AS MARCAS DA ORALIDADE NA ESCRITA[1]

José Mario Botelho
(UERJ, FEUDUC e ABRAFIL)

 

RESUMO

Que as pessoas não escrevem da mesma forma que falam é um fato tão óbvio quanto ao fato de considerar a escrita e a fala como modalidades particulares da língua, embora haja características de uma que podem ser normalmente encontradas na outra, já que não são estanques.

Acreditando que há mais semelhanças do que diferenças entre essas duas práticas discursivas e que tais semelhanças são fruto das influências mútuas de uma sobre a outra, as quais se manifestam de forma diferente e em momentos diferentes, procurei observar as marcas da oralidade na escrita em um desses momentos, que, neste trabalho, será denominado Escrita pós-letramento (Escrita2), como o fizeram Brown (1981) e Kato (1987).

Desta forma, o presente trabalho procurou comprovar a influência que a oralidade exerce sobre a escrita, o que faz com que sejam, num determinado momento, isomórficas as sua produções, em virtude de poderem ser encontradas marcas daquela sobre esta.

Palavras-chave – Oralidade; Fala; Escrita; Pós-letramento; Ensino

 

INTRODUÇÃO

Muito se comenta sobre diferenças e semelhanças entre as modalidades oral e escrita, porém o porquê dessas diferenças e semelhanças entre elas não tem recebido a devida atenção.

Sem dúvida nenhuma, as pessoas não escrevem do mesmo modo que falam, mas, como já demonstramos em outro trabalho (BOTELHO, 2004), podemos verificar certo isomorfismo entre tais modalidades, principalmente, se o material das modalidades observado constar de um mesmo ponto do contínuo tipológico.

Certamente, além dessas diferenças e semelhanças parecerem ter a ver com a distinção de como a linguagem é produzida e recebida, há muitas outras que se poderiam observar: o contexto de uso da linguagem, o sentido do que se diz ou se escreve, do objetivo do falante ou do escritor ao produzir seu texto e de outros fatores, que direta ou indiretamente influenciam a forma de produção da linguagem.

Considerando tais fatores de produção de cada uma das modalidades da língua, podemos avaliar a influência de uma sobre a outra e constatar que inicialmente é a oralidade que inicia o ciclo de influências mútuas.

Destarte o objetivo do presente trabalho é tentar mostrar a influência que a oralidade exerce sobre a escrita, o que faz com que os produtos oral e escrito sejam muito semelhantes, principalmente nesse primeiro momento.

 

Ciclo de influências mútuas
de uma modalidade sobre a outra

Para Brown (Apud KATO, 1987), a fala pós-letramento é uma simulação da escrita e, por conseguinte, uma fala-padrão. Parece-me, entretanto, que não ocorre de fato apenas uma simulação da escrita, mas um ciclo de simulações contínuas. Tal ciclo poderia ser esquematizado da seguinte forma:

Figura 1. Direção de simulações entre fala e escrita
com ciclo de simulações contínuas

Corroborando Kato (op. cit.), a Escrita2 e a Fala1, que deve ser entendida como a fala pré-letramento, se distinguem e se distanciam.

Convém lembrar, que nessa Fala1 não há influência da escrita, já que ainda não se deu o contato direto com essa modalidade. Letramento nesse caso deve ser entendido tão-somente como o manuseio individual do sistema escrito e não um conjunto de práticas sociais.

A criança procura simular na fala essa Escrita2, constituindo a Fala2, que por sua vez também influencia a Escrita2, que continua influenciando a Fala2. Dá-se, por conseguinte, um ciclo de simulações contínuas. Considerando tal fenômeno, não se pode crer numa fala-padrão, como afirma Kato, corroborando Brown, nem numa simples tecnologização da fala, como o quer Ong. O resultado do desenvolvimento das influências mutuas das modalidades escrita e oral, que é por si só ilimitado, é muito mais complexo do que se imagina.

De fato, após o contato contínuo com a escrita o indivíduo falante passa a apresentar uma nova fala, característica de um falante letrado, em cujas produções textuais as influências que as modalidades exercem uma sobre a outra podem ser sentidas.

Que cada uma destas modalidades apresenta certas características, que as particularizam e que, de certa forma, nos fazem distinguir uma da outra ninguém pode negar. Crer numa fala-padrão é o mesmo que aceitar a inconsistente tese (antiga e já ultrapassada) de que a escrita seria um tipo de ersatz da fala[2], como se ela fosse uma forma de transcrição da linguagem oral[3]. A diferença está na inversão do foco.

 

Influências da linguagem oral
sobre a prática da escrita

Considerando a Figura 1 acima, a Fala1 é aquela da qual o falante, que ainda não faz uso da escrita (falante iletrado), tem certo domínio; é a fala pré-letramento.

Nos primeiros momentos de desenvolvimento da escrita (Escrita1. Ver Figura 1), essa fala exerce total influência sobre a prática da escrita, que, para o aprendiz, inconsciente da sua função social e importância nas práticas discursivas sociais, é tão-simplesmente uma forma de representação da linguagem oral.

É muito comum, pois, serem encontradas marcas da oralidade em produções escritas desse nível.

Durante a produção dos textos da amostra que será utilizada para a presente digressão senti haver algo além das marcas de uma na outra.

O produto, portanto, é revelador: características de uma são encontradas na outra a par de suas características particulares. E dependendo do estágio de contato com a oralidade e a escrita em que se encontra o produtor (falante–escritor), tais influências são ainda mais sentidas.

É a escrita que, inicialmente, recebe influência da oralidade (Escrita1). Mais tarde, é-lhe imposta uma escrita convencionada, socializada (Escrita2), que difere substancialmente daquela utilizada até então. Esta influencia a sua fala (Fala2), que procura agora reproduzir a escrita, num ciclo contínuo de simulações.

Baseado nesta concepção, é que pude observar que textos escritos do nível inicial apresentam uma semelhança muito grande com a sua oralidade. Para comprovar a hipótese de que a oralidade exercia influência na escritura daquele nível escolar, o que não ocorreria nas segunda e terceira séries do segundo grau, cujos alunos procuram escrever conforme a norma culta e se autocorrigem ao falarem, pedi-lhes que gravassem um texto narrativo sobre um fato marcante. Comparando os textos escritos com os textos orais, pude comprovar a minha hipótese.

 

Apresentação e Análise dos Resultados

Levando em consideração a característica SVO da estrutura frasal da língua portuguesa (que é mais incidente), o que faz a maioria dos estudiosos classificá-la como sendo uma língua de proeminência de sujeito, e que a modalidade tomada como referência é a escrita (linguagem-padrão), classificarei como desviante qualquer estrutura com características diferentes, como é o caso da construção de tópico.

Considerando, ainda, a construção de tópico como uma característica da estrutura frasal do Português falado no Brasil, conceberei as construções desviantes encontradas nos textos escritos influência da oralidade.

Observei os seguintes processos: Topicalização, Construções Passivas, Relativização e Elementos de Coesão.

Urge ressaltar que este estudo é de natureza estruturalista e que tomou, como referência, as estruturas superficiais.

A seguir uma amostragem dos fenômenos escrutados nos textos escritos:

 

Topicalização:

(01) No sábado, eu tinha uma festa (...)

(02) Fui eu e mais dois colegas nossos.

(03) Todas as pessoas que não estavam de carro, ele gritava: – vai a pé, vai a pé.

O caso de topicalização a partir de deslocamento de termos (mormente, de Adjunto Adverbial) e de inversão do sujeito é tão freqüente na linguagem escrita, que se poderia dizer que constitui uma característica desta modalidade quando se deseja um efeito especial.

 

QUADRO DEMONSTRATIVO

Desl./Inver. de Termos

Construção Ergativa

Deslocam à Esquerda

45

01

01

 

Em Português, a distinção entre Topicalização e D.E. se torna difícil, uma vez que o fenômeno da elisão de pronome é muito incidente.

Nenhuma construção com Duplo Sujeito, o que a tradição chamaria de Anacoluto, foi encontrada.

 

Construção Passiva:

(04) Quase fomos esmagados na porta.

(05) (...) e um carro de bombeiro foi chamado.

 

QUADRO DEMONSTRATIVO

Construção Passiva

05

É mister ressaltar que, apesar de terem sido encontrados apenas estes 05 (cinco) exemplos nos textos analisados, as construções de voz passiva (principalmente, as sintéticas) são construções de tópico facilmente encontradas em textos escritos, o que põe em dúvida a classificação do português como língua de proeminência de sujeito.

 

Relativização

(06) (...) para o homem que estava ajudando ela.

(07) (...) da vizinha, cujo filho era meu colega.

As construções com relativização são comuns em ambas as modalidades (oral e escrita) e, nos textos analisados, muitas destas construções foram encontradas.

O que é interessante observar é que não ocorreram falhas quanto ao uso do relativo, como é comum na oralidade: falhas quanto ao uso da preposição necessária ou inadequação do relativo escolhido, como é o caso do uso de “que” universal (sem função na subordinada), ou de “que” em lugar de “cujo”, ou de “cujo” em lugar de “que”, ou “onde” em lugar de outro relativo.

Porém, não posso dizer o mesmo quanto à distinção entre a Subordinada Explicativa e a Subordinada Restritiva, pois, nos textos analisados, os alunos demonstraram não terem domínio das regras de pontuação. Como por exemplo:

(08) (...) falava sobre seu carro, que, segundo eu era um Monza do ano.

(09) Todos os convidados viam a minha alegria que irradiava o salão inteiro.

 

QUADRO DEMONSTRATIVO

Relativização

15

 

Elementos de Coesão:

a) Anáfora:

(10) (...) para tentar pegar a moça mas quando ela chegou perto da ladra.

(11) Depois disso a minha tia não quis saber de voltar lá.

 

b) Catáfora:

(12) Foi o maior auê, todo mundo me zoando.

(13) Mais tarde teve um grande momento coloquei o vestido (...)

 

c) Elipse:

(14) Nós entramos eu experimentei e adorei.

(15) A Apoteose ainda estava vazia (...) e quando deu 7:00h estava lotado.

 

d) Repetição:

(16) Nós ficamos espremidos entre a grade (...) só que a grade “graças a Deus” aguentou.

(17) (...) e fui andando o viaduto do Maracanã a pé até que eu cheguei no Maracanã.


 

e) Pontuação:

(18) (...) um homem que estava ao meu lado, foi um desespero, eu não sabia o que fazer.

(19) Chegamos lá estava a maior confusão para entrar.

 

f) Conectivos:

(20) Larguei o homem lá e saí pela janela do ônibus.

(21) Apesar das condições de transporte a noite de sábado foi boa.

 

g) Marcadores Discursivos:

(22) Porém a minha tia viu e a moça foi embora.

(23) Então conforme as pessoas iam saindo (...)

A análise, a partir dos elementos de coesão, é deveras interessante devido ao grande número de exemplos.

A coesão feita pela substituição de componente por uma Pro-Forma (elemento gramatical representante de um outro elemento) pode ser verificada em todos os textos analisados. A Anáfora ocorreu em grande número; a elipse, considerando os casos em que o sujeito (Pronome Reto) não é necessário, também foi bastante incidente; a Catáfora não foi muito utilizada.

 

QUADRO DEMONSTRATIVO

Anáfora

Elipse

Catáfora

100

61

04

A Coesão feita pela repetição de componentes pode ser observada em todos os textos analisados, e a incidência de estruturas com termos repetidos é bastante considerável. Pouco utilizado foi o processo de coesão a partir da pontuação, sem o recurso de outros elementos, enquanto que o processo de coesão a partir de Conectivos (elemento de ligação entre orações: Conjunção, Pronome Relativo, Preposição e Advérbio) foi muito utilizado.


 

QUADRO DEMONSTRATIVO

Repetição

Pontuação

Conjunção

Pronome Relativo

Preposição

Adverbial

23

13

50

15

09

08

Alguns casos de construção com marcadores discursivos (elementos funcionais que contribuem para a textura, sem que o elemento referencial seja necessariamente o imediatamente anterior).

 

QUADRO DEMONSTRATIVO

Marc. Discursivo

10

Elementos de coesão ocorrem em ambas as modalidades. A diferença reside na escolha do elemento; na linguagem oral, os marcadores discursivos (especialmente “aí”) são mais incidentes e isto provoca a fragmentação. A falta de conectivos também é bastante incidente, e, quando o conectivo é utilizado, verificam-se as falhas.

A utilização de elementos de coesão do tipo conectivo nos textos analisados também favorecem a hipótese da influência da oralidade sobre a escrita.

Além destes elementos acima relacionados, encontrei algumas estruturas sintáticas truncadas, para cuja análise tive dificuldade (seis, ao todo).

(24) No sábado seguinte eu tinha uma festa de 15 anos para eu ir, de uma colega da rua, a Cris, (...).

(25) No caminho houve ataque da Força Jovem que é a torcida do Vasco inimiga.

 

Comentário

Após a amostragem do item anterior, pode-se perceber a complexidade das redações dos alunos de oitava série, as quais apresentam problemas que freqüentemente dificultam o trabalho do professor quando vai corrigi-las.

A análise aqui apresentada não privilegiou a norma, considerada culta, e, por conseguinte, não foi tratada a questão do certo e do errado. Naturalmente, esta norma culta foi considerada, pois serviu de modelo de descrição e análise do material utilizado (redações escolares), uma vez que o objetivo do trabalho é comprovar a influência da oralidade sobre a escrita, principalmente em sua fase inicial.

Daí, não considerar erradas as estruturas sintáticas dos textos analisados, mas inadequadas em relação à norma-padrão, ou desviantes.

O interesse pelo assunto surgiu durante o desenvolvimento normal do meu mister. Como Professor de Redacão das turmas de oitava série e de segundo grau de uma Escola Particular da Ilha do Governador, percebi que havia diferenças no produto das turmas: as redações dos alunos de terceira série do segundo grau apresentavam menos inadequações sintático-semânticas do que as redações dos alunos de oitava série, e que ambas eram similares à oralidade em cada estágio. Isto é, características da oralidade dos alunos da terceira série do segundo grau eram encontradas em suas redações e características da oralidade dos de oitava série, nas suas. Entretanto, os textos daquela se identificam mais com a linguagem escrita do que com a linguagem oral. Concluo, pois, corroborando a teoria de Brown, que neste estágio é a oralidade que procura simular a escrita, o que não se verifica nos textos dos alunos de oitava série, os quais se identificam mais com a linguagem oral.

É interessante observar que, no caso destas turmas, as técnicas de redação lhes são apresentadas na quinta série e somente no segundo grau (especialmente, na terceira série) é que os alunos, com algumas exceções, procuram a autocorreção, que se desenvolve durante o terceiro grau, estágio em que ainda se verificam desvios em textos escritos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BECHARA, Evanildo. A Correção idiomática e o conceito de exemplaridade. In: José C. Azeredo (Org.). Língua em debate: conhecimento e ensino, Petrópolis: Vozes, 2000, p. 11-8.

BOTELHO, José Mario. A natureza das modalidades oral e escrita. In: Filologia, lingüística e ensino. Tomo 2, V. IX, n. 03. CiFEFIL: Rio de Janeiro, 2005, p. 30-42

––––––. Entre a oralidade e a escrita: um contínuo tipológico. In: Produção e edição de textos. V. VIII, n. 7. CiFEFIL: Rio de Janeiro, 2004, p. 57-69.

––––––. O isomorfismo entre as modalidades da língua. In: Discurso e língua falada. CiFEFIL: Rio de Janeiro, 2003, p. 157-77.

––––––. A influência da oralidade sobre a escrita. Monografia Inédita (Curso de Doutorado em Letras – Estudos da Linguagem) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1997.

BLOOMFIELD, L. Language. New York: Holt, 1933.

BROWN, Gillian. Teaching the spoken language. In: Association Internationale de Linguistic Apliquée. Brussel, Proceedings II: Lecture, 1981, p. 166-82.

CÂMARA Jr., J. M. Manual de expressão oral e escrita. 11ª ed. Petrópolis: Vozes, 1991.

CHAFE, Wallace; DANIELEWICZ, Jane. Properties of speaking and written language. In: HOROWITZ, Rosalind; SAMUELS, S. Jay (Eds.). Comprehending Oral and Written Language. New York: Academic Press, 1987, p. 83-113.

FÁVERO, Leonor Lopes et al. Oralidade e escrita: perspectivas para o ensino de língua materna. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 2000.

KATO, Mary A. No mundo da escrita: uma perspectiva psicolingüística. 2ª ed. São Paulo: Ática, 1987.

KLEIMAN, Angela B. (Org.) Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 1995.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2001.

ONG, Walter J. Orality and literacy: The technologizing of the word. London: Methuen, 1982.

TANNEN, Deborah. The oral/literate continuum in discourse. In: Deborah Tannen (Ed.). Spoken and written language: Exploring.


 


 

[1] Esta é uma versão do trabalho apresentado numa sessão de mesa-redonda do X Congresso Nacional de Lingüística e Filologia, realizado pelo Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Lingüísticos no Instituto de Letras da UERJ, de 21 a 25 de agosto de 2006.

[2] “A rigor, a linguagem escrita não passa de um sucedâneo, de um ersatz da fala.” (CÂMARA JR., 1991: 16)

[3] Ver Bloomfield (1933)