REFLEXÕES SOBRE A SAUDADE[1]

Maria Paula Lamas

 

Resumo

Trata-se de uma reflexão sobre a etimologia da palavra saudade e da sua especificidade relativamente ao povo português.

Palavras-chave: saudade, saudosismo, Teixeira de Pascoaes

 

Ao reflectirmos sobre a etimologia do vocábulo saudade,[2] verificamos que, desde o início, remete para isolamento e exprime a mágoa da separação. Surge, logo, nas manifestações da arte trovadoresca, como um dos temas retratados. É o que se constata na cantiga de amigo da autoria de D. Dinis, em que a solitária donzela, inserida num cenário campestre, pretende saber notícias do seu namorado:

-Ai flores, ai flores de verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?

A saudade é uma palavra frequentemente «(...) considerada sem par noutras línguas e que exprime misteriosa multiplicidade de sentimentos (...).» (Grande..., 1989) Através da «(...) carta dirigida por D. João da Silva e Meneses a D. Magdalena, vê-se (...) que em 1593 a saudade já passava por ser um vocábulo privativamente português, e denominava um sentimento doce-amargo, também privativamente português.» (VASCONCELÇOS, 1990: 88)

A este respeito, Joaquim de Carvalho questiona-se:

1-     será a saudade um sentimento com origem exclusiva no Noroeste da Península Ibérica (Douro e Galiza) ?; 2- será a saudade um sentimento peculiar apenas a todo o povo português?; 3- será a saudade um sentimento passível de ser vivido por todos os homens? (CARVALHO, 1998: 49).

Joaquim de Carvalho, ao ponderar sobre as três hipóteses, conclui que a terceira é a mais plausível, embora reconheça que «(...), por tradição lírica peninsular e circunstancialismos históricos de Portugal como reconquistador de território (fronteiras instáveis) e país marítimo (Descobrimentos), este sentimento tenha ganho entre nós um carácter metafísico não presente na mentalidade de outros povos.» (Ibidem)

Sobre o mesmo assunto, D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos também tece considerações, alegando que «[é] inexacta a ideia que outras nações desconheçam esse sentimento» (Vasconcelos, 1990: 45). Acrescenta, ainda, que «[i]lusória é a afirmação (...), que mesmo o vocábulo Saùdade (...) não tenha equivalente em língua alguma do globo terráqueo (...).» (Ibidem).

Quando se fala de saudade, é também imperioso referir Teixeira de Pascoaes, que defende que esta «(...) é só nossa, que é intraduzível, que é da nossa Raça, porque é de origem colectiva, e encontra a sua mais alta expressão no Cancioneiro do Povo (...)» (PAISCOIAIS, 1986: 67).

Este escritor surge inserido no movimento cultural que data de 1910, e que tem como primordiais objectivos a recuperação dos valores originais e o renascimento nacional. A saudade, considerada um misto de nostalgia e esperança, funcionaria como estímulo para a criação de uma outra Pátria, que ressuscitaria do obscurantismo e que restabeleceria a glória no país. Através da saudade, elevada a religião, pretendia-se alcançar o Absoluto, a nebulosidade reveladora de um novo Deus, com vista à reanimação lusitana.

A teoria de Teixeira de Pascoaes é contestada, entre outros, por António Sérgio, que se encontra identificado com a tradição racionalista ocidental, e que condena os saudosistas por conceberem a saudade, como um sentimento exclusivo do povo português. Este pensador chega a acusar o movimento saudosista de «(...) pura esquizofrenia cultural de quem, de tanto glorificar a casa própria, não só recalca de todo a casa alheia, como é igualmente incapaz de lobrigar o mínimo defeito na sua própria casa» (Apud CARVALHO, 1998: 35).

Clara Calafate adopta uma posição mais moderada, ao afirmar relativamente a Teixeira de Pascoaes que «[s]e havia ingenuidade neste por basear a redenção da Pátria num excesso de sonho, não havia menos em António Sérgio, pelo seu excessivo espírito prático» (Apud SÁ, 1992: 271). É também da opinião de que «[b]astaria um pouco de moderação para os aproximar, porque afinal um e outro representavam apenas facetas diferentes duma mesma realidade humana – o espírito e a matéria reclamavam os seus justos direitos» (Ibidem).

Ao comparar a saudade que surge em Teixeira de Pascoaes com a retratada pelos poetas que o antecederam, verifica-se que nestes trata-se de uma emoção espontânea e naquele de uma emoção laborada. Um dos vates a cantar a saudade, eternizando-a, foi Luís de Camões, como se constata no soneto Alma minha gentil, que te partiste, em que o poeta revela uma enlutada mágoa. Não suportando a dor da separação, pretende partir rapidamente para o Céu, como única hipótese de um reencontro com a amada.

A saudade está também presente, desde longa data, na sabedoria popular. Há vários adágios que aludem a este sentimento, como por exemplo, O passado dá saudades, o presente dissabores e o futuro receios, que transmite a insatisfação perante o momento actual. Igualmente é utilizada, com frequência, em expressões familiares, como é o caso do cumprimento Dá saudades..., destinado a uma pessoa que não se encontra presente e por quem se nutre amizade e, ainda, morrer de saudades, que exprime o desgosto provocado pela ausência de alguém ou de algo que nos é querido.

Ao falarmos do património cultural popular, não nos podemos olvidar do fado, tipicamente português, preferencialmente de índole fatalista, recorrendo frequentemente ao tema da saudade, como demonstra esta quadra cantada por Alfredo Marceneiro:

Cabelo branco é saudade
Da mocidade perdida
Às vezes não é da idade
São os desgostos da vida.

Igualmente virados para o passado estão aqueles que, por forçosos motivos, tiveram de abandonar a sua terra em busca de melhor sorte. Portugal, sendo um país de emigrantes, está, desde logo, propenso ao sentimento nostálgico da saudade, a qual remonta aos Descobrimentos, época também propícia a muita dor devido ao afastamento prolongado entre os navegadores e os seus familiares. É, ainda, imperioso destacar a inolvidável guerra colonial, que provocou tanta saudade temporária ou infinita.

Na realidade, a saudade está intimamente ligada ao povo português, embora não seja exclusiva deste. No entanto, trata-se de um assunto mais complexo do que aparenta à partida. Devido a este facto, muitas têm sido as definições e as contradições, múltiplos os contextos e respectivas implicações, sem se conseguir um resultado conclusivo.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Carvalho, Joaquim de. Elementos constitutivos da consciência saudosa e problemática da saudade. 2ª ed. Lisboa: Lisboa Editora, 1998.

Duarte, Leal Conselheiro e Livro da Ensinança de Bem Cavalgar toda Sella. Lisboa: Typographia Rollandiana, 1843.

Filosofia da Saudade. Selecção e organização de Afonso Botelho e António Braz Teixeira. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986.

Fontinha, Rodrigo. Novo Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Porto: Editorial Domingos Barreira, 19-.

Grande enciclopédia portuguesa e brasileira. Lisboa: Editorial Enciclopédia, 1989.

PASCOAIS, Teixeira de. Filosofia da saudade. Selecção e organização de Afonso Botelho e António Braz Teixeira. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986.

, Maria das Graças Moreira de. Estética da saudade em Teixeira de Pascoaes. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1992.

Vasconcelos, Carolina Michaëlis de. A saudade portuguesa. Aveiro: Estante, 1990.


 


 

[1] Opúsculo publicado em Portugal, em 2003.

[2] «Saudade, s. f. (Lat. solitate(m) > suidade > soidade > arc. soedade) – Sentimento triste por uma coisa subjectivamente boa, que se perdeu ou que está ausente (...).» (FONTINHA, 19-).