TROVADORISMO, POESIA SENTENCIOSA
E CONTOS POÉTICOS DA ÚLTIMA FASE DOS STAUFER
E DO INÍCIO DOS HABSBURGOS
Álvaro Alfredo Bragança Júnior (UFRJ)
BIRKHAN, Helmut.Geschichte der altdeutschen Literatur im Licht ausgewählter Texte. Wien: Edition Praesens, 2005. 339 p. Volume 16, Parte VII: Minnesang, Sangspruchdichtung und Verserzählung der letzen Staufer- und ersten Habsburgerzeit
Os títulos de Helmut Birkhan para a série de manuais didáticos intitulada História da antiga literatura alemã à luz de textos escolhidos chega ao seu penúltimo volume com a obra em questão. Os trabalhos do erudito austríaco relativos a estas publicações, que foram por nós resenhados e comentados em outros volumes da Revista Philologus, chamam sempre nossa atenção pela maneira didática e integrada, através da qual as informações de cunho histórico, lingüístico e literário são apresentadas. Neste número, Birkhan discorre sobre os autores e obras do trovadorismo tardio, bem como trata da poesia de cunho sócio-político e dos contos versificados produzidos entre os séculos XIII até a metade do século seguinte.
Como sempre preocupado em situar época e contexto histórico ao leitor, o autor inicia seu trabalho com uma sucinta, porém precisa apreciação sobre o momento histórico em que se desenvolveram aquelas manifestações literárias. Imperadores e nobres como Otto de Poitou, Frederico II, Guilherme de Holanda, Ottokar, dentre outros, surgem aos nossos olhos como personae de um momento histórico, rico em tensões políticas. Estabelecidos os pilares sócio-históricos passa-se ao texto literário.
Logo no início de seu capítulo sobre o trovadorismo tardio tem-se a lista dos manuscritos – fontes - utilizados pelo pesquisador em seu trabalho e por ele considerados como os mais importantes, a saber: C, o grande manuscrito de cantigas de Heidelberg; J, o manuscrito de cantigas de Jena; k(ou t), o manuscrito de cantigas de Colmar; E, o manuscrito de cantigas de Würzburg; W, o manuscrito de cantigas dançantes e não uniformes de Viena[1], assim como o manuscrito D de Heidelberg, o manuscrito F de Weimar e, por fim, o manuscrito das cantigas de Den Haag, na atual Holanda, que fornece ao pesquisador
...cantigas em médio-baixo-holandês (mbh) e também outras em língua mista. Ele comprova que o médio-alto-alemão e o médio-baixo-holandês eram compreendidos de maneira igual e concebidos apenas como variantes de uma língua-base, qual seja, o alemão. (p. 23).
Em um primeiro momento, Birkhan menciona e analisa a produção literária relacionada ao alto amor[2] dos poetas Rubin, Rodolf von Rotenburg, Burkhard von Hohenfels, Ulrich von Winterstetten e Otto von Bottenlauben. Especial atenção é dada àquele considerado um dos maiores Minnesänger do século XIII, Neidhart, criador de dois novos tipos de cantigas dentro da lírica medieval em alemão, as cantigas de verão e as cantigas de inverno. Tamanha foi sua importância, assevera o autor, que se pode até considerar a existência de uma “escola neidhartiana” dentro do trovadorismo do século XIII. O último tópico da primeira parte deste volume é dedicado aos temas erudição, maneirismo e escuridão, que o autor vê como marcas presentes nos textos que fogem ao padrão anteriormente exposto. Birkhan, ao falar sobre o conceito por ele utilizado de “maneirismo”, assevera que este
...reconhecidamente se origina da história da arte, onde em primeiro lugar caracteriza a passagem do Renascimento ao Barroco, porém a posteriori aplicado também de forma metafórica à outras épocas como à arte Alexandrina, à época da latinidade dourada em Roma, à Idade Média Tardia e a certas formas do Romantismo. (p. 84)
Poetas e textos mencionados referentes a este subcapítulo podem parecer desnecessários para o público acadêmico germanófono e mesmo brasileiro, pois a grande maioria dos nomes é desconhecida. Entretanto, cabe ressaltar que a finalidade das obras de Birkhan é transmitir de forma clara e sucinta dados de cunho interdisciplinar, ao nomear textos, contextos e autores e colocá-los em análise a partir de uma perspectiva ampliadora, direcionada pela Filologia, História, Literatura e Lingüística, configurando assim grande parte daquilo que entendemos como Medievística Germanística.[3] É importante salientar que, desta forma, chegam às mãos dos estudiosos de Língua e Literaturas de Língua Alemã no Brasil elementos para solidificar e desenvolver os estudos mais ligados a aspectos diacrônicos da língua alemã, tão pouco explorados nessas terras.
Capítulo importantíssimo deste volume prende-se à poesia sentenciosa, influenciada pelo sirventês românico (p. 153). Em nossa opinião, este tipo de lírica é a que melhor se adequa ao método de investigação comparativo, pois como salienta o erudito vienense o conteúdo das sentenças é variado, não tratando, contudo, como de costume, da vassalagem amorosa, mas sim estão em primeiro plano relatos (junto com polêmicas) de cunho político, social, ético, religioso, de modo geral instrutivos e também meramente pessoais. (p. 153). Até mesmo o louvor à dama[4] serve como reflexão crítica sobre o papel feminino. Aqui, o medievista, o filólogo, o historiador, o cientista de literatura encontram juntos um campo de experimentação comum para a análise de temáticas comuns ou não, cada qual com seu instrumental teórico e metodológico específico.
Ao iniciar o capítulo seguinte deparamo-nos com a dificuldade, atestada pelo próprio autor do manual, em se definir os diversos gêneros que compõem a assim denominada Kleinepik. Ponto em uníssono é que se trata de textos curtos, porém classificados sob vários nomes tais como novela em versos, maere, exemplum, discurso de instrução, fábula e farsa.[5] Interessante notarmos que algumas desses gêneros possuem semelhança e origem smelhantes, como, e.g., o termo maere, que corresponde à palavra latina fabula, a qual é formada a partir de fari ´falar´ e que caracteriza originalmente cada relato. (p. 225). O diminutivo de fábula em antigo francês é fabliaux, termo com que se designam pequenos contos licenciosos, bem em voga no gosto popular e muitas vezes com uma forte marca erótica e sexual e, segundo Birkhan, tais contos seriam uma das fontes das maeren em médio-alto-alemão. (p. 225).
As farsas, conforme Birkhan (p. 281) caracterizam-se pelo fato de o elemento cômico ocupar de forma evidente o primeiro plano. Além disso, há a presença de temas eróticos e ligados ao casamento, assim como o alcoolismo e a zombaria feita por alguém astuto sobre um parvo. Este tipo de texto também deixa traços bem claros do popular na literatura dos séculos XIII e XIV, que fornecem os subsídios para uma pesquisa interdisciplinar já citada. Segue à obra um anexo com reproduções de iluminuras, partituras, bustos, fotos de sítios importantes como o castelo Wartburg, lugar da mais importante contenda poética entre trovadores do sacro Império no século XIII e outras mais. A visualização das fontes, do Codex Manesse, por exemplo, facilita e muito a apreensão e melhor internalização do cabedal de informações oferecido pelo texto escrito, pois o material iconográfico alia o sentido ao intelectivo.
Na História da antiga literatura em alemão à luz de textos escolhidos – parte VII: Trovadorismo, poesia sentenciosa e contos poéticos da última fase dos Staufer e do início dos Habsburgos continua Helmut Birkhan a colocar os fragmentos textuais tanto em médio-alto-alemão quanto em Neuhochdeutsch, moderno-alto-alemão. Tal procedimento é por nós entendido como filologicamente acertado, pois nos permite, na diacronia do idioma alemão, através da comparação dos estratos textuais, tentar acompanhar a evolução histórico-lingüística da língua de Goethe, examiná-la e a sua literatura.
As lições de Helmut Birkhan, ministradas em seu seminário de inverno entre 2004 e 2005, na Universidade de Viena, são, por fim, preciosas aulas da mais pura Filologia e Medievística e, mais uma vez, para melhor definir o prazer de ler barthesiano, voltamos à velha língua do Lácio ao lembrarmos Birkhan, docendo nos discit!
[1] - Em alemão o termo original é Leich, que dentre suas várias definições no Dicionário dos Irmãos Grimm pode significar cantiga formada por versos não uniformes ou uma cantiga de cunho religioso ou ainda o modo de se dançar ou cantar. Cf. Deutsches Wörterbuch von Jacob Grimm und Wilhelm Grimm in http://germazope.uni-trier.de/Projects/WBB/woerterbuecher/dwb/wbgui?lemid=GL03952, volume 12, colunas 611-621, capturado em 27 de maio de 2006.
[2] - Hoher Minnesang, em alemão. No original, “Alto Trovadorismo”, conceituação dada às poesias trovadorescas que s centram na impossibilidade de uma realização amorosa entre cavaleiro e dama. Difere-se do niedere minne, que focaliza encontros e desencontros amorosos entre cavaleiros e damas, muitas dessas não pertencendo à nobreza e com um caráter sensual muito mais forte.
[3] - Para um melhor dertalhamento sobre o assunto cf. BRAGANÇA JÚNIOR, Álvaro Alfredo. O estudo da literatura medieval em alemão no Brasil à luz da Medievística Germanística – algumas palavras. In: TELLES, Célia Marques & SOUZA, Risonete Batista de. V Encontro Internacional de estudos medievais – Anais. Salvador: Quarteto, 2005. p. 258-268.
[4] - No original, Frauenlob, gênero pertencente ao hohe minne Cf. nota 2.
[5] - Sugerimos a leitura das elucidativas palavras de Helmut Birkhan a respeito da diferenciação e especificidade dos gêneros acima citados in op.cit, p.224-226.