O SENEX NA COMÉDIA DE PLAUTO
RESUMO
Visão geral do senex plautino. Apresentação do personagem Euclião. Descrição de alguns traços do seu caráter, com base em sua fala e na de outros personagens, cujas falas encontram-se identificadas pelas letras iniciais de seus nomes, de acordo com o modelo adotado pela edição crítica da Belles Lettres. LAR = prólogo, Lar Familiaris, deus protetor da família, EVC = Euclião, LYC = Licônides, STA = Estáfila, CONG = Congrião, MEG = Megadoro, STR = Estróbilo e ANTH = Ântrax.
Palavras-chave: Aulularia, Plauto, senex, Euclião.
INTRODUÇÃO
Euclião é o protagonista da Aulularia de Plauto, peça que inspirou, dentre outras, L’avare de Molière e O santo e a porca de Ariano Suassuna. Um pobretão que ficou rico depois de encontrar, na lareira de sua casa, uma marmita com ouro. O traço principal de seu caráter é a avareza, explorada pelo comediógrafo latino para extrair efeitos cômicos. Contudo, Euclião apresenta atos e comportamentos que trazem à tona outros traços de sua personalidade, captados, sobretudo, no relacionamento e convívio que tem com sua criada, Estáfila.
É, sem dúvida, na galeria dos senes de Plauto, a mais célebre criação do cômico latino, daí dedicarmos a ele maior atenção neste artigo.
O SENEX NAS COMÉDIAS DE PLAUTO
O senex é bastante explorado nas comédias de Plauto, sendo nelas freqüentemente fonte de comicidade. Ele está presente em quase todas as peças do comediógrafo, ficando de fora apenas no Amphitruo, no Curculio e no Persa. Na maior parte das obras do poeta cômico, participa ativamente da ação, desempenhando inclusive, em alguns casos, a função de protagonista. Apresenta papel episódico somente nos Menaechmi e no Truculentus. Plauto explorou tanto esse personagem que compôs peças com dois senes, e até mesmo com quatro, como ocorre no caso do Trinummus.
Geralmente, é um cidadão casado, de classe média, pai-de-família e conservador, cuja idade situa-se entre os cinqüenta e sessenta anos. Ou ainda qualquer outro varão dentro ou acima dessa faixa etária, solteiro ou viúvo, que exerça ascendência sobre os demais membros do núcleo familiar.
Exerce quase sempre o papel de um velho avarento, irascível e severo, caso em que é pintado como uma figura tola, grotesca e ridícula. A esta categoria de senex, vítima freqüente das trapaças dos escravos, pertencem Nicóbulo das Bacchides, Perífane do Epidicus e Teopropides da Mostellaria.
Entretanto, o senex plautino apresenta outros traços relevantes que vão além dessa classificação.
Ao lado dos velhos severos, encontramos em Plauto os tolerantes e indulgentes. É o caso de Filoxeno das Bacchides, que entende e aprova todas as extravagâncias do filho.
Não faltam também os pais afetuosos: aqueles que recebem com alegria e ternura o filho que retorna ao lar paterno, depois de muito tempo perdido ou capturado. Hegião dos Captiui, Hanão do Poenulus, Demones do Rudens e Carmides do Trinummus fazem parte desse grupo. Nem mesmo estão ausentes os bondosos, como Filto do Trinummus, que se empenha para ver concretizado o desejo do filho de se casar com uma moça sem dote.
Há ainda os maridos devassos e infiéis, que traem suas esposas envolvendo-se em aventuras amorosas com a “namorada” do próprio filho. Os mais representativos dessa classe de velhos libertinos são Lisidamo da Casina, Demifo do Mercator, Demeneto da Asinaria e Antifo, o viúvo do Stichus.
Estão presentes também, nas comédias de Plauto, os velhos prestativos, alguns deles, amigos fiéis e de bom conselho. Dentre estes, podem ser citados Califo do Pseudolus, Megaronides e Calicles do Trinummus, Alcesimo da Casina, Lisímaco do Mercator e outros.
Ao contrário desses velhos prestimosos, existem também os egoístas. Simão da Mostellaria se inclui neste grupo, visto que não se comove nem um pouco com os problemas alheios, nem sequer com os de seu vizinho.
Outro tipo de senex encontrado em Plauto é o do velho jovial, solícito e hospitaleiro. Encarna este modelo Periplectômeno, o celibatário do Miles gloriosus, que hospeda em sua casa, com todas as atenções, o jovem Plêusicles.
Ainda que raro, o senex paciente e sábio também aparece no teatro de Plauto e está representado, sobretudo, pelo bom Megadoro da Aulularia.
Era nosso protagonista um homem pobre que possuía como patrimônio uma pequena extensão de terra, deixada como herança por seu pai. Além de pobre, Euclião era também avarento, defeito moral que herdara do pai e do avô:
LAR. Is quoniam moritur, – ita auido ingenio fuit
– Numquam indicare id filio uoluit suo,
Inopemque optauit potius eum relinquere
Quam eum thesaurum commonstraret filio.
Agri reliquit ei non magnum modum,
Quo cum labore magno et misere uiueret.
Vbi is obiit mortem qui mihi id aurum credidit,
Coepi obseruare, ecqui maiorem filius
Mihi honorem haberet quam eius habuisset pater.
Atque ille uero minus minusque inpendio
Curare minusque me impertire honoribus.
Item a me contra factum est: nam item obiit die <m>.
Is ex se hunc reliquit qui hic nunc habitat filium
Pariter moratum, ut pater auusque huius fuit. (v. 9-22)
Como estava para morrer – assim foi de natureza avarento – este jamais quis revelar isso ao seu filho e preferiu deixá-lo pobre a mostrar-lhe o referido tesouro. Deixou-lhe (apenas) uma pequena extensão de terra, para que vivesse com tamanho sacrifício e miseravelmente. Quando aquele [avô de Euclião] que me confiou o tal ouro morreu, comecei a observar se porventura o filho [pai de Euclião] me prestava maior honra do que seu pai havia me prestado. Mas, na verdade, ele importava-se cada vez menos (comigo) e menos me reverenciava com oferendas. Em resposta, tratei-o de maneira semelhante, pois morreu na mesma penúria. (Ele) deixou de si este filho [Euclião] que agora mora aqui, (e) de costumes iguais, como foi o pai e o avô dele.
EVC. Postquam hanc rationem uentri cordique edidi,
Accessit animus ad meam sententiam,
Quam minimo sumptu filiam ut nuptum darem.
Nunc tusculum emi hoc et coronas floreas; (v. 382-385)
Depois que apresentei este argumento ao coração e à barriga, tomei a decisão de casar (minha) filha com o mínimo de despesa. Então comprei este grão de incenso e (estas) coroas de flores.
Ele tinha uma filha, chamada Fedra, que viria a ser prometida em casamento a Megadoro, um rico senhor da vizinhança. Esta, ao contrário do pai, prestava culto freqüentemente ao deus Lar da família. Por isso, em gratidão à reverência da moça, certo dia o deus Lar resolveu mudar completamente o destino de Euclião, fazendo-o encontrar uma marmita abarrotada de ouro:
LAR. Huic filia una est; ea mihi cottidie
Aut ture aut uino aut aliqui semper supplicat;
Dat mihi coronas. Eius honoris gratia
Feci thesaurum ut hic reperiret Euclio,
Quo illam facilius nuptum, si uellet, daret. (v. 23-27)
Este tem uma filha; ela presta-me culto sempre, todos os dias, ou com incenso ou com vinho ou com alguma (outra oferenda). Dá-me coroas de flores. Por causa desta consideração, fiz com que Euclião encontrasse aqui o tesouro, para que, se quisesse, a concedesse mais facilmente em casamento.
Apesar de tornar-se rico, Euclião conservou seus antigos e modestos hábitos de vida: não fez nenhuma reforma na casa,
EVC. Araneas mihi ego illas seruari uolo. (v. 87)
Eu quero que aquelas teias de aranha sejam guardadas para mim.
nem mesmo comprou uma roupa nova para usar no casamento da filha:
MEG. Tamen [e] meo quidem animo aliquanto facias rectius,
Si nitidior sis filiai nuptiis. (v. 539-540)
Entretanto, na minha opinião, ficarias um pouco melhor se, ao menos, te vestisses com mais elegância nas núpcias de (tua) filha.
EVC. Pro re nitorem et gloriam pro copia
Qui habent meminerunt sese unde oriundi sient.
Neque pol, Megadore, mihi neque cuiquam pauperi
Opinione melius res structa est domi. (v. 541-544)
Aqueles que exibem a elegância, de acordo com (suas) posses, e a vaidade, de acordo com (sua) riqueza, se lembram (da família) da qual nasceram. Por Pólux, Megadoro, nem eu, nem outro pobre, como eu, temos em casa uma montanha de dinheiro, mais fortuna do que se pensa.
Sua riqueza transformou-lhe a vida num verdadeiro inferno. Euclião passou a ser uma pessoa desassossegada e atormentada. Vivia enterrando e desenterrando sua querida marmita:
EVC. Nunc ibo ut uisam, sitne ita aurum ut condidi,
Quod me sollicitat plurimis miserum modis. (v. 65-66)
Agora irei para que veja se o ouro, o qual atormenta, de muitos modos, a mim miserável, se encontra da mesma maneira como escondi.
O infeliz do velho passava noites em claro, vigiando seu precioso tesouro:
<STA.> Peruigilat noctes totas; tum autem interdius
Quasi claudus sutor domi sedet totos dies. (v. 72-73)
Vela todas as noites. Além disso, durante todo o dia permanece em casa como (se fosse) um sapateiro coxo.
Quase não saía de casa, e quando resolvia ir a algum lugar, ia preocupado, com medo de que alguém lhe roubasse a marmita:
EVC. Occlude sis
Fores ambobus pessulis. Iam ego hic ero. –
Discrucior animi, quia ab domo abeundum est mihi. (v. 103-105)
Por favor, tranca a porta com os dois ferrolhos. Eu já estarei aqui. Estou com o espírito atormentado, porque tenho que sair de casa.
Tinha por ela um apego tão doentio que, temeroso de perdê-la, buscava cercá-la de todos os cuidados e resguardá-la de todos os perigos:
EVC. Hoc quidem hercle quoquo ibo mecum erit, mecum feram,
(v. 449)
Certamente, por Hércules, para onde quer que (eu) vá, isto estará comigo, comigo levarei.
Euclião ficou tão atormentado que nem sequer percebeu que a filha estava grávida, prestes já a lhe dar um neto. E pior: grávida de Licônides, sobrinho de Megadoro, o ricaço a quem ele prometera a mão de Fedra.
Euclião comportava-se como um louco: falava sozinho, tinha visões e imaginava coisas:
STR. Insanis; perscrutatus es
Tuo arbitratu, neque tui me quicquam inuenisti penes. (v. 654)
Estás louco. Revistaste à vontade e não encontraste nada teu em meu poder.
LYC. Sanus tu non es qui furem me uoces. (v. 769)
Tu não estás bem (da cabeça) para que me chames de ladrão.
Ficava transtornado com qualquer barulho ou sinal ao seu redor e entrava em pânico imediatamente, só em imaginar que tal fato ocorria porque alguém estivesse roubando seu tesouro:
EVC. Sed quid ego apertas aedis nostras conspicor?
Et strepitust intus. Numnam ego compilor miser?
Ei mihi!
Perii hercle: aurum rapitur, aula quaeritur.
[Nimirum occidor, nisi ego intro huc propere propero currere.]
Apollo, quaeso, subueni mihi atque adiuua.
Confige sagittis fures thesaurarios,
<Si> cui in re tali iam subuenisti antidhac. (v. 388-389; 392-396)
Mas por que eu vejo aberta a minha casa? E lá dentro há barulho. Acaso, pois, eu, infeliz, estou sendo roubado? Ai de mim! Estou perdido, por Hércules, (meu) ouro está sendo roubado, (minha) marmita procurada. Certamente estarei liquidado se eu não me apressar em correr rapidamente lá para dentro. Apolo, eu (te) suplico, vem me socorrer e ajuda-(me). Trespassa com (tuas) flechas (estes) ladrões de tesouros, <se> antes disto já vieste em socorro de alguém em tal situação.
EVC. Non temere est quod coruos cantat mihi nunc ab laeua manu.
Semul radebat pedibus terram et uoce croccibat sua:
Continuo meum cor coepit artem facere ludicram
Atque in pectus emicare. Sed ego cesso currere? (v. 624-627)
Não é por acaso que um corvo grasna para mim agora do lado esquerdo. Ao mesmo tempo, ciscava com os pés a terra e crocitava com sua voz: imediatamente meu coração começou a disparar e a saltar em (meu) peito. Mas (por que) eu demoro a correr?
Além de louco, Euclião transformou-se também num homem agressivo. Tratava a criada com impaciência:
EVC. Exi, inquam, age exi! exeundum hercle tibi hinc est foras,
Circumspectatrix cum oculis emissiciis! (v. 40-41)
Sai, digo, vamos, sai! Por Hércules, tu tens que sair daqui para fora, espiã dos olhos esbugalhados.
EVC. Abscede etiam nunc, etiam nunc, etiam... ohe, (v. 55)
Afasta-te, agora mesmo, agora mesmo, (agora) mesmo... Basta.
Maltratava e açoitava a pobre coitada a todo instante. E pior ainda: com medo de que ela descobrisse seu tesouro e revelasse o segredo a alguém, fazia-lhe terríveis ameaças:
EVC. Oculos hercle ego istos, improba, ecfodiam tibi,
Ne me obseruare possis, quid rerum geram. (v. 53-54)
Por Hércules, eu vou furar esses teus olhos, ó maldita, para que (tu) não possas me observar, (nem saibas) que coisas faço.
Ninguém suportava a fúria desenfreada do velho que submetia a todos, conhecidos e estranhos, aos mesmos constrangimentos e humilhações:
EVC. Mirum quin tua [nunc] me causa faciat Iuppiter
Philippum regem aut Dareum, triuenefica. (v. 85-86)
É admirável que agora, por tua causa, Júpiter não me torne um rei Filipe ou um Dario, sua bruxa, três vezes bruxa.
EVC. <I> foras, lumbrice, qui sub terra erepsisti modo,
Qui modo nusquam comparebas: nunc cum compares peris.
Ego [ede] pol te, praestrigiator, miseris iam accipiam modis.
(v. 628-630)
Vai para fora, minhoca, (tu) que ainda agora saíste rastejando das (profundezas) da terra, (tu) que há pouco não aparecias em nenhuma parte: agora, quando apareces, estás perdido. Eu, por Pólux, ó embusteiro, vou te tratar agora de um modo cruel.
CONG. Ita me miserum et meos discipulos fustibus male contuderunt.
Totus doleo atque oppido perii; ita me iste habuit senex gymnasium.
Neque ligna ego usquam gentium praeberi uidi pulchrius,
Itaque omnis exegit foras me atque hos onustos fustibus. (v. 409-412)
Por esta razão, encheram-(me) de bordoadas, a mim, infeliz, e a meus ajudantes. Estou todo doído e estou completamente perdido. Esse velho me moeu de pancadas. Em nenhum lugar do mundo eu vi lenha ser oferecida mais abundantemente. E assim expulsou (a) todos (nós) para fora: (a) mim e àqueles castigados pelas varas.
Todos ficavam espantados diante de tão estranho comportamento, sem entender que tudo aquilo se passava por causa de uma marmita com ouro que Euclião temia perder. Não sabiam que o velho havia ficado rico, porque este não fazia outra coisa senão lamentar-se de sua “pobreza”:
EVC. Pauper sum, fateor, patior; quod di dant fero. (v. 88)
Sou pobre, confesso, sofro. O que os deuses dão, suporto.
EVC. Venit hoc mihi, Megadore, in mentem, te <d> esse hominem diuitem,
Factiosum, me item esse hominem pauperum pauperrimum.
(v. 226-227)
Vem-me à cabeça isto, Megadoro: tu és um homem rico, endinheirado, do mesmo modo que eu sou dentre os pobres o homem mais pobre.
EVC. Meam pauperiem conqueror.
Virginem habeo grandem, dote cassam atque inlocabilem,
Neque eam queo locare cuiquam. (v. 190-192)
Lamento a minha pobreza. Tenho uma donzela crescida, desprovida de dote e que não pode se casar, nem posso dá-la em casamento a ninguém.
Sabiam, sim, que o velho era avarento e exploravam esse traço de sua personalidade para expô-lo a chacotas e ao ridículo. Estróbilo, o escravo da peça, e Ântrax, um dos cozinheiros contratados para preparar o banquete do casamento de Fedra, zombam da avareza de Euclião, contando dois engraçadíssimos episódios, nos quais sua mesquinhez o leva a lamentar a água que gasta no banho e o pouco de comida que lhe roubou um milhafre:
STR. At scin etiam quomodo?
Aquam hercle plorat, cum lauat, profundere. (v. 307-308)
Mas acaso sabes também de que maneira? Por Hércules, quando (ele) toma banho, lamenta que a água se derrama abundantemente.
[ANTH.] Pulmentum pridem ei eripuit miluus.
Homo ad praetorem plorabundus deuenit:
Infit ibi postulare plorans, eiulans,
Vt sibi liceret miluum uadarier.
Sescenta sunt quae memorem, si sit otium.
Sed uter uestrorumst celerior? memora mihi. (v. 316-321)
Certa vez um milhafre roubou-lhe uma iguaria. O homem, banhado em lágrimas, dirigiu-se ao pretor: então, chorando, lamentando, começou a pedir que lhe fosse permitido citar o milhafre em juízo. São inúmeras (as histórias) que (eu) poderia contar, se tivesse tempo. Mas qual de vós dois é o mais rápido? Conta para mim.
Embora não chegasse a ser um misantropo, evitava ao máximo o contato com vizinhos e estranhos, proibindo a criada de recebê-los em sua casa durante sua ausência:
EVC. Abi intro, occlude ianuam; iam ego hic ero.
Caue quemquam alienum in aedis intromiseris.
Atque etiam hoc praedico tibi:
Si Bona Fortuna ueniat, ne intromiseris. (v. 89-90; 99-100)
Vai para dentro, fecha a porta. Eu já estarei aqui. Não recebas nenhum estranho em casa. E também te ordeno isto: se a Boa Fortuna vier, não (a) deixes entrar.
Por ocasião dos preparativos para o banquete do casamento da filha, após retornar do mercado, Euclião encontrou em sua residência uns cozinheiros desconhecidos. Não hesitou. Expulsou-os dali debaixo de pancadas:
CONG. Ita me miserum et meos discipulos fustibus male contuderunt.
Totus doleo atque oppido perii; ita me iste habuit senex gymnasium.
Neque ligna ego usquam gentium praeberi uidi pulchrius,
Itaque omnis exegit foras me atque hos onustos fustibus. (v. 409-412)
Por esta razão, encheram-(me) de bordoadas, a mim, infeliz, e a meus ajudantes. Estou todo doído e estou completamente perdido. Esse velho me moeu de pancadas. Em nenhum lugar do mundo eu vi alguém levar tanta lenha no lombo. E assim expulsou (a) todos (nós) para fora: (a) mim e àqueles castigados pelas varas.
Num acesso de cólera, matou o galo da criada, por suspeitar de que o animal ciscava a terra para denunciar aos cozinheiros o esconderijo de seu tesouro:
EVC. Condigne etiam meus me <d> intus gallus gallinacius
Qui erat anui pecularis perdidit paenissume.
Vbi erat haec defossa, occepit ibi scalpurrire ungulis
Circumcirca. Quid opus est uerbis? ita mi pectus peracuit.
Capio fustem, obtrunco gallum, furem manufestarium.
(v. 465-469)
Muito a propósito, até meu galo, lá dentro, que era pecúlio da velha, quase me arruinou. Aí onde estava enterrada esta (minha marmita), começou a ciscar com as unhas em todo o redor. De que adianta falar? Então meu coração se exaltou. Pego um pedaço de pau, mato o galo, ladrão declarado.
A partir desse dia, achando que seu ouro corria perigo, passou a levá-lo consigo para onde quer que fosse:
EVC. Hoc quidem hercle quoquo ibo mecum erit, mecum feram.
(v. 449)
Certamente, por Hércules, para onde quer que (eu) vá, isto estará comigo, comigo levarei.
Cansado de carregar sua marmita de um lado para o outro, o velho avarento resolveu escondê-la no templo da Boa Fé. Não deu certo. Procurou outro lugar que julgava mais seguro: o bosque de Silvano. Foi a sua perdição: roubaram-lhe o ouro:
STR. Ego sum ille rex Philippus. O lepidum diem!
Nam ut dudum hinc abii, multo illo adueni prior,
Multoque prius me conlocaui in arborem,
Indeque exspectabam aurum ubi abstrudebat senex.
Vbi ille abiit, ego me deorsum duco de arbore,
Exfodio aulam auri plenam; inde exeo <i> lico. (v. 704-709)
Eu sou aquele rei Filipe. Oh dia venturoso! Quando, na verdade, há pouco me afastei daqui, cheguei (ao bosque de Silvano) muito antes dele e muito antes subi numa árvore, e daí ia observando onde o velho escondia o ouro. Assim que ele foi embora, eu desci da árvore (e) desenterrei uma marmita cheia de ouro. Saí dali imediatamente.
Euclião sentiu-se arruinado. Entrou em pânico de vez, ao se dar conta de que perdera aquela preciosa panelinha que já fazia parte de sua vida:
EVC. Perii, interii, occidi! Quo curram? quo non curram? Tene, tene! Quem? Quis?
Nescio, nihil uideo, caecus eo atque equidem quo eam, aut ubi sim, aut qui sim,
Nequeo cum animo certum inuestigare. Obsecro ego uos, mi auxilio,
Oro, obtestor, sitis et hominem demonstretis quis eam abstulerit.
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Heu me misere miserum, perii! male perditus, pessime ornatus eo,
Tantum gemiti et mali maestitiaeque hic dies mi optulit, famem et pauperiem!
Perditissimus ego sum omnium in terra. Nam quid mi opust uita? [qui] tantum auri
Perdidi quod concustodiui sedulo! Egomet me defraudaui
Animumque meum geniumque meum; nunc e<rg>o ali laetificantur
Meo malo et damno. Pati nequeo.
(v. 713-716; 721-726)
Estou perdido, liquidado, morto! Para onde correrei? Para onde não correrei? Pega, pega! (Pega) quem? Quem (pegará) ? Não sei, nada vejo, ando cego e, sem dúvida, não posso saber com exatidão com a cabeça (perturbada), para onde vou, ou onde estou, ou quem sou. Eu vos peço, rogo, suplico que venhais me socorrer e (me) mostreis o homem que a roubou. Ai, pobre de mim! Estou inteiramente perdido, terrivelmente perdido! Pessimamente assistido ando, tanto pranto, (tanto) mal e (tanta) aflição, fome e pobreza este dia me trouxe! Eu sou o mais arruinado de todos (os homens) na terra. Na verdade, de que vale a vida para mim? (Para mim), [que] perdi tanto ouro, o qual guardei com tanto cuidado, com (tanto) zelo! Eu mesmo me lesei, (acabei com) minha vida e meu prazer de viver; agora, conclusão, os outros se divertem com a minha desgraça, com a (minha) ruína. Não posso agüentar.
Euclião nem sequer tinha se recuperado dos efeitos do primeiro golpe, e sobreveio-lhe o segundo: a notícia de que a filha acabara de ter um filho, cujo pai era Licônides:
LYC. Cur eiulas,
Quem ego auom feci iam ut esses filiai nuptiis?
Nam tua gnata peperit decumo mense post: numerum cape.
Ea re repudium remisit auonculus causa mea.
I intro, exquaere, sitne ita ut ego praedico. (v. 796-800)
Por que te lamentas (tu) a quem eu acabei de tornar avô já nas núpcias de (tua) filha? Tua filha, isso mesmo, teve um filho (meu) após o décimo mês[1]: faze o cálculo. Foi por este motivo, por minha causa, que (meu) tio desistiu de casar-se com ela. Vai lá dentro, pergunta se é (ou não é) assim como eu estou contando.
O velho ficou perplexo, mas depois de ouvir as ponderações do rapaz, perdoou-lhe a má ação, consentindo-lhe casar-se com Fedra:
LYC. Nunc te obtestor, Euclio.
Vt si quid ego erga te inprudens peccaui aut gnatam tuam,
Vt mihi ignoscas eamque uxorem mihi des, ut leges iubent.
Ego me iniuram fecisse filiae fateor tuae
Cereris uigiliis per uinum atque inpulsu adulescentiae. (v. 791-795)
Agora te peço, Euclião, que me perdoes se eu, imprudente, cometi alguma (falta) contra ti ou (contra) a tua filha e que a concedas a mim como esposa, conforme determinam as leis. Eu confesso que eu cometi uma injúria contra tua filha nas vigílias de Ceres, por causa do vinho, e por um arrebatamento da juventude.
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Perii oppido!
Ita mihi ad malum malae res plurimae se adglutinant.
Ibo intro, ut quid huius uerum sit sciam.
(v. 796; v. 800-802)
Ai de mim, que má ação eu ouço de ti?. Estou completamente arruinado! Males terríveis, aos milhares, vêm se juntar assim à minha desgraça. Vou para dentro para que saiba o que disto é verdadeiro.
Passado esse período de tormento, Euclião recuperou sua marmita e resolveu, ao que parece, doá-la à filha como dote, voltando a ter novamente paz de espírito:
EVC. Nec noctu nec diu quietus umquam eram: nunc dormiam.
(fragm. IV)
Nem de dia, nem de noite, um momento (sequer) eu ficava em paz: agora dormirei (tranqüilo).
CONCLUSÃO
A apresentação traçada desde o momento em que Euclião ficou rico até o seu desprendimento total mostra que depois de todos os tormentos, o senex auarus acaba pondo-se acima dos valores materiais, de sua avareza. Por amor à filha, à sua gnatae, assim carinhosamente tratada por ele, em certo trecho da Aulularia, regenera-se, o que fica implícito em sua fala, no quarto fragmento do último ato da peça, um dos poucos que restaram do final da comédia.
DUCKWORTH, George E. The nature of roman comedy. New Jersey: Princeton University Press, 1952.
–––––.The complete roman drama. Nova Iorque: Random House, 1942. (2 vols.).
MICHAUT, G. Plaute. Paris: Boccard, 1920. (2 tomos).
PLAUTE. Aulularia. Trad. de A. Ernout. 3a ed. Paris: Les Belles Lettres, 1952.
PLAUTO. A comédia da marmita. Introd., versão e notas de Walter de Medeiros. Brasília: Ed. UnB, 1994.
SARAIVA, F. R. dos Santos. Novíssimo dicionário latino-português. 10a ed., Rio de Janeiro: Garnier, 1993.
SILVA, Amós Coêlho da & MONTAGNER, Airto Ceolin. Dicionário latino-português. Rio de Janeiro: Ingráfica Editorial, 2005.
[1] Licônides menciona o décimo mês porque, segundo o hábito romano, era englobado no cálculo o início e o término da gravidez.
Em nossa tradução, levamos em conta não só a sintaxe latina, mas também o espírito do texto, procurando sempre o melhor sentido para as palavras e construções latinas.