O CASACO DE PELE DE OITOCENTOS ANOS
Álvaro Alfredo Bragança Júnior (UFRJ)
BIRKHAN, Helmut (Org.) Der achthundertjährige Pelzrock. Walther von der Vogelweide – Wolfger von Erla - Zeiselmauer. Wien: Verlag der Österreichis-chen Akadmie der Wissenschaften, 2005, 579 p.
A Academia de Ciências da Áustria promoveu entre 24 e 27 de setembro de 2003 na cidade de Zeiselmauer um Simpósio sobre aquele que é considerado o maior trovador em língua alemã da Idade Média, Walther von der Vogelweide. Coube ao renomado medievista Helmut Birkhan[1] a tarefa de organização, seleção e publicação das contribuições, o que se fez com a obra Der achthundertjährige Pelzrock, O casaco de pele de oitocentos anos. Um título como este pode soar estranhos àqueles que, em um primeiro momento, associam Literatura a labor estético, entretanto tal estranhamento logo se dissipa ao percebermos a intrínseca relação entre o texto, oriundo de um encontro acadêmico, e o elementos que o contextualizam, sejam eles de ordem temporal, espacial ou, em nosso caso, material. Portanto, tem-se desde o início um ponto de partida centrado em um dado real ligado à vida do Minnesänger e de outras personalidades do século XIII.[2] Ao tratarmos do mundo medieval somos de opinião que se deva pleitear uma abordagem metodológica que abarque os múltiplos influxos na elaboração do texto literário e, para tal finalidade, a Medievística Germanística presta-se muito bem.[3]
Como Prefácio à obra, Birkhan cita com precisão a data e o espaço físico, onde possivelmente, em 12 de novembro de 2003, no lugar do atual restaurante “Zum lustigen Bauern” (Ao alegre camponês) o bispo Wolfgang von Erla teria redigido ou mandado redigir o documento, em que doava a Walther von der Vogelweide um casaco de pele. O trovador germanófono, autor de ich saz ûf eime steine (Eu estava sentado sobre uma pedra), um dos mais belos poemas da lírica medieval em alemão, adquire outra dimensão como personagem histórico. O documento de valor histórico e, por conseguinte, verídico corrobora a existência do poeta, artista do verossimilhante.[4]
A obra em questão corresponde à Seção I, onde, conforme palavras de Birkhan (2005, p.8) encontravam-se aquelas conferências, que estavam relacionadas com a tradição, edição, objetos materiais e a recepção da obra de Walther. Devido ao espaço limitado para a resenha, listamos a seguir os trabalhos incluídos na publicação com a adição de um resumo do conteúdo:
1. Thomas Bein, Reflexões sobre a décima quinta tiragem da edição das obras de Walther por Lachmann e Cormeau. O autor faz uma análise filológica dos procedimentos utilizados por Karl Lachmann no século XIX e por Christoph Cormeau no século passado para o estabelecimento do texto de Walther;
2. Helmut Birkhan, ... swer dês vergêze, der tête mir leide. A cultura da memória de Walther nos livros de honra da casa de Vogelweide em Lajen. O erudito austríaco pesquisa aqui as citações dos visitantes da suposta casa do trovador, tanto lingüística, quanto literariamente com comentários de variada espécie e ilustra seu artigo, das páginas 67 à 82, com fotos e reproduções da casa, dos antigos donos, do livro e das inscrições nele contidas;[5]
3. Hartmut Bleumer, Histórias de Walther? Reflexões sobre as projeções narrativas entre a poesia sentenciosa e a lírica amorosa. O pesquisador discute os pontos de contato e de divergência, nos últimos anos, entre a propagada “realidade histórica” das poesias sentenciosas de Walther e sua “ficcionalidade” na poesia amorosa;
4. Danielle Buschinger, Wolfger von Erla e o poeta dos Nibelungos. A autora estuda aqui o papel do bispo de Passau em uma possível mudança no texto da Canção dos Nibelungos, em que se coloca a canção de louvor a uma família burgúndia;
5. Irmgard Gepahrt, Perda do eu e ganho de autonomia na lírica amorosa de Walther von der Vogelweide: o “Discurso do amor” (C 44) e a “Cantiga da coroa” (C 51). Investigam-se aqui os limites e abertura do “eu” dentro de dois dos mais famosos poemas do Minnesänger;
6. Arthur Groos, Citação, apropriação, autenticação. Sobre a “antiga” cantiga de Walther Maniger frâget, waz ich klage (C 6/L 13.33). O artigo trata da classificação comumente dada à cantiga acima nominada, considerada como uma das primeiras do poeta, e propõe uma rediscussão sobre aquela conceituação, bem como as características constitutivas daquela;
7. Sabine Heinz e Andrea Kutschke, Trovadores de destaque em comparação. O galês Dafydd ap Gwilym e Walther von der Vogelweide. Como o título do trabalho anuncia, serão comparados aspectos da poesia dos dois poetas, o primeiro do século XIV e Walther, a partir de uma perspectiva intercultural;
8. Wernfried Hofmeister, Omnia vincit radix: amor e “drogas” no poema estival 15 de Neidhart. Neste artigo, o autor analisa no poema estival número 15 de Neidhart von Riuwental o uso e a força de ervas “mágicas”, exercendo uma irresistível atração e, por fim, levando ao amor no texto literário;
9. Ingrid Kasten, O “Necrológio” de Walther a Reinmar. Memória, forma lírica e o discurso sobre a tristeza na Europa medieval por volta de 1200. A renomada estudiosa analisa estética e ritualísticamente a expressão da tristeza no “Necrológio” de Walther ao poeta Reinmar von Hagenau;
10. Manfred Kern, auctor in persona. Apropriação poética. Tópica e o rastro do Eu em Walhter von der Vogelweide. A contribuição de Kern prende-se à análise dos traços pessoais do autor Walther von der Vogelweide enquanto eu-lírico;
11. Walter Klomfar, Walther von der Vogelweide e o Waldviertel[6] – procedência e terra natal. O estudioso faz um levantamento crítico sobre a até agora discutida procedência do poeta medieval e elenca três localidades de nome Walthers e, ao fim do trabalho, insere fotos e mapas antigos e modernos das localidades citadas;
12. Fritz Peter Knapp, A forma de construção da Leich[7] de Walther à luz do Carmen Buranum 60/60a. Neste artigo, Fritz Peter atualiza a discussão já célebre acerca das formas constitutivas deste gênero, assinalando divergências e convergências entre a Leich Got dîner trinitâte, de Walther e o poema 60/60 a dos Carmina Burana, Captus amore gravi;
13. Gisela Kornrumpf, Hartmann ou Walther? Aspectos de divergências compilatórias no contexto da tradição. O trabalho, com excelente embasamento de Crítica Textual, investiga a questão da atribuição da autoria de textos ou a Walther ou a Hartmann von Aue[8], importante poeta germanófono de fins do século XII e início do século XIII;
14. Florian Kragl, Walther, Neidhart e a música com um anexo: sobre a pesquisa da música da lírica trovadoresca até 1300. Em 73 páginas, um longo trabalho, o acadêmico da Universidade de Viena traça um amplo perfil sobre o “canto” e aspectos ligados à música dentro das “composições”, em um primeiro momento, de Walther e Neidhart, e depois na lírica amorosa até o século XIII;
15. Ulrich Müller, Walther von der Vogelweide – hoje: O que se pode aprender de Walther von der Vogelweide ( e de outros) com respeito à propaganda e agitação? O catedrático de Salzburg tematiza em seu elucidativo artigo como Walter von der Vogelweide e outros poetas medievais de língua alemã inserem em seus textos aspectos de propaganda e agitação políticas em seus respectivos tempos, muito se assemelhando à práticas ideológicas modernas;
16. Eberhard Nellmann, Sobre a recepção dos poemas sentenciosos de Walther na literatura alemã até o início do século XIV. Aqui é colocada em evidência, como denuncia o título do trabalho, a importância dos poemas de cunho pessoal e político do trovador e sua circulação e recepção nos meios literários germanófonos até o século XIV. Ao final do artigo, o autor elenca os testemunhos textuais que corroboram sua utilização em obras de outros escritores;
17. Theodor Nolte, A dama e as damas, o trovador e o poeta de sentenças. Sobre Walther von der Vogelweide C 34/L 58, 21 ss. O pesquisador discorre sobre a interferência de temas de gêneros distintos – lírica amorosa e poesia sentenciosa – na cantiga acima citada de Walther;
18. Michael Patscheider, Como funciona o zwîvellop?Reflexões sobre a pragmática do elogio a Meißner na Saudação ao imperador (L 11, 30) de Walther von der Vogelweide. O autor discute em seu texto o famoso elogio a Dietrich von Meißner presente no poema Hêr keiser, ir sît willekomen, em que analisa a estratégia do poeta em nomear a ação não sincera do marquês face ao imperador Oto IV;[9]
19. Silvia Ranawake e Ralf-Henning Steinmetz, Contornos de uma nova edição das obras de Walther. À página 427, no título do artigo lê-se Contornos de uma nova edição comentada das obras de Walther, diferentemente daquele apresentado no Sumário do Simpósio e o mesmo trata da intenção, em 1989, de se fazer uma edição das obras de Walther, a qual, porém, foi deixada de lado por diversos fatores, entre eles o aparecimento de outras edições de textos waltharianos;
20. Hermann Reichert, Walther: cordeiro em pele de lobo ou lobo em pele de cordeiro?A partir do fato de que poucos dados biográficos existem a respeito do poeta, Hermann Reichert analisa a relação daquele com seus colegas de ofício e de Walther com ele próprio, com personalidades históricas, com as mulheres (damas) enquanto seres reais e personagens de sua ficção;
21. Anton Touber, Walther von der Vogelweide e a Itália. Neste artigo, o foco central da pesquisa está colocado na relação de Walther com a Itália, em especial associado à figura do bispo de Passau, Wolfger von Erla. A ida do sul do Tirol à Itália teria ocasionado uma forte influência dos metros românicos, temas e motivos na poesia do Minesänger, que são aqui comparados às técnicas dos troubadours occitânicos;
22. Christa Agnes Tuczay, Stürbe ich, so ist si tot – a cantiga do Rebento de verão de Walther ou fama póstuma sem reservas. A autora empreende um recorte temático ao investigar a idéia expressa por Walther sobre a fama póstuma, as implicações a ela relacionadas e os dilemas aí estabelecidos;
23. Melitta Weiss-Adamson, O (problema) da imagem da fava na Antigüidade e na Idade Média: algumas reflexões sobre o poema sentencioso de Walther. Uma das mais controversas criações poéticas de Walther é analisada aqui (L 17,25), em que a etimologia, a origem da espécie e o estudo da tradição literária do termo são empregados para se tentar entender as metáforas implícitas e não explícitas no texto;
24. Günter Zimmermann, Jogo de papéis? Sobre o “eu” em Walther (Atzeton 103,13; 103,29; 104,7). O último artigo da obra lida com perspectivas de apropriação do medievo na época contemporânea, ao iniciar a discussão com a aproximação de textos de Walther, adaptados por um grupo de rock atual e, em um segundo momento, a própria encenação do poeta, enquanto eu-lírico, em poemas de sua autoria.
A simples relação dos artigos constantes da obra O casaco de pele de oitocentos anos, como visto, é suficiente para se depreender quão profundo, filologicamente estimulante, atual e rico é o debate acadêmico, inter e transdisciplinar sobre a Idade Média, mais especificamente, sobre o Sacro Império e seu maior representante nas Letras, Walther von der Vogelweide. Um poeta, Walther, um homem da Igreja, Wolfger von Erla e um local, Zeiselmauer unem História à estória e ao livro organizado por Helmut Birkhan. Somos de opinião, pois, que esta resenha pode se encerrar, fazendo nossas as palavras do próprio poeta:
mir muoz der iemer lieber sîn der mir ist guot.
vergib mir ainders mîne schulde, ich wil noch haben den muot.
Sempre me é caro aquele que me faz o bem.
Perdoa-me minhas culpas de outra maneira, pois estou decidido a agir assim também no futuro.
[1] - Já fizemos em língua portuguesa as seguintes resenhas de obras do estudioso austríaco: Geschichte der altdeutschen Literatur im Licht ausgewählter Texte. Wien: Edition Praesens, 2002. 217 p. Parte I: Althochdeutsche und altsächsische Literatur. In: KESTLER, Izabela (Org.) forum deutsch – revista brasileira de estudos germânicos. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2005. Volume IX, p. 127-129.; Geschichte der altdeutschen Literatur im Licht ausgewählter Texte. Wien: Edition Praesens, 2002. 217 p. Parte II: Mittelhochdeutsche, vor- und frühhöfische Literatur. In: www.brathair.com.br, 5 (1), 2005: p. 141-143; Geschichte der altdeutschen Literatur im Licht ausgewählter Texte. Wien: Edition Praesens, 2002. 271 p. Parte III: Minnesang und Sangspruchdichtung der Stauferzeit. In: SILVA, José Pereira da. (Org.) Revista Philologus. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2005. nº 32, p. 152-155; Geschichte der altdeutschen Literatur im Licht ausgewählter Texte. Wien: Edition Praesens, 2003. 277 p. Parte IV: Romanliteratur der Stauferzeit. In: SILVA, José Pereira da. (Org.) Revista Philologus. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2005. nº 32, p. 156-159; Geschichte der altdeutschen Literatur im Licht ausgewählter Texte. Wien: Edition Praesens, 2004. 296 p. Parte V: Nachklassische Romane und höfische Novellen. In: www.brathair.com.br, 5 (2), 2005: p. 114-116; Geschichte der altdeutschen Literatur im Licht ausgewählter Texte. Wien: Edition Praesens, 2004. 233 p. Parte VI: Heldenepik der Staufer- und vom Anfang der Habsburgerzeit. In: SILVA, José Pereira da. (Org.) Revista Philologus. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2006. nº 34, p. 144-147; Geschichte der altdeutschen Literatur im Licht ausgewählter Texte. Wien: Edition Praesens, 2005. 339 p. Parte VII: Minnesang, Sangspruchdichtung und Verserzählung der letzten Staufer- und ersten Habsburgerzeit. In: SILVA, José Pereira da. (Org.) Revista Philologus. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2006. nº 35, p. 150-154; Geschichte der altdeutschen Literatur im Licht ausgewählter Texte. Wien: Edition Praesens, 2005. 373 p. Parte VIII: Lehrhafte Dichtung zwischen 1200 und 1300. In: KESTLER, Izabela. (Org.) forum deutsch – revista brasileira de estudos germânicos. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2006. Volume X, p. 166-169.
[2] - As relações entre Literatura e História, com respeito ao Sacro Império Romano-Germânico, são exploradas, por exemplo, em BRAGANÇA JÚNIOR, Álvaro Alfredo. Poesia histórica e/ou realidade literária? – Walther von der Vogelweide e a “Alemanha” nos séculos XII e XIII: uma abordagem culturalista. In: www.abrem.org.br/Poesiarealidade.pdf, p.1-14.
[3] - Para um melhor detalhamento sobre o assunto cf. BRAGANÇA JÚNIOR, Álvaro Alfredo. O estudo da literatura medieval em alemão no Brasil à luz da Medievística Germanística – algumas palavras. In: TELLES, Célia Marques & SOUZA, Risonete Batista de. V Encontro Internacional de estudos medievais – Anais. Salvador: Quarteto, 2005. p. 258-268.
[4] - Em língua portuguesa, sobre maiores informações acerca da vida e obra de Walther von der Vogelweide cf. o artigo de BRAGANÇA JÚNIOR, citado na nota 2.
[5] - Vale ressaltar que à página 5 da obra estão inseridos dois desenhos de alunos da escola primária de Zeiselmauer com referência à vida cotidiana na Idade Média e à ordem social.
[6] - Região no noroeste da Áustria com uma superfície de 4.600 quilômetros quadrados e repleta de florestas e bosques.
[7] - Em alemão, Leich significa, dentre suas várias definições no Dicionário dos Irmãos Grimm, uma cantiga formada por versos não uniformes ou uma cantiga de cunho religioso ou ainda o modo de se dançar ou cantar. Cf. Deutsches Wörterbuch von Jacob Grimm und Wilhelm Grimm in
http://germazope.uni-trier.de/Projects/WBB/woerterbuecher/dwb/wbgui?lemid=GL03952, volume 12, colunas 611-621, capturado em 27 de maio de 2006.
[8] - Em português temos como principal obra traduzida Der arme Heinrich (O pobre Henrique), cf. em www.brathair.com. V.3 (1), 2003:71-101.
[9] - Para uma análise em português do poema cf. BARBOZA DA SILVA, Rejane, Walther von der Vogelweide e as tensões políticas no Império Alemão na Baixa Idade Média: um retrato literário. In: LUPI, João & JÚNIOR, Arno Dal Ri. Humanismo medieval. Ijuí: editora UNIJUÍ, 2005, p. 305-328.