UM RÉQUIEM PARA A FILOLOGIA?
Será que é tarde demais? Nunca foi
importante?
William Harris
Neste trabalho estou considerando a meia vida da Filologia Comparativa, que foi pioneira no século XIX com muito entusiasmo e
sucesso, e reinou
absoluta, sem oposições, durante cem anos como Filologia comparativa, ou sob a denominação mais moderna de Lingüística Histórica. Após a segunda metade do século XX, os estudos em Lingüística Estrutural começaram a mudar o campo de atuação do estudo de
línguas, com muitos novos ramos e
rebentos, alguns dos quais estão se consolidando agora no novo campo da Ciência Cognitiva, que exige uma sólida base lingüística como
fundamentação.
Mas a palavra "Filologia" desempenha papéis
complexos. Não só estuda e interpreta os textos de línguas em termos de seu significado e história das
palavras, mas também examina detalhadamente a autenticidade e as origens do material textual. Esta prática constitui uma linha de investigação um tanto diversa da filologia que se preocupa com problemas em torno dos textos ao invés da interpretação dos textos como dados históricos e
lingüísticos.
Filologia é uma palavra de tradição antiga; surgiu no mundo acadêmico de Alexandria há mais de dois mil
anos, mas entrou num longo estado de coma quando o mundo greco-romano entrou em lento
declínio. O despertar aconteceu no fim do século XVIII, quando a palavra Filologia foi ressuscitada por F.A.Wolf, que a considerava uma disciplina unificadora de muitos novos métodos de investigação que surgiam, tais como o trabalho pioneiro de cientistas voltados para a
eletricidade, biologia e
mecânica. A precisão da palavra e pensamento foi logo vista como essencial no mundo das novas ciências, e os investigadores da Antiguidade Clássica davam a seus trabalhos o tom paralelo de seriedade e padrões semelhantes de exatidão científica.
Nesse
ambiente, a Nova Filologia desenvolveu milhares de
ramos, com subáreas que prosperavam sob a égide dos
Clássicos, em arte e
arquitetura,
arqueologia, papirologia, leitura profissional de MSS e
inscrições, junto com novas abordagens em história da
ciência, economia da antiguidade e
naturalmente, no esteio da tradição clássica, em mais estudos das línguas grega e
latina.
Foi Sir William Jones quem percebeu antes de 1780 a noção de "família de
línguas" indo-européia como um grupo lingüístico inter-relacionado e intimamente ligado, com demonstrações de sua relações em termos de origens e
história. Os estudiosos logo começaram a notar a correspondência exata entre as palavras de uma grande variedade de línguas como o sânscrito antigo e lituano do século XVI, formulando "leis fonéticas" que provavam as mudanças regulares em
fonologia. Antes da metade do século XIX, a Lingüística Histórica havia se tornado um sério campo de
pesquisa. Seus resultados enchiam salas de livros e trabalhos em todas as bibliotecas importantes, e o rigor de uma área que acreditava em "leis fonéticas sem exceções" tornou-se parte dos estudos avançados de todo classicista
profissional. Em torno do início do século XX não ser capaz de traçar etimologias como um
profissional, e não conhecer as relações de significado das palavras em uma dezena de línguas européias seriam provas de irresponsabilidade profissional.
À medida que terminava o século XX, os estudos clássicos se deparavam com um
dilema. Se por um lado ainda havia a ênfase no profissionalismo nos programas avançados na área mãe dos
clássicos, passamos a ensinar os clássicos a maior parte de nossos alunos da faculdade através de traduções para o
inglês, e somente alguns alunos mais aplicados se defrontavam com a dura fibra dos verbos irregulares do grego ou com os refinamentos das estruturas dos períodos da prosa de
Cícero. Com certeza muito da abrangência foi conquistada à medida que foi desenvolvido um novo trabalho de curso nos Estudos Clássicos em geral e agora há muito mais leitura dos clássicos como um todo do que havia no início do século XX; por outro
lado, o trabalho com os textos originais das línguas clássicas está rapidamente ficando
obsoleto.
Pode-se então indagar a essa
altura: Para que serve a
Filologia? Não seria mais útil um embasamento da crítica literária
moderna, com ampla consciência das literaturas européias desde o
Renascimento? E se nossos alunos universitários estiverem muito mais interessados nos clássicos como fundamentação para a história social, para os estudos sobre o papel da
mulher, dos escravos e das várias populações sobre o jugo romano, não haveria mais valor nessa
procura?
Ao longo dos últimos anos vi uma geração de classicistas completamente despreparada e muitas vezes desconhecedora de uma filologia que se preocupa com Lingüística
Histórica. O tesouro de palavras com seus sub-significados derivados, suas associações interculturais e quebra-cabeças lingüísticos está em grande parte fora de seu conhecimento e desaparece daquilo que o professor pode passar para seus alunos. Se um eminente estudioso demonstrar para uma turma uma série de palavras como "panthas" do
sânscrito, "pontos" do grego e as formas "pons/pontis" do latim e derivar as sutis distinções e tons a partir de suas comparações, uma turma de alunos modernos não terá a menor idéia do que está falando este estudioso. O Professor Nagy, em Harvard falou para uma de minhas turmas em Middlebury acerca desta série de palavras há alguns anos; no
entanto, mais tarde os alunos me disseram que ele havia falado de forma obscura, e achavam que essa não era a forma adequada de
ensinar. Eu lhes disse que estavam falando sem saber o que diziam, mas não se mostraram muito inclinados a acreditar em
mim.
Até que ponto vai a perda da filologia lingüística ao fim deste
milênio? Permitam-me dar-lhes um exemplo, um exemplo sério que me faz sentir como se tivesse dormido durante 20 anos e tivesse perdido os fatos mais importantes de uma
época. Repassando velhas anotações para a preparação desta página da
Internet, encontrei algumas provas antigas de anos atrás, quando eu era aluno de doutorado em Harvard, e pus-me a reler uma prova de sânscrito do Professor W. E. Clark e uma outra do formidável e temido Joshua Whatmough. Minha pergunta é
simples:
Quantos hoje teriam condições de responder partes de uma prova dessas e sair com a impressão de ter conseguido nota para
passar?
Quantos sequer entendem de que trata a prova de osco-úmbrio?
Alguém vê algum valor nos estudos que culminam em provas tão esotéricas, ou será este o estágio final da obscura especialização
acadêmica?
Deixe-me citar um trabalho de prova de Whatmough, agora com cerca de meio século de
idade:
1947-8 HARVARD UNIVERSITY Filologia Comparada Filologia 140
Responda à pergunta 1) e não mais do que três outras:
1) (a) Translitere e traduza as primeiras e últimas cinco linhas da inscrição cujo facsimile acompanha esta
folha, com breves comentários sobre pontos de interesse lingüístico.
(b) Traduza as seguintes passagens, atribua a cada uma delas a localização e o
dialeto, dê sua data aproximada, indique a natureza do objeto e escreva breves notas sobre questões de interesse lingüístico.
1) puponehe.x.orakoh.e. kupethari.s
2) metelui maesilaui uenia metelikna asmina krasikna
(3) dacta moroanaproditahipades
(4) klevieva.l.tikinuasua
(Há doze trechos como
esses; não preciso
continuar, obviamente).
2) Examine os casos de terminações em substantivos de (a) raízes de o-longo no singular em osco, (b) raízes consonantais no plural em úmbrio, e explique sua história, comparando com as formas latinas
relevantes.
3) (a) Discuta o tratamento em osco-úmbrio dos seguintes fonemas
indo-europeus:
-a-
longo, e-
longo, -bh-, -dh-, -gwh- (faltam-me aqui os
diacríticos, WH)
4)...etc.
5)...etc.
6)...etc.
7) Mencione (com ilustrações) quaisquer cinco entre as que você considera as características mais aparentes do osco ao ser contrastado com o latim no que diz respeito a (a)
fonologia, (b)
inflexão. De que forma o úmbrio corresponde ao osco no que diz respeito às características fonéticas que você citou em (a)?
A partir do ponto de vista vantajoso dos estudos modernos dos
clássicos, poder-se-ia bem perguntar: que tipo de prova é essa? e que espécie de
professor, trabalhando com os alunos em que tipo de turma estaria dando uma prova como essa?
Deixe-me
explicar:
O professor Joshua Whatmough era um temível bretão de faces vermelhas emolduradas pelo contraste de uma cabeleira branca. Falava sem um traço de sotaque ou fraseado de inglês americano após 30 anos de vida nos Estados Unidos. Era um acadêmico que publicava obsessivamente em sua área, tendo começado anos antes com Conway em seu trabalho sobre os dialetos pré-itálicos, e terminado décadas mais tarde com o seu definitivo Dialetos da Antiga Gália, obra que completou pouco antes de sua morte. Seu método em sala de aula era enfocar uma palavra ou uma parte significativa de uma palavra e ao mesmo tempo expandir a série de informações cognatas com detalhes relevantes através da escala mais ampla do
indo-europeu. Enquanto isso, também documentava quaisquer exceções e objeções de estudiosos que pudessem ter relação com o assunto em
pauta. Tudo estava no lugar na cabeça dele exatamente da forma que ela havia elaborado o assunto a partir do seu ponto de
vista, e o esboço de suas anotações era sua única propriedade
intelectual. Não havia material em manuais à disposição sobre o
assunto. Tinha tudo na cabeça e na ponta da língua sem suas anotações. Dava a impressão de estar criando a palestra inteiramente de
memória, bem diferente do estilo de palestra com leitura de notas de
aula.
Uma aula típica: Joshua Whatmough no
quadro, falando fluentemente sobre dados lingüísticos
exatos, elucidando pontos delicados com que lidava em sua vasta erudição. Escrevia no quadro com a mão direita em ritmo
frenético, apagando de vez em quando com movimentos bruscos do apagador em sua mão esquerda enquanto
nós, os
alunos, nos virávamos com nossos lápis para anotar tudo. Seu papel era dar informações profissionais e ela falava em seu próprio nível como se estivesse dando uma palestra para pares e
eruditos. Havia poucas explicações sobre o que significava tudo aquilo e como poderia ser entendido em um curso introdutório. Alguns de seus alunos começaram e terminaram o curso em estado de total confusão; os que sobreviveram terminaram com monumentais pilhas de anotações sem nenhum esquema aparente para organizá-las. Para alguns era um
desafio, para outros era uma experiência assustadora.
Recordo-me, como simples segundanista admitido no curso de
indo-europeu, como fiquei confuso ao ler minhas anotações dias antes do exame final, sem perceber sobre que era o assunto ou para onde ia. Eram só palavras e cognatas, uma palavra interessante em sânscrito e uma palavra paralela (ele dizia "quite remarkable") em lituano, ou um problema com a fonologia do antigo irlandês. Perguntava a alguns alunos do curso de pós-graduação o que eles achavam, mas muitos deles diziam que se sentiam confusos
também. Mas subitamente, após horas de estudo intenso, a luz brilhava. Whatmough estava dando exemplos de fonemas e formas de maneira ordenada, mas não
aparente. Para cada
detalhe, ele queria examinar tudo; passava por uma prova que incluía todos os sub-dados de que constava o resto da
palavra, com todos os cognatos em uma dezena de línguas antes de retomar o próximo item. Era uma tarefa complexa e
trabalhosa, mas em última instância, perfeitamente clara. Lá nas anotações estava o extrato profissional de melhor qualidade sobre um tópico muito
obscuro, realizado de acordo com os padrões mais altos de erudição acadêmica
disponíveis.
Whatmough estava essencialmente preocupado com a validade do que estava apresentando, e menos preocupado com o que nós alunos estávamos passando. Ele partia do princípio de que conseguíamos entendê-lo ou de que conseguiríamos entendê-lo mais tarde. Era indubitavelmente um erudito e mestre em sua área, e com certeza não se imaginava um pedagogo. A nossos olhos ele era um grande
homem, dando brilhantes palestras em aula, o mestre absoluto de uma disciplina difícil. Tinha a reputação de ser irascível com alguns; comigo sempre foi um cavalheiro de comportamento acadêmico
perfeito, muito apurado,
claro, e esperava que os outros agissem assim como
ele.
Mas fora da sala de
aula, ele era uma pessoa diferente. Os alunos que iam a sua casa, convidados uma vez por
ano, eram recebidos por um homenzinho que contava as mesmas velhas piadas todo
ano, aparentemente fazendo um esforço para manter um contato social num ambiente em que não tinha o controle nem se sentia à
vontade. Nós o perdoávamos pelas piadas e nos lembrávamos sempre da animação de estar numa sala de aula com um homem que era autoridade absoluta em sua
área. Creio que os alunos de pós-graduação de outras áreas acadêmicas deviam sentir o mesmo entusiasmo a respeito de Richardson, Fleming, Bohr, Einstein, Stravinsky e Schoenberg. Nada pode substituir a experiência de estar em contato direto com um
mestre, seja qual for a disciplina e sejam quais forem as dificuldades que tenhamos para entender e seguir o mesmo ritmo.
Naquela
época, o departamento de Whatmough era denominado Filologia Clássica, conforme aparece no título de minha velha folha de
prova. Era uma espécie de filologia lingüística intimamente ligada aos
clássicos, mas alguns anos mais
tarde, seria denominada Filologia Comparada, numa descrição melhor da
metodologia, e mais tarde, à medida que seus horizontes se abriam, tornou-se Lingüística Comparada, embora fosse conhecida em outros lugares como Lingüística
Histórica. Já se podia perceber a tendência para uma separação em áreas separadas entre os estudos literários clássicos e o estudo de línguas baseado em análise comparada e
histórica. Talvez um dos motivos para essa divisão fosse o instinto humano para a marcação política dos limites territoriais
acadêmicos. Um outro fator pode ter sido o rápido crescimento dos clássicos em Harvard após 1950, à medida que se desenvolvia em seu formato de Educação Geral com cursos literários e culturais
populares, ao lado dos quais a árdua atividade de estudos indo-europeus pode ter sido considerada altamente especializada e
estreita. De maneira semelhante, os Estudos Clássicos em Harvard diferiam muito do importante programa de História da Ciência Antiga de George Sarton. Dos Estudos Clássicos em Harvard não saiam alunos que soubessem ler grego e latim conforme se exigia no programa de George Sarton, ainda iniciante. Após a morte de Sarton, seu trabalho foi reconhecido como inédito e os Programas de Ciência Antiga surgiram na maioria das
universidades, porém como disciplinas separadas dos Clássicos tradicionais baseados em
literatura.
Agora, de volta à
pergunta: O que adianta estudar esse tipo de
filologia? É uma atividade obscura que não leva a
nada? O que se aprende dela?
Eu mesmo respondo a essa pergunta de duas
formas:
Primeiramente, a cuidadosa leitura de textos obscuros e por vezes
inescrutáveis, palavra por
palavra, hora após
hora, cria o tipo de técnica de leitura atenta que se faz absolutamente necessária para a leitura de um autor clássico da
antiguidade. Aprendemos a fazer uma leitura superficial do crescente número de materiais escritos em nossa
sociedade, que os coleciona, especialmente hoje em dia, com a
Internet. Somos especialistas em captar as idéias escritas em textos enquanto descartamos as palavras reais, suas formas, fonemas e
combinações, como se fossem
lixo. Mas é neste lixo que reside o engenho e a arte da
escrita, que é a matriz para o suporte do
sentido, e o sentido não é
completo, nem significa nada sem a
matriz. A lenta habilidade de leitura da filologia lingüística nos dá capacidade de estudar um texto profundamente. Se você não tiver lido com cuidado, você não é
autêntico, você não está lendo na tradição em que escreveram Platão e Virgílio. A
filologia, sem fazer alarde disso, confere aos leitores modernos o grau necessário de concentração intensa.
Em segundo
lugar, quando o professor expõe e passa a matéria de alto valor
acadêmico, ele opera em nível de grande autenticidade. Mas se espera-se que o professor seja um monitor que observa como os alunos acessam o
material, anotando quais perguntas eles fazem e em que ponto têm
dificuldades, então está atuando em nível pedagógico diferente. No ensinamento de um mestre como Sócrates, a lenta elicitação de idéias é uma
iluminação. Mas nas mãos de um professor que vai à faculdade com algumas idéias a 'professar' e nada mais do que um desejo de participar nas discussões dos
alunos, temos um tipo de ensino simpático e cheio de boas intenções que perde a ligação com o conhecimento sério. Sei que esta afirmação pode parecer teimosa e
insensível: são os alunos que constituem o centro e o objetivo do
magistério. Durante décadas de ensino evitei me impor aos alunos e descarregar informações
inacessíveis. Porém como
professor, devo insistir em ensinar-lhes
Algo, de preferência algo que tenha solidez acadêmica, mas ao mesmo tempo seja especificamente o meu próprio pensamento e
material. Devo ter informações que contenham um ponto de vista significativo com o apoio completo de
materiais. Se uma turma se envolve num
debate, então eu quero um feedback. Mas só mais tarde, talvez depois da
aula, ou no intervalo do café é que eu quero saber como está indo o debate e a que conclusões os alunos estão chegando. Mas em primeiro lugar, eu tenho que ter alguma coisa importante para projetar, com o apoio total de informações que suporte à minha aula. Até mesmo para além do objetivo dos materiais autênticos, insisto em chegar a algum ponto; e se deixo de atender a esse requisito, passo uma falsa impressão do mundo do aprendizado no qual trabalho com entusiasmo.
Anos mais tarde apliquei todos os exames através de argüição oral, que me rendia uma chance de descobrir o que cada um dos alunos pensava, o que era assimilado ou perdido e que tipo de resultados do curso cada um deles tinha. Este processo era estafante com 25 alunos somente, com mais alunos teria sido
impossível; mas naquele tempo eu felizmente conseguia limitar as
matrículas. Se o atendimento particular semanal de tutoria da minha época é visto hoje em dia como um luxo acadêmico, estas provas orais eram para mim um luxo
indispensável; porém não são viáveis economicamente nos dias de hoje, com os orçamentos apertados do novo século.
As técnicas de magistério na Escola de Direito são de várias formas semelhantes à minha descrição de Whatmough e de suas aulas de filologia. O professor pode auxiliar e ajudar seus
alunos, mas o material das aulas baseado em livros na área tem a palavra final de autoridade. Tem-se muito a aprender e tem-se que conhecê-lo muito bem para trabalhar em direito. Existe tanto trabalho de codificação aí que se você não conseguir tirar o que lhe interessa, não poderá trabalhar mais tarde na justiça. O mesmo pode-se dizer da medicina onde o ensino pode ser duro e até mesmo brutal, com pouco tempo para se perguntar qual é o rumo a
seguir. Mas é esse o
desafio: você tem que organizar o material em sua própria
mente, porque se não conseguir organizá-lo, não vai conseguir usá-lo.
Neste caso de Filologia Histórica, a tendência é que você não venha a usar o material dos
clássicos, exceto incidentalmente. Mas o enfoque desses estudos filológicos pesados é algo de que se necessita na leitura de cada uma das palavras de Horácio, Homero ou Shakespeare. Chegar ao estágio de foco na 'leitura concentrada’ leva tempo, esforço e
imaginação, mas é essa a maneira na qual você tem que ler um autor
clássico. Se não for
assim, não o leia de jeito nenhum.
A escola de Lingüística de Filologia concentrada ainda existe em várias universidades com alguns alunos fazendo cursos de especialização. Tendo se desenvolvido rapidamente no início do século XX, desapareceu do sistema universitário norte-americano. Também se foi a geração de alunos pedantes e detalhistas que acreditavam que as minúcias no estudo dos textos clássico eram a mensagem da
área. Perdemos muitos leitores atentos e muitos pensadores zelosos à medida que nosso olhar para o público ficou
frouxo, acostumado a dar uma olhada rápida em anotações relâmpagos de dois segundos do filme ou do programa da TV que está fazendo
sucesso. A tendência é apreender o sentido geral; pensamos e compramos por impulso e também não lemos corretamente as letrinhas de nossos contratos políticos e pessoais. Mas esta pode ser a natureza do mundo em que vivemos. Estamos multiplicando a população mundial com nossos
cidadãos, nossos dólares
globais, nossos esquemas e programações
internacionais. Parece que não temos mais tempo para nada que se desenrole de forma difícil e lenta.
Assim,
Adeus, Filologia! Você foi para mim uma ferramenta útil, aprendi muitas idéias importantes lá antes de completar 25
anos, e a venho usando como apoio a meu pensamento esses anos todos. Aprendi acima de tudo que há uma necessidade de concentração e
arte, e assimilei uma forte dose dessa disciplina desde meus primeiros anos nos estudos filológicos. Quando
jovem, descobri que qualquer assunto seria muito difícil se você o leva a sério e quer aprendê-lo em profundidade.
Talvez haja algo que eu lamente em relação a meu sentimento de perda da seriedade da Filologia Lingüística como preparação para o ensino dos
clássicos. Lamento o enfraquecimento dos Clássicos em língua autêntica que foi substituído pelo estudo de textos antigos baseados em traduções em inglês. Os Clássicos de estudo difícil, baseados em línguas tradicionais no passado eram uma maravilhosa preparação para o Direito ou Ciência ou para a Medicina, e serviam bem como preparação para uma leitura mais atenta e um pensamento mais refinado de que necessitamos ao longo de toda vida.