PROCEDIMENTOS DE MONITORMENTO DO FALANTE
EM DIÁLOGOS SIMÉTRICOS

Paulo de Tarso Galembeck (UEL)

 

RESUMO

Este trabalho expõe os diversos procedimentos de auto e heteromonitoramento utilizados pelo falante em diálogos simétricos e, bem assim, discute o papel desses procedimentos no estabelecimento e manutenção da interação entre os interlocutores. A exposição compõe-se de duas partes: na primeira, conceitua-se conversação e discutem-se os conceitos de monitoramento; na segunda, são apresentados os diversos procedimentos discursivos utilizados pelo falante no monitoramento do próprio discurso (automonitoramento) e no discurso do interlocutor (heteromonitoramento).

PALAVRAS-CHAVE: discurso falado; interação; monitoramento.

 

INTRODUÇÃO

Este trabalho tem por objetivo apresentar os diversos procedimentos discursivos por meio dos quais o falante, em diálogos simétricos exerce uma dupla atividade de controle. A primeira dessas atividades diz respeito à fiscalização do próprio discurso, com o objetivo de assegurar-se que está sendo compreendido e está sendo criado o contexto partilhado entre os interlocutores. A outra refere-se ao monitoramento pelo falante das atitudes e reações do interlocutor.

O texto compõe-se duas partes: inicialmente, são expostas e discutidas as características da conversação e as noções de monitoramento; a seguir, expõem-se os procedimentos por meio dos quais os falantes monitoram a própria fala, assim como as reações do seu interlocutor.

Os exemplos citados foram extraídos de inquéritos pertencentes ao córpus do Projeto NURC/SP. Esses inquéritos pertencem ao tipo D2 – diálogos entre dois informantes e sua transcrição está publicada em Castilho & Preti (1987).

 

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A conversação

CASTILHO (1988: 03), retomando Levinson, afirma que a conversação é entendida como o intercurso verbal em que duas ou mais pessoas se alternam, discorrendo livremente pela vida diária. HILGERT (1989:82) acrescenta que a “conversação representa uma atividade prática e cotidiana, cujo desenvolvimento depende da auto-organização patrocinada interacionalmente pelos interactantes”. Os interactantes ou interlocutores constituem os sujeitos da conversação, e, ao interagirem, desenvolvem a conversação.

O caráter interativo caracteriza a conversação como uma atividade conjunta, realizada por dois ou mais participantes. Nessa atividade conjunta, há uma clara distribuição de papéis (falante e ouvinte), porém esses papéis são transitórios, já que a característica básica da conversação é a alternância dos turnos de fala.

O falante e o ouvinte são igualmente ativos, mas a participação de ambos ocorre de forma diferenciada. O falante é aquele que – num dado momento – assume o papel de condutor principal do diálogo e torna-se o responsável pelo desenvolvimento do tópico em andamento, podendo dar continuidade a ele, redirecioná-lo, abandoná-lo. O falante deseja ser ouvido e compreendido, e, para tanto, exercer, continuamente, uma dupla fiscalização: o monitoramento da própria fala (por meio de paráfrases, correções, inserções parentéticas) e o acompanhamento das reações do interlocutor (marcadores de busca de aprovação discursiva ou de envolvimento do ouvinte). Em ambos os casos, o falante busca de ter a certeza de que está sendo compreendido e eu discurso é adequado à situação.

O ouvinte, por sua vez, não é um simples espectador, como sugere o esquema tradicional da comunicação (emissor-receptor). Aliás, a simples presença (participação implícita) já confere ao ouvinte um papel ativo na conversação, pois o falante não pode deixar de levá-lo em conta na produção do diálogo. Já na participação explícita, o ouvinte intervém de modo ativo, para mostrar entendimento ou concordância, para mostrar entendimento ou concordância, para sinalizar que o falante pode continuar a fala, ou simplesmente, para demonstrar participação efetiva.

As diferentes formas de participação demonstram, da parte de quem fala, o desejo de ser ouvido, e, da parte de quem ouve, a predisposição para ouvir e compreender. Essa participação é indicada não só por meio lingüísticos (palavras ou expressões, elementos não-lexicalizados; marcadores supra-segmentais), como também por meios cinésicos ou gestuais (gestos, expressões faciais, riso), e essas duas classes de meios situam igualmente como sinais de orientação e de verificação do canal. Todos esses sinais são indispensáveis para uma boa interação falante/ouvinte e a falta dos mesmos acaba por interferir negativamente na própria interação.

 

Monitoramento

O diálogo simétrico é caracterizado pela alternância dos interlocutores nos papéis de falante e ouvinte. Esses papéis são necessariamente transitórios, e isso cria o que PRETI & URBANO (1990) denominam “dinâmica inter-relacionada”. Essa dinâmica conduz ao emprego de “um sistema de práticas, convenções e regras de comportamento” (GOFFMAN, 1970: 10), utilizadas com a finalidade de organizar o fluxo da mensagem e a participação dos interlocutores.

Uma das formas de participação dos interlocutores é o emprego dos sinais de monitoramento da própria fala ou da fala de outro interlocutor. O uso desses sinais decorre de uma das características da língua falada, o planejamento local, que leva à tomada de decisões no curso da construção do discurso. No diálogo simétrico, a presença do(s) outro(s) interlocutor(es) torna essa característica ainda mais evidente, e leva a um acompanhamento contínuo da própria fala e da fala e das atitudes das demais interlocutores, de modo que se redirecionar a fala de acordo com as atitudes do momento.

Na conversação, a fiscalização de nossas palavras e da falados outros interlocutores constitui uma constante. Assim, o falante determina os sinais (?, não é?, certo?, entendem?), que não estão ligadas ao desenvolvimento do tópico, mas são empregados com o sentido de testar a reação dos ouvintes. Com essa mesma finalidade, o falante emprega procedimentos discursivos variados, como aqueles a que CASTILHO (1996) denomina atividades de reconstrução (correções, paráfrases) e de desconstrução (inserções parentéticas).

O ouvinte, por sua vez, não é um mero espectador, mas procura demonstrar que está engajado na construção do diálogo e fiscaliza as palavras do seu interlocutor. Para tanto, o ouvinte emite determinados sinais que orientam o falante e sinalizam para a continuidade da fala ou o abandono da mesma. Citem-se, a esse respeito, as palavras de MARCUSCHI (1986: 16): “o ouvinte orienta e monitora seu interlocutor, retro-alimentando com informações cognitivas relevantes”.

SILVA (2001) define monitoramento como a fiscalização que cada interactante do diálogo exerce sobre o seu parceiro, no sentido de direcionar e regulamentar a conversação. O mesmo Autor menciona dois tipos de monitoramento: o do falante, que monitora o ouvinte; o do ouvinte, que monitora o falante. Cabe acrescentar que, com referência ao falante, existe ainda o automonitoramento, responsável pela busca da melhor forma de expressão e da adequação pragmática.

 

O conceito de face

O conceito de face foi inicialmente estabelecido por GOFFMAN (1970), a partir do quadro geral de interação face-a-face, no qual são realizados os textos falados. Segundo o citado Autor, o fato de alguém entrar em contato com outros constitui uma ruptura de um equilíbrio social pré-existente e, assim, representa uma ameaça virtual à auto-imagem pública construída pelos participantes do ato conversacional. Goffman denomina face a expressão social do eu individual; o mesmo Autor designa por processos de representação (face-work) os procedimentos destinados a neutralizar as ameaças (reais ou potenciais) à face dos interlocutores ou a restaurar a face dos mesmos.

As idéias de Goffman foram complementadas e aprofundadas por BROWN e LEVINSON (1978), que estabeleceram a distinção entre face positiva (aquilo que o interlocutor exibe para obter aprovação ou reconhecimento) e face negativa (“território” que o interlocutor deseja preservar ou ver preservado).

As circunstâncias particulares em que se desenvolvem os diálogos fazem com que neles a preservação da face seja uma necessidade constante. Como não há previsibilidade quanto às ações a serem desenvolvidas pelo(s) outro(s) interlocutor(es), o falante adota mecanismos que assegurem o resguardo do que não deseja ver exibido e coloquem em evidência aquilo que desejam ver exibido. A necessidade de preservação da face torna-se particularmente relevante em determinadas situações, nas quais o falante se expõe de forma direta: pedidos, atendimento de pedidos ou recusa em fazê-lo, perguntas diretas e indiretas, respostas, manifestação de opiniões. Cabe acrescentar que a preservação da face deve ser necessariamente considerada em relação ao quadro geral da interação, e não como uma atitude isolada do falante. É o que se verifica no exemplo a seguir: o falante formula uma pergunta que diz respeito à vida profissional do seu interlocutor. Essa pergunta representa, implicitamente, uma “invasão do território” do interlocutor, por isso o locutor procura mitigar os efeitos dessa invasão pelo emprego de um procedimento de atenuação, o emprego do futuro do pretérito:

(01)

L2

eu:: eu lhe perguntaria aí dentro desse problema [o horário de

trabalho de L1]... você não... possui uma... um controle... digamos

assim... em cima de você você deve produzir tanto num dia...

ou... existe isso ou digamos um dia de chuva está um dia horrível

para trabalhar um dia que você está indisposto você poderia pegar

voltar para sua casa entrar num cinema distrair um pouco entende?

... que (que você) você poderia fazer isso?

(NURC/SP 062, linhas 251-258)

No caso da manifestação de opiniões, verifica-se uma dupla atitude por parte dos locutores: por vezes eles se distanciam dos conceitos emitidos (como forma de evidenciar que esses conceitos não são integralmente assumidos), mas, em outras situações, os locutores mostram que assumem – ainda que parcialmente – os juízos expostos. Essa duplicidade de atitudes corresponde a uma das atitudes mais evidentes do texto conversacional: dada a dinâmica desse tipo de texto, e o fato de ele construir necessariamente um trabalho cooperativo, o falante envolve-se diretamente na sua construção, mas, em certos momentos, sente a necessidade de mostrar um prudente afastamento.

 

MONITORAMENTO DO FALANTE

Dentro da dinâmica do diálogo, o ouvinte tem consciência de que necessita exercer uma dupla atividade de monitoramento: o monitoramento da própria fala (automonitoramento do falante) e o das atitudes e reações do ouvinte. No automonitoramento, o falante emprega procedimentos discursivos variados (paráfrases, correções, inserções parentéticas), como forma de certificar-se de que sua fala será compreendida e sua auto-imagem pública não sairá “arranhada”. Já no monitoramento ao ouvinte, busca o falante utilizar-se de procedimentos que lhe assegurem de que o canal de comunicação continua aberto.


 

Automonitoramento do falante

O falante tem consciência de que a sua posição é sempre vulnerável, já que ele pode a qualquer momento, sofrer objeções ou ser interrompido pelo seu parceiro conversacional. Por esse motivo, ele busca monitorar a própria fala, com a finalidade de certificar-se de que está sendo suficientemente claro, e explicativo, que, ademais, o conteúdo de sua fala tem pertinência e relevância em relação ao contexto que se cria (ou se recria) no decurso da própria interação. Além disso, o falante procura resguardar a própria face, prevenindo-se contra a formulação de dúvidas e objeções, sobretudo quando o assunto tratado é de natureza polêmica.

Para o automonitoramento, o falante emprega certos procedimentos incluídos por CASTILHO (1996) entre os procedimentos de reativação ou reformulação textual (paráfrases, repetições, correções) e de desativação ou ruptura (inserções parentéticas, que constituem casos de ruptura tópica parcial).

(a) Paráfrases.

As paráfrases e as correções inserem-se entre os procedimentos de reativação ou reformulação, os quais representam uma volta ao que já foi dito.

Com o uso de paráfrases, o locutor retoma com nova formulação o que já foi dito:

(02)

L1

uhn uhn... é que hoje:: dentro da nossa profissão ainda

mais uma vez falando nela... até parece que sou

emPOLGAdo por ela né? ((risos)) não acha?... o::...

que com a empresa privada hoje em dia ela atende muito

melhor entende?... que as entidades públicas... hoje em

dia se ganha muito mais... então:: o:: órgãos públicos

estão assim muito limitados em termos de... de números

de de vagas para determinadas coisas...

(NURC/SP 062, linhas 850-857)

O segmento parafrástico (sublinhado com um traço) retoma e expande a matriz frástica (assinalada com um traço). Com esse recurso, o locutor explica e concretiza o enunciado anterior e, assim, cumpre uma função contextualizadora. Além disso, esse procedimento preserva a auto-imagem do falante, que, por meio dela, revela capacidade de discorrer sobre o assunto e previne-se contra possíveis objeções.

(03)

L1

[a empregada]

quer dizer não é só não vive em função deles mas de

manhã... a única função dela e me ajudar com eles...

mas eles não aceitam o menino porque... quer fazer tudo

sozinho... no que eu procuro deixar... e a menina porque

quer que seja a (mamãe) que faça né? então sou eu que::

tenho que ir fazer et cetera et cetera (...)

(NURC/SP 360, linhas 307-311)

No exemplo, a paráfrase retoma, de forma resumida, o enunciado anterior, e isso reforça seu papel de dona de casa.

(b)    Correções.

A paráfrase volta-se para o já dito e tem, pois, uma dimensão retrospectiva, enquanto a correção é prospectiva, já que representa a busca do falante pela melhor formulação discursiva. Essa prospecção pode efetuar-se no plano da expressão ou do conteúdo. Os exemplos a seguir ilustram a primeira dessas possibilidades:

(04)

L2

é... trabalha junto ah à Secretaria dos Transportes...

o meu caso... é junto a::(na) na Procuradoria Fiscal...

trabalhando junto com a Secretaria da Fazenda... e

assim tem:: tem a Procuradoria de Assistência

Judiciária... tem a na na promoção social tem::...

em todas as em todas elas tem... agora o:: o:: a

as... as melhores... são junto às assessorias

(NURC/SP 360, linhas 827-833)

 

 

 

(05)

L2

e isso:: éh significa um aumento de vencimentos... e e::

além de que... da/dentro do aumento de vencimentos

haveria... uma promoção de todo o pessoal que está

agora...

 

L1

certo...

 

L2

(porque) o:: pessoal que está agora começa com vinte

a:: vinte bê:: e assim vai indo

[

 

L1

certo

 

L2

então todos esses... a partir de vinte a e vinte bê...

que é o nível... atualmente mais baixo... ta? são

os soldados rasos como a gente conta

 

L1

uhn...

 

L2

eles passariam para nível dois...

 

L1

certo

 

L2

e aí aí aí então a/ abri/a... abriria... mais vagas

(NURC/SP 360, linhas 523-538)

A correção no plano da expressão decorre da quase-simultaneidade que, no texto falado existe entre o planejamento e a realização. Nas ocorrências citadas, verifica-se uma atitude de tateamento em busca da formulação mais adequada. Comprovando esse tateamento verifica-se que a correção no plano da expressão vem associada a marcas de hesitação ou o truncamento.

Na correção voltada para o conteúdo o locutor busca relativizar ou emendar o que disse como forma de prevenir-se de reações desfavoráveis de ouvinte.

(06)

L2

ah:: não tem ah toda a parte eh praticamente toda a

parte jurídica do Estado é feita... não espera aí

espera aí ((risos)) já estou exagerando não é toda a

parte jurídica... do Estado... mas todos::... mas a grande

parte jurídica do Estado... como a e... to/ todo o ser/

todo serviço de advocacia do Estado... é feita por

procuradores do Estado...

(NURC/SP 360, linhas 806-812)

A informante exerce o cargo de procuradora do Estado e sabe que o marido de sua interlocutora também o faz. Em vista disso, ela resolveu reformular o enunciado como forma de atenuar a afirmação anterior.

Ambos os casos de correção estão ligados à busca da formulação discursiva mais adequada, para que o falante não sofra interrupções ou ressalvas.

(c) Inserções parentéticas.

As inserções parentéticas constituem desvios breves e parciais em relação ao tópico em andamento.

As inserções parentéticas que mais nitidamente denotam a função de monitoramento são as que explicitam e contextualizam informações do texto, as que previnem objeções e pedidos de opiniões pessoais. Inserções dos dois primeiros tipos são exemplificadas pelo exemplo a seguir:

(07)

L2

uma amiga minha que faz medicina e ela vai sempre para

o Xingu... no campus avançado da da Paulista né? - - ...

ela estava contando do::... de como que funciona o

cacique da tribo que algumas vezes também é o pajé...

e::... ele é simplesmente o cara que caça mais... mais

esforçado lá o que dá duro tal... então quem não está

a fim de dar duro... fica numa posição inferior mas

isso é muito assim natural... e o camarada que:: que tem

alguma necessidade - - aí você vai entrar em por que ele

tem essa necessidade mas enfim - -... que quer::

sobressair então chega um determinado dia ele diz “olha

eu vou caçar... quem vem comigo e quem vem ajudar

fazer a caçada” não seu o que tem ritual parará... e ele

lidera né?... de uma certa forma mas é bem assim em

função do trabalho a mais que ele realiza que ele tem

uma:: uma posição superior

 

L1

e os filhinhos dele... são considerados superiores ou não?

 

L2

não aí eu já não sei já não entrei::... porque lá es/ éh::

tem os kren-akarore não seu mais o que mas

 

L1

kren-akarore

 

L2

são::... tribos assim que têm mais ou menos a mesma

estrutura... todos no ano... Alto Xingu eu acho Baixo

não sei... e:: aí eu não entrei ((ruídos)) se tem algum

privilégio (...)

(NURC/SP 360, linhas 732-755)

A primeira ocorrência está voltada para c contextualização de informações por meio delas, a informante procura explicar que está aludindo ao câmpus avançado da Escola Paulista de Medicina no Parque Indígena do Xingu. As duas outras, por sua vez, destinam-se a prevenir possíveis dúvidas ou objeções do interlocutor.

No próximo exemplo, as ocorrências representam opiniões que reforçam o que foi dito:

(08)

L1

(no momento) que falta uma

peça que a... o esquema vai evoluindo... sempre e

arranjando pecas... criando peças novas vão distribuindo

funções... necessárias... quer dizer ele pode estar num

esquema de funcionamento... de interdependência muito

grande... e que não pode TER::... eliminado alguma

peça... dele

 

L2

uhn uhn

 

L1

Mas se por algum motivo alguma hora eliminar:: o

Sistema inteiro... pifa né?

 

L2

((ri)) acho que sim né?

 

L1

será que esse daí não é o perigo lá que o... Nostradamus

falou para o ano dois mil?... ele falou que a... vinha

um novo... anticristo... você pode interpretar o anticristo

como digamos... um novo... entre parênteses

computador... um novo sistema né?... de

funcionamento... a coisa está tão... complicada e tão...

certo? ele vai reduzindo cada função... para máximo de

eficiência... mas fica com uma interde/ interdependência

muito grande... hora que... você cortar... o movimento...

pifa tudo né?

(NURC/SP 360, linhas 954-974)

Em ambas as inserções, o informante manifesta uma opinião e, por não se sentir segura, solicita a aprovação de L2 (?, certo?).

Veja-se o exemplo a seguir:

(09)

L1

agora nessa parte de Engenharia também a parte

que eu conheço é a parte de eletricidade...

entende?... o:: normalmente os engenheiros... eletrotécnicos

que eles chamam... eles vão

buscar especialidade no exterior... entende?...

normalmente... principalmente financiado pela própria

empresa entende? então normalmente você vê...

indivíduos se deslocarem daqui fazerem curso na França

... em Porto Rico... ficam dois seis meses... tudo

custeado pela empresa entende?

(NURC/SP 062, linhas 913-922)

Neste exemplo, o informante utiliza o marcador entende? porque não está certo de que o ouvinte dispõe do conhecimento prévio para entender o que está sendo dito. Esses marcadores certificam, pois, que o falante está sendo compreendido e pode continuar a fala. Essa função fica mais evidente quando se considera que vários verbos de valor cognitivo (sabe?, entende?), ou expressões que denotam certeza ou convicção (certo?, tá certo?). Verifique-se, a esse respeito, a presença do segmento parafrástico, que possui uma nítida função contextualizadora.

(d)    Marcadores e procedimentos de atenuação.

Os marcadores e procedimentos de atenuação são empregados com a finalidade de diminuir a força ilocutória do enunciado e, assim, resguardar a auto-imagem (face) do falante:

(10)

 

(L1 e L2 estão a discorrer acerca das respectivas rotinas diárias de trabalho.)

 

L1

dizem né? – você vê – dentro da profissão do vendedor... a

coisa mais difícil é você manter realmente o indivíduo... éh Oito

horas em contato direto com os clientes... uma coisa realmente difícil...

(NURC/SP 062, linhas 231-234)

O falante está a discorrer acerca da própria profissão e, assim, sabe que o assunto é polêmico. Desse modo, ele adota uma atitude de resguardo e afastamento, assinalada pelo emprego do marcador dizem. Com esse marcador, o informante busca proteger-se de possíveis objeções, já que desloca a afirmação do campo meramente pessoal para a esfera do senso comum.

No exemplo a seguir, o resguardo é efetuado por meio de marcadores conversacionais que denotam incerteza ou imprecisão.

(11)

L2

o teu conhecimento especializado não dá para... só atinge uma

área muito limitada e não dá... ah eu não sei... acho que:: eu...

sabe... aí eu acho que o... não mudou muita coisa... se você pen-

sar... assim numa época em que... por exemplo... o trabalho era

bem artesanal... então você tinha o sapateiro... o:: ((tosse))

(cocheiro) não sei quê não sei quê né? ... acho que a especializa-

ção veio com... com a diferenciação humana (...)

(NURC/SP 343, linhas 933-942)

Com o emprego dos procedimentos e marcadores de atenuação, o falante busca diminuir a força ilocutória de suas assertivas e opiniões acerca de assuntos polêmicos, como forma de resguardar a própria imagem e a de seu interlocutor. O emprego dos atenuadores está ligado de modo direto e imediato, à dinâmica do texto conversacional e ao envolvimento entre os interlocutores.

Acrescente-se que, de forma genérica, todos os procedimentos de monitoramento já citados também exercem um papel no plano da preservação da face. Com efeito, a busca da formulação discursiva mais adequada e a explicitação e contextualização dos dados.

 

Monitoramento ao ouvinte (heteromonitoramento)

No item anterior, já foi discutido o fato de que a posição do falante é sempre vulnerável, pois ele pode sofrer “ataques” e perder o turno. Um dos procedimentos para neutralizar esses “ataques” e permitir ao ouvinte concluir sua fala é o emprego de duas espécies de marcadores conversacionais: aqueles que têm por função manter o canal aberto e os que envolvem o ouvinte.

Os marcadores cuja função mais relevante é manter o canal aberto são representados por certas expressões (sabe?, entende?, certo?, não é?, ?):

(12)

L2

certo... e que que você acha dessa polui/ poluição que

tanto falam... que vão controlar vão fazer isso vão criar

a área metropolitana o que que você acha?

 

L1

estão control/ controlando a poluição do ar agora né?...

((riu)) é:: o avanço da tecnologia né? provavelmente

deve ter descoberto aí... éh:: qualquer técnica que vai::

ajudar a::... controlar essa poluição do ar...

 

L2

você vê né? o mundo quer que nós conversemos a...

Amazônia para controlar a poluição mundial – que que

você acha disso aí?

 

L1

não entendi bem a pergunta...

 

L2

o mundo aí o:: naquela::... última exposição que houve

agora aí... – nosso Ministro do Interior foi

representando - - eles não querem que devastem as áreas

amazônicas... devido às:: vastas florestas tudo por causa

da poluição... você acha que seria justo nós conservarmos

aquilo o::u

 

L1

precisa manter o oxigênio do mundo né?... ((risos))

 

L2

e nós é que deveríamos conservar?... que que você acha?

O pessoal todo mundo cortou progrediu...

 

L1

sei lá estão falando muito nisso viu? poluição do ar

agora é::

 

L2

é tema do momento né?

 

L1

é a moda mesmo...

(NURC/SP 062, linhas 176-199)

Marcadores desse tipo são denominados marcadores de busca de aprovação discursiva (GALEMBECK, SILVA e ROSA, 1990). Com o seu emprego, o falante procura certificar-se de que está sendo entendido e – por ser o tema polêmico – suas idéias estão sendo aceitas. O falante procura, assim, uma sinalização positiva para dar continuidade à própria fala, por isso esses marcadores exercem a função subsidiaria de sustentar a fala e propiciar a continuidade do turno. Acrescente-se que de entoação ascendente (própria de interrogações reforça o valor fático destes marcadores).

Os marcadores de envolvimento do ouvinte as geralmente representados por verbos de percepção (ver, olhar, observar), acompanhados ou não por um pronome (você):

(13)

L2

você vê em Londres... você::

[

 

L1

()

 

L2

você olha um mapinha qualquer bairro qualquer lugar que

você quei/ que você queira ir tem assim no máximo com

três quarteirões de distância uma linha de metrô que chega

até lá e::

 

L1

mais ou menos não é bem assim não... dá impressão que é

isso... nós estamos com muita política em cima do metrô né?...

 

L2

uhn uhn

 

L1

então quando foram fazer a Paulista... já tinham gastado

três bi sei lá... cacetada de dinheiro (...)

(NURC/SP 343, linhas 366-377)

Com estes marcadores, o falante dirige-se diretamente ao ouvinte e realça a relevância do que vai ser dito. Trata-se, pois, de recursos que buscam envolver o ouvinte, levando-o a aceitar o que vai ser dito como algo relevante para a interação e o estabelecimento de um contexto comum partilhado. Acrescente-se que esses marcadores, geralmente, introduzem o enunciado.

 

COMENTÁRIOS CONCLUSIVOS

O exame dos procedimentos de auto e heteromonitoramento do falante revela que o emprego dos mesmos está ligado à construção do texto falado e à dinâmica das relações interpessoais. Com efeito, esses procedimentos são de natureza variada (marcadores conversacionais, palavras, frases nominais e verbais) e representam processos diferentes de construção do texto falado (reconstrução: paráfrase e correção; desconstrução: inserções parentéticas; procedimentos de atenuação).

A natureza diferenciada dos processos de reconstrução textual evidencia, de forma clara, o caráter multifuncional e multioperacional dos elementos empregados na construção do texto falado e, ademais, que esses elementos têm por função precípua o estabelecimento e manutenção das relações interpessoais. Fica claro, também, que o texto falado é planejado localmente e que, nesse planejamento local, o falante não pode perder de vista a figura do seu interlocutor.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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CASTILHO, A. T. de & PRETI, Dino. A linguagem falada culta na cidade de São Paulo. Diálogos entre dois informantes. São Paulo: T. A.. Queiroz; FAPESP, 1987.

CASTILHO, A. T. de. Para uma gramática do português falado. Cópia xerografada, 1988.

––––––. A língua falada no ensino de português. São Paulo: Contexto, 1996.

GALEMBECK, Paulo de Tarso; ROSA, Margaret de Miranda & SILVA, Luiz Antônio. O turno conversacional. In: PRETI, Dino & URBANO, Hudinilson. A linguagem falada culta na cidade de São Paulo. v. IV – Estudos. São Paulo: T. A. Queiroz/FAPESP, p. 49-89.

GOFFMAN, E. Ritual de la interacción. Buenos Aires: Tiempo Contemporáneo, 1970.

HILGERT, J. G. A paráfrase: um procedimento de constituição do diálogo. Tese de Doutorado. FFLCH/USP, 1989.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Análise da conversação. São Paulo: Ática, 1986.

PRETI, Dino & URBANO, Hudinilson (orgs.). A sobreposição de vozes numa perspectiva psico-cultural e interacional. In: ––– (orgs.) op. cit. São Paulo: T. A. Queiroz/FAPESP, p. 99-137.

SILVA, Luiz Antônio. Monitoramento na conversação: a interferência do ouvinte. In: URBANO, H. et. al. (org.). Dino e seus temas: Oralidade, literatura, mídia e ensino, 2001.