Subjetividade Revisitada
Milton Chamarelli
Filho (UFAC)
Resumo
O
presente
artigo
discute o
conceito
de subjetividade, proposto
pelo
lingüista
francês
Émile Benveniste,
passadas
quase
quatro
décadas
desde
sua
formulação.
Com
a
inserção
da
Análise
do
Discurso
nos
estudos
da
linguagem,
trazendo as
contribuições
de
formação
ideológica,
formação
discursiva e a de
discurso
como
dispersão
de
sujeitos,
herdados da
contribuição
de Foucault, do
marxismo
e da
psicanálise,
o
conceito
de Benveniste ficou esquecido,
frente
às
novas
conceituações
apresentadas
pela
AD, no
final
da
década
de 60. Sendo
assim,
o
pioneiro
conceito
de subjetividade, trazido à
luz
da
lingüística
estrutural,
que
a esta contestava, ficou à
margem
das
discussões
sobre
a
construção dos
sentidos,
relegando a
um
papel
secundário
a
contribuição
dos
sujeitos
frente
à significação da
linguagem.
Palavras-chave: subjetividade,
discurso,
enunciação
Quadro
Teórico
Depois de
quase
meio
século
em
que a
linguagem foi estudada
somente
por
critérios estruturais, o
lingüista
francês Èmile Benveniste
propôs a
teoria da subjetividade, no
quadro dos
estudos
lingüísticos,
como
condição
fundamental
para se
pensar a
construção da significação; tornava,
assim, a
posição do
falante e as
condições de
produção dos
atos de
linguagem
relevantes à
compreensão dos
fatos
lingüísticos.
Com Benveniste, a
língua
passa a
ser pensada
não
somente a
partir do ponto-do-vista
imanente,
caráter
que se estendeu
até o gerativismo,
mas abre-se à
condição de
que,
para a
sua
constituição, contribuem as
condições de
produção e a
perspectiva do
locutor,
ou seja, os
enunciados proferidos
por
um
emissor
real (“indivíduo”),
em uma
situação
real de
interlocução,
são o
resultado das
condições de
produção (a
enunciação), e neles,
por
isso, estariam inscritas as
condições pelas
quais foram produzidos.
Segundo Benveniste, é,
por
intermédio de “certas
marcas”, das
quais o
indivíduo se apropria na
língua,
que o colocam na
condição de
sujeito (BENVENISTE, 1988: 288). Esta
apropriação,
além de
ser
um
processo de atualização do
sistema
lingüístico do
qual o
falante dispõe, seria,
também, na
mesma
medida,
um
processo de concretização
que transforma a
língua
em
discurso.
O
sujeito constitui-se na e
pela
linguagem (Benveniste,
1988), à
medida
que, ao designar-se
como “eu”, instaura
um “tu”,
estabelecendo,
assim, a subjetividade. Ao apropriar-se,
portanto, dessas
marcas, o
indivíduo
experimenta a
consciência de
si ao
interagir
com o
outro (intersubjetividade).
Com
efeito, a
consciência
subjetiva
só se instaura
pela
alteridade,
princípio
que se observa
também
pelo
conceito de dialogismo, de Bakhtin.
A reversibilidade
que daí decorre,
entre as
pessoas do
discurso,
em
situação de
interlocução, é o
exercício de
reciprocidade
que
pelo
diálogo se estabelece e a
condição de
existência do
próprio
discurso.
Não há
linguagem
sem o
outro. A
figura do
outro é a
condição
para a
existência do
próprio
discurso,
já
que o
discurso
nada
mais é do
que
pôr a
língua
em
funcionamento (“o
aparelho
formal da
enunciação",
segundo Benveniste)
pela
perspectiva de
um
indivíduo
que se constitui
como
sujeito
em
função desse
outro, a
quem se dirige,
portanto, na
interlocução.
A
forma de
ser da
linguagem — a
falta
originária
que se
completa
com a
presença do
outro — ensina-nos a
sua
condição de
existência: a sociabilidade.
Como coloca Benveniste,
portanto: “antes da
enunciação, a
língua
não é
senão possibilidade da
língua” (BENVENISTE, 1989: 83).
Como
parte da
natureza
humana, pode-se
afirmar
que
quem
nos
funda e
nos constitui é a
própria
linguagem e
quem
nos devolve a possibilidade de
interagir e
agir no
mundo é
também a
linguagem.
Estas
marcas definem o
quadro no
qual Benveniste expõe a subjetividade, alinhado-a a
três
categorias:
·
Os
pronomes
pessoais “eu”
e “tu” –
formas
lingüísticas
que indicam a
pessoa (são distintas de outras
palavras do
léxico).
Não há
um
conceito de “eu”
ou de “tu”; “eu”
e “tu”
são
referências,
indicações
que se constituem no e
pelo
discurso. “Eu” e “tu”
só podem
ser identificados na
instância do
discurso.
·
Dêixis –
demonstrativos,
advérbios,
adjetivos “organizam as
relações
espaciais e
temporais
em
torno do
sujeito” (Benveniste, p. 288)
·
Verbos performativos – utilizados
em
primeira
pessoa, no
tempo
presente, realizam a
ação
pela
fala.
A
tese da
apropriação da
língua,
em
função da
qual o
sujeito é colocado
como
origem de
seu
discurso, tornou-se
contrária a
então
criada
Análise do
Discurso Francesa,
que, seguindo os
passos de Foucault,
via
antes o
discurso
como
um
lugar de
dispersão dos
sujeitos (FOUCAULT, 1987: 62).
Convém
dizer
que a
controvérsia
que expõe aos
flancos do
debate
Teoria da
Enunciação e
Análise do
Discurso, colocando
em
confronto os
conceitos de subjetividade,
por
um
lado, e sobredeterminação,
por
outro, incide,
em
verdade,
em “níveis”
diferenciados no
que tange a
margem de
atuação dos
sujeitos.
Como coloca Charaudeau:
o
sujeito do
discurso é, ao
mesmo
tempo, sobredeterminado —
mas
somente
em
partes —
pelos condicionamentos de
ordens diversas, e
livre
para
operar
suas
escolhas no
momento de
focalizar
seu
discurso.
Ele é, ao
mesmo
tempo coagido
pelos
dados da
situação
comunicação (contrato)
que o conduzem a se
comportar discursivamente de uma
certa
maneira, e
livre de se
individuar, o
que o
leva a
usar
estratégias (CHARADEAU, 2004: 458).
Segundo essa
concepção,
portanto, pode
haver sobredeterminações
sobre o
discurso no
nível do
contrato de
fala,
mas
também
um
espaço de
individualização do
sujeito
sobre o
seu
discurso,
em
função das
estratégias
por
ele utilizadas, permitindo-lhe,
assim, uma
certa
margem de
liberdade na
qual pode o
seu
discurso
transitar.
A
questão
que a subjetividade
nos sugere
portanto é:
como o
sujeito se coloca
como
sujeito de uma
fala, na
medida
em
que o
que
ele diz
não será
senão
determinado
pela
presença do
outro
ou de uma
situação? O
que está
em
jogo é
observar
como os
sentidos
são
determinados na
linguagem, no
ato de
sua
enunciação.
Ou,
como coloca Possenti: “Como,
com
um
sistema
lingüístico
indeterminado, pode-se,
em
circunstâncias dadas,
produzir
um
discurso
com
exatamente
tal
forma e
tal
interpretação” (POSSENTI, 1988: 49).
A materialização do
sentido
pelo
discurso é
abonada pelas inúmeras
situações
com as
quais o
sujeito se defronta na e
pela
linguagem, nas
quais
não haveria
nem
um
estoque de
formas
disponíveis a serem atualizadas
nem
sentidos,
totais e previamente
determinados,
embora
em
palavras e
expressões possam
estar adensados
significados conflitantes,
presentes
ou
remotos.
Ao
agir
sobre a
língua, o
sujeito conduz a
sua
argumentação, de
forma
que a subjetividade do
texto seja construída,
com
vistas a uma
forma de
persuasão
que
esse
sujeito considera
mais
apropriada, ao
fim a
que se
destina,
dentro do
seu
projeto discursivo. Sendo
assim, poder-se-ia
afirmar
que
cada
texto possui a
sua
forma de
argumentação. Esta se constrói
em
convergência à intencionalidade do
locutor e às
condições enunciativas.
Embora o
gênero escolhido
pelo
indivíduo possa
exercer
coerções
sobre o
que vai
ser
dito
ou
escrito, há uma
margem de
liberdade
que permite ao
indivíduo “operar
escolhas no
momento de
focalizar
seu
discurso” (KERBRAT-ORECCHIONI, 2004: 458).
Com
efeito, a subjetividade
não corresponde
mais a
um
mecanismo de atualizações ao
qual a
língua ficaria
disponível,
nem a
um agenciamento de
discursos previamente construídos,
mas a uma participação do
sujeito
sobre a
forma de
como
ele se insere,
ou
até
mesmo no
modo
como “apaga” a
sua participação no
discurso,
quando
argumenta.
Pela
condição de
virtualidade
que a
língua assume na
Teoria da
Enunciação, pode-se
afirmar,
contudo,
que
mesmo
que essas
partes “estáticas” a
que Benveniste
chama
língua
não tenham
um
papel
fundamental na
enunciação,
nada obsta,
portanto,
que desempenhem nela
também
um
papel
principal.
Talvez devêssemos
dizer
que subjetividade
não se explica
tão
somente
pelo
recurso a uma
classe
gramatical,
mas
pela
função
que essa
classe pode
assumir
em
seu
contexto.
Por
esse
motivo,
afirmar
que
somente
certas
classes podem
fazer
parte desse
estudo seria
tão errôneo
quanto
dizer
que as
demais, preteridas,
não o fariam. Ratificamos
assim o
que diz Kerbrat-Orecchioni (KERBRAT-OREC-CHIONI,
2004: 457): “a subjetividade está
em
toda
parte”.
Exemplificação
No Brasil, a
ampliação do
escopo da
teoria da subjetividade foi
feita
por Faraco, ao
estudar as
marcas da subjetividade no
texto
jornalístico (FARACO, 1978). Neste
artigo, Faraco
além das
categorias
já trabalhadas
por Benveniste, sugere outras,
sem, no
entanto, classificá-las. Soma-se ao
quadro traçado
por Benveniste
em
seu
artigo “Da subjetividade na
linguagem” as “individualizações
familiarizadas”, as “construções
impessoais” e os “modalizadores”.
Observemos
dois
textos e vejamos as
marcas de subjetividade
que neles podemos
encontrar:
Texto
1
Força
estranha
Investigações
de
conexões
entre
juízes e
crime
organizado
chegam ao
Superior
Tribunal
de
Justiça
Carlos Alberto Jr
Na
tarde do
sábado 20, o
presidente
em
exercício do
Superior
Tribunal de
Justiça (STJ),
Edson Vidigal, telefonou
para o
ministro
Vicente
Leal,
que
estava
em
Fortaleza.
Pediu
que o
colega
voltasse a Brasília
para
ser inquirido
em uma
sessão
extraordinária
convocada às
pressas
para o
dia
seguinte.
Leal respondeu
que
não
poderia
ir,
porque queria
acompanhar o
casamento de uma
sobrinha. ‘Quem
vai
casar é
ela,
não
você’, respondeu Vidigal.
Na
manhã do
domingo, 21
dos 31
ministros da
corte
postaram-se no
plenário do
tribunal.
Leal apareceu
na
hora marcada.
Chegou irritado. ‘Não
entendo o
porquê desta
inquisição’,
afirmou.
Em
seguida,
mudou o
tom. Disse
que estava
vivendo
um
inferno
astral e
chorou ao
relembrar os
obstáculos
que superou ao
longo de
sua
carreira.
Ainda
assim, os
demais
ministros
pediram
que
ele assinasse
um
requerimento
autorizando uma
investigação
de
seus
atos na
corte. É a
primeira
vez
que o STJ –
a
segunda
maior
instância
da
Justiça
brasileira
– abre
processo
administrativo
para
apurar
denúncias
contra
um de
seus
integrantes.
Leal
é acusado
pela
Polícia
Federal
de
participar de
uma
fábrica
de habeas
corpus
para
tirar
traficantes de
cadeias.
Não foi
afastado de
seu
cargo.
Mas conviverá
com
três
colegas
que,
junto
com
policiais,
vão
esquadrinhar
as
decisões
que
tomou
nos
últimos
dois
anos.
(Época,
23/12/2002)
Interessa-nos
aqui as
marcas
que,
em
geral
não seriam consideradas,
em uma
análise
típica
sobre a subjetividade.
O
aspecto
que
mais
nos
chama a
atenção no
texto “Força
estranha” é a
sua
estrutura
narrativa,
que é marcada
pelo
recurso
constante às
modalidades do
discurso relatado.
Porém a
maneira
como
são narrados os
episódios, cronologicamente,
em
que
ora o
jornalista se coloca na
posição de
um
observador
testemunhal,
ora se coloca na
posição de
um narrador
que vislumbra o
desenrolar dos
acontecimentos, faz
conduzir as “vozes”
que se oporiam, levando,
com
isso, à
criação uma “tensão
narrativa”,
com a
intenção de
argumentar,
em
função dos
fatos narrados e de
como
são narrados.
Talvez possamos
afirmar
que o
que está
em
jogo,
em
um
nível
mais
profundo nesse
texto, sejam as
posições
que devem
ser cotejadas: a de Vicente
Leal,
como
ministro do
Supremo
Tribunal de
Justiça, a
quem se pode
imputar a
acusação de
venda de habeas
corpus, e a do
Supremo,
quanto à
legitimidade de
atuação dos
seus
membros e o
julgamento dessa
legitimidade
em uma
esfera
superior,
ou
mesmo
perante a
opinião
pública. Essa
posição pode
ser confirmada
não
só
pela
escolha de
verbos
que particularizam as
formas de
discurso relatado,
mas
também
quando o
jornalista, ao se
referir à
esfera
ou ao
poder de
atuação dos
membros do
Supremo, utiliza as
seguintes
expressões:
Em
que estava
em
Fortaleza a
oração
aqui pode
ser compreendida sublinhando o
fato de
que o
ministro estava
ausente da
cidade
em
que
trabalha,
ou seja, Brasília.
Para o
leitor
mais
atento, o
nome
Supremo
Tribunal de
Justiça
já ativaria o
esquema de
localização dessa
instância
superior,
porém, ao
afirmar
que o
ministro estava
em
Fortaleza, pode-se
supor “n”
motivos
pelos
quais
lá estivesse. O
nome “Fortaleza”
já
ativa uma
série de
associações
possíveis:
Fortaleza –
cidade veranista –
Nordeste –
férias etc. Se o
presidente do STJ “pediu”
então
que
ele “voltasse”,
porque
lá estaria
para o
casamento de uma
sobrinha —
fato anunciado
depois —,
este “pedido” é
interpretado
como uma
ordem,
até
porque foi
feito
pelo “presidente” do STJ.
Em 21 dos 31
ministros, essa
restrição numérica de
membros do
ministério
poderia
ser
um
alerta
para o
fato de
que
nem
todos os
ministros participaram da “sessão
extraordinária”, o
que
por
outro
lado,
também
poderia
indicar (cumulativamente
até)
que
dez
ministros faltaram
com a
sua
obrigação.
Em
corte e postaram-se,
reafirma-se a
idéia de
que o
Supremo e
seus
membros façam
parte de uma
instância (nobre
ou
real)
em
que os
atos
ali tomados e
por
ele tomados, dizem
respeito
somente àquela
instância restrita de “súditos”
que nela e
para
ela comungam. O
recurso de
que
lança
mão o
jornalista
aqui é a
substituição
lexical.
Ela
também pode
ser observada
pelo
uso da
palavra
esquadrinhar
que,
por
sua
vez, é
mais
sutil do
que “devassar” e
mais
proposital do
que “buscar”.
Esquadrinhar dá
idéia de uma
observação
em
detalhes.
Na
marca de
progressão
temporal
em
seguida observa-se a
preocupação do
narrador
em
colocar os
fatos
dentro de uma
cronologia.
No
aposto: a
segunda
maior
instância da
Justiça
brasileira, o
jornalista reafirma a
importância do
Supremo.
Ou seja,
não se está falando de
qualquer
instância
judicial,
mas
sim da “segunda”
instância
judiciária
mais
importante do
país.
Em
Leal é acusado
pela
Polícia
Federal (de
participar de uma
fábrica de habeas
corpus
para
tirar traficantes de
cadeias),
além de
sua
forma de
construção (passiva)
apontar
para uma recusa de
responsabilidade
sobre o
enunciado
que emite o
jornalista, representa o
desfecho da
narrativa.
Depois de
criada a
tensão
narrativa —
afinal,
por
que
Leal é acusado? — o
desfecho da
trama é encerrado
por uma
voz
que se pretende
imparcial e
que
não “dialoga”
com as
demais. Se pelas
demais “vozes” pode-se
escutar a
voz do
jornalista
por
detrás da
voz do(s)
Ministro(s) e de
Leal,
direta
ou
indiretamente,
aqui,
não deve
haver
responsabilidade
sobre a
acusação. O
jornalista se exime ao
máximo da
acusação a
Leal, optando
por
esse
tipo de
construção
impessoal.
Na
escolha do
título
Força
estranha observa-se,
após o
texto lido, a
expressão,
com o modificador
estranha, serve
para
explicar a
resistência da
qual se reveste os
membros do
judiciário ao
não
condenar
um de
seus
membros.
Texto 2
Obras
no
Papel
Lilian Orfanó
Mais
de 5,5
milhões é o
que a
Prefeitura de
Rio
Branco tem
para
aplicar na melhoria de 48
bairros e
toda
região
da
zona
rural
da
Capital
até
outubro deste
ano. O
cronograma de
obras
já
foi divulgado
pelo
prefeito
Isnard
Leite e
tinha
como
previsão o
dia 18 de
junho
para a
grande
largada. (...)
A reportagem do
jornal O
ESTADO
visitou, esta
semana, os 13
locais
em
dez
bairros
da
cidade
onde as
obras da
prefeitura
já
deveriam
ter
começado.
Até
o
final desta
semana,
na
maioria
dos
locais,
nenhum
tijolo
havia sido descarregado. (...)
Todos
esses
bairros
são
extremamente
carentes.
É
preciso
ter
acesso à
periferia de
Rio
Branco
para
descobrir uma
realidade
completamente
adversa
daquela
que
contorna a
região
central da
cidade. É
um
passeio
revoltante
capaz de
deprimir
qualquer
cidadão
que
goste desta
terra. A
desorganização
e a
sujeira –
marcas
registradas do
centro de
Rio
Branco
– equivalem ao
paraíso se
comparadas à
qualidade
de
vida
que a
prefeitura
empresta aos moradores dos
bairros
periféricos.
Pelas
reais
condições,
o
subúrbio da
Capital
deveria
provocar,
no
mínimo,
um
sentimento de
constrangimento e
um
clima
desconcertante
para
administração
municipal.
Caminhar
pelos
bairros
sentindo o
fedor
do
esgoto nas
ruas e a
doença tomando
conta das
crianças
deveria
ser
motivo
de
vergonha
para
qualquer
administrador.
(...)
A
precária
condição
de
vida dos
moradores da
periferia é
dissimulada
por uma
propaganda
enganosa,
reproduzida
em
informativos da
Assessoria de
Comunicação
da
prefeitura e
em
materiais
nos
jornais
conservadores
que circulam
diariamente.
Sem
qualquer
tipo
de
referência
do
que seja
qualidade de
vida, os
moradores da
periferia
pacificamente aguardam – há
mais de
cinco
anos – a
boa
vontade
da
administração
municipal.
Eles moram
em
improvisadas
casas
de
madeira,
algumas
cobertas de
lona.
(...)
Iluminação
pública
não existe e a
rede de
energia é
improvisada
com
rabichos e
forma
perigosos emaranhados/ de
fios
elétricos
em
postes
assentados
pelos
próprios
moradores.
Lazer
é
luxo e
prática de
esporte
para a
juventude
parece
ser
um
inconveniente.
Não há
espaço
para
entretenimento
sadio.
Infelizmente,
esta é a
cidade
de
Rio
Branco.
(O
Estado,
23 /06/2002)
|
sublinhado |
Quantificadores
ou
modificadores
anteriores
ao
nome |
8 |
|
Negrito |
Nome
Seguido de
Adjetivo;
orações
relativas,
com
valor
adjetival. |
13 |
|
sublinhado
duplo |
Itens
lexicais
complexos |
8 |
|
Total
de
estruturas
com
modificador |
|
29 |
|
Negrito
com
itálico |
Estruturas
Subjetivas tradicionais;
uso de
construções
impessoais,
nas
quais o
enunciado
não é
assumido
pelo
falante;
uso de
modalizadores. |
17 |
O
aspecto
que
mais
chama a
atenção — e
isso parece
ser
claro
para
um
observador
mais
atento — é o
emprego
excessivo de
adjetivação
e de modalizações. Das 349
palavras
que compõem o
texto, 20
substantivos
estão
incólumes aos
efeitos da
adjetivação,
da
modificação,
que podem
ser observadas
pela
descrição das
estruturas na
tabela
acima.
Estas, ao
todo, somam 29
ocorrências;
uma
diferença
substancial,
se compararmos ao
número de
substantivos
não
modificados, superando,
portanto, o
número de
estruturas
subjetivas.
Isso aponta
para o
seguinte
fato: a
forma de
construção do
texto, a
sua
linha
argumentativa depende
sobremaneira
de
quem escreve e
de
quais os
seus
propósitos. A
oposição
traçada
entre
elementos
subjetivos e
aqueles
marcados
pela
presença de
um modificador
serve-nos
para
mostrar
que os
recursos de
construção da
subjetividade atendem a determinadas
peculiaridades,
que
não descartam
o
uso daquelas
tradicionalmente consideradas. A
elas se somam
para a
construção da
linha
argumentativa do
texto.
O
texto perde
muito o
seu
caráter
informativo
com as
formas de
adjetivação
adotada.
Por
isso, o
seu
caráter
panfletário é
flagrante. Os
modalizadores, modificadores e
determinantes;
as
inversões de
adjetivos
não deixam
praticamente
substantivo
ileso. Somam-se a
esses
fatos os
substantivos
depreciativos,
usados ao
longo do
texto, as
estruturas
com
uso de
determinantes,
e
sintagmas
nominais
complexos;
todos
reforçando o
caráter
acessório
que assume
aqui a
modificação
dos
nomes.
Ao
mesmo
tempo
em
que se pode
dizer
que os
textos
aqui abordados
podem
ter
como
estilo a
forma adotada (no
primeiro
texto, o
recurso à
narração e no
segundo
texto, à
adjetivação),
mostrando
assim uma
certa
predileção
por
parte de
cada
autor
pelo
modo
como foram
escritos,
por
outro
lado,
poderemos
encontrar
outros
textos, desses
mesmos
autores,
com
estilos
diferentes dos
adotados
aqui.
Isto
porque a
argumentação
não depende de
um
estilo
previamente
determinado,
que se coloca
como
parâmetro da
construção dos
textos,
respeitadas
aqui as
diferenças dos
textos
aqui abordados
para
com
outros de
diversos
gêneros.
A
argumentação
depende das
condições
enunciativas, da intencionalidade do
falante
ou do
escritor;
estas perfazem o
quadro
pelo
qual poderão
ser
entendidos os
textos.
Cada
forma
nova de
argumentação
dá ao
texto o
seu
aspecto
único. O
que faz da
língua
um
campo
experiencial,
onde se
encontram
misturadas
subjetividades e
intenções, a
princípios
que regem o
seu
fazer.
A subjetividade pode
assim
assumir
outros
aspectos,
além daqueles
que perfazem o
quadro do
aparelho
formal da
enunciação,
conforme
previu Benveniste. Expande-se
assim o
escopo da
teoria
delineada
por
esse
autor. O
fato de a
subjetividade
não
estar relacionada
diretamente a
um
grupo restrito
de
categorias na
língua
só reafirma o
que dissemos
acima: o
fato de a
língua
ser
um
campo
experiencial,
campo
este
subjetivo
por
excelência,
em
que
cada pode
desempenhar o
seu
papel
mais
ou
menos
subjetivo.
Subjetivo
opõe-se,
aqui,
portanto, a
toda
perspectiva
determinista
que
vê na
língua
algo
pré-estabelecido,
como se a
própria
realidade da
língua
não
coincidisse
com a
nossa
própria
condição
efêmera e
experiencial,
como se a
língua
não fosse uma
espécie de
trabalho
constante
que, ao
estruturar a
experiência,
estrutura o
seu
próprio
fazer pelas
práticas de
sociabilidade
que instaura
entre os
homens.
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