VESTÍGIOS DE LÍNGUAS PRÉ-CÉLTICAS
NAS ILHAS BRITÂNICAS

João Bittencourt de Oliveira (UERJ e UNESA)

 

RESUMO

Esta comunicação pretende apresentar e discutir os resultados de pesquisas antigas e recentes sobre os vestígios de línguas pré-célticas nas Ilhas Britânicas. Conforme já salientamos em trabalhos anteriores, essas ilhas foram palco de inúmeras invasões. Os celtas haviam se estabelecido na região durante vários séculos antes da invasão dos romanos em 55 a.C. Os saxões, que habitavam a área entre o rio Reno e toda a região correspondente atualmente à Dinamarca, provavelmente conquistaram a ilha em dois estágios. No primeiro, que se inicia por volta de 449 a.D., desbravaram impetuosamente a atual Grã-Bretanha em sucessivas ondas de ataques e saques. Aportando seus barcos ao longo dos rios navegáveis, cruzaram as ilhas alcançando o Mar Ocidental e regressando pelas estradas que os romanos haviam construído para se defenderem (por ironia, seis séculos mais tarde os Normandos utilizaram essas mesmas estradas para a conquista dos anglo-saxônicos). No segundo estágio, que se inicia pouco depois e se estende até o final do século V, grupos oriundos da região correspondente ao atual norte da Alemanha chegaram para colonizar, cultivar e comercializar.

Os antigos britônicos, sem dúvida, possuíam tradições relacionadas às suas origens e passado histórico. Porém, os guardiões mais influentes desse conhecimento, os druidas, foram massacrados pelos romanos nos primeiros anos da conquista (que durou cerca de quatro séculos). A Irlanda, entretanto, permaneceu fora do alcance do poderoso Império Romano. Ali, uma comunidade druídica logrou relativo sucesso em preservar e transmitir seus conhecimentos de outrora.

Evidências irrefutáveis da sobrevivência de línguas pré-célticas na região provêm do norte da Grã-Bretanha e seus últimos guardiões foram os pictos.

Palavras-chave: Céltico, Saxônico, Saxão, Normando, Druídico

 

INTRODUÇÃO

O presente trabalho pretende apresentar e discutir os resultados de pesquisas antigas e recentes sobre os vestígios de línguas pré-célticas nas Ilhas Britânicas. Conforme já salientamos em trabalhos anteriores, essas ilhas foram palco de inúmeras invasões. Os celtas haviam se estabelecido na região durante vários séculos antes da invasão dos romanos em 55 a.C. Os saxões, que habitavam a área entre o rio Reno e toda a região correspondente atualmente à Dinamarca, provavelmente conquistaram a ilha em dois estágios. No primeiro, que se inicia por volta de 449 d.C., desbravaram impetuosamente a atual Grã-Bretanha em sucessivas ondas de ataques e saques. Aportando seus barcos ao longo dos rios navegáveis, cruzaram as ilhas alcançando o Mar Ocidental e regressando pelas estradas que os romanos haviam construído para se defenderem (por ironia, seis séculos mais tarde os Normandos utilizaram essas mesmas estradas para a conquista dos anglo-saxônicos). No segundo estágio, que se inicia pouco depois e se estende até o final do século V, grupos oriundos da região correspondente ao atual norte da Alemanha chegaram para colonizar, cultivar e comercializar.

Os antigos britônicos, sem dúvida, possuíam tradições relacionadas às suas origens e passado histórico. Porém, os guardiões mais influentes desse conhecimento, os druidas, foram massacrados pelos romanos nos primeiros anos da conquista (que durou cerca de quatro séculos). A Irlanda, entretanto, permaneceu fora do alcance do poderoso Império Romano. Ali, uma comunidade druídica logrou relativo sucesso em preservar e transmitir seus conhecimentos de outrora.

Evidências irrefutáveis da sobrevivência de línguas pré-célticas na região provêm do norte da Grã-Bretanha e seus últimos guardiões foram os pictos.1

Thomas F. O`Rahilly, em sua obra clássica Early Irish History and Mythology, apresenta evidências de quatro invasões distintas antes dos celtas, a saber: os cruithne ou priteni (entre 700 e 500 a.C.), os érainn ou fir builg (por volta de 500 a.C.), os lagin (cerca de 300 a.C.), e por fim os goidels ou gaels (cerca de 100 a.C.).

 

OS CRUITHNE

O termo cruithne pode ser considerado como uma gaelicização de priteni, ou seja, “britônicos”, já mencionado por Ptolomeu (Geographia, século II d.C.). Os cruithne da Irlanda são freqüentemente identificados como as tribos irlandesas de Dál nAraide (forma latinizada Dalriada) e Ui Eathach Cobha (ambas a oeste de Ulster), bem como os loigis (de Leinster) e os sogan (de Connacht e outras áreas da Irlanda). Já os cruithne da Escócia são equiparados aos antigos pretini, ou pictos, de quem falaremos mais adiante.

Os cruithne eram um povo histórico que se supõe ter vivido nas Ilhas Britânicas durante a idade do ferro (por volta do século VIII a.C.).

Para T. F. Rachilly, os cruithne eram descendentes dos priteni, e foram os primeiros celtas a habitar as Ilhas Britânicas. Ainda conforme Rachilly, esse povo se identifica com os pictos da Escócia. Estabeleceram-se na Grã-Bretanha e Irlanda entre 700 e 500 a.C. Utilizavam o ferro e falavam uma das línguas célticas com P-2, e se autodenominavam priteni ou pritani, donde provavelmente provém o termo atual “Britain”.

Teorias mais recentes, entretanto, apoiadas em evidências arqueológicas, sugerem que os cruithne eram um povo pré-céltico, e podem ter falado uma língua não-indo-européia antes da dispersão e domínio da cultura céltica nas Ilhas Britânicas.

Na Grã-Bretanha, esses priteni foram absorvidos por invasores posteriores e perderam sua identidade cultural, exceto no extremo norte onde ficaram conhecidos dos romanos como pictī.

Também na Irlanda, os priteni foram amplamente absorvidos por invasores posteriores; porém alguns focos conseguiram reter um certo grau de independência, se não política, pelo menos cultural até a era Cristã. Nessa época, foram identificados como cruithne ou cruthin, uma adaptação do celta com P-, priteni. Ambos os termos derivam-se de uma raiz cujo significado é “moldar” ou “criar”. Cruithne é o nome dos pictos em gaélico escocês.

 

OS FIR BOLG

Na mitologia irlandesa os fir bolg (fir bholg ou firbolg) eram uma das raças que habitaram a Irlanda antes da chegada dos goidels ou gaels. Sua verdadeira origem tem sido objeto de acirradas controvérsias.

Por volta do ano 500 a.C., os cruithne perderam sua posição dominante na sociedade irlandesa quando o país foi invadido por uma segunda onda de falantes de línguas célticas com P-. Eram os builg e os érainn. Os primeiros (originalmente conhecidos como bolgi) seriam os belagae3, um povo céltico mencionado por Júlio César em sua obra Commentarii de Bello Gallico (“Comentários sobre as Guerras Gálicas”); de érainn (originalmente iverni) provavelmente derivaram vários nomes primitivos da atual Irlanda, tais como: o grego Ιєρνη, Ιονερυια e possivelmente o latim Hibernia, alteração de Iverna (este do antigo céltico *Iveriu, acusativo *iverionem); cf. o irlandês Erin, acusativo Eirinn, (donde Ireland, literalmente “terra dos Eirinn”); cf. também Eire, atual nome oficial da República da Irlanda. Na mitologia irlandesa, o nome fir bolg se refere ao mesmo povo.

Há fortes indícios de que grupos desses belgae tenham colonizado a Grã-Bretanha e a Irlanda entre os fins do século VI e o início do século V a.C. Em ambas as ilhas teriam absorvido e subjugado a maior parte dos habitantes precedentes. Conforme suas próprias tradições, os érainn alcançaram a Irlanda a partir da Grã-Bretanha.

Algumas das principais famílias do tronco érainn consistiam de quatro clãs denominados Muscraige, Corço Duibne, Corço Baiscind e Dal Riata, que vieram de três filhos de Conaire Mor (rei lendário da Irlanda) chamados Cairpre Musc, Cairpre Baschain e Cairpre Riata. Esses quatro clãs migraram de Breg ao norte da Irlanda para Nunster ao sul. Desconhecem-se os motivos dessa migração.

 

OS LAGIN

Cerca de dois séculos após a invasão dos fir bolg, a Irlanda foi submetida a mais uma invasão de um povo falante de celta com P-. Três denominações diferentes disputam a identificação verdadeira dessa tribo, a saber: lagin, domnainn e gálioin. Não se sabe, entretanto, se esses nomes se referiam a uma única tribo ou se eram, de fato, três tribos distintas.

Conforme suas próprias tradições, teriam vindo para a Irlanda a partir de Armórica (antigo nome da Bretanha, do latim Aremorĭca, província ocidental da Gália; este do céltico ar “junto”, e mori “mar”, isto é, “terra junto ao mar”). Desembarcaram ao sudeste do país e tomaram a região sul-oriental dos érainn. O nome moderno dessa província, Leinster (gaélico Laighin), preserva a memória dessa conquista, embora nos tempos antigos sua extensão territorial fosse bem menor que atualmente. Antes da invasão goidélica, o rio Liffey marcava a fronteira entre Ulster e Leinster.

Os domnainn constituíam um ramo dos dumnonii (“habitantes do vale profundo”), povo céltico identificado pelos autores clássicos como habitantes de Cornwall e Devon (este último de dumnonii). Outro ramo dos dumnonii se instalou na Escócia, onde fundou Dumbarton e estabeleceu o reino mais tarde conhecido como Strathclyde (em gaélico Srath Chluaidh "vale do Rio Clyde").

Provavelmente esses assentamentos ocorreram na mesma época da invasão da Irlanda pelos lagin.

A invasão dos lagin causou pouco impacto em Ulster ou Munster, onde tribos dos érainn continuaram sendo a força dominante. Porém, o mesmo não se pode afirmar a respeito de Connacht, a mais ocidental das quatro províncias. Em alguma época no século III, atravessaram o rio Shannon e subjugaram as tribos dos érainn de Connacht. A batalha decisiva foi travada em County Sligo, num lugar denominado Mag Tuired (anglicizado Moytura). Ali um rei laginiano destronou os érainn e os expulsou de Connacht. De acordo com registros irlandeses, os éarinn, uma vez derrotados, procuraram refúgio em várias ilhas ao redor da Irlanda. As fortalezas de Dún Aengus e Dún Conor numa das ilhas principais do arquipélago de Aran, e Dún Balor na Ilha de Tory, teriam sido construídas por eles.

Foi provavelmente como resultado das conquistas laginianas que a ilha da Irlanda veio a ser, pela primeira vez, dividida em quatro províncias. Os érainn continuaram a reinar em Ulster e Munster, enquanto os lagin e seus aliados se tornaram a força dominante em Leinster e Connacht. Tradicionalmente essas quatro províncias se encontravam no centro exato do país, que era demarcado pelo Hill of Uisneach (entre Mullingar e Athlone, em County Westmeath), cujo significado pode ser “vértice” ou “ponto angular”. O distrito imediatamente circunjacente a essa colina era conhecido originalmente como Medion, que significa “centro”, dando origem ao nome do condado Meath. Júlio César (De Bello Gallico 6.13) nos informa que os druidas da Gália se reuniam regularmente num lugar santificado no centro do país para celebrar seus rituais. A tradição irlandesa registra que uma assembléia semelhante, Mórdáil Uisnig, acontecia periodicamente em Hill of Uisneach, na festa da primavera (Beltane)4.

 

OS GOIDELS

A quarta e última invasão céltica da Irlanda foi realizada pelos goidels5 ou gaels. Diferentemente dos invasores precedentes, os goidels falavam uma língua céltica com Q-, que foi a precursora do irlandês moderno, do gaélico escocês e do manquês (da Ilha de Man). Os diversos dialetos celtas com P-, que se falavam no país na época das invasões (conhecidos como iarnbélre, literalmente “língua dos érainn”), definitivamente se tornaram extintos.

Os goidels se originaram na Aquitânia ao sudoeste da Gália. Por volta do ano 100 a.C., dois grupos desses celtas emigraram para a Irlanda: os connachta e os eoganachta.

Os connachta eram assim chamados em homenagem ao primeiro rei irlandês, conhecido como Conn Cétchathach, ou Conn das Cem Batalhas. Liderados por Tuathal Teachtmhar (do celta *Teuto-valos "líder da tribo"), rei lendário da Irlanda e avô de Conn Cétchathach, os connachta desembarcaram na embocadura do rio Boyne e avançaram para o interior até Tara, sede do rei local dos érainn, a quem saquearam. Em seguida conquistaram para si próprios uma nova província entre Ulster e Leinster, que se estendia desde as embocaduras do Liffey até as do Boyne e para o interior até as do Shannon. Mais tarde, essa quinta província veio a ser conhecida como “Meath”. O outro grupo ficou conhecido como os eoganachta. Seu líder entrou para a história como Mogh (ou Mug) Nuadat. Os eoganachta desembarcaram num lugar chamado Inber Scéne, geralmente identificado com o rio Kenmare, no sudoeste do país. Diferentemente dos connachta, eles não conquistaram para si próprios uma nova província. Porém, alcançaram o poder de maneira lenta e gradativa, tornando-se por fim a força dominante em Munster. Os nomes eoganachta e Mug Nuadat, que foram provavelmente adotados após sua chegada na região, sugerem que no início havia relações amistosas entre eles e os érainn, já que ambos os nomes derivam dos títulos de divindades dos érainn. No princípio da história, os connachta subjugaram as tribos dos laigin de Leinster a as reduziram a um estado de vassalagem. Os líderes do laigin tiveram permissão para reter a posse de seu território, mas tributos pesados lhes foram impostos. Conhecidos como bórama (ou bórú), esses tributos continuaram a ser cobrados a intervalos irregulares até o século VIII da era Cristã. Conforme uma tradição, teria sido o próprio Tuathal Teachtmhar que pela primeira vez impôs esse tributo aos lagin.

Num certo ponto da história, os connachta atravessaram o Shannon e conquistaram a província ocidental.

Até o final do século IV da era Cristã a Irlanda era dividida em cinco províncias ou “overkindoms”, a saber:

·   Ulster ainda dominada pelas tribos dos érainn

·   Meath (ou o território central) incluía Tara, governada por tribos gaélicas

·   Leinster, controlada por tribos gaelicizadas subordinadas a Meath

·   Munster, governada por tribos gaélicas

·   Connacht, governada por tribos gaélicas

Como se pode observar, a maior parte da nação esteve nas mãos dos gaels. Somente Ulster permaneceu independente, porém por pouco tempo.

 

OS PICTOS

As Ilhas Britânicas são conhecidas como o palco onde inúmeras civilizações antigas deixaram seus vestígios. Povos vinham e permaneciam ali durante séculos, e depois eram conquistados por novos invasores e rapidamente desapareciam, ou eram empurrados para as regiões montanhosas mais remotas das Ilhas. Stonehenge e construções semelhantes na Inglaterra, as pedras esculpidas da Escócia, as inscrições ogâmicas6 da Escócia e Irlanda, são monumentos legados por povos pré-indo-europeus, que conseguiram deixar seus traços visíveis ainda hoje, após milênios de guerras, invasões, catástrofes e mudanças. Não se sabe a origem dos pictos, uma nação que viveu do primeiro milênio a.C. ao século IX d.C., na Escócia. Quando os celtas foram para as Ilhas Britânicas nos séculos VII e VI a.C., os pictos já habitavam as terras ao norte de Edinburgh, e quando os romanos invadiram a Grã-Bretanha no século I a.C. e rumaram para a Escócia no século seguinte, eles ainda estavam lá ocupando as mesmas terras. Diferentes autores, desde os tempos mais antigos até os dias atuais, apresentam diferentes versões sobre a região exata de onde teriam vindo os pictos para a Grã-Bretanha nos tempos pré-históricos. As fontes arqueológicas indicam que sua chagada à Grã-Bretanha ocorreu por volta do ano 1000 a.C. vindos do Continente Europeu e em seguida no ano 200 a.C. da Escócia para a Irlanda. Porém a verdadeira terra natal dos pictos na Europa Continental é desconhecida, o que nos leva a diferentes interpretações. Autores medievais sustentavam a versão de que os pictos não eram celtas, porém uma raça pré-céltica procedente da Cítia (antiga região do NE da Europa, situada entre os rios Danúbio e Don, e ao N do Mar Negro). No século XIX, alguns pesquisadores tentaram provar que o berço dos pictos é a Espanha, antiga Ibéria de onde os ibero-britânicos, supostamente os criadores de Stonehenge, teriam saído. A fonte dessa versão foi um autor romano que descreveu os pictos no início de século IV da era Cristã como o povo muito semelhante aos iberos a quem Roma combateu na Hispânia.

A mais antiga referência aos pictos de que se tem notícia encontra-se num documento latino de 297 d.C., redigido por Eumenius, quando, juntamente com os hiberni, foram caracterizados como inimigos dos brittani. Fontes posteriores substituem hiberni por scotti, daí os termos familiares picts e scots. Estes eram certamente irlandeses, porém quem eram os pictos? A origem do termo pictos é problemática. O termo latino pictī, como já salientamos, significa “pintados” ou “tatuados” e assim deveria ser entendido por aqueles que sabiam o latim. Fica, porém, a dúvida, se o termo pictī  era de fato o epíteto que parece ser, ou se seria uma corruptela de um nome genuíno dos pictos desconhecido para nós. Sabe-se, porém, que em referência a todos os habitantes do norte de Clyde e Forth, o termo picti abrange dois povos distintos, um céltico e outro não-céltico.

O componente céltico compreendia a população que se fixou mais densamente, talvez no primeiro século a.C., na Baixa Escócia e ao longo do litoral ocidental além de Forth; o idioma céltico britânico dessa população pode ser reclassificado como céltico picto. O componente não-céltco pode ser equiparado com os habitantes tradicionais da região montanhosa da Escócia cujo território já era conhecido de Agrícola7, no século I a.C. como Caledônia (antigo nome da Escócia). Numa conotação lingüística, o termo picto se refere somente à língua desse componente.

Por volta de meados do século V, os scots de Ulster começaram a despojar os pictos de seu patrimônio em Argyl, onde estabeleceram seu próprio reino de Dal eoganachta riada. No século seguinte, entretanto, os pictos emergem como uma força poderosa, ao que parece, sob o comando de um único rei. Esse reino ficou conhecido como Pictland (“Terra dos pictos”). A linha Forth-Clyde formou a fronteira com seus vizinhos ao sul, os anglos de Northumbria e os Britânicos de Strathclyde. Já no oeste, a posição parece ter sido menos estável, os scots estendem seu domínio para o norte ao longo da costa e entre as ilhas.

As relações entre celtas e não-celtas no território de Pictland são ainda pouco compreendidas. Nomes célticos britânicos são comumente usados por pictos notáveis, o que implica pelo menos acentuada influência céltica britânica, ou até mesmo inequívoca superioridade. É o que se poderia esperar com certeza na primeira fase de contato quando os celtas que utilizavam o ferro se estabeleceram na região que ainda estava na Idade do Bronze. Não está, porém, claro como as coisas se desenvolveram subseqüentemente. Há evidência de que a língua dos reis de Pictland não era céltica. Bede8 em sua obra Historia Ecclesiastica Gentis Anglorum (“História Eclesiástica do Povo Inglês”), publicada em 731, declara que havia cinco línguas em uso na Grâ-Bretanha: o latim (a língua oficial da Igreja) e as línguas dos Bretti (britânico), Scotti (gaélico), Picti (picto) e Angli (inglês). De seu mosteiro em Jarrow9, Bede estava em condições favoráveis de possuir informações de primeira mão sobre tais assuntos. Os territórios vizinhos de Northumbria ao norte e noroeste eram respectivamente Pictland (falante do britânico) e Strathclyde. Em outra parte de sua obra, Bede descreve uma embaixada de Northumbria ao rei dos pictos Naiton e relata que uma carta trazida pelos emissários foi primeiramente traduzida para o picto. Se a língua do rei tivesse sido céltica, Bede a teria certamente chamado britânico, pois o celta de Pictland era um simples dialeto daquele idioma, para todos os efeitos, idêntico ao de Strathclyde com o qual estava possivelmente em contato. Pode-se notar também que as formas dos nomes célticos britânicos usados pelos pictos revelam mudanças comparáveis às que ocorreram alhures, no céltico britânico, notavelmente a perda das terminações flexivas. Esse fato indica uma continuação local do céltico durante o período do reino histórico picto. Não obstante, tem-se a impressão de que foi o picto, não o céltico, que estava em ascendência durante essa última fase.

Durante sua existência, o reino de Pictland parece ter sido subjugado à influência escocesa que emanava de Argyll.10 Em 565, o Cristianismo foi introduzido pelo missionário irlandês Columba (521-597). A supremacia cultural de Argyll explica por que muitos nomes pictos são gaélicos ou pelo menos gaelicizados. Porém não há evidência de que a língua dos pictos tenha sido seriamente ameaçada até o início do século IX. Foi nessa época que os assentamentos dos nórdicos em Shetland, Orkney, nas ilhas Hébridas, e em Sutherland e Caithness contribuíram para o desaparecimento do picto naquelas áreas. Os invasores vikings abalaram a estabilidade do estado picto, criando um vácuo de força para o qual os homens de Argyll conseguiram se deslocar. Em 843, sob a liderança de Cináed mac Ailpín (anglicizado Kenneth mac Alpin), Argyll e Pictland se unificaram formando um reino escocês sediado em Scone. A conseqüência lingüística dessa mudança política foi o triunfo do gaélico à custa do picto e do céltico picto. A história silencia a respeito dos pictos durante os dois séculos que se seguem. O que se pode conjeturar é que a língua dos pictos provavelmente tornou-se moribunda dentro de duas ou três gerações após aquele episódio, e que o ano 1000 teria sido o marco final de seu desaparecimento.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Um dos maiores mistérios que envolvem os pictos é a língua que falavam. Este tema tem estimulado muita discussão e argumento ao longo de sucessivos séculos.

Os nomes das tribos dos pictos descritas pelos autores romanos, irlandeses e ingleses sugerem elementos não-célticos. Primeiramente, não se pode esquecer que o nome grego e romano mais antigo das Ilhas Britânicas era Britannia(nome da tribo dos pictos chamada pritani que habitou o sul da Inglaterra bem antes da chegada dos celtas). Este termo possui um suposto significado “Povo dos Desenhos”, e o mesmo se verifica em relação ao nome céltico dos pictos, ou seja, cruithni. O romano Eumenius é quem nos dá a primeira referência aos picti, que ele descreve como sendo, juntamente com os irlandeses, os inimigos dos britânicos. Como o nome “pictus” significa em latim “pintados”, pergunta-se se ele estava se referindo a povos pintados ou tatuados ou a um nome autóctone. No ano 600 d.C., Santo Isidoro de Sevilha (560-636) atribui o nome pictos ao fato de esses povos tatuarem seus corpos com o auxílio de agulhas.

Outros nomes das tribos são bastante numerosos, sendo alguns verdadeiramente célticos, outros definitivamente latinos, alguns, como os que se seguem, parecem pictos:

Smertus/Smerta

Caledonius/Caledonia

Lugus/Luga

Vacomagus/Vacomaga

Caerenus/Caerena

Taezalus/Taezala

Cornavius/Cornavia

Epidius/Epidia

Decantus/Decanta

Veniconis/Veniconis

Nomes de cidades mencionadas pelo mapa de Ptolomeu, fontes romanas e crônicas no antigo irlandês e antigo inglês incluem:


 

 

Scetis

Tuesis

Orcades

Bannatia

Malaius

Tamia

Tarvedum

Devana

Virvedrum

Epidium

Verubium

Alauna

Carnonacae

Orrea

Creones

 

Muitos antropônimos apresentam formas celticizadas porque possivelmente teriam sido tomados de empréstimos quando o povo escocês já dominava os pictos. Eis alguns: Bridei, Gartnait, Nechtan, Irb, Lutrin, Uid, Talorc, Oswiu, Drest, Tara. Não temos, porém, se quer uma vaga idéia de como seriam pronunciados em picto, pois nenhuma descrição fonética sobreviveu, mas justamente nos nomes podemos facilmente perceber algo bem distante do céltico.

As inscrições ogâmicas, não muito numerosas encontradas na Escócia, são o único sinal vivo da verdadeira língua dos pictos. O ogam que foi inventado possivelmente para aquele idioma era inadequado para os celtas irlandeses, que o reconstruíram parcialmente na Irlanda. Lá todos os sinais ogâmicos podem ser facilmente traduzidos e representam a mais antiga forma histórica da língua literária irlandesa. Já os da Escócia, dificilmente podem ser traduzidos, embora todos os sinais, letras do alfabeto ogam, sejam bem conhecidos. Algumas dessas inscrições são pictas, e se encontram no norte da Escócia. Eis a lista:

qmi

hcsd.t..v.nh.t l....vqrrhmdnhq

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allhhallorreddmaqqnuuvvhrre.rr

ammaqqtallv lv bahhrrassudds

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vuunon itedovob b

ttlietrenoiddors ..uhtuoaged...

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bqi a b

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irataddoarens

duv nodnnatmaqqnahhto...

crroscc:nahhtvvddadds:
dattr:ann bennises:meqqddrroann

caltchu

von...ecco..

ettecuhetts:ahehhttannn:
hccvvevv:nehhtons

rginngchqodtosombs

iddarqnnnvorrenn iku(a) iosie

eddarrnonn... tti... gng..

m..quntenac..t

(e)tmiqavsallc

(...)besmeqqnanammovvez

idbmirrhannurractkevvcerroccs

eddarrnonn

iru 

ulucuvute

..ehteconmors ...dov ...ddrs

gedevem...dos

etteca... ..v:dattua ...rtt..

...vndar

Podemos identificar nas transcrições acima:

1.        O prefixo meqq, maqq  < maq "filho de"

2.         Alguns nomes de pessoas: Nechtan (nehhton), Talorc (talluorh, tallv), Pidarnoin (eddarrnonn), e outros desconhecidos.

3.        A ausência da letra p na escrita ogâmica.

4.        Freqüência acentuada de consoantes dobradas.

5.        A supressão de algumas vogais.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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D’AUTERIVE, R. Grandsaignes. Dictionnaire des racines des langues europeéennes. Paris: Larousse, 1948.

FORSYTH, Katherine. The Ogham Inscriptions of Scotland: An Edited Corpus, PhD Dissertation, Harvard University (Ann Arbor: UMI, 1996).

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HAYWOOD, John. Atlas of the Celtic world. London: Thames & Hudson, 2001.

KRUTA, Venceslas. Celtes. Histoire et dictionnaire. Des origines à la romanisation et au christianisme. Paris: Robert Laffont, 2000.

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McMANUS, Damian. A Guide to Ogham. Maynooth: An Sagart, 1991.

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WALTER, Henriette. L’aventure des langues en occident; leur origine, leur hostoire, leur geographie. Paris: Robert Laffont, 2000.

 


 


 

1 Do latim pictī, literalmente “pintados” ou “tatuados”, assim chamados por pintarem o corpo, prática que já havia desaparecido entre outras tribos célticas.

2 Os lingüistas costumam dividir as línguas céticas em dois grandes grupos: o primeiro grupo de línguas é conhecido como celta com Q-, porque essas línguas preservam o som /kw/ do proto-indo-europeu; o segundo grupo é identificado como celta com P-, porque o mesmo som /kw/, nessas línguas, se desenvolveu para /p/. Esse contraste pode ser observado em pares de palavras como, por exemplo, os equivalentes para os numerais “quatro” e “cinco”: ceathair e cúig (irlandês); pedwar e pump (galês), pevar e pemp (bretão). Note-se que o *p inicial indo-europeu manteve-se no sânscrito, no grego e no latim; porém passou a f ou v nas línguas germânicas. Cf. sânscrito pitar, grego patër, latim pater, gótico fadar, inglês father, alemão Vater. Podemos resumir essas evoluções fonéticas da seguinte maneira: o /p/ indo-europeu continuou /p/ no grego e no latim, porém foi eliminado no céltico antigo; já o /kw/ indo-europeu continuou /kw/, passando a /k/ no irlandês e a /p/ no galês.

3 Cf. os belgae, do latim Belgas (Belgae, -ārum),  habitantes da Gália belga, ao norte da Gália céltica, no século I a.C., e mais tarde também atestados na Grã-Bretanha. Seu nome ainda sobrevive na moderna Bélgica.

4 Corresponde ao May Day dos ingleses, primeiro dia do mês de maio, marcado pela celebração da chegada da primavera. Do gaélico escocês bealltain, provavelmente do velho celta belote(p)nia. Cf. a raiz indo-européia bhel- “brilhar”, “reluzir”.

5 O termo goidel vem dos pictos. Deriva de “gwyddel” (literalmente “selvagens”, como os pictos chamavam os recém-chegados. De goidelic deriva-se gaelic, “gaélico”. O gaélico se ramificou em três variedades, a saber: o gaélico irlandês (também conhecido como “galige”), o gaélico manquês (também conhecido como “gailck”) e o gaélico escocês (também conhecido como “gaidhlig”).

6 O alfabeto ogham consiste de vinte caracteres distintos (feda), dispostos em quatro séries (aicmí, plural de aicme “família”); cada aicme é identificado pelo nome do primeiro caráter (exemplo Aicme Beithe, Grupo B). Letras adicionais (forfeda) são introduzidas na tradição manuscrita. Cada letra simboliza uma árvore diferente e é formada por meio de diferentes traços ascendentes, descendentes e perpendiculares sobre uma linha vertical. A leitura é feita de baixo para cima. Não existe a letra P.

O uso da escrita ogâmica foi peculiar à população céltica nas Ilhas Britânicas. Cerca de 375 inscrições são ainda conservadas: 316 foram descobertas na Irlanda, principalmente nos condados do sul, e 40 no País de Gales, particularmente nos condados de Pembroke, Brecknock e Carmathan. Apenas uma inscrição ogâmica foi revelada em Cornwall (Cornualha) e duas em Denver. Uma foi encontrada em Silchester. Menos de dez foram encontradas na Ilha de Man e algumas na Escócia. Curiosamente, algumas inscrições encontradas no País de Gales são bilíngües (latim-céltico) e empregam caracteres ogâmicos e romanos. Das inscrições encontradas na Irlanda apenas uma não emprega o alfabeto ogam.

7 Cneu Júlio Agrícola, general romano (40-93). Concluiu a conquista da Grã-Bretanha.

8 (São) Bede, o venerável, monge e historiador inglês de um saber enciclopédico (673-735). Traduziu o Evangelho de João para o inglês antigo.

9 Cidade às margens do rio Tyne, Inglaterra. No século I d.C., os romanos estabeleceram um forte nesse lugar, posteriormente ocupado pelos anglo-saxônicos no século V. O nome da cidade deriva de "Gyrwe" (pronuncia-se Yeerweh), que significa “charco” ou “brejo”.

10 Argyll, (Earra-Ghàidheal em gaélico moderno), é uma região da Escócia Ocidental correspondente à antiga Dál Riata, e abrange toda orla ocidental entre o Mull of Kintyre (região onde se localiza um farol histórico, imortalizada numa canção dos anos 70, sob o mesmo nome, de Paul McCarney) e Cape Wrath (o ponto mais extremo do noroeste das Ilhas Britânicas).