Algumas
personalidades do
meio cultural da
cidade começaram a
valorizar a
figura do
habitante
local e,
em
conseqüência, os
hábitos do
dito Manezinho começaram a
ser exaltados,
pois representavam o
perfil daquele
indivíduo
supostamente
em
harmonia
com o
mar,
herdeiro dos
comportamentos
locais,
com
mais
direitos a
parcelas do sonhado
paraíso.
A
partir desse
movimento,
muitos
indivíduos passaram a se auto-denominar
Manezinhos e a
incorporar
características
que
outrora eram repudiadas e/ou
menosprezadas. Criou-se
até
mesmo o
Troféu Manezinho da
Ilha, concedido
anualmente a
personalidades
que se destacam no
cenário sócio-político-cultural da
cidade.
Do
ponto de
vista
lingüístico, o
sentido atribuído à
palavra Manezinho havia entrado
em
processo de
flutuação.
Como
resultado, passou a
ser
possível
ler nas
colunas
sociais
frases
que há
alguns
anos
jamais seriam aceitas
pela
classe
dominante
ou
urbana:
O
Manezinho, Dr.
Fulano de
tal, viaja
amanhã
para a Europa
com a
família.
As
diferenças
fonéticas,
lexicais,
gramaticais,
que marcam o
sotaque manezinho e
que caracterizam os
nativos da
Ilha, passaram, de
certo
modo, a
ser valorizadas.
É
interessante
observar as
similitudes
entre
este
fato e o
estudo realizado
por Labov (1963) na
Ilha de Martha’s Vineyard, no
Estado de Massachusetts (EUA).
Como sabemos, Labov verificou
que uma
parcela dos moradores desta
Ilha reagiu ao
fluxo de veranistas e
que esta
reação
era linguisticamente observável.
Atualmente, na
região
florianopolitana, a
palavra manezinho veicula
mais de
um
sentido.
Estes
sentidos variam,
naturalmente, de
acordo
com a
relação do
indivíduo
com a
sociedade e
com a
história.
Nos
meios
em
que circulam
indivíduos nascidos e
criados na
Ilha, o
uso da
palavra
ainda se reveste de uma
forte
carga
pejorativa.
Porém, o
mesmo
indivíduo,
em
contato
com
pessoas julgadas estrangeiras ao
local, pode
eventualmente
dizer: Sou Manezinho,
para
explicitar
suas
origens e
sua
ligação
com o
meio.
Os
sítios de significação no
qual o
indivíduo se insere vêm
determinar o
sentido
que
ele atribui à
palavra
em
questão.
Flutuação de
sentido e
referência
MANEZINHO
|
Sentido
1:
Pejorativo |
Referência: |
Habitante
nascido na
Ilha ou
radicado na
Ilha ou
ainda
indivíduo
que
se julga
ilhéu. |
|
Flutuação |
|
Sentido
2: Exaltativo |
Adotando o
ponto de
vista de Frege (1978),
apesar da
flutuação de
sentido, a
referência continua sendo a
mesma,
ou seja, o
habitante nascido
ou radicado na
Ilha,
ou
ainda o
indivíduo
que se julga
ilhéu.
Como observa Orlandi (1996), os
indivíduos
são
afetados
por
cores
tanto ideológicas
como históricas
que os levam a
determinação do
sentido.
Eles estariam filiados a
este
processo e,
para
significar, seriam
afetados
tanto
pela
história
quanto
por
um
dispositivo ideológico
próprio ao
sítio de significação ao
qual estão
subordinados. A
opção
por
um dos
sentidos
em
uso, revela
certamente uma
tomada de
posição.
Em
muitos
casos,
porém, a
escolha
por
este
ou
aquele
sentido
não é
consciente,
mas
certamente permite
situar o
indivíduo
dentro da
estrutura
social da
comunidade na
qual está inserido.
Conclusão
Não podemos
determinar
quais
são os
rumos
que tomarão
ou
em
que
direção evoluirão os
dois
sentidos atribuídos à
palavra Manezinho.
Entretanto, estamos
certos de
que
por
trás desta
questão há muitas outras a serem estudadas do
ponto de
vista lingüístico-cultural,
que poderiam
enriquecer o
tema abordado. Na
verdade,
como deixamos
transparecer, o
sentido
inicial do termo (S1)
não deixou de
ser
empregado. No
interior da
Ilha, o
termo
ainda pode
ser tomado
como
ofensivo,
quando
empregado no
seio destas
comunidades.
Seria
produtivo
aprofundar a
questão da
ideologia,
amplamente implicada no
problema abordado. Tendo
como
base os
estudos
feitos
por Labov (1963) na
Ilha de Martha’s Vineyard, poderíamos
formular duas
hipóteses:
a)
Não estariam os moradores
nativos,
ou uma
parcela deles, tentando
incorporar
comportamentos
lingüísticos
novos, considerados
padrões
ou de
prestígio,
com o
intuito de
abandonar
características estigmatizadas?
b)
Do
mesmo
modo,
não estaria uma
parcela dos
novos
habitantes adotando
comportamentos
lingüísticos do
local,
como
um
instrumento
para uma
melhor
integração
junto à
comunidade
onde estão inseridos?
Praticamente,
nenhum
estudo aprofundado, visando
pôr
em
evidência a
flutuação de
sentido da
palavra Manezinho, foi realizado. Esperamos,
com
este
artigo,
ter acendido uma
chama
que incitará
novas
discussões
sobre a
questão.
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