‘ADORO TE DEVOTE’ – BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A LÍNGUA LATINA E SOBRE O AUTOR

ADORO TE DEVOTE:  BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE A LÍNGUA LATINA E SOBRE O AUTOR

Álvaro Alfredo Bragança Júnior

1. INTRODUÇÃO

O título da presente monografia não parece indicar com certeza a época na qual o texto Adoro te devote foi produzido. Este foi, contudo, nosso intuito, pois acreditamos que o leitor possa depreender a relação existente entre o citado título e uma mensagem poética cristã. A partir daí, poderemos chegar até Santo Tomás de Aquino, à Idade Média e, conseqüentemente, à língua latina empregada nesta fase histórica.

A partir principalmente dos estudos históricos feitos em nosso século, principiou-se uma revalorização da Idade Média, por antigos estudiosos conhecida como a “idade das trevas”. Todo o seu complexo universo simbólico apresenta uma sociedade rica em manifestações culturais que marcaram decisivamente o próprio fazer cultural do homem moderno. Além disso, durante a fase medieval da história da humanidade, várias línguas firmaram-se pela produção de textos literários próprios, indicadores primitivos de futuras aspirações de nacionalidade tardia.

Não nos interessa aqui tecermos comentários pormenorizados sobre fatos políticos que tenham contribuído com a produção de Santo Tomás de Aquino. Intentaremos, isto sim, através de um breve roteiro de estudos sobre a Idade Média, sobre o século XII, em particular, situarmos o ambiente no qual o poema Adoro te devote foi composto. Isto nos permitirá verificar que, embora os romances já estivessem ocupando espaço na produção escrita daquela época, a língua latina permanecia sendo a veiculadora oficial de informações de grande parte da nobreza dirigente e do clero (temos aqui Santo Tomás de Aquino!). É mister que se faça um estudo do chamado “latim medieval”, conceito esse passível de debates ainda hoje. Faremos uma pequeníssima incursão sobre o léxico e a fonética deste latim, que será apresentado na íntegra e depois em sua tradução para o português, sendo que à esta tradução suceder-se-ão comentários de ordem lingüístico-literários sobre o referido texto.

Santo Tomás de Aquino, é evidente, merecerá uma atenção especial, pois a importância da obra filosófica, teológica do clérigo italiano é decisiva para um melhor conhecimento do mundo das idéias do século XIII.

Enfim, convém ressaltar que o escopo deste trabalho prende-se, cada vez mais, à tentativa de demonstrar a intrínseca relação entre o latim e o mundo intelectual da Idade Média, onde o Cristianismo impregnava o pensamento e a produção literária!

2. A IDADE MÉDIA - SUCINTA CARACTERIZAÇÃO HISTÓRICA

Muitos estudos históricos já levantaram as principais marcas distintivas da Idade Média para com a Antigüidade Clássica e Renascimento. Embora discutível, datam-se os limites cronológicos desta época da história universal entre 476 - queda do Império Romano de Ocidente - e 1453 - tomada de Constantinopla pelos turcos. Durante esses onze séculos, a Europa viveu transformações de variada ordem, desde as dinastias merovíngia e carolíngia, com a dominação dos mouros na Península Ibérica, com a implementação do feudalismo, com o futuro expansionismo rumo ao Oriente pelas Cruzadas, pela crescente importância da emergente classe burguesa, até à chegada do Renascimento e à afirmação de novos valores de conduta e de pensamento.

A estrutura extremamente teocêntrica da vida medieval, centrada basicamente na tentativa de incorporação no ser humano das virtuosas lições morais de Cristo, é marca fundamental para a compreensão do modus vivendi e modus cogitandi do homem medievo. O clero tinha parte dominante no estabelecimento de regras para o correto procedimento do homem no mundo. Por outro lado, com o crescente comércio com o Oriente, desenvolve-se, do mesmo modo, o gosto pelo “exótico”, aqui representado pelas tapeçarias, especiarias e demais produtos que chegaram à Europa na época. Conseqüentemente, ocorreu também um maior apego por parte da realeza ao luxo,  como também da assim chamada “baixa realeza”, esta constituída pelos duques, barões, condes e demais nobres senhores feudais. Poder-se-ia dizer que, paralelamente a essa sociedade de formação cristã, surgiam evidentes sinais de fortes interesses econômicos, os quais levaram reis e imperadores, sob a proteção da Igreja e sob o pretexto de combate e expulsão dos infiéis da Terra Santa e adjacências, a organizarem expedições militares e santas, as “Cruzadas”, com o intuito de estender seu poder político até àquelas regiões.

Dentre os séculos mais significativos da Idade Média para  desenvolvimento das artes e, mais especificamente, da literatura, sem dúvida o século XII destaca-se pelo impulso dado às manifestações culturais, como agora veremos.

 2.1 - O Século XII - O “Renascimento medieval”

Charles Homer Haskins em seu conceituado The Renaissance of the 12th Century assim situa o século XII:

“This century, the very century if St. Bernard and his mule, was in many respects an age of fresh and vigorous life.”(no original)i

E o estudioso americano prossegue:

“The epoch of the Crusades, of the rise of towns, and of the West, it saw the culminations of Romanesque art and the beginnings of Gothic; the emergence of the vernacular literatures; the revival of the Latin classics and of Latin poetry and Roman law;...” (no original)ii

No século XII, há o aparecimento das primeiras universidades européias (Bolonha e Paris). As artes liberales, divididas no trivium - gramática, dialética e retórica - e quadrivium - aritmética, geometria, música e astronomia - eram ensinadas nos principais centros de cultura de então ao lado das recentes universidades, os mosteiros e conventos. Chartres e Cluny ainda são os mais destacados pólos irradiadores do pensamento e da tradição da Antigüidade greco-romana. Com a progressiva melhoria da vida desde o século XI, com o fim das invasões, com a crescente aceitação pelos nobres do espírito cristão, com melhores técnicas de aproveitamento do solo, a sociedade européia consolidou suas bases para o século seguinte, que viria a ser de indiscutível importância para a solidificação de seu código de valores.

Ruy Afonso da Costa Nunes assim esclarece o incremento de relações comerciais nessa época:

“A atividade comercial reanimou, por sua vez, a vida urbana e incentivou o aparecimento de novas ocupações, assim como a acelerada emancipação dos servos. A economia agrária foi substituída pela do giro e surgiram outras espécies de trabalhadores, além dos tradicionais mercatores et artifices.iii

No tocante às letras, o autor citado evoca o século do despertar intelectual da Europa:

“Trata-se de metáfora sugestiva, porque inculca o início de vera marcha intelectual e cultural, da fundação e do surto de escolas, da gênese das universidades, do início do ensino da filosofia que reapareceu brilhante no currículo das escolas urbanas, do fascínio que despertou em muitas pessoas o contato com as obras científicas dos autores antigos e muçulmanos.”iv

Como se vê, o progresso comercial estava aliado à evolução do pensamento e ao desenvolvimento dos estudos humanísticos. Na parte filosófica, as obras de Aristóteles foram descobertas e revolucionaram os pressupostos da filosofia escolástica. Na parte literária, os clássicos latinos eram leitura obrigatória: Cícero, Virgílio, Ovídio, Horácio eram auctoritates. Sêneca, Justiniano, Donato, dentre outros, gozavam de grande reputação. Todos os grandes autores podiam ser encontrados nas bibliotecas das escolas dos mosteiros, pois, como se dizia então, “claustrum sine armario est quasi castrum sine armentario”.

A filosofia escolástica alimenta-se de textos, unindo, em um só corpus, o Cristianismo e o pensamento antigo. Está formada a filosofia que explica o mundo através da fé! Jacques le Goff, em seu célebre Os intelectuais na Idade Média, resume brilhantemente a relação razão-fé-ciência:

“É que às leis da imitação, a escolástica acrescenta as leis da razão; aos preceitos da autoridade, os argumentos da ciência. Melhor ainda - ... - a teologia apela para a razão, torna-se uma ciência.”v

A racionalização da fé, o apelo de São Paulo, para quem “fides argumentum non apparentium”(Heb., XI, 1) é a meta. A ratio fide illustrata é a base da razão teológica. A fórmula de Santo Anselmo fides quaerens intellectum completa-se com a sentença de Santo Tomás gratia non tollit naturam sed perficit.

A síntese de todo esse conhecimento era expresso em latim. Entretanto, a Alta Idade Média (sécs. V-IX) já apresentava uma produção em língua latina bem aquém dos padrões clássicos. A revitalização do latim, iniciada com Carlos Magno, fez com que a língua do Lácio voltasse a brilhar a partir do século VIII. As idéias cristãs permeavam o mundo medieval e seu efeito sobre a língua de Roma foi decisivo para a constituição do chamado “latim medieval”.

3. O LATIM MEDIEVAL - CONCEITUAÇÃO

Uma das fases evolutivas do latim que tem despertado um grande interesse por parte de pesquisadores em todo o mundo e também uma das mais difíceis no que que se refere a delimitações cronológicas e estilísticas costuma ser caracterizada como sendo latim medieval. A partir do século IV ter-se-ia desenvolvido na Europa um sermo específico, que acompanharia a Europa Ocidental durante dez milênios, mesmo com o surgimento das atuais línguas nacionais. Este sermo apresenta variadas definições: Traube considera o latim medieval como uma língua morta, embora apresentasse ainda possíveis modificações.vi Para Karl Vössler seria uma forma intermediária entre uma língua viva (latim vulgar) e uma língua morta (latim clássico). Strecker era de opinião que o latim medieval seria uma continuação normal do latim clássico, utilizado como meio de expressão pelos escrivães da Baixa Latinidade. M. E. Löfstedt, porém, pensa ser o latim medieval uma língua viva em curso normal durante a Idade Média. O caráter de língua viva durante a Idade Média também é acentuado por Dag Norberg. Em seu Manuel pratique de latin médiéval, o eminente estudioso assim define o latim da Idade Média:

“Le latin du Moyen Age est la continuation du latin scolaire et littéraire du bas-empire. La transformation s’est faite très lentment, et pour comprendre ce développement, il faut partir de la situation linguistique avant la chute de l’empire.” (no original)vii

Franz Blatt considera toda latinidade, e com isso o latim medieval, uma só unidade, chegando à conclusão que latim tardio e latinidade medieval são praticamente contínuos um ao outro. M. Bieler, citado por Mohrmann, vê no latim medieval uma Ideengemeinschaft (comuni-dade de idéias), uma língua sem nacionalidade, não sendo mundial, porém sendo utilizada como língua auxiliar durante toda a Idade Média. Para Richard Meister, latim medieval seria uma língua de tradição (no original Traditionssprache), sendo uma língua falada. Christine Mohrmann assim resume o pensamento do mestre:

“Il n’est pas une langue vivante dans le sens strict du mot, mais il présente certains traits caractéristiques qui le rapprochent des langues vivantes, à savoir: évolution syntaxique, néologismes, emprunts, etc.” (no original)viii

Pelo exposto, percebemos a complexidade de uma definição precisa do conceito latim medieval. Somos de opinião, contudo, que latim medieval, latim eclesiástico e latim bárbaro (latim dos tabeliães) se confundem e se interpenetram, vindo a constituir o tecido lingüístico dos escritos de então.

A associação língua latina - Igreja, por seu lado, é condição sine qua non para a compreensão da maior parte dos textos científicos e também literários. Entretanto, um outro tipo de manifestação literária da época permanecia sendo transmitida, do mesmo modo, em latim. Vários padres peregrinos, descontentes com o estado de corrupção, injustiça social e venialidade da Igreja, compuseram vários poemas, conhecidos genericamente por Carmina Burana, onde denunciavam a situação vigente. O latim, portanto, era a língua de cultura, língua de transmissão dos ensinamentos das nascentes universidades européias, da explicação das Sagradas Escrituras, das discussões diplomáticas, dos encontros de juristas, enfim, fornecia o latim os subsídios necessários para um maior desenvolvimento cultural do mundo medieval. Assim sendo, o latim medieval pode ser visto como a modalidade lingüística portadora da cultura cristã e greco-romana. Este mesmo latim, não apenas meio de comunicação lingüística em sua modalidade escrita (abstemo-nos das discussões sobre a oralidade e não mencionamos, claro, as línguas românicas, já quase todas possuidoras de textos em vernáculo), era, acima de tudo, o veiculador de normas e valores sociais e éticos. Através da comparação entre os elementos cristãos, típicos representantes do pensamento teocêntrico, com as crescentes manifestações pagãs do cotidiano da Idade Média pode-se depreender o modus vivendi e a visão espiritualizante desse mundo.

Algumas características desse latim, contudo diferiam dos usos clássicos, como veremos a seguir.

 3.1 - Algumas marcas lexicais e fonéticas do latim medieval

Lingüisticamente falando, o veículo de expressão ideológica de maior prestígio durante a Idade Média estendendo-se de maneira indiscutível pelo Renascimento foi o latim, latim esse distante dos padrões clássicos de Cícero, César, Horácio, Virgílio, Ovídio ou Sêneca. Não é necessário ressaltarmos a mobilidade da língua, que a cada nova geração, adquire novas feições. Entretanto, as modificações lingüísticas espelham as mudanças sociais de seu respectivo tempo. Não a uniformidade, mas a polaridade e a vitalidade do universo expressivo do latim fazem a diferença lingüística na Idade Média uma testemunha ocular de sua própria história social, da formação da sociedade medieval, em seu sentido mais específico. Mais ainda, os testemunhos escritos legitimam o processo de apropriação de formas e condições de vida que caracterizam a transformação de uma sociedade, a princípio com uma tradição cultural oral em uma sociedade onde seus próprios valores começam a ser transmitidos mais intensamente por via escrita.

O latim da Idade Média apresenta características, as quais não  podem ser reduzidas a meras considerações de ordem morfológica, sintática ou fonética. Limitar-nos-emos a algumas marcas lexicais e fonéticas:

a) redução na escrita de determinados ditongos como ae e oe
Ex.: aedes por edes; feminae por femine; foedus por fedus

b) supressão do - h - medial em palavras como nihil - debilidade fonética
Ex.: “Nil valet in bellis vir inermis, et absque libellis Clericus este mutus, licet ingenio sit acutus
(“De nada vale um homem desarmado na guerra e um clérigo sem livros é mudo, embora seja arguto no talento

c) uso de diminutivos em abundância. Dag Norberg cita
“Munda cultellum, morsellum quere tenellum
Sed per cancellum, post supra pone platellum.”ix

d) aparecimento das rimas
“Mus salit in stratum, dum scit abesse catum
(“O rato pula para a cama, quando sabe que o gato está ausente.)

e) redução de alguns grupos de consoantes geminadas.
Ex.: cattus por catus.

f) utilização do prefixo verbal para criação de efeito sonoro. Gautier de Châtillon, citado por Dag Norberg (p. 73) utilizou rosa derosatur, mundus demundatur, masculos demasculare, federe defedare, enquanto em alguns carmina encontram-se titulum detitulare, virginem devirginare, canonicum decanonicare, depurare pueros.

g) emprego do nome de pessoas (normalmente personagens mítico-históricos) para simbolizar uma certa qualidade ou defeito.
Ex.: de Helena e Tiresias - helenare et tiresiare; Absalon, Nero, Gualterus, Venus, Satanas - absalonizare, neronizare, gualterizare, venerizare, satanizare.

h) a construção de verbos com os sufixos -are ou -izare.
Ex.: presbiterare, pontificare, musare, gulare, cervisiare, podagrare, silabizare, stultizare, puerizare, etc.

i) criações lexicais.
Ex.: vassus, -i - vassalo, servo do senhor feudal (reflexo da ordem social).

A pequena recolha de exemplos recolhidos em Dag Norberg e em provérbios medievais nos dá uma boa idéia da riqueza do vocabulário desta fase. Sem dúvida, os modelos clássicos não eram olvidados e o conhecimento de obras de Cícero, Virgílio, Horácio, Ovídio e Sêneca, dentre outros, era indispensável para que se aquilatasse a cultura de um cidadão. Em sua grande maioria, os textos clássicos estavam guardados em cópias manuscritas em mosteiros, abadias e conventos. Com o surgir do século XIII, uma nova era de estudos classicistas iniciou-se e dentre as personalidades que deram um novo ímpeto às idéias e ao pensamento do homem medieval um nome se destaca: Santo Tomás de Aquino!

4. SANTO TOMÁS DE AQUINO - VIDA E OBRA

Thomas Aquinas nasceu em Roccasecca, perto de Nápoles, em 1225 e faleceu em Fossanova em 1274. Oblato em Monte Cassino, estudou na universidade de Nápoles e ingressou na ordem dos dominicanos (c. 1240). Bacharel, mais tarde professor de teologia (1256) em Paris, onde ensinou até 1259. De 1259 a 1269, ensinou em Anagni, Orvieto, Roma e Viterbo. Pregador geral de sua ordem, residiu em Roma e foi iniciado por Alberto Magno na filosofia de Aristóteles, que lhe forneceu as diretrizes para a doutrina que começava a expor na Summa theologica. Em 1269, novamente de posse de sua cátedra parisiense, e sem interromper os trabalhos da Summa, tomou parte na luta contra as idéias de Averrois. Em 1274, é convocado pelo papa Gregório X para participar do Concílio de Lyon, a fim de promover a reconciliação das Igrejas grega e latina. Adoecendo durante a viagem, faleceu no mosteiro cisterciense de Fossanova aos 49 anos de idade. Canonizado em 1323, pelo papa João XXII, e proclamado doutor da Igreja em 1567, pelo papa Pio V.

Embora o seu amor por Deus tenha consumido toda sua vida, Santo Tomás deixou para a posteridade uma produção poética de pouca quantidade. Seus escritos filosóficos são uma renovação da existência de Deus. Sua Summa theologica é o mais perene dos monumentos do tomismo. Além dela, iniciada em 1265, deixou De ente et essencia (1262-1243); Quaestio disputata de veritate (1256-1259); Summa contra gentiles ou Summa de veritate fidei catholicae contra gentiles (1259-1260); Dei cultum et religionem (1256-1257); De substantivis separatis (1260), dentre outras obras.

Apesar do pensamento de Santo Tomás consistir, em grande parte, numa assimilação do pensamento de Aristóteles, ele foi influenciado por outras fontes, tais como os Pais da Igreja e Boécio. Fundamentalmente teólogo, não funde a filosofia com a teologia, considerando que há diferentes tipos de verdades: verdades estritamente teológicas (conhecidas só pela revelação), verdades filosóficas (que não foram reveladas), verdades ao mesmo tempo teológicas e filosóficas (reveladas, mas também accessíveis à razão). As verdades comuns à teologia e à filosofia se distinguem (num e noutro campo) não quanto ao conteúdo, mas quanto ao aspecto “formal”, ou seja, quanto ao modo de se falar sobre elas. Não haveria, portanto, incompatibilidade entre fé e razão. Santo Tomás considera que todo o conhecimento começa com a experiência sensível, sobre a qual podem ser desdobrados vários graus de abstração. Também o conhecimento que se tenha de Deus - cuja existência pode e deve ser demonstrada - seguem vias que partem da experiência: Deus é conhecido a partir de seus efeitos. A adequação entre a visão helênica do mundo expressa por Aristóteles e os dogmas do Cristianismo é efetuada por Santo Tomás a partir de uma modificação fundamental no pensamento aristotélico: a distinção entre essência e existência deixa de ter sentido meramente lógico e epistemológico (correspondente a dois modos de indagar sobre a realidade: “que é algo” e “se esse algo existe”), para adquirir cunho ontológico - passando essência e existência a representar princípios constitutivos dos seres. A partir daí não apenas certos dogmas fundamentais do Cristianismo (Santíssima Trindade, encarnação de Cristo etc.) são passíveis de justificativa racional, mas também as “criaturas” - os seres naturais - são explicados.

A tendência do pensamento de Santo Tomás ao equilíbrio manifesta-se no tratamento de todos os problemas, inclusive na sua doutrina política e social: o Estado - instituição natural voltada para a promoção do bem comum - deve subordinar-se à Igreja, que tem finalidades sobrenaturais, como a ordem natural está subordinada à ordem sobrenatural. A realidade toda estaria, portanto, distribuída numa hierarquia, cujo ápice seria Deus.

Este homem, que servia a Deus acima de qualquer outro senhor, legou para posteridade uma bela página poética, da qual nos ocuparemos agora.

5. ADORO TE DEVOTE - TEXTO LATINO

Adoro te devote, latens Deitas,
Quae sub his figuris, vere latitas:
Tibi se cor meum totum subiicit,
Quia te contemplans totum deficit.

Visus, tactus, gustus in te fallitur,
Sed auditu solo tuto creditur:
Credo quidquid dixit Dei Filius
Nil hoc Verbo veritatis Verius.

In cruce latebat sola Deitas,
At hic latet simul et humanitas:
Ambo tamen credens atque confitens,
Peto quod petivit latro poenitens.

Plagas sicut Thomas non intueor,
Deum tamen meum Te confiteor:
Fac me Tibi semper magis credere,
I n Te spem habere, Te diligere.

O memoriale mortis Domini,
Panis vivus vitam praestans homini:
Praesta meae menti de Te vivere
Et Te illi semper dulce sapere.

Pie pelicane, Jesu Domine,
Me immundum munda tuo sanguine,
Cuius una stilla salvum facere
Totum mundum quit ab omni scelere.
........................
(Santo Tomás de Aquino, século XIII)

6. ADORO TE DEVOTE - TRADUÇÃO

Adoro-te devotamente, ó Deidade misteriosa,
Que te escondes, em verdade, sob estas formas:
Todo o meu coração submete-se a ti,
Porque contemplando a ti tudo se extingue.

Em ti a visão, o tato, o paladar se escondem,
Mas acredita-se pela audição com total segurança:
Creio em tudo aquilo que o Filho de Deus disse
Nada é mais verdadeiro que este Verbo da verdade.

Numa cruz escondia-se uma solitária Deidade,
E, por outro lado, uma humanidade ao mesmo tempo se escondia:
Ambas, contudo, acreditando e reconhecendo seus erros,
Peço o que o ladrão penitente pediu.

Assim como Tomás, não olho atentamente para as desgraças,
Contudo revelo a Ti o meu Deus:
Fazei-me crer sempre mais em Ti,
Ter esperança em Ti sempre mais, honrar-Te sempre mais.

Ó recordação da morte do Senhor,
Pão vivo que dá a vida ao homem:
Dá à minha mente viver por Ti
E dá a ela conhecer-Te sempre de maneira agradável.

Ó pio pelicano, ó Senhor Jesus,
Purifica-me da sujeira com teu sangue,
Do qual uma gota é capaz de salvar
Todo o mundo de todo crime.

7. CONSIDERAÇÕES SOBRE  O POEMA

Aqui cabem algumas explicações sobre modificações e adaptações feitas por nós em nossa tradução:

verso 02 - em nossa tradução, colocamos o advérbio vere, ‘em verdade’, entre vírgulas para destacá-lo;

verso 05 - invertemos a ordem da oração latina Visus...fallitur por considerarmos uma melhor opção estilística no português moderno. Além disso, traduzimos fallitur pela 3.a pessoa do plural por causa da concordância com visus, tactus e gustus;

verso 06 - colocamos em nossa tradução os advérbios semper magis, pois entendemos que eles pertencem às três orações do período, iniciado no verso 15;

Passemos, pois, para a análise lingüístico-literária do poema.
 7.1 - BREVES CONSIDERAÇÕES LINGÜÍSTICO-LITERÁRIAS

O texto de Santo Tomás de Aquino é uma prova evidente do que tínhamos comentado no item 03 do presente opúsculo: o texto contém uma sólida base de elementos do latim clássico, possuindo, da mesma forma, elementos ligados à religião cristã. A parte lingüística de nosso trabalho corroborará nosso parecer.

A seguir, faremos as observações pertinentes a cada verso e palavra que julgarmos relevantes para a apresentação do referido poema:

verso 01 - Adoro - em Saraiva, notamos que o significado inicial do verbo é orar, pedir aos deuses. Aqui, sem dúvida, significa respeito profundo, veneração, já com a idéia cristã;x

verso 01 - devote - o advérbio, já no latim clássico, possuía conotação religiosa ‘votado, consagrado, dedicado’. Aqui, refere-se, sem  dúvida, à dedicação de Santo Tomás ao Senhor;

verso 01 - Deitas - a palavra deitas, com letra maiúscula, Deitas, aparece no texto significando o Deus supremo dos cristãos. O verbete aparece em Saraiva significando Deus pela primeira vez em Prudêncio;xi

verso 06 - aqui creditur, na voz passiva, liga-se ao agente da passiva auditu, enquanto no verso seguinte a forma de 1.a pes. do sing. de pres. credo está com a regência normal de acusativo, quidquid;

verso 08 - Nil - como já tínhamos mencionado no sub-item 3.1, a perda da consoante medial -h- é comum nos textos em latim medieval, já demonstrando a não aspiração da consoante. Além disso, o segundo -i- da palavra clássica nihil já tinha sofrido elisão; neste mesmo verso, as palavras Verbo e Verius são grafadas em maiúscula, referindo-se exclusivamente a Jesus;

verso 09 - sola Deitas - mais uma vez, Deitas, com letras maiúsculas, representando o Filho de Deus;

verso 12 - Peto quod - em latim clássico, peto constrói-se normalmente com acusativo. Aqui temos já a construção medieval peto + quod - oração subordinada;

verso 15 - Tibi...credere - mais uma vez, Santo Tomás de Aquino demonstra seu domínio da língua do Lácio: uma outra construção do verbo credere é com o dativo, como se vê nesse verso;

verso 16 - In Te spem habere - a forma clássica poderia ser, com o verbo sperare, spero in Te. Aqui, entretanto, para marcar a rima, a construção foi feita com habere + acusativo (spem). Note-se, também, o pronome Te escrito em maiúscula, como ocorrido nos versos 14 (Te), 15 (Tibi) e 16 (Te diligere) para reforçar o respeito e veneração do autor para com Jesus;

verso 17 - memoriale - neologismo cristão no latim. Segundo Saraiva, memoriale seria um substantivo apelativo neutro, sendo utilizado pelos escritores cristãos Arnobius e Jerônimo, um dos Pais da Igreja;xii

verso 17 - Domini - genitivo de Dominus, aqui claramente com o sentido cristão de Senhor;

verso 19 - de te vivere - neste verso, a preposição de tem o valor de por causa de, conforme;

verso 21 - Jesu Domine - como no verso 17, o termo Domine, vocativo, em maiúscula, ao lado de Jesu - cristianismo;

verso 21 - pie - o termo pius em latim clássico significava “aquele que cumpre seus deveres para com os deuses, para com os pais”, limitando-se, aqui, no vocabulário cristão como piedoso, aquele que tem piedade. Compare com o significado clássico na Aeneis de Virgílio: pius Aeneas;

verso 23 - salvum facere - originalmente, salvus, -a, -um significa inteiro, intacto, estando, porém, no vocabulário cristão ligado à salvação, ou seja, à absolvição da alma quando do Julgamento Final.

Basicamente, do ponto de vista lingüístico, grande parte do léxico por nós indexado já demonstra a contribuição de ideário cristão à confecção do texto do teólogo de Roccasecca. Faremos, agora, uma lista dos vocábulos que transmitem o legado de Cristo em língua latina: adoro, devote, Deitas, Dei Filius, Verbo Verius, Deum , Te (e demais formas do pronome oblíquo em maiúscula e minúscula), Domini, Panis vivus, pie, Jesu Domine.

Outras marcas lexicais evidentes da mensagem cristã podem ser encontradas no verso 09, In cruce, que nos remete obviamente à crucificação de Jesus; verso 12, latro poenitens, pois sabemos, segundo a Bíblia, que, quando da crucificação de Jesus, dois ladrões também estavam sofrendo o martírio da cruz e um deles aceitou Jesus Cristo como seu salvador; verso 21, pie pelicane, pois pelicano é um pássaro sagrado para os cristãos. São Jerônimo foi o primeiro que utilizou o termo em latim.xiii

Do ponto de vista literário, o texto de Santo Tomás apresenta esquema rimático aabb e, cabe mais uma vez a ressalva, que a rima é criação medieval. Além disso, o uso constante de particípios no presente reforça o clima cristão da Idade Média da crença em Jesus (verso 11 - credens), reconhecimento dos erros (verso 11 - confitens) e penitência (verso 12 - poenitens).

A aliteração é recurso constantemente empregado pelo autor. Vejamos:

verso 01 - Adoro te devote, latens Deitas;

verso 03 - Tibi...totum subiicit;

verso 04 - te contemplans totum deficit;

verso 05 - ...tactus, gustus in  te fallitur;

verso 06 - ...auditu...tuto creditur;

verso 07 - Credo quidquid dixit Dei...;

verso 08 - ...Verbo veritatis Verius;

verso 12 - Peto quod petivit latro poenitens;

verso 14 - Deum tamen meum... - (som nasal);

verso 17 - O memoriale mortis Domini;

verso 18 - Panis vivus vitam praestans homini;’

verso 19 - ...mea menti;

verso 20 - Pie pelicane;

verso 21- Me immundum munda...

O verbo facere + oração subordinada infinitiva  é uma marca sintática do latim medieval. Santo Tomás a utiliza nos versos 15 e 16 “Fac...credere, ...habere, Te diligere”.

Outro termo eminentemente cristão é Verbo (verso 8), escrito em maiúscula, significando aqui a palavra encarnada (Evangelho de São João, I, 14). A dualidade humana e divina de Jesus é mostrada na cruz, quando o autor utiliza sola Deitas...et humanitas (versos 09 e 10), onde há um claro destaque para a posição reflexiva do poeta nos versos 11 e 12.

Poeta e autor se confundem e demonstram ser a mesma pessoa no verso 13, pois Thomas nomeia a si próprio no texto. Desde a primeira estrofe (verso 04 - contemplans), o poeta procura seguir os exemplos de Jesus, que não pode ser depreendido pelos sentidos, somente pela audição de suas mensagens, que são as mensagens da Verdade. O poeta aproveita a crucificação de Jesus para lembrar que sua atitude dever ser sempre a do ladrão penitente, que à hora da morte, se arrependeu de seus pecados e converteu-se à fé cristã. Por isso, ele precisa semper magis (verso 15) credere, spem habere e diligere o Senhor Jesus. Nas duas últimas estrofes, recordando a importância da morte do Senhor, o poeta reconhece que a vida do homem vem d’Ele e quer dedicar a sua integralmente a conhecê-lo cada vez mais e melhor, tendo consciência que uma só gota de Seu sangue “é capaz de salvar todo o crime” (versos 23-24).

A última estrofe, sem contar a beleza das aliterações e dos efeitos sonoros dos versos 21 e 22, serve para reforçar a idéia de que Santo Tomás de Aquino dominava com mestria o latim: a construção totum mundum (verso 24) apresenta o pronome totum, amplamente utilizado na Idade Média como pronome adjetivo com função demonstrativa e a forma mais clássica omni, deixando claro ao leitor que o poeta conhecia a forma mais antiga.

A palavra totum já aparecera anteriormente (versos 03-04), com o significado similar ao da última estrofe.

Para finalizar esta análise lingüístico-literária, não poderíamos deixar de citar a bela passagem do verso 22, onde a construção immundum munda “purifica-me da sujeira, da imundície” poderia talvez ser entendida, pelas análises modernas como o próprio mundus immundus, que precisa ser purificado! A pluralidade sêmica pode ser aventada nessa simples construção do século XIII!

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Tentamos evidenciar, no decorrer deste trabalho, que a Idade Média não se limitou a uma sociedade que começava já a apresentar os primeiros indícios de uma renovação cultural maior desencadeada a partir do Trecento italiano. Pelo contrário, o legado cultural da Antigüidade Clássica, especialmente nos seus primórdios, o legado latino-romano, era constantemente (re)trabalhado à sombra e à luz nos scriptoria dos conventos e mosteiros medievais. Com as universidades, permitiu-se ainda mais divulgar e discutir os trabalhos dos mestres do passado. O século XII foi o ponto de partida para essa renovação cultural da Baixa Idade Média, permitindo que no século seguinte surgissem figuras exponenciais que poderiam desenvolver suas teorias com maior background cultural. Santo Tomás de Aquino, poeta e filósofo, teólogo e homem de Deus e da Igreja encerra em si o humanista medieval, que trabalhava com as artes e sua relação com Seu criador, Deus.

A língua instrumento para a transmissão de todo esse leque de informações era a língua latina, não mais nos moldes dos clássicos romanos, mas já eivada de modificações decorrentes de mais de sete séculos do desmembramento do Império Romano do Ocidente. Com a vitória do Cristianismo, com o surgimento dos romances precursores das atuais línguas românicas, com os contatos com povos de outras etnias e línguas, esse latim adquiriu feições específicas na Idade Média que refletiam as variadas influências de grupos sociais, de ideologias, de culturas outras. À complexidade de definição de “um” latim medieval corresponde a sua expressividade e riqueza lexical, suas peculiaridades morfológico-sintáticas (por nós analisadas futuramente), suas marcas fonéticas, enfim, a mostra clara e inequívoca que a Idade Média não foi a “idade das trevas”, por muitos pesquisadores considerada, porém, possibilitou o crescimento do homem medieval preparando-o para os novos tempos do século XV. Foi o latim a língua desse trajeto, que M. Bieler não esquecia e por isso definiu a língua do Lácio como die Muttersprache des Abendlands, ou seja, a língua mãe do Ocidente!

O latim e a Idade Média representam, pois, para terminar, o meio e a época da geração de toda uma cultura que teve em Santo Tomás de Aquino um de seus representantes mais exemplares. Nossa intenção científica foi relacionar língua latina-Idade Média-cristianismo e aprender cada vez mais com os clássicos latinos medievais, pois como está no velho aforisma medieval,

 “Quidquid homo nescit, vix discit, quando senescit.” (“Tudo aquilo que o homem desconhece, somente aprende, quando envelhece!).

9. RECAPITULAÇÕES SUMÁRIAS

 9.1 - Resumo

A presente monografia apresenta a Idade Média como uma época de enriquecimento cultural da humanidade. O século XII seria o expoente de um renascimento das artes. O latim medieval seria o veículo de transmissão desse novo legado cultural e um dos mais importantes próceres foi Santo Tomás de Aquino. Seu poema Adoro te devote é uma ode exultante ao Cristianismo. Considerações lingüístico-literárias sobre o mesmo permitir-nos-ão uma melhor compreensão de sua riqueza histórico-social.

 9.2 - Abstract

The present article shows the Middle Ages as an epoch of cultural enrichment for the mankind. The twelfth century would be the exponent of the revival of the arts. The medieval latin would be the vehicle of the transmission of this new cultural legacy and one of the most important man of arts was Thomas of Aquino. His poem Adoro te devote is an exultant ode to Christianism. Linguistical and literary considerations about it will allow us a better comprehension of its historical and social richness.

10. BIBLIOGRAFIA

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11. NOTAS

i. HASKINS, C. H., (1957), p. VIII.

ii. Id. ib.

iii. NUNES, R. A. da C., (1979), p. 185.

iv. Op. cit., p. 190.

v. LE GOFF, J., /s.d./, p. 107

vi. MOHRMANN, C., (1955), p. 37.

vii. NORBERG, D., (1968), p. 4

viii..MOHRMANN, C., (1955), p. 39

.ix. NORBERG, D., (1968), p. 72.

x. SARAIVA, F. R. dos S., (1910), p. 81.

xi. Op. cit., p. 348.

xii. Op. cit., p. 727.

xiii.  Op. cit., p. 859.