As ciências humanas, as ciências da linguagem
e a identidade cultural

Maria Margarida de Andrade (UPM-SP)

 

RESUMO

A partir das definições de identidade e cultura, serão enfocados neste artigo os desafios da preservação da identidade cultural frente aos apelos da globalização, caracterizada como sinônimo de progresso, bem como da associação de todos os países, como um só mundo. serão analisadas as relações entre as ciências humanas, especialmente as ciências da linguagem, e a identidade cultural, visto que a língua acha-se diretamente ligada ao conceito de identidade cultural. a problemática da diversidade lingüística será abordada, por ser fundamental no que se refere à educação formal do indivíduo, e para que se possa discutir o papel da escola como instituição educacional, sua influência na formação cultural, o modo como essa influência vem sendo exercida, tendo-se em mente as atuais bases filosóficas do sistema educacional. A exagerada ênfase na aquisição de "conteúdos" e tecnologias, em detrimento da preocupação com os fatores humanistas, coloca-se como questão diretamente relacionada com o problema da formação da identidade cultural.

Palavras-chave: Ciências humanas; Ciências da linguagem; Identidade Cultural

 

Introdução

No mundo atual, em que a associação de todos os países numa só unidade global transformou-se em ideal de convivência pacífica entre os povos e globalização tornou-se sinônimo de progresso, cabe analisar as conseqüências desse movimento internacional diante da preservação da identidade cultural de cada povo, de cada país, e de cada indivíduo.

A globalização traz implícita o ideal de união e confraternização entre os povos, porém, a identidade cultural deve ser preservada, ou seja, a globalização não pode excluir os aspectos particulares da cultura, das línguas, das tradições e costumes de cada povo. O grande desafio dos tempos atuais é justamente a preservação da identidade cultural frente aos inequívocos apelos do processo de globalização.

Procura-se, neste trabalho analisar um dos aspectos desse problema, qual seja a influência das Ciências Humanas e das Ciências da Linguagem sobre a formação da identidade cultural.


 

Cultura e identidade cultural

Para estabelecer as relações entre Ciências Humanas, Ciências da Linguagem e identidade cultural, torna-se necessário tecer algumas considerações sobre cultura e identidade cultural.

Cultura pode ser considerada como o conjunto de traços distintivos, espirituais e materiais, intelectuais e afetivos que caracterizam uma comunidade ou grupo social. Além das artes e das letras, esse conjunto abrange o modo de vida, a maneira de conviver dos membros dessa sociedade, os sistemas de valores, as crenças e tradições.

Fazem parte da cultura aspectos visíveis e explícitos, como a língua, o modo de trajar, hábitos alimentares, religião e convenções éticas e estéticas e também aspectos invisíveis ou implícitos, como o quanto pode alguém atrasar-se, como expressar a dor física, que tópicos devem ser evitados numa conversação e outras atitudes que podem ser consideradas rudes ou inconvenientes.

A cultura é um conhecimento adquirido e não se limita a grupos raciais, étnicos, como se cada uma dessas categorias compartilhassem, necessariamente, a mesma cultura. Os modos de sentir e agir, que se expressam em normas de comportamento, instituições, objetos artísticos, saberes transmitidos, constituem a materialização da cultura.

A função básica da cultura é manter a coesão do grupo, resistindo às mudanças trazidas pelos processos econômicos e políticos, internos e externos. A cultura é dinâmica e se transforma em contato com outras culturas. Apesar de heterogênea e em constante mudança, as culturas são cenários de luta pelo poder e reconhecimento. Cada indivíduo de um grupo social precisa assegurar-se dos mesmos direitos dos outros membros de sua sociedade, mas ao mesmo tempo, precisa ser identificado como membro único, com suas necessidades, preferências, valores e particularidades.

A identidade cultural pode ser considerada como uma identidade coletiva, característica de um grupo social que partilha as mesmas atitudes, ou seja, a identidade cultural é constituída por sistemas de crença, atitudes e comportamentos compartilhados pelos indivíduos dentro de uma comunidade. 

A identidade é um processo de construção no tempo e no espaço. É forjada nas interações entre os diversos segmentos étnicos e sociais, considerados nas mais variadas formas de contato, informações e conhecimentos propiciados pela globalização dos padrões culturais escolhidos, na medida em que se relacionam com o mundo. Podem negar ou agregar valores àqueles já consolidados no ambiente cultural específico de cada sociedade, sugerindo uma situação segura de sobrevivência das tradições culturais.

Manuel Carvalho (2003), aponta três acepções de identidade cultural:

Para uns, com uma percepção objectiva, a identidade cultural de um indivíduo ou grupo define-se a partir de um conjunto de critérios determinantes: a origem comum, a língua, a cultura, a religião, a psicologia colectiva, a ligação a um território, etc. e um grupo sem estes critérios não pode reinvindicar uma identidade cultural autêntica.

Para outros, com uma percepção subjectiva,  a identidade etnocultural não é mais que um sentimento de pertença ou uma identificação com uma colectividade mais ou menos imaginária.

Para outros ainda, com uma percepção mais lata, a identidade de cada indivíduo não se restringe ou circunscreve à identificação com um grupo determinado mas é sim o somatório de todos os valores adquiridos ao longo da existência e está em constante construção e transformação.

Pode-se dizer que as identidades culturais constituem-se de aspectos do “pertencimento” a culturas étnicas, raciais, religiosas e lingüísticas. O “sentimento de pertencer”, decorrente do sentimento de identidade, satisfaz uma necessidade psicológica vital, criando uma sensação de conforto para os indivíduos.

Segundo Hall (2005), o homem pós-moderno não tem uma identidade fixa ou permanente, assumindo diferentes identidades em momentos diferentes. Isto ocorre porque um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades modernas, fragmentando as paisagens culturais de classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que antes propiciavam sólidas localizações aos indivíduos.

Para o autor citado, a “crise de identidade” é vista como parte de um processo mais amplo de mudança, que está deslocando as estruturas e processos centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social. (Hall, 2005: 7).

Gadotti (1991) acha mais adequado falar de identidade ”étnico-cultural”, pois ao referir-se à identidade de uma cultura torna-se necessário localizá-la em determinado tempo e espaço e no interior de um grupo étnico. Por sua vez, essa identidade estaria articulada à uma identidade nacional, historicamente determinada. Seria lícito afirmar que o nacionalismo é que cria a identidade cultural, desafiando a globalização.

Em artigo sobre a tensão mal resolvida entre identidade cultural e identidade nacional, Bresser-Pereira (2004) relata que “um amigo canadense e cientista político” afirmou que a identidade é forte entre os brasileiros, pois a língua comum, a raça mestiça, os imigrantes integrados, a arte barroca, as comidas típicas, a beleza da natureza tropical, a música, tudo isso torna os brasileiros conscientes do que são. Observa que o Brasil é um país com forte identidade cultural, mas fraca identidade nacional. A identidade cultural está entranhada na sociedade, enquanto a identidade nacional é política e está mais relacionada com a capacidade das elites do que de seu povo, de interiorizar um conceito de nação.

 

Diversidade cultural e lingüística

A moderna idéia de cultura está, desde o seu surgimento, associada à idéia de diversidade, passando a reunir, na mesma noção, a tradição humanista de cultivo das realizações consideradas superiores do espírito humano nas ciências e artes e a nova valorização, de raiz iluminista, da diversidade de costumes e crenças dos povos como via para o conhecimento.

O conceito de diversidade cultural permite perceber-se que as identidades culturais nacionais não são um conjunto único e monolítico. Ao contrário, deve-se reconhecer e valorizar as diferenças culturais, enquanto fator importante para a coexistência harmoniosa das várias formas de nacionalidade.

A riqueza de uma sociedade e o aumento de suas possibilidades vêm do conhecimento do “diferente”, ou seja, da diversidade cultural. Em outras palavras, é a diversidade cultural que permite a uma sociedade buscar abordagens diferentes para seus problemas. Trazendo maiores possibilidades de aprendizagem, ela se torna parte da riqueza dessa sociedade, na medida em que valoriza a compreensão e o respeito mútuos.  A diversidade cultural, portanto, enfatiza a importância do entendimento e respeito mútuos, essenciais em uma sociedade multicultural. No entanto, o primeiro passo para viver uma diversidade cultural é conhecer e valorizar a própria cultura.

Segundo a psicologia social, a formação da identidade de um grupo é influenciada pela competência lingüística e pelo uso de uma mesma língua. Os falantes da mesma língua freqüentemente se sentem mais parecidos com o outro, do que aqueles que partilham o mesmo background cultural ou origem geográfica.

Por outro lado, a diversidade lingüística fornece pistas sobre a categoria do falante no mapa social, por esse motivo a língua e o dialeto podem ser apontados como as dimensões mais salientes da identidade do grupo. Entretanto, a língua, como marcador da identidade do grupo não pode ser diferente de outros símbolos de identificação étnica, tais como vestimentas, ornamentação, dança, música etc.

As considerações sobre diversidade lingüística levam a crer que possibilitar a um povo que aprenda outras línguas significa fazê-lo adquirir variados conhecimentos e desenvolver o pensamento crítico tão necessário para entender e resolver seus próprios problemas. Robinson (1977: 19) afirma que “Pessoas confinadas a uma só cultura costumam ter grande dificuldade em conceitualizar outras culturas, salvo em termos de desvios da sua própria”. Dominar outros idiomas, portanto, significa saber comparar as semelhanças e contrastes com outras culturas, valorizando as expressões culturais próprias. Vale lembrar que uma língua não existe separada de uma cultura que lhe corresponde e que lhe dá suporte.

 

Influências das Ciências Humanas
na identidade cultural

A Ciência, no sentido lato, pode ser definida como um conjunto de conhecimentos socialmente adquiridos ou produzidos, historicamente acumulados, dotados de universalidade e objetividade que permitem sua transmissão, e estruturados com métodos, teorias e linguagens próprias, que visam compreender e possivelmente orientar a natureza e as atividades humanas. As Ciências Humanas, como a Psicologia, a Sociologia, a Antropologia e a História, têm como objetivo de estudo o comportamento do homem e os fenômenos culturais humanos.

O objetivo principal das Ciências Humanas é o de procurar constituir o humanismo em objeto de Ciência e, se não assumirem tal teoria como hipótese de trabalho, estarão negligenciando a mais importante de suas tarefas.

Tendo como objetivo de estudo o comportamento e os fenômenos culturais humanos, logicamente as Ciências Humanas desempenharão papel fundamental na formação da identidade cultural.

Talvez não seja exagero afirmar que o interesse de uma sociedade pelo cultivo das Ciências Humanas está diretamente associado ao grau de civilização e cultura alcançados por ela, pois as Ciências Humanas têm o Homem e suas atividades como objetivo principal de estudo.

 

Linguagem e identidade cultural

A maior parte dos conhecimentos adquiridos pelo homem pode ser armazenada segundo o sistema de codificação produzido pela linguagem, e só por meio da linguagem pode ser transmitida a outrem. Isto evidencia a importância das Ciências da linguagem na aquisição, armazenamento e transmissão dos conhecimentos historicamente acumulados pelo homem e, conseqüentemente, na formação de sua identidade cultural.

O desenvolvimento da linguagem está visceralmente ligado ao da personalidade de cada indivíduo, da terra natal, da nação, da humanidade, da própria vida, constituindo-se a própria fonte do desenvolvimento dessas coisas.

Tão relevante é a influência das Ciências da Linguagem na vida humana que leva o grande cientista da linguagem a se expressar do seguinte modo:

A linguagem é o instrumento graças ao qual o homem modela seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seus atos, o instrumento graças ao qual ele influencia e é influenciado, a base última e mais profunda da sociedade humana. (Hjelmslev, 1975: 1)

A linguagem é a marca da personalidade, da terra natal, da nação e, “mesmo quando é objeto da Ciência, a linguagem deixa de ser um fim em si mesma e torna-se um meio: meio de um conhecimento cujo objeto principal reside fora da própria linguagem, ainda que seja o único caminho para chegar até esse conhecimento, e que se inspira em fatos estranhos a este. Ela se torna, então, o meio de um conhecimento transcendental ─ no sentido próprio, etimológico do termo ─ e não o fim de um conhecimento imanente”. (Hjelmslev, 1975: 2).

Embora a linguagem represente apenas uma das fontes de informação relativas à identidade cultural e social, pode indicar o tipo de personalidade do usuário de uma língua, seus sentimentos, quem ele é. Alguns modos de falar são indicadores de características como idade, sexo, profissão, grau e tipo de educação, nação ou região de origem. Pode também denunciar traços da personalidade, ou seja características constantes, inferidas por meio de palavras empregadas, como inteligência, extroversão, neuroticidade etc.

Escolhas lexicais e gramaticais aliadas aos sentidos peculiares de alguns itens e estruturas especiais também podem contribuir para a identificação de características particulares do usuário da língua.

 

Escola e identidade cultural

A Escola é um espaço da construção e reconstrução simbólica, e os profissionais da educação também são profissionais da cultura. O ambiente escolar convive com as tradições, no momento em que globalização da cultura e dos padrões de comportamento instalou-se como tendência mundial. É na Escola que começa a ser construída a identidade social e cultural.

Se é significativo o papel da instituição educacional, o modo como sua influência vem sendo exercida e como tem contribuído para a realização plena do ser humano deve estar presente nas bases filosóficas do sistema educacional. Questões como a exagerada ênfase na aquisição de “conteúdos” e tecnologias, e a pouca preocupação com os fatores humanísticos, como o fomento de valores sociais, a descoberta do “eu’ e o desenvolvimento da socialização com outros membros da comunidade são apenas alguns pontos que ficam muito aquém do mínimo indispensável para a formação de um indivíduo preparado para enfrentar a vida, não só no campo profissional, mas principalmente no campo pessoal e afetivo. (Kramsch, In: Fórum,  2006).

 

Conclusão

Com base nos aspectos apresentados neste trabalho pode-se concluir:

●que a história da cultura moderna descreve-se pela evolução das tensões entre o que hoje poderia denominar-se tendência globalizante e as expressões peculiares dos indivíduos, grupos ou povos.

● Os fundamentos culturais de uma sociedade sustentável são a diversidade cultural e a liberdade e autonomia dos indivíduos.

●A identidade cultural define o que cada um é e o que diferencia os membros de uma sociedade uns dos outros.

● A preservação da cultura e da identidade desafiam os pressupostos da globalização, porém, há possibilidade de manter a identidade cultural, apesar dos impactos provocados pela globalização. Uma das medidas necessárias para que tal objetivo seja alcançado é a revisão das bases filosóficas do sistema educacional, revalorizando os aspectos humanistas.

 

Referências bibliográficas

CARVALHO, Manuel. A identidade luso-canadiana. In: Satúrnia 50 anos. Disponível em www.manuelcarvalho.8m.com/identidade.html. Acesso em: 30/4/2006.

FORUM INTERNACIONAL DE ENSINO DE LÍNGUAS ESTRANGEIRAS. FILE. UFC de Pelotas-RS. Justificativa do Tema. Disponível em: http://ufprl.edu.br/letras/fileIV Acesso em: 30/4/2006.

GADOTTI, Moacir. Identidade cultural e itinerário educativo. I JOURNÉE RECONTRE AVEC PAULO FREIRE. INFRED/POLYNÔME/ PAIDEIA. Paris, La Vilette, 12 dec.1991. Disponível em: www.realsecureweb.com.br. Acesso em: 30/4/2006.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modermidade. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 10. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

HJELMSLEV, Louis. Prolegômenos a uma teoria da linguagem. Tradução de J. Teixeira Coelho Netto. São Paulo: Perspectiva, 1975.

PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. Tensão mal resolvida entre identidade cultural e identidade nacional leva Brasil a patinar na estagnação econômica. Folha de S.Paulo, Caderno MAIS! 22/8/2004. Disponível em: www.bresserpereira.org.br. Acesso:29/4/2006.

RATTNER, Henrique. Em busca da identidade no mundo de incertezas. ESPAÇO ACADÊMICO n. 34, março, 2004. Disponível em: www.espacoacademico.com.br/034/34rattner.htm.  Acesso em 29/4/2006.

REIS, A. F. dos; MÜLLER, R. C. de O. A retórica da perda da identidade cultural e a globalização. ÁGORA. Campo Grande, v.1, n. 4, 2005. Disponível em: www.fes.br/revistas/agora/ojs. Acesso em 30/4/2006.

ROBINSON, W. Peter. Linguagem e comportamento social. Tradução de Jamir Martins. São Paulo: Cultrix, [1977].