A
LÍNGUA
LATINA:
SUA ORIGEM, VARIEDADES
E DESDOBRAMENTOS
Maria Cristina Martins (UFRGS)
RESUMO
O presente trabalho pretende apresentar uma síntese da história da língua latina, o que inclui discorrer sobre suas variedades e seus desdobramentos.
Palavras-chave: História da língua latina, latim clássico, latim vulgar.
INTRODUÇÃO
Muitos podem questionar se ainda há lugar para um texto sobre a história da língua latina, visto que, aparentemente, tudo já foi dito. Acreditamos que sim, pois, infelizmente, é comum encontrarmos afirmações equivocadas a respeito das variedades da língua latina – seus diversos sermones – em autores atuais, sobretudo em livros de iniciação ao estudo de latim.
O
latim,
língua dos
romanos, do
pensamento de Roma e de
sua
brilhante
civilização,
pertence à
família das
línguas indo-européias. O
indo-europeu representa uma
vasta
família de
grupos de
línguas faladas no
oeste da Ásia (Irã, Paquistão,
Índia, Ceilão) e na Europa
toda (e Américas
depois das
grandes
navegações) com
exceção do
basco,
húngaro e
finlandês.
Ainda é
muito incerto o
período
em
que seria
falada essa
língua,
que
segundo os
autores, pode
ser de
entre 5000 a 2000 a.C. O
período
mais aceito é o 3º
milênio a.C.
A
língua
latina é
descendente do
grupo
itálico do
indo-europeu.
Antes disso,
conforme
nos
ensina Meillet,
em Les
dialectes indo-européens (Paris, 1922: 38), havia uma
unidade
anterior, o ítalo-céltico,
porque há particularidades
comuns às
línguas itálicas (latim, osco, umbro etc.) e às
língua célticas (bretão, irlandês, galês, etc.),
em
contraposição
com as
demais
língua indo-européias.
Mas,
sem sombra de
dúvida, o
grupo das
línguas itálicas (ou
itálico comum) apresenta
ligações
mais estreitas
entre
si do
que
qualquer
outro
grupo
indo-europeu,
tais
como o
germânico, o
grego, o balcânico-eslavo e o indo-iraniano.
Não existem documentos em indo-europeu, pois esta é uma língua proveniente de reconstituição, feita através do método histórico-comparativo (século XIX). Este método foi inaugurado por Franz Bopp, no estudo das línguas indo-européias, ao comparar o sistema de conjugação do sânscrito, latim, grego, persa e germânico.
A LÍNGUA LATINA E SUA RELAÇÃO
COM A HISTÓRIA SOCIAL, POLÍTICA ETC.,
EM TERMOS GERAIS
Quando se
fala
em
língua
latina, de
um
modo
amplo,
sem
especificação de
um
período
determinado, deparamo-nos
com a
imprecisão do
termo. O
latim foi,
por
um
longo
período, a
língua
oficial e representante do
poder de Roma. Na
tentativa de
resolver as
ambigüidades
que concernem o
termo
latim, a
língua
latina foi dividida
em
períodos, os
quais se ligam, de
certo
modo, à
história
política de Roma. Nesse
sentido,
são
muito expressivas as
palavras de Meillet (1933: 121-2), que afirma
que
durante
seis a
oito
séculos de
Império
Romano, do
século III a.C. ao
século II d.C.,
ou
até
mesmo ao
século V d.C., a
língua
latina conservou uma
aparente fixidez,
mas
que
não correspondia à
sua
situação
lingüística
real. A
imobilidade
aparente da
forma
visível, escondia uma
mudança
radical
que existia na
estrutura
interna da
língua,
resultado da
evolução do
latim
que continuava prosseguindo.
Assim
que se deu a
ruína do
Império
Romano e de
sua
civilização, os
resultados dessa
mudança se manifestaram rapidamente.
Na
fase das
origens, período
que se costuma
situar
entre os
séculos VI e IV, crê-se
que o
latim
era
relativamente
uniforme, sendo
foco irradiador dessa
unidade o sermo urbanus de Roma. Nesse
período o
latim
era
arcaico, uma
língua de camponeses,
com
forte
influência do
indo-europeu.
Um dos
principais
fatores de
divulgação (extensão
ou
implantação) do
latim no
vasto
Império
Romano foi o exército. O
soldado
romano ensinava a
sua
língua e a
sua
pronúncia,
mas ao
mesmo
tempo aprendia a
prosódia e a
língua de
seus
companheiros. Formava-se
assim
um
latim
um
pouco mestiçado,
pois se casava
com os
dialetos
afins e
por
isto
mesmo apresentava arcaísmos condenados
em Roma.
Quando os
romanos começaram a se
projetar, o
latim
era
um
mosaico de
raças. O
latim é na
verdade a
língua dos
dominadores da
região.
Por
volta do
ano 500 a.C., Roma conseguiu
expulsar os
etruscos,
originários do
norte de Roma,
que tinham estendido
seus
domínios a Roma e a Cápua, no
sul. A
posição
estratégica da
cidade e a
capacidade dos
romanos de
fazer
alianças, fizeram
com
que vencessem os
etruscos ao
norte e os samnitas, ao
sul. Sucederam-se várias
guerras na
expansão de Roma,
desde 500 a.C. a 117 d.C. Nesta
data, o
Império
Romano atingiu
sua
extensão
máxima,
com 301
províncias. Destacam-se
por
ordem cronológica algumas
datas
importantes:
Em 494 a.C. uma
tropa
armada de
plebeus – que falava o sermo plebeius - ocupou o
monte Aventino, reivindicando
igualdade de
direitos,
principalmente a de ocuparem
cargos
públicos: trata-se da 1ª
greve de que se tem
notícia.
Somente
em 287 os
plebeus conseguem
ocupar todas as
magistraturas.
Em 272,
todo o
território da Itália faz
parte da
confederação
romana e praticamente
todos os
povos se submetem ao
direito
romano, pagando
impostos e obrigando-se ao
serviço
militar.
As
guerras
contra Cartago,
potência
naval no séc. III a.C., ocorreram
depois de subjugados os
povos da Itália.
Como
conseqüência da 1ª
guerra
púnica (269-241 a.C.), anexaram-se a Sicília,
em 241, a Sardenha e a Córsega,
em 238.
Depois da 2ª
guerra
púnica (218-201), vencida
por Cipião, o
africano (antes
também
por Aníbal), os
romanos passaram a
chamar o
Mediterrâneo de Mare Nostrum.
Com a 3ª
guerra
púnica (149-146), os
romanos destruíram Cartago e apoderaram-se do
norte da África,
que se tornou
província
romana. Expandindo-se
em várias
frentes, Roma incorpora a Hispânia
em 197, o Illyricum
em 167, a Grécia (Achaia),
em 146, a Ásia
Menor
em 129, a
Gália Narbonensis,
em 120. A
Gália Cisalpina, conquistada
em 191, tornou-se
província
em 81,
junto
com a
região dos Vênetos, submetidos
em 215. A
Gália Transalpina foi a
grande
conquista de César
em 51-50. Outras
conquistas: Egito (30 a.C.); Récia e Nórico (15.a.C.); Panônia (10 d.C.)
Capadócia (17 d.C.), Britânia (43 d.C.), Dácia (107 d.C.),
com o
Imperador Trajano,
que fez as últimas
conquistas,
entre 114 e 117 d.C., incorporando a Arábia do
Norte, a
Assíria, a Armênia e a Mesopotâmia. Essas
datas indicam o
início da latinização,
que
não teve a
mesma
profundidade
em todas as
províncias. No
Oriente a latinização foi
bastante
superficial; a Hispânia e a Sardenha exigiram
dois
séculos
para uma
romanização
efetiva;
outros
territórios
como o Agri Decumates e a Britânia
nunca foram romanizados,
mas há
marcas do
latim
por
toda a
parte.
Fala-se,
portanto,
em
fases da
língua
latina,
que
vão
desde as
suas primeiras
manifestações,
ou seja,
desde a
fundação de Roma (753 a.C.), representada
por algumas
inscrições,
até a
queda do
Império
Romano do
Ocidente (476 d.C.)
ou,
mais
ou
menos,
até a
invasão dos longobardos na Itália (568 d.C.).
LATIM ARCAICO
A
mais
antiga
inscrição
latina,
data de aproximadamente 600 a.C., e é, na
verdade,
um
latim
dialetal, o prenestino: “MANIOS MED FHEFHAKED NVMASIOI” = “Manius
me fecit Numerio” “Manios
me fez
para Numério”.
Trata-se de uma
inscrição
em uma
fivela de
ouro, encontrada
em Preneste (hoje
em
dia Palestrina),
por
isso o nome “fíbula prenestina”.
As
características
dialetais e arcaicas que estão presentes nessa frase são: a
conservação do
ditongo
oi, observada
em numasioi,
um
dativo (depois, o i
final cai, e a
desinência de
dativo
passa a o), a
conservação do s intervocálico,
que no
latim muitas
vezes sofre rotacismo (como no
caso de flos, floris; honos, honoris), e a reduplicação do
pretérito
perfeito fhefhaked,
além da
desinência
secundária
em d. No
latim
arcaico
era feced,
forma
atestada
em uma
inscrição,
chamada de “vaso de Duenos”.
Depois esta
forma evoluiu
para fecit . Fhefhaked,
como se disse, é uma
forma
dialetal do
pretérito
perfeito
com
redobramento. É interessante
notar ainda, nesta inscrição, a posição
medial do
verbo,
que contrasta
com a
posição
mais
normal de
ser encontrada no
latim
clássico,
que é no
fim da
frase. Uma parte notável das tendências do latim vulgar, além de já estarem presentes no latim arcaico, resultam da estrutura do indo-europeu e se verificam em quase todas as línguas européias. São
exemplos comprovados
pela epigrafia
latina
que o ē e ō eram pronunciados
como e fechado e o fechado,
respectivamente,
pois o ō
longo aparece
freqüentemente representado
por u e o ē
longo
por i. O umbro apresenta
apócope do –m
final e o osco-umbro apresenta a
partícula de
reforço dos
demonstrativos –ce,
idêntica ao latim.
Havia,
pois, na
origem, “falares
latinos”, sendo o
latim de Roma
um deles.
Além do prenestino, outro importante é o falisco,
falado
em Falérios (Falerii).
Estes
dois
dialetos apresentam
características
mais arcaicas
ainda do
que se aponta
para o chamado
latim arcaico. Como documentação do latim arcaico, há pouquíssimos textos, apenas alguns
outros
escritos epigráficos,
como os
epitáfios dos Cipiões, do Vº
ou IVº séc. a.C.
LATIM CLÁSSICO OU LITERÁRIO
E LATIM CULTO FALADO
A
língua
latina,
tal
como a conhecemos,
polida e burilada
pelos
grandes
escritores do
período “áureo”,
não saiu
assim do
indo-europeu. O
latim
que chamamos de “clássico”
ou “literário” é
fruto de prolongado amadurecimento e
elaboração, e representa o
momento de
seu
maior
esplendor.
Este
momento foi precedido de
vários
estágios
perfeitamente demarcados, e a
ele se seguiriam
outros
estágios
subseqüentes,
que iriam
culminar na
formação das
línguas românicas modernas.
Com o
advento da
literatura
latina, a
partir do
século III a.C, o
latim
escrito vai
paulatinamente ganhando
maior
rigor
formal
até
atingir o
máximo de
sua
estética, na
época de
Cícero e César. Nesse "aperfeiçoamento" é
evidente a
influência
helênica,
que se faz
através dos
gramáticos e dos
escritores. Iniciava-se,
assim, o
fenômeno
que iria
conter a
expansão
natural da
língua
falada,
pela
ação dos
gramáticos, da
literatura e da
classe
culta.
LATIM CLÁSSICO
“Latim
clássico” é a
norma
literária,
altamente estilizada,
que compreende o
período
que vai de 81 a. C. a 14 d.C.
Seus
principais representantes
são
Cícero, César e Salústio, na
prosa e, no
verso, Virgílio, Horácio, Ovídio, Lucrécio e Catulo. É uma estilização do sermo urbanus ou usualis,
língua
coloquial das
classes cultas, com o qual convivia.
Os
escritores do
período
clássico haviam percebido
que existiam
variantes da língua latina e caracterizaram-nas adjetivando a
palavra sermo
que significa "linguagem", "conversação".
Com
efeito, há
três
fatores envolvidos nas
variantes
que uma
língua pode
apresentar: a variação
social,
correspondente à estratificação
social, a
geográfica,
correspondente às
diferenças geográficas, e as
diferenças relativas ao
grau de
formalidade da
situação de
fala.
A
língua
literária continuou no sermo ecclesiasticus (a
partir do séc. 5 d.C.) e
também no sermo profanus,
com os
tratados de
medicina,
filosofia,
ciência, etc.,
durante
toda a
Idade
Média e
até
mesmo
já na
Idade
Moderna. Pode-se
dizer
que
até
hoje vive. É a
língua do
Vaticano e de
toda a documentação da
Igreja
Católica,
além de
ser
empregada na
botânica e de
ser adstrato
permanente das
línguas românicas e
até de
línguas não-românicas,
como o inglês. Como vemos, o sermo classicus fixou-se
como uma
língua
escrita (o
latim
clássico
que estudamos), porém, o latim culto falado, (sermo urbanus) a partir do qual obteve sua origem, extinguiu-se, com a ruína da classe social que o sustentava, como veremos a seguir.
LATIM CULTO FALADO
O sermo urbanus
era a
língua
falada pelas
classes
altas de Roma,
certamente
correto do
ponto de
vista
gramatical,
mas
sem os refinamentos estilísticos da
norma
literária,
como os
longos
períodos de
subordinação e de
termos
disjuntos.
Como
língua
falada desapareceu
entre os
séculos V e VI, no
mais
tardar no séc. VI,
devido ao
aniquilamento das
cidades e da
vida cultural
que
elas apresentavam,
juntamente, é
claro,
com a
classe
social
que a mantinha.
Este
período coincide
com a
queda do
Império
Romano do
Ocidente (476 d.C., séc.V) e a
onda de
invasões bárbaras (destacando-se os longobardos na Itália,
em 568 d.C), na Europa, no séc. VI.
Do
ponto de
vista gramatical, o sermo urbanus é uma
língua
correta e
não apresenta os “erros” do
latim
vulgar;
mas
tampouco apresenta o
exagero de refinamentos estilísticos da
prosa e
poesia artísticas. Cícero,
ele
mesmo,
nos
fala da
diferença de
formalidade no
emprego do
latim
em uma
carta
que escreveu ao
seu
amigo Paetus (Ad Fam.,IX,21): Quid tibi
ego in epistulis uideor? Nonne plebeio sermone agere tecum ... Epistolas uero cotidianis verbis texere solemus. “Que pareço
eu a ti nas
cartas?
Não pareço
tratar
contigo na
língua do povo... de
fato, costumamos
tecer as
cartas
com as
palavras do
dia a
dia”.
Desde as primeiras manifestações da
língua
latina, tem-se
notícia da coexistência de uma
variedade
culta
falada e de
outra
variedade
também
falada,
mas pelas
classes
populares (plebéias).
Mais
tarde,
enquanto a
língua
literária depurava os
elementos
alheios ao
dialeto de Roma, a
língua
corrente exprimia o
contato de
outros
dialetos
itálicos. A
fala
rústica e
vulgar
era
um
instrumento
através do
qual se entendiam
romanos, faliscos, prenestinos, oscos e umbros.
.A
língua da
sociedade
elegante (o sermo quotidianus
ou sermo urbanus
ou usualis
ou consuetudinarius, o
uso
comum da
classe
culta) e a das
classes
baixas (sermo plebeius) não constituíam
compartimentos
estanques. A
literatura
sobre o
assunto é
unânime
em
afirmar
que muitas
características da
língua
popular apareciam no
uso
corrente das
classes
mais
altas.
Não é
apenas
Cícero
que se refere à
diferença no
grau de
formalidade
entre os
seus
discursos e
tratados filosóficos, e
suas
cartas, Quintiliano,
um
século
depois de
Cícero, reflete
sobre a
diferença
que há
entre a
norma do
latim (grammatice loqui) e o
uso
real deste na
comunicação (latine loqui). Seguindo os
passos de
Cícero, Quintiliano diz
que o
bom
latim é o da
cidade de Roma (urbanitas) e
não a
língua do
campo (rusticitas).
LATIM VULGAR
“Latim vulgar” era o
latim
essencialmente
falado
pela
grande
massa
popular
menos favorecida e
quase
que
inteiramente analfabeta do Império Romano. Foi propositalmente ignorada
pelos
gramáticos e
escritores
romanos
pois
era considerada
indigna de
consideração. Distinguia-se do
latim
culto
falado (e
por
extensão do
latim
clássico
ou
literário)
em todos os
aspectos
gramaticais.
Era
mais
simples
em
todos os
níveis,
mais
expressivo,
mais
concreto e
mais
permeável a
elementos
estrangeiros. Continuou se transformando ao
longo dos
séculos
até
que
em
mais
ou
menos 600 d.C.
já constituía os
primeiros “romances” (ou seja, as primeiras
manifestações das
línguas românicas,
muito próximas
ainda do
latim vulgar) e
depois, a
partir do séc. IX, as
línguas românicas.
Sabe-se
que as
características
gerais básicas do
latim
vulgar
já se apresentavam
desde o
fim da
época republicana
ou
desde o
começo do
período imperial,
isto é,
desde o
século I a.C.ou no
máximo
desde o
século I d.C.
Mas é
muito
comum datarem-se dos
séculos III
ou IV da
era cristã numerosas
inovações atestadas
pelo
conjunto das
línguas românicas.
O
latim
vulgar é, na
verdade,
um
latim
popular
que existiu
em todas as
épocas da
língua
latina.
Este
latim pertencia a uma
população
que
era
muito
pouco
ou
nada escolarizada e
que,
portanto, não
poderia
ter sido influenciada
pelos
modelos
literários e
pela
escola (cf. Herman, 1967: 16). O
latim
vulgar
não sucede ao
clássico; teve
origem
nos
meios
plebeus de Roma e
cercanias, sendo
essencialmente,
como afirma Maurer Jr. (1959:5), “o
latim
falado
pela
plebe
romana,
embora
muito de
seus
característicos se infiltrassem no
seio da
classe
média e
até das
classes
mais
altas,
sobretudo na
época imperial.” Uma
vez
que se
trata de uma
variedade de
formas,
que se ligam ao
latim
falado (mas
não
exclusivamente),
não se pode
considerar
que existam
realmente
textos
em
latim
vulgar.
Quase
nenhum
texto,
que contenha
vulgarismos, é
intencionalmente
vulgar, à
exceção da
Cena Trimalchionis, de Petrônio, e dos comediógrafos,
principalmente Plauto,
que colocam
personagens do
povo falando. O
mero
fato de
ser
escrito envolve o
uso de
certas
convenções, e
mesmo no
caso de
escritores
simples,
sem
muita
pretensão
literária, há
pelo
menos a
convenção ortográfica
que
eles tentam
seguir.
Meillet (Esquisse, p. 239)
fala
sobre o
latim
vulgar
como
um
conjunto de
tendências
que se manifestavam
diferentemente
conforme o
maior
ou
menor
grau de
educação dos
que o falavam, e
segundo o
tempo e os
lugares
onde
era
falado.
Porém, é
surpreendente
que
apesar da variabilidade cronológica,
social e
geográfica, o
latim
vulgar possuía uma
homogeneidade
suficientemente
extensa
para
que fosse
entendido
em
seu
vasto
território. Havia uma
unidade no
latim
vulgar,
que fazia dele uma
espécie de koiné
latina. Quintiliano (Inst. Orat. 1, 5, 29) observou
que a
norma
latina
era
relativamente
simples,
porque
em
latim
não havia
dialetos, o
que
não acontecia
com o grego (Apud Väänänen: 1981, 20). Sintetizando essa
posição,
que é
unânime
entre
latinistas e romanistas, tomem-se as
palavras de Meillet (1948: 229):
Le caractère dominant de tout ce qui est romain est l´unité – une souple unité qui sait échapper à un schématisme rigide. (...) Comme le reste, la langue devait être
uniforme, au moins en principe. Et en effet toutes les langues romanes reposent sur un‘latin vulgaire’, dont, en gros, la structure est partout la même.
O
latim
vulgar
tinha,
desde a
época de Plauto, e
ainda
mais, a
partir de
Cícero,
peculiaridades
gerais
suficientes
para dar-lhe
um
aspecto
mais
ou
menos
definido
em
oposição ao sermo urbanus e ao sermo litterarius.
Segundo Maurer Jr. (1962), essas
diferenças vinham de
três
fatores
principais. O
primeiro
fator
era
por
que o
latim
vulgar representava a
língua do
povo
comum, da
plebe
romana,
enquanto o
latim
clássico
era
um
produto da
sociedade aristocrática. A
enorme
oposição
social
entre essas duas
classes se refletia na
língua e
que
era
capaz de
explicar as
diferenças no
vocabulário e na
sintaxe. O
segundo é
que o
latim
clássico,
apesar de ter-se originado
em
um
latim
vivo e
falado, é,
em
geral,
mais
conservador e arcaizante do
que o
latim
vulgar. O
terceiro
fator deve-se ao
fato de o
latim
vulgar
ser
fruto de uma
população
heterogênea,
que empregava
mal a
língua
latina, corrompendo-a.
Sem
esquecer
que a
criação da
literatura é
obra de
estrangeiros,
basta
citar Lívio Andronico, Ênio, Plauto, Terêncio. O
próprio Cícero (Apud Maurer Jr., 1962: 65, 96) afirma
que o
falar da
cidade,
em
seu
tempo,
era
diferente do
século
anterior, no
qual
ainda se ouvia o
bom
latim,
embora
já assinale a
existência de uma
linguagem corrompida
em muitas
famílias do
século II a.C.
Ele atribui a
deturpação do
latim à
invasão de
estrangeiros
que falavam
mal a
língua (Brutus, 210, 213, 258).
Para
tornar a comparação
entre o
latim
vulgar e o
latim
culto - sermo urbanus - ou
até
mesmo o literário -
mais
próxima à
nossa
realidade, podemos
pensar no
português
falado pelas
populações de
um
âmbito
social limitado do
ponto de
vista de escolarização,
que apresenta, ao
lado de uma simplificação na
gramática, restos de uma
linguagem
arcaica,
já abandonados na
língua
culta. A
mesma
impressão
que temos ao
ouvir
um
português
cheio de “erros”
em comparação
com a
norma
culta, teria
um
romano escolarizado ouvindo o
latim
vulgar, acostumado a uma
língua
ricamente flexionada e
elegante.
Diferenças
entre o sermo plebeius e o sermo urbanus estão
presentes na
pronúncia, no
vocabulário, na
sintaxe, e na
morfologia. A
distância
que separava o
latim
vulgar do
latim
culto
era a princípio pequena,
mas
já podia
ser
vista a
partir do séc. IV a.C. O
vocabulário
era,
em boa
parte o
mesmo,
sobretudo o
que servia
para o
uso da
vida
cotidiana:
coisas,
animais,
plantas, etc. O
latim
vulgar
nunca se isolou
completamente da
língua
literária,
pois
sempre houve
um
convívio
constante
entre todas as
classes,
através do
teatro, às
vezes
pela
escola e,
mais
tarde,
pela
Igreja.
Portanto, existiu
sempre uma
contribuição limitada,
porém
contínua, da
língua
clássica
para a
popular.
Vestígios
fonéticos, morfológicos,
sintáticos e
ainda de
um
vocabulário
semelhante à
língua
clássica
também ocorrem nas
línguas românicas. Trata-se de sobrevivências de uma
época
em
que o
latim
vulgar
ainda conhecia essas
formas, perdidas
depois na
maior
parte do
território.
Por
exemplo, o sardo
conserva
melhor as
vogais do
latim clássico.
Finalmente, cabe
citar o
seguinte
trecho de Maurer Jr., O
problema do
latim
vulgar, p.69,
onde a
questão da
diferença
entre as duas
formas de
língua
latina
falada está
tão
bem colocada:
É
perfeitamente
razoável
dizer (...)
que a
língua
falada
latina apresenta
matizes
diversos e uma
gradação
contínua
desde a
linguagem
inculta dos plebeus proletários dos
bairros
pobres de Roma
até o
falar
elegante das
pessoas
mais cultas da
alta
sociedade.
Enquanto,
porém, nessa
forma
elegante a
língua
falada divergia
relativamente
pouco da
língua dos
textos
literários –
pelo
menos na
época de
Cícero -, nas camadas inferiores da
sociedade
romana e,
mais
tarde, na
população latinizada do
Império,
esse
latim apresentava outro aspecto: admitia
inovações revolucionárias (...).
A
partir desta
exposição, torna-se
evidente
que
entre os
séculos I a.C. e I d.C. conviviam
três
variedades do
latim: o sermo classicus
ou literarius, o sermo urbanus e o sermo plebeius.
Para concluir, vale a
pena citarmos as
principais
características das
variedades “clássica” e “vulgar” do
latim.
Do
ponto de
vista
gramatical, o
latim
clássico é:
I - uma
língua
sintética,
isto é, possui
terminações próprias (desinências),
que, no
fim da
palavra, indicam a
função
sintática. Essas
palavras
que possuem
flexão
são os
nomes (substantivos,
adjetivos e
pronomes) e os
verbos.
Em
latim, a
frase Intelligenti pauca (Spalding, [s./d.]) traduz-se
em
português
por ‘Ao
que sabe
compreender,
pouca
coisa
basta’.
Este é
um
bom
exemplo do
que significa
ser uma
língua
sintética,
por
oposição a uma
língua
analítica
como o
português.
Outra
característica
que se
soma ao
caráter
sintético da
língua
latina é a
concisão. Diz-se
que a
língua
latina é
concisa
porque exprime
somente as
palavras
essenciais. Inclui-se no
caráter
conciso da
língua
latina o
fato de
não
haver
artigos (definido e
indefinido) e de
poder
omitir
palavras
em
contextos
sintáticos
que
línguas
como o
português e o
francês
não permitem. Berger (1939: 238) afirma: “Si la langue latine aime l´abondance et l´ampleur, elle ne recherche pas moins la concision et la sobriété. Dans bien des cas on peut omettre en latin des pronoms, des adverbes, et d´autres parties du discours qui sont
nécessaires en français.”
Em Berger, há
um
capítulo
inteiro
sobre a “concisão da
língua
latina”
onde entram
fenômenos
sintáticos e estilísticos, incluindo as tradicionais “figuras de
linguagem.”
II - uma
língua de
ordem
livre,
em
decorrência do
sistema de
casos morfológicos
que permitem
recuperar as
funções
semânticas e
gramaticais dos
substantivos (nomes). Estas
são as
características
gerais básicas do
latim,
ou seja, a
ordem
livre dos
elementos na
frase, e a
riqueza morfológica dos
nomes e dos
verbos
que configuram o
caráter
sintético da língua.
A
maior
parte das
gramáticas latinas dedica-se à
morfologia, apresentando as
declinações dos
nomes e a
conjugação dos
verbos (o
sistema de
concordância
nominal e
verbal),
como sendo a
própria
gramática
latina.
Quanto à
sintaxe,
pouco se
encontra nessas
gramáticas,
mas destacam-se as
seguintes
peculiaridades (sintáticas) da
língua
latina: o
acusativo
com
infinitivo, as diversas
funções do
ablativo,
inclusive a
oração
subordinada
em
ablativo, o chamado "ablativo
absoluto" e o
emprego das
formas
nominais do
verbo.
Do
ponto de
vista
gramatical, resumidamente, pode-se
dizer
que o
latim
vulgar:
É
analítico na
construção da
sentença,
pois,
devido à
progressiva
perda dos
casos,
começa a
exprimir as
funções
gramaticais
por
meio de
preposições (complementos
indiretos e
circunstâncias) e
pela
ordem das
palavras (sujeito e
objeto).
A
frase
popular faz
um
uso
mais
extensivo dos
pronomes
pessoais (1ª e 2ª
pessoas),
possessivos,
demonstrativos, e inova
com os
artigos
definido e
indefinido, e
com o
pronome
pessoal de 3ª
pessoa.
A
disposição das
palavras se “simplifica” e se
fixa,
em
oposição ao
latim
literário no
qual a
ordem obedece
em
larga
escala às
preocupações de
estilo. Nas
palavras de Maurer Jr. (1959: 193): "a
grande
liberdade de
colocação no
uso
clássico devia
constituir a
parte da
língua
em
que a
preocupação
estilística e o
exemplo dos
modelos
gregos
mais
profundamente modificaram a
sua
evolução
espontânea.”
A
língua “vulgar”,
como
um
todo, apresenta as
seguintes
características inovadoras
que se distanciam dos
textos
literários
clássicos:
(i) a
substituição do accusatiuum cum infinitiuo
por
construções formadas
por
conjunções e
pronomes
relativos;
(ii) a
inflação no
uso dos
pronomes
pessoais de 1ª e 2ª
pessoas;
(iii) a
inflação no
uso dos
diminutivos;
(iv) o
emprego dos
demonstrativos ille e ipse, às
vezes
com o
sentido
próximo ao de
artigo
definido das
línguas românicas;
(v) a
confusão no
emprego dos
casos;
(vi) o
aumento de
freqüência das
preposições;
(vii) a
confusão nas
declinações;
(viii) as mudanças de
gênero;
(ix) o
emprego da
ordem da
frase (Suj./Verbo/Compl.).
(x) o
uso de
expressões tipicamente
coloquiais.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esperamos
que
este
artigo tenha contribuído
para
divulgar e
esclarecer as diversas
variedades da
língua
latina,
que acreditamos
ser uma
necessidade
face ao abandono ou, com otimismo, ao quase abandono dos
estudos
clássicos e filológicos
nos
dias de
hoje. A partir da comparação de
fatos lingüísticos em um nosso trabalho anterior (Martins, 2004) mostramos que existiam duas
variedades de
língua
falada: uma
exuberante e
rica
gramaticalmente,
muito
semelhante ao
latim
clássico,
mas
que
não apresenta a estilização deste, e
outra
pobre
em
recursos
gramaticais,
mas
rica
em concretude e
em expressividade, que dará origem às línguas românicas.
A respeito da variedade que se chama sermo urbanus, lamentamos que esta seja sempre esquecida e completamente dissociada do latim literário, já que o que se
vê,
mais comumente, é o
ensino do
latim
clássico
como uma
língua
artificial,
oposta à
falada na
variedade plebéia, porém, sem nenhum vínculo com a língua culta falada.
Assim, cremos
que
este artigo contribuiu também para
deixar
mais
evidente
que o
latim
clássico
não foi uma
criação de
gramáticos e
letrados, e
nem uma
imitação do
grego,
como tantas
vezes se
vê afirmado,
mas uma
língua
literária
que teve
como
modelo uma
língua
culta
falada.
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Para
mais
exemplos
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Fonética
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Latim, p.11.