O Ir e Vir Semântico: Latim / Português

Letícia Pereira de Andrade (UEMS)

 

Resumo

Este artigo, fruto de minha pesquisa realizada durante o curso de Especialização em Letras oferecido pela UEMS, tem como objetivo mostrar a evolução semântica de alguns léxicos do Latim ao Português, sublinhando as mudanças e permanências, as ampliações e reduções, bem como os retornos de sentido ocorridos nessa diacronia. Para tanto, segue-se a diretriz metodológica de que o “estudo do passado pode iluminar o presente”, como disse Faraco.

Palavras-chave: Evolução semântica; Latim; Português; Vocabulário

 

Introdução

Conhecer uma palavra desde sua origem é como conhecer uma pessoa desde pequeno (Ricardo Schütz)

 

De acordo com a epígrafe, conhecer a evolução do significado de uma palavra, desde sua origem, significa descobrir seu sentido original e conhecê-la de forma mais completa.

Palavras são como povos que migram e miscigenam seus significados, através do contato reprodutivo. O uso da palavra enriquece, preserva e faz evoluir seus possíveis significados, e os traços históricos desse uso fazem o legado de uma cultura. Como na genética, há nesse uso um jogo invisível de luta contínua pela sobrevivência e predominância de significados.

Tudo tem a sua história. E, como diz Faraco (1998: 57), com as línguas não é diferente: “As línguas estão envolvidas num complexo fluxo temporal de mutações e substituições, de aparecimentos e desaparecimentos, de conservação e inovação. Vale dizer, as línguas têm história, constituem uma realidade em constante transformação no tempo”. No entanto, as gramáticas, em geral, não se detêm na questão semântica das palavras. Daí, se ouve muito falar a respeito das graves deficiências que os nossos alunos apresentam ao nível de conhecimento do vocabulário latino/português.

Reconhecida essa realidade e o fato de que o atual estado dos lexemas teve uma origem (e é interessante quando se pode explicar de que forma ele veio a ser como é), em minha pesquisa, intitulada Questões Léxico-Semânticas dos verbos de Apuléio a Vieira, dediquei-me ao estudo diacrônico das significações de lexemas verbais latinos e portugueses, tentando descobrir as diferentes nuanças de significação que essas palavras possuem em vários estágios da língua (Latim Clássico, Latim Vulgar, Português Arcaico, Português Moderno). Isso é verificado através da VINDA do Latim até o Português Moderno e da IDA do Português Moderno até chegar em suas raízes.

Nas páginas que se seguem, será apresentado o encadeamento das acepções de alguns lexemas pesquisados, deixando visível aos olhos de quem quer que seja que o “ir e vir”, isto é, a construção da ponte entre Latim/Português, é interessante, à medida que conseguimos refletir sobre o leque de sentidos das palavras, as variações de sentidos possíveis, além do mais, encontramos na observação da etimologia e da evolução das palavras um sedutor centro de interesse.

 

Caminhando sobre a Ponte

É sabido que as línguas humanas mudam com o passar do tempo. Qualquer parte da língua pode mudar, desde aspectos da pronúncia até aspectos de sua organização semântica e pragmática. E é interessante ressaltar que tudo o que passa deixa sua marca!

Muitos estudiosos esquecem-se, durante o transcurso de suas pesquisas, de que assim como as palavras mudam sua forma e sua sintaxe através dos tempos, também seu significado vai se modificando com o passar dos anos, em decorrência de uma série de fatores sociais e culturais. Segundo Ullmann, “o significado é, provavelmente, o que menos resiste à mudança” (1961: 401).

Como se sabe, o Português provém do Latim Vulgar, o latim falado pela maior parte da população do império. E este já apresentava modificações em relação ao Latim Clássico, a língua escrita: atribuía a alguns vocábulos do Latim Clássico sentido especial; deslocava termos para outra área semântica; apresentava atrevidas metáforas, que afinal se firmavam como a significação genuína da palavra; tinha palavras suas que na língua clássica eram cuidadosamente evitadas (cf Câmara, 1975: 192).

No entanto, muitas palavras que nesse processo mudaram de sentido, voltaram com sentido original por meio da regressão erudita. E existem aquelas cujo sentido primeiro foi modificado na forma culta, mas o conservou na forma popular, como o verbo português Pensar: o primeiro sentido do verbo latino pensare é ‘suspender, pendurar (das conchas da balança), pesar’, e chegou ao Português, por via popular, o verbo Pesar, conservando esse significado; do sentido concreto de ‘pesar’ deriva o figurado de ‘pesar os prós e os contras, ponderar, examinar’, que nos leva ao de ‘meditar, refletir’, existente na forma culta Pensar.

Interessante, também, a palavra cunhado que resulta do latim "cognatu" (‘nascido do mesmo sangue’). “Cognatu" originou em português as palavras cunhado e cognato. A palavra cognato conserva o sentido latino, é a forma erudita, e além do sentido jurídico de parente consangüíneo, usa-se em Gramática para designar a palavra que tem raiz comum com outras, como: claro, clareza, claridade, esclarecer. E, o sentido atual de cunhado (parente por afinidade) nada tem a ver com o seu primeiro sentido, lá no latim (parente pelo sangue).

Dessa forma, percebe-se que nem todas as palavras latinas conservam entre nós a mesma significação. Algumas, além de manterem o sentido primitivo, tomaram acepção diferente; outras, tendo perdido a significação latina, adquiriram, no novo meio, sentido novo. E outras, pelo contínuo desenvolvimento técnico-científico, se vêem reaparecer como uma nova criação, como diz Alves (2001: 30), “a criação de novas palavras, termos, vocábulos deve fazer-se, preferencialmente, por meio do emprego de formantes greco-latinos”. De acordo com Ullmann (1961: 436),

Sempre que seja necessário um novo nome para designar uma idéia ou um objeto novos, podemos fazer uma destas três coisas: formar uma palavra nova a partir de elementos já existentes; importar um termo de uma língua estrangeira ou de qualquer outra fonte; finalmente, alterar o significado de uma palavra antiga.

No mundo contemporâneo, mormente, está ocorrendo um crescimento geométrico do léxico português e das línguas modernas de modo geral, em virtude do gigantesco progresso técnico e científico, da rapidez das mudanças sociais provocadas pela freqüência e intensidade das comunicações e da progressiva integração das culturas e dos povos, bem como da atuação dos meios de comunicação da massa e das telecomunicações. Eis que o Latim oferece termos para muitos novos conceitos a serem expressos nas línguas ditas “modernas”.

Quantas palavras têm raiz latina – do Latim Clássico! - como alomorfe de outra forma vernácula? Algo em torno de 40%, e justamente as mais elaboradas em função dos avanços tecnológicos e científicos. Sem contar as 14% que derivam do grego, via Latim. As ditas palavras eruditas garantiram às línguas modernas uma ampliação do vocabulário – diria até uma multiplicação – suficiente para equiparar-se à ‘Língua por excelência’ do Ocidente, das suas Universidades e das Ciências, tirando-as da condição de pobres dialetos de sua 3 a 5000 palavras ou não muito mais. Além disso, os radicais latinos continuam produtivos e sem fronteiras, em sempre novos neologismos e neonímias. (Bortolanza, 2000:78).

Ullmann, no oitavo capítulo de sua obra Semântica: uma introdução à ciência do significado, elucida que uma das causas da mudança semântica, ou seja, da mudança de significado de uma palavra através dos tempos, é a polissemia, que consiste no fato de uma determinada palavra ou expressão adquirir um novo sentido além de seu sentido original. Vejamos mais alguns exemplos que ilustram como esse processo que leva à mudança semântica é extremamente produtivo e diversificado.

A palavra fazenda, do latim vulgar fac(i) enda, significava originalmente ‘as coisas que devem ser feitas’; ainda no português arcaico passou a designar não mais as coisas a serem feitas, mas as ‘coisas já feitas por alguém ou em algum lugar’; desse segundo sentido, desenvolvem-se dois outros sentidos, de ‘conjunto de bens ou haveres’, sentido em que aparece em Vieira, visto que, quando alguém faz algo, esse alguém provavelmente passa a possuir o que fez ou o produto da venda daquilo que fez, ou de ‘mercadorias ou produtos de uma determinada pessoa, povo ou região’, sentido em que aparece constantemente no século XVIII; dessas duas acepções da palavra fazenda, desenvolve-se uma quarta, de ‘recursos financeiros do poder público’, até hoje presente em determinadas expressões, como Ministério da Fazenda, Secretaria da Fazenda; da idéia de fazenda como ‘mercadoria ou produto’ desenvolvem-se dois outros significados: ‘grande propriedade rural’, onde são gerados vários produtos agrícolas, e ‘pano ou tecido,’ visto que com a chegada da Revolução Industrial o primeiro produto, a principal mercadoria produzida em larga escala foi o tecido (vale a pena mencionar aqui o uso do termo fabric do inglês com o mesmo significado).

Diferente do caso de Fazenda, em que o significado original da palavra deixa de ser usado, repara-se que, em certos casos, os novos significados passam a existir, mas a palavra conserva seu significado original. Por exemplo, a palavra gato, do latim cattu(m), que servia para indicar, originalmente, um ‘tipo de felino’ de pequenas dimensões; como este felino tem o hábito de andar silenciosamente e furtivamente, a palavra gato adquiriu, por um processo metonímico de associação entre o modo de andar de um ladrão e de um gato, o sentido de ‘ladrão, gatuno’; modernamente, um outro tipo de associação metonímica, entre a beleza de um gato e de seus movimentos e a beleza de um jovem, gerou para a palavra gato um novo significado, de ‘homem belo’, com seu feminino gata; ainda, a idéia de gato como ladrão associada ao fato de que o felino gosta de escalar postes e fios levou ao surgimento de mais um novo sentido para essa palavra: ‘instrumento para roubar luz dos fios ou postes’; outro sentido da palavra gato é: ‘atleta que diminui a idade, para atuar em uma categoria inferior’.

Certas palavras passam de um significado original mais restrito para um significado mais geral, como podemos verificar no verbo repetir do latim repĕto-is, -īvī (-ĭī), -ītum (< re- + peto [dirigir-se; buscar; pedir]) que significava 'atacar de novo (latim impessoal) // repetir, tornar a dizer // pedir outra vez, reivindicar, reclamar' e generalizou-se significando não apenas ‘dirigir-se novamente ou pedir outra vez’, mas tornar a executar qualquer ação, ou seja, expandiu a idéia de ‘repetição’ expressa pelo prefixo re-.

Num processo inverso ao descrito acima, algumas vezes, palavras de significado geral passam a ter um significado mais restrito, como a palavra ministério que significava originalmente o ‘ofício de alguém, aquilo que uma pessoa devia fazer’; com o tempo, há uma restrição de significado e a palavra ministério, em religião, passa a indicar somente o ‘ofício de um sacerdote’ ou o ‘lugar dos ministros’.

Certas palavras têm uma história tão interessante que vale a pena contá-las; elas fazem parte da própria história e nos ajudam a entender melhor o mundo em que vivemos e o mundo do qual viemos. Deleitemo-nos, pois, com a palavra amor, que tinha originalmente um sentido passivo, indicando a ‘qualidade de ser amado’; será a influência germânica, com sua sociedade que valorizava bem mais as mulheres do que a sociedade romana, que transformará o sentido da palavra amor em ativo, indicando o ‘sentimento de amar’.

As significações de lexemas são como plantas que vivendo num jardim, umas prosperam, se ramificam, outras se estiolam, algumas são abafadas por vizinhos mais vigorosos, contudo, depois de algum tempo se vê reaparecer... Assim, em semântica histórica, fala-se de processos que restringem e ampliam o significado. Por meio da etimologia, ciência da origem das palavras, que, segundo Guiraud (1975: 129), “constitui uma dimensão diacrônica da semântica”, é possível recuperar, muitas vezes, a seqüência histórica dos significados das palavras.

Vamos, então, por meio da construção da ponte de idas e vindas entre Latim / Português, recuperar acepções primitivas e nuanças de variações semânticas de lexemas a partir do verbo latino convērsor, -āris.

O verbo latino convērsor, -āris, -ātus sum, -āri apresenta as acepções de: 'conservar-se, deter-se, parar, morar em lugar (pessoas e animais); viver em companhia de, conviver, morar com; viver na sociedade, freqüentar a companhia de; haver-se, dirigir-se, comportar-se de certa maneira' (donde conversatĭo,ōnis 'ação de virar, voltear nas mãos, manusear freqüentemente; morada, habitação, domicílio; comércio, trato, familiaridade, intimidade', conversātor,ōris 'comensal, companheiro').

Eis um belo exemplo de mudança de significado, na passagem de convērsor, -āris para conversar, pois conversar, no português moderno, significa basicamente ‘trocar palavras’. Vejamos um texto latino:

a)        iam numinis sui passim tributa venia in mediis conversari populi coetibus (Apuléio, VI, 28) = dignara-se tornar acessível seu poderio e misturar-se à sociedade dos homens; (Vênus dignara-se conviver de novo com os homens, ou seja, freqüentar o local onde os homens vivem).

A base do verbo latino convērsor, -āris, -ātus sum, -āri é vertō (ou vorto, arcaico), -is, vertī, versum, vertĕre que significa 'voltar, virar, desviar; fazer o seu giro, girar’, cujos derivados verbais apresentam dois radicais: vert- e vers-.

Ao radical vert- prendem-se, dentre outros:

1) o verbo adverto,is 'voltar, virar para; estar atento, prestar atenção a, escutar; atrair a atenção; advertir, fazer lembrar; punir, castigar, proceder rigorosamente contra' (donde adversus,a,um 'oposto, contrário, que se afasta'). Vejamos em português:

a.       “Santo Agostinho, distinguindo esta união, e admirando o amor de Cristo nela, depois de advertir que todo o sacrifício se compõe de quatro partes” (Vieira, § VI). (orientar, avisar, fazer lembrar)

2) o verbo converto, -is 'voltar(-se), virar(-se) ; mudar-(se) ; traduzir, verter; converter-se em' que originou em português o verbo converter com a mesma acepção:

b.       “Nenhum cristão há de consciência tão perdida, que não faça conta de se converter e se dar a Deus alguma hora” (Vieira, § VI).

Donde, tem-se o substantivo feminino conversão que indica o ‘ato e efeito de converter-se, fazer mudar’ (< conversĭo, -ōnis 'movimento circular, giro, conversão - à direita, à esquerda – donde, conversão à fé, conversão religiosa’).

Por fim, ao radical vers- vincula-se, dentre outros, o verbo convērsor, -āris, -ātus sum, -āri (< cum- [prefixo que exprime várias idéias: concomitância, reciprocidade, concordância, reforço etc] + versor, -āris, -ātus sum, -āri verbo depoente que significa 'passar e repassar; estar habitualmente, viver, morar, residir; ocupar-se com, versar acerca de, tomar parte em, exercer'). Na passagem de convērsor, -āris para conversar, ocorre mudança de significado, no entanto, verifica-se em outras palavras da família de conversar uma conservação de sentido latino, como o verbo versar (< vērso,as, āvi, ātum, āre 'voltar, revirar, revolver; mudar, alterar') que permanece com o sentido de ‘passar de um a outro’ e ‘ter convivência’(“estatística: pouco usado” – HOUAISS).

Enfim, percebe-se que a mudança semântica de convērsor, -āris para conversar operou-se, porque, ao se freqüentar um local onde há pessoas, evidentemente, trocam-se palavras, daí, a acepção portuguesa do verbo conversar.

Observa-se, por meio da construção léxico-semântica a partir do verbo convērsor, -āris, que a maioria de nossas palavras tem um cordão umbilical semântico latino. Como diz Coutinho (1984:47), “o português é o próprio Latim modificado”. Mas não está modificado de forma que não dê para ser reconhecido: existe um grande elo entre Latim / Português, mormente, no âmbito vocabular. Por isso é importante, aos estudantes do vocabulário português, acompanhar o processo de evolução semântico das palavras desde a latinidade.

Para o sucesso no estudo/aprendizagem do vocabulário latino/português, é interessante que haja exercícios de reflexão sobre o leque de sentidos das palavras, as variações de sentidos possíveis, o vasto conjunto de derivados, como se pode executar a propósito de convērsor, -āris, com base na etimologia e nos recursos da composição e derivação, considerando o primeiro radical. Assim:

Diante desse esquema, percebe-se que, a partir de um radical, pode-se trabalhar com um amplo conjunto de outros vocábulos e com as variações que progressivamente foram assumindo.

Nas aulas de português é possível, mesmo não tendo um conhecimento muito aprofundado das estruturas do Latim, tanto subir quanto descer da árvore genealógica de algumas palavras e chegar até as suas raízes, a fim de encontrar “a galinha dos ovos de ouro”...

Assim, o estudante que deseja compreender de forma aprofundada a língua portuguesa em sua história interna não deve deixar de lado o Latim, pois ele oferece explicações para fenômenos de nosso idioma. Como disse Busarello (1998: 398), “o conhecimento do Latim é condição básica para o aprofundamento do léxico e dos fatos da língua portuguesa, brotada do idioma do Lácio como a flor de seu caule”.

Dessa forma, por meio do “ir e vir” semântico, é possível responder perguntas que eventualmente podem surgir no processo de estudo/aprendizagem do vocabulário, como por exemplo: Por que o verbo despedir significa ‘fazer sair, retirar-se’ ao invés de ‘não solicitar’, haja vista que é um derivado do verbo pedir e o prefixo des- expressa negação, afastamento ou intensidade?

A resposta está na origem, na evolução: o verbo peto, -is e seus derivados latinos tinham duas idéias básicas, a de ‘dirigir-se’ e ‘solicitar’; esta permaneceu no verbo português pedir e aquela foi conservada no derivado despedir (< expetĕre ‘dirigir-se para fora’). Indagação parecida surge diante de querido e requerido: neste conserva-se o sentido latino de ‘pedir’- ‘aquilo que foi solicitado’, naquele, tem-se a nova acepção de ‘querer’, ‘desejar’ – ‘aquele que se quer muito’– inexistente em quaerō, -is e seus derivados latinos.

Os lexemas cuidar (< cogĭto, -as) e curar (< cūro, -as), abre espaço à associação de sinônimos, bem como à observação de prefixos e sufixos na formação de palavras e do valor semântico de que são portadores:

1

Verbo latino cogĭto, -as: ‘pensar’ .

(sem ligação semântica)

Verbo latino cūro, -as: ‘cuidar’.

2

Verbo neolatino cuidar: 1) ‘pensar’; 2) ‘tratar, cuidar’.

Esta acepção 2) sinônimo de 1)

Verbo neolatino curar: 1) ‘cuidar, tratar’; 2) ‘sarar’.

3

Derivado Cuidador: 2) ‘aquele que cuida’.

Acepção 2) sinônimo de 1)

Derivado Curador: 1) ‘aquele que cuida’; 2) ‘aquele que sara um doente’.

4

Verbo Descuidar: 1) ‘deixa de pensar’; 2) ‘não cuidar’.

Acepção 2) sinônimo de 1)

Verbo Descurar: 1) ’não cuidar’.


 

Diante do quadro, percebe-se que aquele que conhece a evolução semântica de uma palavra leva imensas vantagens sobre o que desconhece, pois conhecendo as variações de sentidos das palavras, fica mais fácil escolher um vocábulo por outro em alguns contextos, sem alterar o sentido literal da sentença como um todo.

Igualmente a reflexão de afixos, a consideração do significado dos radicais, por exemplo, de ceder < cēdo, -is (em aceder, deceder, proceder, conceder) e de correr < cūrro, -is (em acorrer, discorrer, ocorrer, recorrer, socorrer) será contributo para uma melhor memorização desses vocábulos, consignando o despertar do hábito de refletir sobre a formação, o conteúdo semântico, as variações de sentido das palavras e as associações possíveis. Daí, livremente, é possível associar as acepções, por analogia, por exemplo, dos verbos acorrer (< accūrro, -is) e recorrer (< recurro, -is) ; acorrer: acepção básica latina de ‘correr para frente’ // daí, ‘ajudar alguém’; se correndo para frente se ajuda alguém, recorrer, que tem acepção básica de ‘correr para trás’, ‘se pede o auxílio para alguém’.

Dessa forma, percebe-se que exercícios que trabalham com as diferentes facetas que caracterizam as palavras, ao longo do tempo, são importantes à medida que aguçam a curiosidade dos estudantes do vocabulário e despertam nestes o hábito de refletir sobre a evolução das palavras, além de facilitar significativamente a leitura e a tradução dos textos, facultando, assim, amplo atributo ao desenvolvimento do espírito crítico e organização do pensamento.

 

Considerações Finais

Todo conhecimento em profundidade tem dimensão diacrônica. (João Bortolanza)

Estudar/Aprender o vocabulário, seja latino ou português, pressupõe construir uma ponte para perceber o elo existente entre a língua-mãe e a língua-filha. Isso supõe conhecer uma língua em profundidade, em sua dimensão histórica, social e diacrônica.

Ao construir essa ponte, observamos o grande elo existente entre Latim e Português, que na verdade é uma única língua evoluída, pois até mesmo as mudanças ocorridas na evolução léxico-semântica diacrônica não são totais, isto é, ocorre mutação, mas, simultaneamente, há, na própria palavra evoluída ou em seus derivados, permanências ou alguma ligação de sentido maior ou menor.

Dessa forma, passeando pela ponte construída, tentamos deixar visível aos olhos de quem quer que seja que o “ir e vir” é possível nas aulas de Português, ou seja, podemos tanto subir na árvore quanto descer dela e escavá-la até as suas zonas mais abissais. Só depende da Prática. Eis tudo!

 

Referências Bibliográficas

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APULÉIO, Lúcio. Eros e Psique. In: O asno de ouro. Introd., trad. e notas de Ruth Guimarães. 3ª ed. Rio de Janeiro: Ediouro, [s/d.].

BORTOLANZA, João. O latim e o rnsino de português. In: Revista Philologus, Rio de Janeiro: set./dez. 2000, n. 18, p. 77-85.

BUSARELLO, R. Máximas latinas. Florianópolis: Autor, 1998.

CÂMARA JR. J. M. História e estrutura da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Padrão, 1975.

COUTINHO, Ismael de Lima. Pontos de gramática histórica. 8ª ed. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico, 1984.

FARACO, Carlos Alberto. Lingüística histórica. 2a ed. São Paulo: Ática, 1998.

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HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. CD-ROM, 2001.

ULLMANN, Stephen. Semântica: uma introdução à ciência do significado. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1961.

VIEIRA. António Padre. Sermão Segundo do Mandato. In: Sermões escolhidos, Vol. I. São Paulo: Edameris, 1965.