Variantes autorais
n’A Confederação dos Tamoios
Fábio Frohwein (UNESA e UFRJ)
RESUMO
Este trabalho
expõe os primeiros
resultados
do cotejo entre
edições d’A
Confederação
dos Tamoios,
poema
de Domingos José Gonçalves de Magalhães
(1811-1882). Empregaram-se, portanto, as
edições de 1856 e 1864, além das versões
iniciais dos
cantos
primeiro e quarto,
publicadas na Revista Nacional e Estrangeira
em 1839. Observou-se conseqüentemente que,
ao longo de sua
tradição impressa,
a obra ganhou alterações, ocorrendo variantes autorais. Tais
alterações foram anotadas e interpretadas com
base na própria
semiologia do
poema.
Palavras-chave:
Edições, Tradição impressa, Variantes autorais, Confederação dos Tamoios,
Gonçalves de Magalhães
A Confederação
dos
Tamoios (1856),
poema épico de Domingos
José Gonçalves de Magalhães (1811-1882), narra o
episódio
histórico
homônimo
ocorrido entre 1554/5-1567, em que índios do norte de São Paulo e sul fluminense reuniram-se com
o objetivo de expulsar
os portugueses daquela região. O poema tem por herói Aimbire, filho
de Cairuçu, que
busca
vingar a morte do pai, escravizado até
a exaustão por
Brás Cubas,
governador
da Capitania de
São
Vicente. Aimbire persuade os chefes indígenas a unirem-se numa
confederação, apoiada pelos
franceses, e investe contra os lusos. A obra
finda com a
derrota
dos índios e
conseqüente
morte do herói,
sepultado por José de Anchieta.
Do manuscrito da peça Antônio José ou
o Poeta
e a Inquisição, consta um pós-escrito segundo o qual
Magalhães começou a redigir A
Confederação em 1837. Por outro lado, não foram localizados até
agora indícios
materiais da
pré-história
do poema, senão
as publicações esparsas na Revista Nacional e Estrangeira
de dois anos depois. Da mesma
forma, são por enquanto de
paradeiro
desconhecido
quaisquer originais
manuscritos
autógrafos. Hélio
Viana alude a um
exemplar com
anotações de Magalhães enviado a Pedro
II, mas não
se trataria propriamente de um original empregado como modelo
para
a edição ou
reedição da obra.
Embora Magalhães
tenha publicado apenas
dois
itens relativos
à Confederação
em 1839, o
material
já traz o embrião
de quatro cantos,
a saber, os primeiro, quarto, sétimo e oitavo. As alterações do estado
da Revista
Nacional
e Estrangeira para
o da editio princeps abrangem desde modificações micro-estruturais, como acréscimo,
supressão e modificação de versos, até
remanejamento da matéria narrada. A rigor, conforme os títulos, os itens
dizem respeito aos
cantos
primeiro e quarto, porém o cotejo com a edição de
1856 revela que do
embrionário
canto primeiro
se originaram os cantos sétimo e oitavo.
À parte mudanças
mais
localizadas, o canto
quarto
foi posteriormente alongado, mantendo a mesma unidade nos testemunhos
posteriores.
Curiosamente a primeira amostra
que Magalhães oferece d’A
Confederação é o canto
quarto, publicado em
maio
de 1839. Dois meses depois,
em julho,
o canto primeiro
viria a público. No
canto
quarto, há a despedida
dos guerreiros,
que
seguem pela
floresta
para o ataque à vila de São
Vicente, deliberado na assembléia do canto segundo. A
meio do canto, lia-se
originariamente o subtítulo “IGUASSÚ”,
marcando o início do monólogo da esposa
prometida de Aimbire. O lirismo da fala da índia
destacava-se de tal
forma,
que parecia ser
o assunto principal.
Entretanto, na editio princeps, o
canto
passou a abrigar também
o episódio da tangapema, que se sobrepôs ao monólogo
de Iguaçu, pela funcionalidade (elemento maravilhoso),
dramaticidade (tensão entre Aimbire e o Pajé)
e extensão em
versos (271
contra
os 129 da cena da
índia).
No estado da Revista Nacional
e Estrangeira, o canto primeiro abarcava elementos dos cantos
primeiro, sétimo
e oitavo do
estado
da edição de 1856. Abrangia a invocação ao sol
e aos gênios da
natureza, a descrição das
belezas
do Brasil, dos rios
Amazonas
e Paraná,
comentários
acerca dos
indígenas, a chegada dos
portugueses e a escravização dos brasílicos. Além disso, mencionava o fato
de Anchieta e Nóbrega não lograrem êxito ao tentarem dissuadir
os lusos dos maus
tratos
aos índios e a questão
do livre-arbítrio trabalhada
nos
versos 4059-4067,
ambos
remanejados para o canto
sétimo. Remetia
ainda
aos ardis de Satã para
desencaminhar os lusitanos,
refundidos no canto
oitavo. Na versão
definitiva, o canto
primeiro
ganhou a cena em
que Aimbire chega
à aldeia de Pindobuçu e assiste ao funeral de Comorim, gancho
para o canto segundo.
Na edição de 1856,
A Confederação
enfim apareceu completa
em
público. Em
20 de maio, Francisco de Paula Brito,
responsável
pela tipografia
imperial Dois de Dezembro,
entregou os primeiros exemplares a Pedro II (Viana, 1970: 64). Ao que tudo
indica, havia grande
expectativa
e ansiedade em
se ler o poema
de Magalhães, haja vista os comentários sarcásticos
dos críticos que
atacaram a obra e o
simples
fato de se terem publicado dois anos antes os fragmentos
mencionados. A qualidade do trabalho tipográfico
foi muito elogiada,
mas
o texto em
si recebeu duras
críticas, dando margem a
uma das mais famosas polêmicas
literárias do século XIX. José de
Alencar, sob o
pseudônimo
Ig., publicou de junho a agosto de 1856 no Diário
do Rio de Janeiro oito
cartas, ainda
no mesmo ano
compiladas no livro
Cartas sobre
A Confederação dos Tamoios (Apud Castello, 1953).
Em linhas gerais,
Alencar reclama da qualidade do poema, expondo problemas
quanto a rima,
métrica, língua,
construção de personagens,
descrição das
belezas
naturais do Brasil,
argumento
central do poema,
dentre outros.
Os ataques instigaram os defensores d’A Confederação a participarem do
debate. Pedro II e Manuel de Araújo Porto-Alegre saíram
em
defesa de Magalhães. À parte demais críticas de menor
freqüência nas
páginas
dos jornais, o
frei
Francisco de Monte Alverne quis equalizar a situação,
apontando tanto
incongruências
das cartas de Ig.
quanto
problemas estilísticos d’A
Confederação.
À guisa de exemplo, a segunda
carta de Alencar, publicada a 11 de junho, aborda em
específico o
segundo
canto do poema.
O crítico de
início
manifesta
profunda
decepção a
despeito
da descrição das
belezas
naturais do Brasil. Compara A
Confederação aos Natchez, de Chateaubriand,
asseverando que a
natureza
brasileira na
pena
de Magalhães em
muito
deixa a dever
às regiões e rios
da América do Norte.
Alencar critica a abertura
do segundo canto.
Entende que um
poeta épico precisa alçar as raças e as ações
à dimensão divina,
para fazer jus ao uso da épica. Reclama da falta
de grandiosidade na
descrição
do conselho. E prossegue:
P’ra acabar co’os ataques
reiterados
Dos Lusos, confederão-se os Tamoyos.
Eis
o começo do segundo canto.
Eis
a causa d’essa grande confederação
que merece uma epopéa! Eis o motivo
d’essa guerra de morte,
d’essa vingança estrondosa!
Eis o principio de
um
drama terrivel
que
acaba pela
destruição
de um povo!
Não
é pelo odio instinctivo da côr,
não é pelo
opprobrio e a vergonha de homens livres
reduzidos á escravidão, não é pelo seu bello paiz, dominados por
filhos de terras
estranhas; não é para
vingar as cinzas
de seus pais,
não é por
nenhum d’esses
incentivos nobres,
que os Tamoyos se confederão; é
unicamente para acabar com os ataques
reiterados dos Lusos. (Castello, 1953: 11)
Outra crítica diz respeito
à insistência na
tradição
acerca das águas
do rio Carioca
e do seu poder
de adoçar a voz,
já aludida no primeiro
canto, e uma
certa
“inexatidão historica sobre o territorio habitado
pelos
tamoyos” (Castello, 1953: 12), embora
nas notas reveja o
comentário. Compara os heróis de
Magalhães aos de Basílio da Gama e avalia que as personagens
d’O Uraguay foram compostas com mais “força
e belleza” (Idem, ibidem,
p. 13). Observando ainda que o autor d’A Confederação inspirou-se no poeta
setecentista, confronta várias passagens em que se contrastam a pele
de jacaré usada
por
Aimbire e a pele
verde
negra do índio
d’O Uraguay; as aljavas; os
aspectos agressivos
de Pindobuçu e Kobé.
A única concessão que
faz é quanto à
passagem
em
que Aimbire fala de seu pai: “Ia escapando-me citar
um
trecho do poema
que, excepção feita
de algumas palavras communs, achei
lindissimo, e repassado d’essa poesia
mysteriosa das lendas e dos mythos” (Idem, ibidem, p. 15). A
seguir
torna a atacar
e reclama da falta de expressividade das
cenas de combate
entre lusos e franceses e a excessiva repetição
das palavras fogo
e sangue, que
torna a descrição
um tanto
inadequada a um índio,
em tese
acostumado “aos combates
mortiferos de massa e
tacape, e a quem
por
conseguinte essas idéas de sangue devião parecer naturaes, e não
causar tanta
impressão” (Idem, ibidem,
p. 16).
As cartas sobre A Confederação foram publicadas no Diário do Rio de Janeiro em
duas etapas. A
primeira, de 10 de junho a
14 de julho, compreende cinco
cartas. A segunda,
de 9 a 15 de agosto de 1856, acrescenta mais três. Em princípio, a
crítica limitar-se-ia às cinco primeiras, já
que a quinta
se intitulava “última carta”. No entanto,
somente após a quinta, começaram a surgir
as respostas. O
primeiro
contra-ataque, de Porto-Alegre sob o pseudônimo O
amigo
do poeta, foi publicado no
Correio da Tarde
em 23 de julho,
isto é, 9 dias
depois da “última
carta”.
Talvez a morosidade
da réplica tenha
decorrido
da falta de
sucesso
dos pedidos de Pedro II. Hélio Viana relata o esforço
empreendido pelo Imperador
para obter junto a personalidades
de vulto
literário
comentários
favoráveis
à Confederação. Alexandre
Herculano e o poeta João Cardoso de Meneses e Sousa
alegaram razões que os impedissem de participar
da polêmica.
Espantosamente
membros da
diplomacia
brasileira,
colegas
de profissão de Magalhães, como Antônio Peregrino
Maciel Monteiro, Francisco Inácio de Carvalho
Moreira, Francisco Adolfo de Varnhagen, Joaquim Caetano da Silva e Joaquim Tomás
do Amaral também se esquivaram da tarefa. O frei
Francisco de Monte Alverne, por seu turno, atendeu à solicitação,
ainda
que tardiamente.
Redigiu as Considerações
críticas, literárias e filosóficas, publicadas no
Jornal do Comércio
em 23 de dezembro,
cerca de quatro
meses depois da
oitava
carta de Alencar.
Após a
edição
de 1856, a obra teve no ano seguinte
uma reimpressão,
que
freqüentemente
figura
na tradição
crítica
como segunda
edição. No
entanto,
apenas a edição
brasileira de 1864 traz na página de rosto
a indicação de
segunda
edição. A
reimpressão
de 1857 consiste na verdade num codex descriptivus
e não
introduz inovações, podendo portanto ser descartada sem prejuízo do trabalho filológico. Sua
importância
histórica
circunscreve-se a ter servido de base para a elaboração da edição
portuguesa de 1864, conforme abona a informação
inicial. Por
isso, as edições
brasileira e portuguesa de 1864 são absolutamente
diferentes, uma
vez
que seguem
estados
distintos do
texto.
Na advertência à segunda edição,
Magalhães assume que alterou o texto. As modificações não
chegam a ser macro-estruturais
como
as observadas anteriormente do estado de 1839 para o da
editio princeps. O que
se nota são
acréscimos, supressões e modificações de
versos, como
o próprio autor
declara. Em carta
de 31 de agosto de 1856
para
Porto-Alegre, até
agora
inédita, Magalhães diz não se abalar com a crítica:
Que pensas? Que
fiquei muito afflicto com a leitura
das 4 cartas empressas no Diario do Rio sobre a Confederação dos Tamoyos? Enganas-te. Não me
surpreendeo, nem
muito
incommodou-me essa critica assim tão saturada de
fel, que
por isso
mesmo quase
prova o contrario do que
diz. Eu não
esperava parabens e louvores: quem os merece entre
nós só
os recebe de alguns
raros
amigos.
Refuta alguns dos principais ataques,
como a questão
em torno
à ação central
do poema. Afirma
que
o crítico
Não leo todo
o poema, e que
vai expor
as suas idéas na
mesma
ordem em
que as formulou,
isto
é de canto em canto. Dahi afirma que eu faço derivar a acção do poema,
e a alliança das tribus de um incidente insignificante,
como seja a morte
de um indio. O
que
é completamente inexacto. Quando Aimbire se apresenta a Pindobuçú, e o acha dando sepultura a um filho, que na defesa
de sua tenra
irmã, fora morto
por alguns
colonos que
pertendiam raptal-a, já todas as tribus,
como Aimbire
altamente
o declara, estão confederadas, para defesa da propria liberdade,
das suas vidas,
e das suas terras,
unicos bens de
homens
incultos; Que
razão mais
forte? Creio que
pelo menos vale o rapto de uma mulher. Não
faço pois depender
a acção do poema, e a alliança das tribus
da morte de um
indio, como erradamente assevera o auctor
das cartas. Faltava uma só tribu; o que
fiz de proposito para começar
o poema por
um quadro
animado de
grandes
paixoens, por uma scena pathetica e inesperada de uma familia, de uma tribu inteira que chora a recente
morte do filho
do seu chefe,
victima do inimigo commum.
Na advertência à segunda edição,
Magalhães não menciona críticas negativas
à Confederação.
Acerca da revisão
da obra, alude
aos “louvores, e
ainda mesmo
a critica benevola com que o acolheram os litteratos nacionaes, e alguns estrangeiros”.
Cita em nota
os nomes de
D. João Guttierrez, Ricardo Ceroni,
Ferdinand Wolf, J. Soares de Azevedo, e Inocêncio Francisco da Silva. Em carta ao Imperador
de 12 de julho de 1859, o autor
justifica os melhoramentos de outra maneira:
Conveniente
julguei ajuntar um Prólogo, mais duas Notas,
e aumentar a 7.ª, do 4.º
Canto,
para responder às censuras que me fizeram, e prevenir
outras de igual
natureza. O nosso
público, e ainda
mesmo
os nossos
críticos,
não são
tão instruídos
que
dispensem explicações. (Viana, 1970: 69)
De fato, a recepção
crítica influenciou nas reformulações para a segunda edição. No entanto,
Magalhães tinha
por
hábito modificar
seus textos
quando de novas
edições. A
Confederação não é um caso isolado de revisão.
Veja-se, por
exemplo, a edição
crítica
dos Suspiros poéticos,
para
que se tenha
noção
do modus operandi do autor. Logo,
seria leviano concluir
que as alterações no texto de 1856 significam em
absoluto que
Magalhães se abateu com a crítica desfavorável.
A carta a Pedro II
pormenoriza inovações que com efeito se verificam na edição
de 1864:
Seguindo
o exemplo constante
de Camões, e de quase todos os bons poetas portugueses, escrevo
agora
para, em vez de
p’ra, mais
usado no Brasil que
em
Portugal; pelo que
foi necessário corrigir muitos versos.
(Viana, 1970: 69)
Nos aparatos críticos ao texto
d’A Confederação, ilustram-se
várias passagens em que se
substituiu p’ra, variante
sincopada da preposição
para, mais
de acordo com
a oralidade
brasileira,
pela forma plena. Há quatro
categorias decorrentes da substituição da forma
sincopada:
a)
simples
substituição pela
forma plena:
|
primeira edição |
segunda edição |
|
Que
estende os braços
p’ra abarcar a terra! |
Que
estende os braços
para abarcar a
terra!
(v. 22) |
b)
simples
substituição por
outra(s)
preposição(ões)
com ou
sem refusão do
verso:
|
primeira edição |
segunda edição |
|
Donde p’ra
seus
irmãos o mal
saía.
Toscas pedras
p’ra o tosco
monumento. |
Donde
incessante
mal aos indios vinha
Toscas pedras
em tosco
monumento. (v.317) |
c)
substituição
com refusão do
verso:
|
primeira edição |
segunda edição |
|
Tão
grande crime fugirá p’ra
sempre? |
Para
sempre será tal crime
extincto? (v.179) |
d)
substituição
com refusão do
verso
e adjacências;
|
primeira edição |
segunda edição |
|
P’ra
acabar co’os ataques
reiterados
Dos Lusos, confederam-se os Tamoyos. |
Em
defensa da vida
e liberdade,
Contra
as injustas aggressões continuas
Dos Lusos, confederam-se os Tamoyos.
(vv.593-595) |
Sobre o último exemplo,
haveria ainda
outro
fator a ser
avaliado. Trata-se da já mencionada crítica de Alencar à abertura
do canto segundo.
De certa maneira,
parece que Magalhães aceita o comentário de Alencar. Na primeira
versão, a
articulação
dos tamoios é
definida
na abertura do
canto
apenas como
um levante
contra os ataques
dos portugueses. Na segunda, a motivação
da conjura tem
por
valor maior
a “defensa da vida
e liberdade”, havendo um possível influxo das palavras
de Alencar: “não
é pelo opprobrio e a vergonha
de homens livres
reduzidos á escravidão, (…) é unicamente
para acabar com os ataques
reiterados dos Lusos.” (Castello, 1953: 11).
Contudo, a problemática da liberdade
desde o canto
inicial se apresenta de
forma
significativa:
Mas nós, homens, a quem
Tupan dêo tudo,
Nós, que livres
nascémos nestes bosques,
Porque covardes,
sem
luctar, escravos
Nos faremos agora do estrangeiro?”
Deste geito discorrem os selvagens.
(vv.218-222)
Como o próprio Magalhães
escreveu a Pedro II, “o nosso
público, e ainda
mesmo os nossos
críticos, não
são tão
instruídos que dispensem explicações”
(Viana, 1970: 63). Talvez o
autor
tenha, além da
substituição
do p’ra, aproveitado para
reiterar que
os tamoios se confederavam pela causa libertária, frisando que
o levante era
“em
defensa da vida e
liberdade”. De qualquer
forma,
quase todas as
censuras
de Alencar a versos
mal
metrificados não foram aceitas. O autor d’A Confederação fala
sobre correções
de linguagem e de
estilo.
Com efeito,
há correções
métricas.
Por exemplo,
os versos 124 e 504 tinham
originariamente
nove sílabas:
|
primeira edição |
segunda edição |
|
O ar
é tão nectareo,
como
o aroma
Ah, meu
filho! parece o estou vendo! |
Os ares
tão nectareos,
como
aroma (v.124)
Ah, meu
filho! parece
que
o estou vendo! (v.504) |
Magalhães alterou seis
dos versos censurados por Monte
Alverne
em função
de cacofonia:
|
primeira
edição |
segunda edição |
|
Que
nem no ar voando ao tiro
escapa.
Que a par
dos versos
teus
mais te
exhaltassem:
Até que
á par do tio ajoelhou-se.
Do leal
Camarão a
par dos netos,
A par
da Cruz de Christo que o decora,
A par
do rico, que
no fausto vive |
Que
nem alto voando ao tiro
escapa. (v.1273)
Que alêm dos
versos
teus mais
te exaltassem; (v.2019)
Até que
juncto ao tio ajoelhou-se.
(v.2409)
Do leal
Camarão
junctos co’os netos, (v.3202)
Juncto da
Cruz
de Christo que o
decora, (v.4669)
Servo do rico, que no fausto
vive (v.5275) |
No verso 1273, a contração da preposição
com o artigo
no junto
com o infinitivo
ar
forma o som
desagradável noar, no entender
de Monte Alverne. Os versos 2019, 2409, 3202, 4669 e 5275 são exemplos em que se ouvem
os cacófatos pardo,
parda, pardos, apontados também
em
outras passagens
que
não foram alteradas. Magalhães parece atender mais às observações do frei,
de quem foi
discípulo, do que às de
Alencar. A quinta carta
à Confederação dos
Tamoios traz uma seção dedicada à
metrificação, em que se listam
onze versos defeituosos. Modificaram-se
somente dois, sendo
que um
deles muito provavelmente tenha sido
alterado por causa
do p’ra, a exemplo
da segunda
categoria
apontada:
|
primeira edição |
segunda edição |
|
Facil foi-me o
passar
p’ra adiante os braços, |
Facil foi-me o
passar
adiante os
braços, (v.1100) |
Magalhães fala da inclusão de um Prólogo. Nas Considerações, Monte Alverne, sobre
a estrutura d’A
Confederação, aponta um problema de organização, constante
em poemas
épicos: a anteposição da invocação à narração.
Segundo o frei,
“a invocação
deve ser, portanto,
posterior á narração
(…)” (Viana, 1970). Para
corrigir
a inversão dos
morfemas
canônicos da
epopéia, sugere que a
invocação
contenha “essencialmente
a exposição dos grandes
factos que caracterisam a epopéa (…)”
(Castelo, 1953: 128). Provavelmente o poeta pretendeu
fazê-lo para a segunda edição, ao cogitar em “ajuntar um Prólogo” (Viana, 1970: 69),
mas
depois voltou
atrás
e o suprimiu, uma vez que não aparece
na edição de 1864. O
exemplar
com anotações autógrafas depositado na Biblioteca do Imperador,
Museu Imperial de Petrópolis,
esclareceria melhor a
questão.
A carta a Pedro II
de 1859 revela ainda outras alterações
comprovadas pela colatio dos
testemunhos. Magalhães suprimiu pronomes que julgou desnecessários e operou mudanças na colocação pronominal,
reiterando a opção
por
um padrão
mais clássico
de língua portuguesa. Daqui também derivam categorias
de modificação:
a) supressão de pronome
com pequenas
alterações do verso:
|
primeira edição |
segunda edição |
|
“Onde
estão? Tu
perguntas?
Pois não
sabes |
Onde
estão? E o perguntas?
Pois não
sabes |
b) mudança da colocação pronominal
sem refusão do
verso:
|
primeira edição |
segunda edição |
|
Só
faltava-lhe o braço
e a experiencia |
Só
lhes
faltava o braço, e a
experiencia (v.302) |
Tencionou substituir em todo o poema a variante inda da preposição ainda:
“Onde
se lê inda,
pode-se escrever
ainda, sem
alterar
o metro” (Viana, 1970). Em alguns versos, a
alteração se verifica, mas não é uma regra
geral:
|
primeira edição |
segunda edição |
|
Inda
tudo não é! Mesmo
no centro
Inda
que as aguas suas reunissem, |
Ainda
tudo não é! Mesmo
no centro (v.270)
Inda
que n’um
só leito
se ajunctassem, (v.56) |
Não concorda com a censura
ao verso “Pelos
mandiocaes
e milharadas” (v.4302), feita por Alencar na quinta
carta. Ainda
que não
o altere, Magalhães acrescenta o verso
“Que tanto afan, tanto
suor custaram.” (v.4303). Objetiva assim
“pintar melhor a idéia”
(Idem, ibidem) da
passagem
apontada pelo crítico,
que não
merecia ser modificada ou
substituída por
perífrases. Observam-se também
ressonâncias
das sanções a
respeito
da repetição desnecessária de palavras, sublinhada tanto
por Alencar,
quanto
por Monte
Alverne. A repetição transcrita pelo autor das cartas não é
alterada, conquanto haja um deslocamento
de sintagma no
verso
214:
|
primeira edição |
segunda edição |
|
E nem
n’um
tronco
só seu
ninho tece;
Embora
o tronco
firme sobre
a terra
Supporte a
chuva, e o sol,
e o vento, e o
raio;
Nem
tem membros o
tronco
que
o [transportem. |
E nem
n’um
tronco
só seu
ninho tece;
Embora
sobre a terra
o tronco
firme,
Supporte a
chuva, e o sol,
e o vento, e o
raio;
Nem
tem membros o
tronco
que
o transportem. (vv.213-216) |
Todavia, a
colatio atesta passagens
em que
se substituíram palavras repetidas muito proximamente:
|
primeira edição |
segunda edição |
|
O corpo
sacudio, e os fortes braços,
E por
terra atirou os dous contrarios:
Como
ligeiro e forte era
meu filho!
Para
a grande vingança, de nós
digna:
Não
ha prazer que ao da vingança
iguale. |
O corpo
sacudio, e os rijos braços,
E por
terra atirou os dous contrarios:
Como
ligeiro e forte era
meu filho!
(vv.486-488)
Para
a digna de nós grande vingança,
Que
a vida e a liberdade nos
segure.
Não
ha prazer que ao da vindita
iguale.
(vv.578-580) |
Além das correções de estilo
e linguagem, nos
termos de Magalhães, houve o aumento da paratextualidade. Os
cantos
primeiro, segundo,
quinto e décimo
ganharam cada
qual
uma nota, somando
um
total de 4 novas
notas explicativas.
Com
relação ao
acréscimo
de versos, a
segunda
edição inova com
passagens de
implicações
semióticas variadas. Observa-se, por exemplo, que foram enfatizados traços
semânticos já
presentes nas
categorias
narratológicas do poema no estado de 1856. O autor
conferiu aos índios
um
maior aspecto
de heroísmo e bravura,
problemática apontada por Alencar. A descrição
das armas dos
indígenas,
que na primeira
edição se limitava a um verso,
desenvolveu-se por
mais
6:
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primeira edição |
segunda edição |
|
Arcos
robustos, e emplumadas
flechas. |
Arcos
robustos, lisos, e lustrados
Pelas lixosas
folhas
de embahiba;
Carcazes
cheios
de emplumadas frechas
De ligeiras
ubás, tendo por
pontas
Dentes
de tubarões, e
ossos buídos,
Seguros
com tucúm, de icíca untado,
Que
mais o fio aperta, e
sêcca o esmalta.
(vv.628-634) |
Com relação
a Aimbire, Magalhães procedeu a retoques em
diversas passagens. Alterou, por exemplo, a adjetivação “forte Aimbire” para “heróico
Aimbire” (v. 635). Além disso, a descrição do chefe tamoio ganhou mais
detalhismo com
acentuados matizes de severidade e soberania:
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Aqui
se mostra á frente dos Tamoyos,
Pelo
voto geral primeiro chefe.
Aimbire desde
a infancia se amestrára |
Dos Tamoyos á
frente
aqui se mostra,
Pelo
voto geral supremo
chefe.
De vulto
herculeo, soberano o porte,
Olhar
dominador, severo o rosto,
Bella estatua de
bronze
parecia,
Qual
a de um Marte modelára um
Phidias.
Aimbire desde
a infancia se amestrára
(vv.638-644) |
Aprofundou-se a dimensão
psicológica do
velho
cacique Pindobuçu,
personagem
de grande força
interior. Na
caracterização
da segunda edição,
passaram a se mencionar a tristeza
da viuvez e a
postura
encurvada, metáforas da
resistência
ao sofrimento e ao tempo:
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De negras
plumas,
que a tristeza
exprimem
Pela
morte do filho, qu’inda
chora. |
Com
negras plumas,
que a tristeza
exprimem
Da sua
viuvez, e a dôr
recente
Pela
morte do filho, que ainda chora.
Curvo
á mágoa, que mais que as cans lhe
pesa,
Nas mãos
do que
lhe
resta digno
herdeiro
Descança do commando o sceptro e as honras;
Mas
da antiga bravura exemplo
dando,
Dos perigos
da guerra
não
se exime.
(vv.684-691) |
Demais alterações não só em torno às personagens, bem como ao espaço,
nas descrições da
paisagem
brasileira, poderão ser
conferidas ao longo dos aparatos críticos
ao texto d’A
Confederação. Nesta comunicação, privilegiaram-se somente
algumas das variantes autorais,
deixando-se para outra
oportunidade
comentários
acerca das
flutuações
ortográficas, merecedoras de
um
estudo à parte.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTELLO, José Aderaldo. A
polêmica
sobre a
Confederação
dos Tamoios.
São
Paulo: Faculdade de Filosofia,
Ciências e Letras
da Universidade de
São
Paulo, 1953.
VIANA,
Hélio. D. Pedro II e a “Confederação
dos Tamoios”. Revista
do Livro. Ano
XIII – 4º trimestre, nº 43, 1970.
pp.62-71.