PESQUISAS SOBRE O LÉXICO
NAS MODALIDADES ORAL E ESCRITA
Gil Roberto
Costa Negreiros
(PUC-SP, UNIVERSITAS)
PRETI, Dino (Org.). Léxico na fala e na escrita. São Paulo: Humanitas, 2003, 277 p.
Merece destaque no meio acadêmico o sexto volume da série Projetos Paralelos, produzido pelos pesquisadores do Projeto de Estudo da Norma Lingüística Urbana Culta de São Paulo (conhecido como NURC/SP). Organizada pelo Prof. Dino Preti, a obra Léxico na língua oral e na escrita é composta de doze artigos. Todos eles visam ao estudo lexical em textos escritos ou orais, sob as perspectivas, principalmente, da Análise da Conversação, da Semiótica e da Sociolingüística Interacional.
Voltado para professores e estudantes de graduação e pós-graduação, esse volume da coleção Projetos Paralelos, de linguagem objetiva e clara, apóia-se, segundo o próprio organizador, “em corpora expressivos, ainda que, muitas vezes, restritos”.
No âmbito da Sociolingüística Interacional, destacam-se os trabalhos de Marli Quadros Leite, Dino Preti e Luiz Antônio da Silva, intitulados, respectivamente, “Aspectos de uma língua na cidade: marcas da transformação social do léxico”, “Variação lexical e prestígio social das palavras” e “Tratamentos familiares e referenciação dos papéis sociais”.
O primeiro demonstra como os falantes registram, na interação, características do meio social em que vivem. Assim, Leite evidencia, com objetividade e rara percepção, como “os falantes revelam em seu discurso, especialmente pelo léxico, aspectos da cidade onde vivem.” (p. 17) Desta forma, o artigo torna-se um importante debate a respeito do conceito de norma culta.
Já Preti postula que, ao contrário do que se pensa, nem sempre o vocábulo culto, considerados a situação de interação e o falante que o emprega, é o mais prestigiado. Fundamentado em Bourdieu, o autor assevera que uma língua vale o que valem aqueles que a falam, assim como o valor do discurso está ligado intimamente àquele que o domina. Assim, o pesquisador, após investigar os fatores de identidade social da língua falada e o prestígio social das variantes lexicais, afirma:
Todo e qualquer estudo que se pretenda fazer sobre o prestígio social dos vocábulos deve levar em conta, não apenas o contexto histórico-social que acompanha a vida das palavras, mas também o fator expectativa nas relações entre os falantes. (p. 66)
Por seu turno, Silva discute a representação lingüística dos papéis sociais no tratamento familiar. Desta forma, o autor faz um levantamento de formas de tratamento empregadas no âmbito familiar no português do Brasil. Apesar da restrição do corpus escolhido, realiza-se um
levantamento generalizado de palavras que estejam inseridas no campo semântico das formas de tratamento entre familiares: pais/filhos, marido/mulher, irmãos/irmãos, sogros/genros, noras/cunhados, cunhados/cunhados, avós/netos, tios/sobrinhos, primos/primos. (p. 170)
Sob o panorama da Análise da Conversação, nota-se um maior número de artigos, como os de José Gaston Hilgert, Leonor Lopes Fávero e Maria Lúcia da Cunha V. Andrade.
O primeiro pesquisador analisa os procedimentos dos interlocutores no trabalho de seleção lexical, evidenciando a “aproximação lexical” como um traço marcante na construção de sentidos. (cf. p. 72-3)
Fávero, por sua vez, em trabalho complementar ao de Hilgert, examina o uso lexical nas correções. A autora, além de demonstrar o papel relevante desempenhado pelas correções no texto falado, afirma que “a escolha do marcador não depende da posição em que ocorre, sendo rara sua não anteposição ao enunciado-reformulador”. (p. 224)
Já Andrade, baseada principalmente em Bakhtin, Brait e Preti, pesquisa a variação do emprego lexical em determinados tópicos discursivos. Segundo ela, realiza-se, desta forma, um estudo do comportamento lingüístico que se manifesta no texto oral como conseqüência do processo de enunciação. Todos os três artigos, entretanto, possuem, como corpora básicos, textos gravados e transcritos pelo próprio projeto, publicados na coleção A linguagem falada culta da cidade de São Paulo.
Paulo de Tarso Galembeck, Ieda Alves e Zilda G. Oliveira de Aquino seguem a mesma linha teórica da Análise da Conversação, apesar de adotarem, como corpus, textos midiáticos, como gravações de programas de TV e de rádio.
Assim, Galembeck comenta a questão dos modalizadores de dúvida e de oposição em corpora retirados de duas edições do programa de entrevistas e debates “Roda Viva”, exibido pela TV Cultura de São Paulo. O objetivo é examinar o uso desses modalizadores “em uma situação na qual o mediador, o entrevistado e os entrevistadores/debatedores interagem entre si e, ao mesmo tempo, revelam estar cientes de estarem interagindo com os telespectadores”. (p. 227)
Aquino, ao observar o texto transcrito de um debate de candidatos às eleições de 2002, mostra como se organizam as unidades lexicais no discurso político. Baseada nos pressupostos teóricos de Van Dijk, Silverstein e Durandi, a autora demonstra como os jargões são usados no discurso político, configurando-se como uma estratégia de propaganda eleitoral.
Abordando o fenômeno da neologia lexical na língua escrita e, principalmente, na língua falada, Alves tece observações a respeito de trechos radiofônicos, transcritos para a pesquisa. Partindo da hipótese segundo a qual todos os tipos de neologismos observados em textos escritos são também encontrados em textos falados, a pesquisadora critica, por meio de análise metodológica do léxico, casos de neologismos presentes no texto falado, selecionados segundo a seguinte tipologia: derivações, composições, composições sintagmáticas, neologias semânticas e estrangeirismos.
Hudinilson Urbano, verificando a relação entre fala e escrita, estuda os verbos de elocução falar e dizer sob o ponto de vista léxico-sintático-pragmático. Urbano destaca, após minuciosas investigações qualitativas e quantitativas, o caráter discursivo-operacional desses verbos no discurso: “Trata-se, pois, de verbos discursivamente operacionais, instrumentais, mais ou menos como as chamadas palavras instrumentais, gramaticais, em relação às palavras lexicais da gramática descritiva”. (165-6)
Fora dos cânones da Sociolingüística e da Análise da Conversação, encontramos em Léxico na língua oral e na escrita dois trabalhos de grande relevo. São eles: “Negociação de temas e figuras na conversação” e “As muitas palavras de Guimarães Rosa”.
O primeiro, escrito por Diana L. Pessoa de Barros, investiga, sob a luz da Semiótica, a seleção de temas no texto conversacional. A autora expõe, dentre outros aspectos, como as negociações lexicais, temáticas e figurativas contribuem para a construção de tipos diferentes de conversação e de relações interativas entre os sujeitos. (cf. p. 138)
O segundo, por seu turno, faz parte dos trabalhos de Nilce Sant’Anna Martins, pesquisadora e especialista em Guimarães Rosa, autora de O léxico de Guimarães Rosa, obra com significativa aceitação na crítica. No artigo em destaque nesta recensão, Martins analisa, sobretudo, o caráter estilístico da escolha lexical na literatura, apoiada nas palavras de Guimarães Rosa, segundo o qual “cada escritor deve criar o seu léxico, através do conhecimento de sua língua e de suas potencialidades”. (p. 258)
Léxico na língua oral e na escrita vem, dessa forma, preencher uma lacuna no estudo lingüístico brasileiro, no que tange às pesquisas lexicais vinculadas às novas propostas da Lingüística contemporânea. Como contribuição acadêmica, acreditamos que, a partir dessa obra, muitos temas de pesquisa poderão surgir, colaborando com a dignidade cultural do país que, segundo Bechara, reflete-se no estudo apurado de sua gramática e, principalmente, de seu léxico.