JOAQUIM MATTOSO CÂMARA JR
CONTRIBUIÇÕES AOS ESTUDOS
DA LÍNGUA PORTUGUESA
[1]

Valter Kehdi (USP)

 

Introdutor do estruturalismo lingüístico no Brasil, Joaquim Câmara Jr. era carioca, nascido a 13 de abril de 1904 e falecido a 4 de fevereiro de 1970. Deixou-nos numerosas publicações nos campos da Lingüística Geral, da Língua Portuguesa, Estilística, sem contar suas importantes contribuições aos estudos e Línguas Indígenas.[2]

Neste artigo, enforcaremos resumidamente as grandes inovações do autor em seus estudos de Língua Portuguesa, sobretudo pela renovação e veios de pesquisa abertos em um terreno cuja exploração, apesar de relativo avanço, ainda se impõe.[3]

Dignas de nota são as análises realizadas por Mattoso Câmara no terreno da Morfologia, especificamente no que se refere à flexão. Adotando o modelo descritivo do Item e Arranjo (IA) – segundo o qual uma palavra é formada de morfemas sucessivos, dispostos em função de uma combinatória marcada pela regularidade/paralelismo – , o autor consegue imprimir economia e rigor às descrições.

No estudo da flexão nominal de gênero, o masculino, como forma não-marcada, caracteriza-se por apresentar desinência zero (Ø)[4]; o feminino, a forma marcada, é obtida pelo acréscimo de – ª Desse modo, a formação do feminino baseia-se numa única regra; a formação do feminino baseia-se numa única regra; alterações morfofonêmicas, como alternância vocálica, elisão etc., explicariam perfeitamente bem as aparentes irregularidades.

Para a flexão de número, Mattoso Câmara não adota o quadro de variantes: plurais em – s, – es, – is etc. Destaca, para os nomes terminados, no singular, em vogal átona, o caráter temático dessas vogais, e o plural passa a ser obtido pelo simples acréscimo de – s; com relação aos nomes terminados em consoante, no singular, postula a existência da vogal temática – e, cuja presença pode ser observada no plural. Algumas regras morfofonêmicas dariam conta de aparentes irregularidades; a título de ilustração, o plural animais seriam explicado como segue: no singular, *animaLE, teríamos a queda da vogal temática em final absoluto (à semelhança de *maré-marEs); no plural, animalEs, atuaria a regra de supressão da consoante intervocálica /l/; em seguida, o – e–fechar – se – ia em – i–e semivocalizar-se-ia em contato com o segundo – a–do radical.[5]

Relativamente à flexão verbal, no que toca aos verbos regulares, a proposta é que as formas verbais conjugáveis se constituem de quatro morfemas, distribuídos na seguinte ordem: radical, vogal temática, desinência modo-temporal e desinência número-pessoal.[6] A comparação de amávamos (am + à +va + mos) com ama permite concluir que, nessa última forma, podemos propor a combinatória am + a + Ø + Ø, interpretando-se o primeiro Ø como desinência modo-temporal (por oposição a amava) e o segundo como desinência número-pessoal (por oposição a amas).

Cumpre ressaltar que o modelo IA não só é cabível nos casos acima apresentados, em que sempre se dá a ocorrência de morfemas aditivos – o que aponta para a sucessividade dos morfemas constitutivos-, como também explica e homogeneíza os três casos de flexão: na de gênero, temos o tema/ radical acrescido de – a; na de número, ao tema segue a desinência – s. Destacam-se, assim, divisões binárias: tema + – s, num primeiro momento; radical + vogal temática nominal, num segundo. O binarismo, assinalado como uma característica importante do modelo IA, também se verifica nas formas verbais: em amávamos, ao radical am–se acrescenta a vogal temática – a; a ama–acrescenta-se – va-; finalmente, a amava-se anexa a desinência número-pessoal – mos.

Com relação aos casos aqui examinados, o cotejo com nossas gramáticas tradicionais de maior destaque permite constatar que as descrições mattosianas se pautam por maior rigor, associado aos princípios de economia e do paralelismo. Saliente-se, todavia, que, no capítulo referente aos processos de formação de palavras, há temas não contemplados (ou apenas aflorados) por Mattoso Câmara. Fenômeno como parassíntese, derivação regressiva e composição nominal ainda merecem especial atenção.

A título de ilustração, examinaremos alguns fatos. Verbos como amolecer e enfiar enquadram-se em diferentes tipos de parassíntese; sem levar em conta a característica da simultaneidade dos afixos, em amolecer o que chama a atenção é a mudança de classe do radical, constituindo um exemplo de derivação do tipo paradigmático; por sua vez, em enfiar, além da mudança de classe do radical, o que deve ser destacado é a nova distribuição dos morfemas constitutivos: comparem-se pôr o fio em... E enfiar, em que se nota, no último caso, a anteposição da preposição (como prefixo) ao radical nominal; trata-se, agora, de um caso de derivação do tipo sintagmático.[7]

Com relação à derivação regressiva, a posição de Mattoso Câmara, segundo a qual as vogais finais dos Mattoso Câmara, segundo a qual as vogais finais dos substantivos jogo, luta e ataque são vogais finais dos substantivos jogo, luta e ataque são vogais finais dos substantivos jogo, luta e ataque são vogais temáticas nominais (por paralelismo com os substantivos primitivos disco, carta e azeite), merece reexame. Não há dúvida de que a análise mattosiana se caracteriza, aqui também, pelo paralelismo e pela economia; contudo, a freqüência permuta dessas vogais finais em alguns deverbais (grito/grita, desmancho/desmanche)[8], bem como a possibilidade de substituição por sufixos tônicos (dura/duração, pago/pagamento), levam-nos a repensar essa interpretação e a considerar que estamos diante de sufixos átonos, o que, aliás, sempre foi reconhecido pelos romanistas.

No que toca à composição nominal, é preciso enfatizar a importância da microssintaxe específica dos substantivos compostos, em função da qual teríamos condições para explicar a flexão de número e gênero desses compostos, geralmente apresentada por gramáticas e dicionários como algo caótico, com muitas variantes possíveis.[9]

No terreno da Sintaxe, as contribuições de Mattoso Câmara são praticamente ignoradas, provavelmente porque o autor não aderiu aos princípios e técnicas da análise distribucional (análise em constituintes imediatos) e da gramática gerativo-transformacional. Entretanto, dentro da tradição brasileira de estudos sintáticos, estribada em Antenor Nascentes, José Oiticica e Said Ali, é apreciável e importante a posição de Mattoso Câmara. Pode-se afirmar que, dentro dessa tradição, as proposta do autor revelam uma orientação mais formalista e menos marcada por uma orientação mais formalista e menos marcada por considerações semânticas e psicológicas. Saliente-se, por exemplo, que os termos oracionais são caracterizados em função de técnicas como posição, acréscimos, substituições etc., por exemplo, o objeto direto é sempre substituível por o/a/os/as, ao passo que o objeto indireto pode ser substituído por lhe(s). Aqui é de capital importância a leitura do verbete transformação no Dicionário de lingüística e gramática (p. 234)[10], que especifica e hierarquiza todas essas técnicas.

Ainda que os estudos, no gerativismo ou na gramática de valências, cumpre ressaltar que essas investigações só adquirem sentido e podem conduzir a certo aprofundamento a partir de uma base descritiva homogênea e coerente, com a qual nosso autor não deixou de se preocupar, como acabamos de assinalar.

Encerrando nossas considerações, é fundamental que se insista no fato de que um avanço nos estudos de Morfologia e Sintaxe não pode realizar-se sem a reavaliação adequada das importantes contribuições mattosianas ao longo dos anos 50 e 60. Em nossa exposição, embora não exaustivamente, procuramos destacar alguns pontos básicos das investigações de Mattoso Câmara, com o objetivo de mostrar não só as inovações e profundidade de suas análises, mas também chamar a atenção dos estudiosos desses temas para um acervo que, por sua solidez, não deve ser ignorado.

 


 

BIBLIOGRAFIA

BENVENISTE, Emile. Problèmes de linguistique générale. Paris: Gallimard, 1974, v.2.

CAMARA JR., J. Mattoso. Dicionário de lingüística e gramática. 7ª ed. Petrópolis: Vozes, 1977.

––––––. Dispersos. Rio de Janeiro: Fundação G. Vargas, 1972.

GUILBERT, Louis. La créativité lexicale. Paris: Larousse, 1975.

KEHDI, Valter. A morfologia e a sintaxe portuguesas na obra de J. Mattoso Câmara Jr. São Paulo: USP/Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas – Área: Filologia e Língua Portuguesa, 1998 (tese de livre-docência).

VASCONCELOS, Antônio Garcia Ribeiro de. Gramática portuguesa. Lisboa: Aillaud, 1909.


 


 

[1] Artigo transcrito de ANDRADES, Marcelo Ferreira de (Coord.). Editora Vozes: 10 anos de história. Petrópolis: Vozes, 2001, p. 366-368.

[2] Não apresentamos, aqui, os dados biográficos e a lista das publicações do autor, com a respectiva classificação, pois esse trabalho já realizado e amplamente divulgado. O trabalho já foi realizado e amplamente divulgado. Os interessados poderão obter essas informações nos Dispersos de J.M. Câmara Jr. (seleção e introdução por Carlos Eduardo Falcão Uchoa), às p. VIII-XLIV; os dados fornecidos pelo prof. Uchoa foram reproduzidos às p. 80-85 dos “Estudos lingüísticos em homenagem a J., Mattoso Câmara Jr.”, in Revista de Cultura Vozes, Petrópolis, 5, 1973, ano 67.

[3] Nossa exposição consistirá no resumo e na reavaliação de algumas passagens de nossa tese de livre-docência, A morfologia e a sintaxe portuguesas na obra de J. Mattoso Câmara Jr.

[4] Em pares como garoto-garota, menino-menina, o –o é analisado como vogal temática nominal.

[5] Não se interprete o fato como projeção de informações diacrônicas; a amplitude da queda do –l- intervocálico, do ponto de vista histórico, é muito maior (cf. sair, de salire, p. ex.).

[6] É de notar, aqui, a influência de Ribeiro de Vasconcelos, em sua Gramática portuguesa (p. 132-194). Saliente-se, contudo, que a análise de Ribeiro de Vasconcelos é feita com base em um enfoque diacrônico, ao passo que a mattosiana privilegia as comutações, que permitem depreender com rigor e precisão os morfetas constitutivos depreender com rigor e precisão os morfetas constitutivos das formas verbais.

[7] Utilizamos as designações de derivação de tipo paradigmático/sintagmático, com base na obra de L. Guilbert.

[8] Note-se que não é possível a permuta de vogais temáticas nominais nos substantivos primitivos.

[9] Para a microsintaxe dos compostos é altamente sugestiva a leitura do artigo de E. Benveniste, Fondements syntaxiques de la composition nominale (p. 145-162).

[10] Esclareça-se que, por transformação, o autor entende uma simples técnica de relacionamento entre frases, sem apelo a estruturas profundas e a ordem de transformações, o que, não permite interpretar que tenha havido uma adesão inconsciente à sintaxe gerativo-transformacional.