O ESTUDO HISTÓRICO-COMPARATIVO DAS LÍNGUAS ROMÂNICAS DE B. E. VIDOS

O ESTUDO HISTÓRICO-COMPARATIVO DAS LÍNGUAS ROMÂNICAS de B. E. VIDOS

Adaptação: José Pereira da Silva

1. INTRODUÇÃO

Comparar é uma tendência  universal dos homens. Experimentamos certo prazer em comparar certos fenômenos com outros; constatamos com satisfação, por exemplo, que duas pessoa se parecem, apesar de não haver entre ambas nenhum  vínculo de parentesco, e nos alegramos por podermos manifestar nossa constatação. Quando encontramos traços semelhantes em duas pessoa sem sabemos que são parentes, independente do prazer experimentado, fizemos uma descoberta com essa comparação. Esta tendência a comparar deu origem certamente a muitas  descobertas científicas. Mas, ao comparar, não estamos obrigados a chegar sempre a descobertas de caráter genealógico; podemos também simplesmente esclarecer certos fenômenos. O método comparativo, em Lingüística, não é necessariamente histórico e, inclusive, pode, apesar das afirmações contrárias de Saussure, ter um objetivo que não seja a reconstrução. O  método  da Lingüística Histórica, ao contrário, só pode ser comparativo.

2. ESTUDO COMPARATIVO DAS LÍNGUAS ROMÂNICAS

2.1 - O PARTITIVO FRANCÊS

Podemos assegurar que em princípios do século XII a frase “conquistarei cidades” se dizia no antigo francês conquerrai citez, enquanto que em francês moderno se diz je conquerrai des villes, ou seja, no século XII ainda não era usado o partitivo em francês. E um fato conhecido que o partitivo só aparece excepcionalmente no francês dos séculos XII e XIII e que o uso universal do mesmo em francês moderno se deve, entre outras coisas, ao fato de não existir hoje diferença de pronúncia entre o singular e o plural da maior parte das palavras (ville, villes). Nos séculos XII e XIII, no entanto, ainda existia (por exemplo, o singular do antigo francês citét, plural citez), já que em francês o s começou a ser mudo em fim de palavras somente a partir do século XIII. Vê-se claramente que, na realidade, a falta de diferenciação entre o singular e o plural é uma das causas pelas quais hoje necessitamos de usar em francês o partitivo, quando confrontamos a tal propósito o francês com outras línguas. Em espanhol, por exemplo, em que não existe propriamente um partitivo e em que se conservou o s em final de palavra, a frase conquistaré ciudades (= antigo francês conquerrai citez) é bem clara por si mesma. O italiano nos esclarece ainda mais, porque esta língua não usa o partitivo com as palavras que distinguem o singular do plural, mas apenas com aquelas que não fazem tal distinção. Para a palavra città, que é invariável no plural, o antigo francês conquerrai citez é traduzido para o italiano conquisteró delle città  (com o partitivo), como no francês moderno (je conquerrai des villes). Quando, no entanto, em italiano, se distingue o plural do singular, não é necessário empregar o partitivo no plural, e assim se diz, por exemplo, conquisteró villaggi (diferente de villaggio) como no antigo francês.

Para ilustrar, neste caso, o uso do partitivo em francês, não necessitaríamos de nos servir, para a comparação, de uma língua românica, mas poderíamos ter tomado qualquer outra língua a que se pudesse atribuir a ausência ou a presença do partitivo, ou de uma construção sintática equivalente, à distinção ou à falta de distinção entre singular e plural. O método comparativo não se torna histórico-reconstrutivo neste caso, mas permanece apenas e simplesmente comparativo. Ao contrário, converte-se em histórico quando, por meio da comparação, se pode chegar a postular a existência de estados lingüísticos precedentes, dos quais  devem derivar necessariamente os que são objeto de comparação, isto é, quando da comparação se passa à reconstrução e à genealogia.

2.2 - O NUMERAL “OITO”

Enquanto a língua originária indo-européia for desconhecida para nós, as correspondências regulares entre as diversas línguas dela provenientes tornam-se significativas, mas não passam, definitivamente, de correspodondências, e a língua indo-européia, de uma hipótese de trabalho. O que ainda era uma hipótese no campo da Língüística Românica. O método comparativo se fez propriamente no campo das línguas românicas, pois somente para estas línguas é conhecida a língua originária, o latim, a partir do qual podemos seguir durante um intervalo de dois mil anos a evolução histórica destas línguas. Enquanto as correspondências que existem entre o latim octo, grego okto, antigo irlandês ocht, gótico ahtau, antigo indiano a’stau, lituano a’stuni e entre o latim centum e as outras formas análogas não são mais que correspondências baseadas num fundamento de comparação científica, é um fato que o francês huit, italiano ottto, espanhol ocho, catalão vuit, romeno opt derivam do latim octo um fato evidente historicamente, pois sabemos que as línguas românicas procedem do latim. Mas a evidência não é suficiente, é necessário prová-la cientificamente. Ao considerar que o grupo consonantal -ct- (em octo) deu em francês -it-,  em italiano -tt-, em espanhol -ch- e em romeno -pt-,  e que em todas as línguas românicas se obtêm sempre os mesmos resultados do latim -ct- (por exemplo, latim nocte[m] > francês nuit, italiano notte, espanhol noche, romeno noapte, latim factu[m] > francês fait, italiano fatto, espanhol hecho, romeno fapt, etc.), a realidade de que o francês huit, italiano otto, espanhol ocho e romeno opt derivam do latim fica demonstrada pelo método comparativo.

2.3 - O SUBSTANTIVO “ORELHA”

Os exemplos que se seguem pretendem demonstrar a realidade histórica do método comparativo aplicado à Lingüística Românica. Confrontemos o francês oreille,  italiano orechia, espanhol oreja, português orelha e o romeno ureche. Nestas cinco palavras, que apresentam uma evidente semelhança, a primeira sílaba mostra uma correspondência surpreendente (or-, ur-), e as outras, uma grande  diferença (-eille, -ecchia, -eja, -elha, -eche). A forma corrente em latim para ‘orelha’ é auris, com a qual não é possível fazer corresponder a segunda parte das palavras românicas. Mas existe também o derivado latino auricula, com o qual poderiam muito bem relacionar-se as palavras românicas. Se confrontamos as denominações românicas de orelha com as de olho, por exemplo, (francês oeil, italiano occhio, espanhol ojo, português olho e romeno ochiu), para as quais é evidente a origem referida ao latim oculus, constatamos que o elemento consonântico da segunda parte das palavras românicas é o mesmo, tanto para ‘orelha’ como para ‘olho’: francês  il[le], italiano cch, espanhol j, português lh e romeno ch, e ao mesmo tempo comprovamos que as palavras românicas que designam orelha vêm do latim auricula e não do latim auris. Outras comparações nos mostram que o francês il[le], italiano cch, espanhol j, português lh e romeno ch não devem remontar ao latim -cul- diretamente (como em auricula, oculus), mas ao latim -cl-; e o Appendix Probi (século III), que ao lado das formas latinas registra formas “incorrestas”que estavam em uso no latim vulgar, nos diz por exemplo, nas glosas 3, 4, 7, 8, 9 e 111, que realmente se deve dizer speculum nos speclum, masculus non masclus, veranculus non vernaclus, articulus non articlus, baculus non baclus e oculus non oclus. Com o método comparativo nos remontamos, portanto, ao passado, até à forma latina auricla. Mas, com este método, podemos nos aproximar ainda mais da verdade histórica.

2.4 - O DITONGO LATINO “AU”

Com efeito, ao comparar as línguas românicas, considerando o resultado do ditongo latino au, vemos que deu e francês, italiano, espanhol e catalão o, em português ou, enquanto que, ao contrário, se conservou em romeno e em provençal (por exemplo, aurum e taurum continuam em francês or, antigo francês tor, italiano oro, toro, espanhol oro, toro, catalão or, toro, mas em português  ouro, touro, em romeno aur, taur, e em provençal também aur, taur). O português orelha (cf. português ouvir < latim audire) e o romeno ureche (cf. romeno uccid ‘ouvido’ < latim occido) não podem, portanto, vir do latim vulgar auricla, mas do latim vulgar oricla. Enquanto o francês oreille, italiano orecchia, espanhol oreja e catalão orella poderiam ser continuadores de ambas as formas do latim vulgar, o antigo provençal aurelha e o provençal auriho vêm do latim auricla. Aplicando o método comparativo, chegamos à conclusão de que as palavras românicas para ‘orelha’ não vêm latim auris, mas de um latim vulgar oric[u]la, auric[u]la, uma palavra popular que realmente se encontra em Plauto, Cícero, Plínio, Festo e no citado Áppendix Probi (glosa 83: auris non oricla), e que já no tempo de Sila era a palavra usual para auris. Neste caso, o método comparativo significa o mesmo que história lingüística.

2.5 - O i BREVE E O e LONGO

Grande número de comparações deste tipo provaram que as língua românicas não procedem do latim clássico, mas do  latim vulgar. Assim, em qualquer gramática histórica se vê que as vogais do latim clássico i, -e (salvo raras exceções) evoluem para e no latim vulgar, e que esta vogal, quando é tônica e se encontra em sílaba livre, dá, por sua vez, no rético ei e mais tarde ai, no italiano e, no siciliano i, no francês ei e mais tarde oi, no espanhol e. Contudo, chegou-se a esta conclusão, comparando palavras românicas entre si e com o latim clássico. Por exemplo, o rético, (engadinês) pail, pair, taila, vair, o italiano pelo, pera, tela, vero, o siciliano pilu, pira, tila, viru, o francês poil, poire, toile, voire (antigo francês peile, peire, teile, veir), o espanhol pelo, pera, tela, vero, mostram claramente que estas palavras não derivam do latim clássico, de palavras com as vogais i, -e como se encontram em pilum, pira, tela, verum, mas de palavras que apresentam uma vogal idêntica; de outro modo não poderíamos esperar nestas línguas românicas sempre a mesma vogal (ou o mesmo ditongo). A vogal que sugerem foneticamente as palavras italianas com e, a sicilianas com i, as espanholas com e e as reto-românicas e francesas, respectivamente, com  ei > ai e com ei > oi, é uma vogal latina vulgar (ou do românico comum) e fechado. Não importa se esta vogal e está documentada ou não em latim vulgar, as línguas românicas demonstram sua existência com inúmeros exemplos, como também demonstram a existência de um o em latim vulgar em vez do u e o do latim clássico. Por outra lado, o e está documentado na realidade e precisamente nas inscrições e textos semelhantes, onde a língua falada obtém maior dignidade e nas quais, a partir do século III depois de Cristo, encontramos escrito e em vez de i. Por isto, no caso da mudança do i, e em e, por causa da comparação de inúmeros casos e de sua surpreendente regularidade, fica excluída toda casualidade.

2.6 - A TERCEIRA PESSOA DO PLURAL DO PRETÉRITO PERFEITO DO INDICATIVO

Vejam-se também exemplos no campo da morfologia. Para a terceir apessoa do plural do perfeito do indicativo de dicere e facare existiam em latim clássico, respectivamente, as três formas dixerunt, dixere, dixerunt, fecerunt, fecere, fecerunt. Se comparamos o antigo francês distrent, francês dirent, antigo francês distrent,  francês dirent, antigo francês e francês firent, italiano díssero, fecere existiam em latim clássico, respectivamente, as três formas dixerunt, dixere, dixerunt e fecerunt, fecere, fecerunt. Se comparamos o antigo francês distrent, francês dirent, antigo francês e francês firent, italiano dissero, fecero, romeno zisera, feacera, vemos que o acento recai sobre a primeira sílaba em todas as línguas românicas e que esta acentuação é condição requerida para o desenvolvimento regular de formas românicas. Já que nas palavras latinas polissílabas o acento recaía sobre a penúltima sílaba quando esta era longa e sobre antepenúltima quando a penúltima era breve, as formas românicas devem proceder do latim vulgar dixerunt, fecerunt (este último se encontra em Plauto, por exemplo), que têm o acento sobre a primeira sílaba. O rético (engadinês) savair, italiano cadere, sapere, siciliano cadiri, antigo francês cheoir,  francês choir, savoir, antigo provençal cazer, saber, espanhol caer, saber, português cair, saber, etc., não podem ser as continuações do latim cadere, sapere, entre outras coisas, por causa do acento, que não recai nunca na primeira sílaba, e dos ditongos do francês e do rético, que, como vimos, remontam s um e tônico. Para poder explicar as formas românicas devemos partir do latim vulgar *cadere, *sapere,  que devemos postular, embora não estejam documentados, com base nas formas românicas, já que não é possível que a mudança de conjuga-  ção -ere > -ere e o deslocamento do acento correspondente tenham sido produzidos independentemente nas várias línguas românicas. Com o latim vulgar *cadere, *sapere, não supomos a existência de palavras que não tenham existido nunca, mas somente as transformações do latim cádere, sápere no latim vulgar.

2.7 - CONFIRMAÇÃO DE PALAVRAS DUVIDOSAS

Mas, aplicando o método comparativo, podemos confirmar a existência, fundamentados nas línguas românicas, de palavras latinas até hoje duvidosas ou apenas conhecidas, e até descobrir algumas desconhecidas. Assim, por exemplo, guiando-nos pelo sardo ansa, português ânsia, catalão ànsia, todas com o mesmo significado do italiano supôs-se a existência de uma palavra latina vulgar anxia. Esta foi descoberta em realidade, mas até que os latinistas soubessem que esta palavra, que aparece uma só vez, é a base das vozes românicas, eles quiseram corrigi-la em angor, angina, porque não acreditavam que anxia fosse um vocábulo vivo.

A propósito do latim anxia, não podemos esquecer que o tesouro léxico latino não nos é conhecido em sua totalidade, que os dicionários não poderão nunca transmitir-nos todo esse tesouro tal como era, e que tampouco os textos (que têm sempre características mistas e artificiais) estão em situação de representar para nós o léxico integral de um determinado período.

Existe toda uma série de palavras latinas que, como a citada anxia, apesar de só aparecer por casualidade em um ou dois textos, eram bastante comuns. Assim, por exemplo, o fundamento latino das denominações românicas de uma espécie de doce ou pão cozido ao forno ou na brasa, italiano focaccia, sicialiano fuazza, sardo (logudorês) covazza, francês fouace, catalão fogassa, espanhol hogaza, português fogaça, que derivam do latim focacia plural neutro de focacium. Na Itala encontramos duas vezes focacium, mas na Vulgata é chamado de subcinericium panem parvulum; fora isto, a palavra em questão só se encontra nas Orígenes de Isidoro de Sevilha (século VII). Apesar de usa escassíssima documentação, trata-se de um vocábulo bastante vivo no latim falado, como no-lo demonstram as línguas românicas. E se não possuíssemos esta escassíssima documentação, poderíamos supor, pela simples comparação das vozes românicas, primeiramente, que tais vozes estão em relação com o latim focus, “lareira”, “fogo”, e em segundo lugar, que não podem ser derivações românicas, visto que, sem falar de outras coisas, deveriam ter resultado do francês feu e do espanhol fuego (= latim focus) com o sufixo francês -asse      (-ace) ou espanhol -aza (que são continuadores regulares do sufixo latino -acea) , não o francês fouace  e o espanhol hogaza, mas algo assim como o francês *feuasse (*feuace) e o espanhol fuegaza. Daí se conclui que estas vozes românicas estejam certamente em relação com a latina focus, embora não possam ser derivações dos continuadores românicos desta palavra. A derivação deve ter ocorrido, portanto, não no românico, mas no latim. Se não tivessem aparecido documentados focacium, focacius na Itala e em Santo Isidoro de Sevilha, poderíamos supor com segurança a existência da palavra latina, baseando-nos nas línguas românicas.

2.8 - RECONSTITUIÇÃO DO LATIM VULGAR

A reconstituição de palavras latinas fundamentada na comparação das línguas românicas é cientificamente tanto mais considerável quanto mais numerosas são as formas românicas que podem ser abarcadas na comparação. Cada caso deve ser considerado como um caso especial e fazer provável a reconstrução com todo tipo de dados. Pôde-se considerar provável a existência de uma voz latina *acutiare não documentada porque existem o italiano aguzzare,  sardo (logudorês e galurês) akutare, francês aiguiser, antigo provençal aguzar, espanhol aguzar, catalão aguar, português aguçar, e, além disso, porque *acutiare pode ser sem dificuldade um derivado do particípio perfeito acutus do latim acuere, verbo que já não vive em nenhum romance. A derivação indicada é ainda mais provável ao se considerar que acutare está documentado desde o século III e que aparece nas glosas também uma forma latina acutiator.  Compreende-se que a evolução fonética de *acutiare nas formas românicas (no que se refere ao grupo -ti-) deve corresponder à das outras palavras românicas usadas para a comparação, que derivam de palavras latinas em que se encontram os mesmos sons ou grupos de sons de *acutiare.

2.9 - A SINTAXE

Enquanto no tocante à fonética, à morfologia, à formação de palavras e ao léxico podemos reconstruir, com a comparação das línguas românicas às condições lingüísticas do latim pré-românico (“Gemeinromanisch”), uma simples reconstrução no campo da sintaxe românica é naturalmente, mais difícil. E  bem sabido que a afinidade elementar (“elementare Verwandtschaft”) é um fenômeno  bastante natural e comum, tratando-se de fatos sintáticos e que a “Innere Sprachform” se manifesta sobretudo nessa “faculdade do espírito” que é a sintaxe. Daí que a regularidade que podemos constatar, por exemplo, no campo fonético e morfológico, diminui na sintaxe. Sendo assim, como o método histórico-comparativo se baseia na regularidade e nas correspondências constantes, torna-se mais difícil aplicá-los à sintaxe. Na realidade, é muito difícil, mediante o método comparativo, estabelecer a antigüidade de um fenômeno sintático.

2.10 - SINTAXE LATINA VERSUS SINTAXE FRANCESA

Os outros fatores que mais dificultam o trabalho neste campo sobre a base histórica-comparativa são a sintaxe latina e a francesa. Começando por esta última, cuja situação privilegiada é bem conhecida, entre todas as línguas românicas é na francesa onde a sintaxe, tanto histórica como descritiva, foi muito mais estudada e conhecida, fato que nasce de motivos, inclusive, estranhos à Lingüística, como é a excepcional riqueza da literatura francesa já a partir da Idade Média e, por consequinte, o imenso material que, desta maneira, se fazia possível à observação sintática; e também o caráter universal e internacional do francês que fez nascer em toda parte a necessidade de dominar bem esta língua em sua forma falada e sobretudo em sua forma escrita. Além de ser o francês, com muita vantagem, a mais estudada das línguas românicas no que se refere à sintaxe, é também uma fonte quase inesgotável para as investigações sintáticas, dada a excepcional variedade de sua sintaxe. Precisamente porque esta é tão conhecida e estudada, enquanto que a das outras língua românicas foi até agora só parcialmente examinada, a sintaxe espanhola, por exemplo, foi, até tempos recentíssimos, tratada repetidamente sob o modelo da francesa, formando corpo com esta última.

2.11 - A INFLUÊNCIA DA SINTAXE DO LATIIM CLÁSSICO

Quanto à influência da sintaxe do latim clássico, antes do francês, podemos afirmar que servia de modelo à espanhola. A influência da sintaxe latina sobre o italiano é enorme desde o início da língua literária, por exemplo, em Guido de Arezzo, no século XIII, culmina com Boccaccio e é tão perceptível ainda em tempos recentes que as prevenções latinas freqüentemente impossibilitam a observadores italianos e estrangeiros distinguir os fenômenos da sintaxe italiana dos da latina. Por isto, ainda hoje na Itália, no ensino da sintaxe italiana nas escolas secundárias, insiste-se em fazer ressaltar as diferenças entre as sintaxes italiana e latina em comparar as duas línguas do ponto de vista sintático. Quando se fala da influência da sintaxe latina sobre as línguas românicas, entende-se, naturalmente, a influência dos falantes de línguas românicas que conhecem o latim. Como é sabido, em todas as épocas podem ser observados nessas línguas os chamados latinismos, ou seja, palavras latinas mais ou menos adaptadas. O francês vice, italiano vizio, espanhol vicio, distinguem-se imediatamente como membros faltos de correspondência no quadro comparativo, se forem confrontados com o francês poil, poire, italiano pelo, pera, espanhol pelo, pera (< latim pilum, pira): por causa do i da primeira sílaba em vez de e ou oi, tornam-se elementos eruditos, cultismos, que não derivam do latim vulgar (no qual o i e o e latinos se tornam e, como já vimos acima, mas que foram tomados mais tarde diretamente do latim vitium. Contudo, naturalmente, as coisas aparecem na sintaxe de modo diferente.

Assim, por exemplo, tem chamado a atenção o fato de que, nas frases completivas (subjetivas e objetivas), a justaposição é um fenômeno arcaico e popularesco, não só nas línguas românicas e indo-européias, mas também nas não indo-européias. A sintaxe do húngaro, para citar um caso entre muitos, no período clássico de sua literatura, ou seja, na segunda metade do século passado, está caracterizada pela parataxe das completivas, que se deve à prevalência na literatura húngara, daquele período chamado nacional-popular, de temas e argumentos tomados da poesia popular. Para as línguas neolatinas já se assinalou que em francês, italiano e romeno, por causa da grande influência da sintaxe do latim clássico, a justaposição pôde ser mantida somente nos casos em que a língua popular fez valer sua influência. Se quiséssemos, então, comparar as língua românicas, sob este aspecto sintático, chegaríamos à conclusão completamente equivocada, pois a justaposição era empregada profusamente no latim vulgar como em toda linguagem popular.

2.12 - A RECONSTITUIÇÃO DA SINTAXE DO LATIM VULGAR

Aplicando o método histórico-comparativo é preciso, pois, para chegar à sintaxe do latim vulgar, confrontar antes a sintaxe das línguas românicas com a do latim. Por causa da grande influência latina, que no plano sintático é mais dificilmente perceptível que em qualquer outro plano, esta é uma das primeiras exigências. Contra o desconhecimento desta influência, por exemplo, na língua francesa, são bem oportunas as seguintes palavras do estudioso francês de problemas sintáticos G. Gougenheim, em FM, II (1934), p. 173: “Quando M. de Boer escreve: ‘Um romanista deve certamente saber latim. Mas ele deve compreender, por fim, que a sintaxe francesa se desenvolveu, assim  como a do inglês ou do holandês, sem haver imitado nunca a sintaxe do latim clássico’, parece nos muito absoluto. Como negar que nossa língua escrita foi feita por gente que falava e escrevia o latim? Em particular, o sistema das conjugações, tão pobre no francês mais antigo, foi completado e enriquecido pelos latinistas (remetemo-nos à exposição do Sr. Lerch em sua Historische Syntax)”. E a opinião de um especialista italiano seria sem dúvida ainda mais negativa se alguém pretendesse minimizar a mesma influência sobre a sintaxe italiana.

2.13 - O SUBJUNTIVO NAS LÍNGUA ROMÂNICAS

Num estudo sintático em terreno românico, as línguas românicas, além de serem comparadas com o latim, devem ser comparadas não simplesmente com “outras línguas”, mas, sobretudo, umas com as outras. Para ilustrar esse conceito, consideremos o subjuntivo, e mais particularmente o subjuntivo nas frases interrogativas indiretas. No referente ao subjuntivo em geral. sabe-se que este modo domina a sintaxe latina, e que sua importância começa a diminuir no latim vulgar. Enquanto no francês literário de hoje se diz je doute qu’il vienne, no uso comum existe a tendência a evitar o subjuntivo (je doute s’il viendra), e uma frase do tipo s’il fait cela et qu’il dise ce qu’il pense, il aura tort, soa, atualmente, como um pouco antiquada.

 Se pode ser sustentado que no francês o subjuntivo, nas orações subordinadas, “com exceção da relativa explicativa”, só serve para expressar a subordinação (“o subjuntivo serve para subordinar uma idéia a outra e nada mais!”), tal afirmação é insustentável para o espanhol. O sistema de subjuntivo especial e complicado desta língua, no qual existem, na competência, quatro formas, ou seja, o futuro, o imperfeito em -ra, o imperfeito em -se e o condicional, reflete, ao contrário do francês, a disposição psicológica de toda a mentalidade espanhola sobre um amplo fundamento afetivo. Em espanhol, o subjuntivo não é somente um “modo”gramatical, mas também uma modalidade oposta ao indicativo. O uso do futuro do subjuntivo, uma particularidade do subjuntivo espanhol, está estreitamente ligado, por exemplo, a certas fórmulas da novela cavalheiresca, à literatura mística e à novela picaresca. Constatamos assim que, enquanto o espanhol, neste aspecto, escolheu um caminho próprio e particular, pode-se sustentar que, tanto na língua francesa de uso comum quanto no latim vulgar, o subjuntivo desaparecendo.

No que diz respeito ao subjuntivo nas interrogativas indiretas, usa-se em francês o indicativo (dis-moi qui est venu), em italiano o indicativo (dimmi chi è venuto) ou o subjuntivo, em espanhol o indicativo (dime quién ha llegado). Mediante esta comparação não podemos nos remontar ao latim clássico, que nas interrogativas indiretas usava o subjuntivo (dic mihi quis venerit, Cícero), mas ao latim vulgar, que nas mesmas frases empregava o indicativo (dic mihi venit, Plauto). A respeito deste duplo uso sintático temos o testemunho formal do gramático latino Diomedes (século IV): “Imperitia lapsi, cum dicunt nescio quid facis, nescio quid fecisti. Eruditius enim dicetur nescio quid facias, nescio quid feceris”. Talvez se objetará que, neste caso, cada língua românica poderia ter-se distanciado do uso do subjuntivo independentemente do latim vulgar ou simplesmente fazer  uso do indicativo, como, por exemplo, o húngaro, que também usa o indicativo nas interrogativas indiretas (mondd mag ‘dize’ nekem ‘para mim’ ki ‘quem’ jött ‘veio’); mas esta explicação nos parece improvável, embora possíve. O fato de, nesta caso, o italiano e o espanhol, línguas que em geral são bastante menos contrárias que o francês ao uso do subjuntivo e nas quais este modo goza de uma certa valorização afetiva, terem escolhido o indicativo, é certamente significativo: sobretudo o italiano, que em toda interrogativa indireta anteposta, como também em toda subjetiva ou objetiva anteposta, usa sempre o subjuntivo. Em resumo: não podemos pretender, no campo da sintaxe, a mesma segurança que se tem, por exemplo, no caso do francês poil, poire, italiano pelo, pera, espanhol pelo, pera, rético (engadinês) pail, pair,  etc., formas que com toda certeza remontam não ao latim clássico pilum, pira, mas ao latim vulgar pelo, pera. Em princípio, os fenômenos sintáticos do latim vulgar podem ser reconstruídos no campo da sintaxe como nos outros campos. Mas, realmente, deve-se empregar nessa tarefa muito maior atenção, como se vê pela opinião expressa a este respeito por Meyer-Lübke, que à semelhança das reconstruções do latim vulgar no que se refere ao léxico, admite, em princípio, também, a reconstrução da sintaxe do latim vulgar tendo por base as línguas românicas. O que Meyer-Lübke escreveu em 1925 na RLiR, I, p. 20, a propósito das Aufsätze zur romanischen Syntax und Stilistik de Léo Spitzer, é talvez, o que mais se aproxima da realidade: “Seguindo sua tendência de verem todas as partes o universal humano, o autor não investiga aqui nem a questão de por que este universal humano se manifesta aqui de um modo e ali de outro, nem como umas línguas desenvolvem extraordinariamente certos tipos enquanto outras apenas os conhecem...”

2.14 - O ASPECTO PANCRÔNICO DO MÉTODO HISTÓRICO-COMPARATIVO

Por muito importante que possa ser este “universal humano” no campo da sintaxe (hoje em dia deveríamos chamá-lo, com Saussure, “pancrônico”), também hoje o método histórico-comparativo mantém seu pleno valor, inclusive para a sintaxe. Seria metodologicamente um erro não exercer historicamente o método comparativo neste terreno, isto é, contentar-se em estabelecer o que é universalmente humano e ter que chegar, antes de tudo, à sintaxe comparada das línguas românicas separadamente, comparando-as com as línguas não-românicas. Pelo contrário, deve ser estabelecido não o que é “unversal humano” (“pancrônico”), mas o que panromânico. Noutras palavras: deve-se trabalhar primeiramente sobre o plano histórico-comparativo e depois sobre o puramente comparativo. Se a primeira maneira de trabalhar falhar, isto é, se um fato sintática não pluder historicamente remontar-se ao latim vulgar, a comparação com outras línguas não-românicas mostrará o que há nele de “universal”. Se a comparação histórica mostrar o contrário, e a comparação com as línguas não-românicas provar que se trata de um fato também universal, como no caso das interrogativas indiretas românicas, a explicação “pancrônicas”, embora não seja impossível, terá pouca probabilidade.

Eis aqui outro exemplo. Afirma-se que o pronome impessoal francês on, provençal hom, não deriva do latim homo e tampouco foi criado sob a influência do germânico man, mas que é uma criação literária do antigo francês ou do antigo provençal, e o uso do italiano uomo, espanhol hombre, português homem como pronome impessoal é atribuído à influência francesa e provençal respectivamente. Depois que foi demosntrado, mais tarde, que o latim homo aparece já em Catão (Agr.,  157, 8 e 48, 1-2) com o sentido indeterminado de “homens”, ou melhor, de “se”, deve ser rejeitada a explicação galo-românica ou germânica e devem ser considerados os fatos históricos (latinos), além dos pancrônicos.

Aplicando o método histórico-comparativo às línguas românicas pôde ser postulada a existência de toda uma série de palavras e outros elementos no latim vulgar. A existência de muitas destas formas supostas pôde ser provada mais tarde com testemunhos documentais, e, assim, o método teve confirmação. Mas ficou uma parte que deve ser considerada meramente suposta e que é indicada com um asterisco. Assim, por exemplo, Gustav Gröber, entre 1884 e 1889, reconstruiu baseado em comparações românicas em seus Vulgärlateinische Substrate romanischer Wörter, em ALLG, toda uma série de palavras latinas vulgares, cuja existência foi confirmada mais tarde, por exemplo a de anxia, mas não a de *acutiare. O estudo de Gröber formou o núcleo do Dícionário Etimológico das Línguas Românicas redigido mais tarde por Meyer-Lübke. No REW de Meyer-Lübke, as palavras que levam asterisco, ou seja, reconstruídas, formam aproximadamente 10% das 10.000 que encabeçam os artigos.

2.15 - A QUESTÃO DAS FORMAS HIPOTÉTICAS NA RECONSTRUÇÃO DO LATIM VULGAR

A questão das formas hipotéticas, deduzidas pelo método histórico-comparativo, tem feito gastar muita tinta. O método de Meyer-Lübke toma uma posição chave na discussão. Em seu estudo Die lateinische Sprache In den romanischen Ländern, publicado na primeira edição do Grundriss de Gröber (1883-1888), p. 359, concede para nosso conhecimento do latim vulgar uma menor importância a todas as outras fotnes (vulgarismos dos autores latinos, gramáticos, lexicógrafos latinos, inscrições latinas, etc.) que à comparação das próprias línguas românicas, de modo que, segundo ele, no caso de incerteza, esta comparação é mais decisiva do que todas as demais fontes. Desta maneira, Meyer-Lübke, como Gröber, quis separar o latim vulgar do latim clássico, e o representa como algo homogêneo, uniforme. Apesar das violentas e justas críticas dos latinistas, que protestaram em termos severos contra a confusão entre este “romanisches Konstruktionslatein” ou “Phantasielatein” e o autêntico “historisches Volkstlatein” e que propuseram a denominação de “romanisch zu erschliessendes Quell-latein” que não devia confundir-se com o latim vulgar, Meyer-Lübke manteve sua extremíssima posição até em sua Italienische Grammatik (Leipzig, 1890) e em sua Grammatik der romanischen Sprachen. Ao final do século passado e princípios do atual, Meyer-Lübke modificou sua idéia de um latim vulgar separado e homogêneo, e aceitou a opinião, que é a única correta, ou seja, que só existe uma língua latina, da qual o chamado latim vulgar é apenas um aspecto. Esta modificação de conceito é vista melhor na segunda edição do estudo acima citado.

Naturalmente, Meyer-Lübke reconstrói continuamente o latim vulgar sempre que existem motivos decisivos para isto. O fato de alcançarem as formas do latim vulgar reconstruídas em seu REW  apenas 10% do total demonstra que a reconstrução, nas línguas românicas, tem uma importância relativamente limitada em relação com outros campos lingüísticos (línguas germânicas e eslavas). Portanto, a censura de que na reconstrução por comparação tenha ido muito longe, imitando demasiadamente a Lingüística Indo-Européia, não está justificada.

Sem motivos decisivos, o latim vulgar não é reconstruído somente quando a palavra suposta em latim é encontrada em diversa línguas românicas e as diferentes formas românicas desta palavra não poderiam ter surgido independentemente em cada língua. Estas duas premissas estão em mútua correlação. Quanto mais numerosas são as línguas neolatinas em que é encontrada uma palavra hipotética, tanto maior é a probabilidade de se tratar de uma palavra do latim vulgar, isto é, que não tenha surgido independentemente nas línguas românicas. Se uma forma hipotética é encontrada somente numa língua românica, então é grande a probabilidade de que tenha surgido nela independentemente. A existência do latim znxia foi postulada com base em sete línguas românicas, e não podia se tratar de uma palavra surgida independentemente em todas elas. Com efeito, mais tarde foi documentada. A existência de um latim vulgar *acutiare tornou-se provável com base em seis línguas românicas, já que as formas românicas não podem ter surgido independentemente nas seis. O italiano avanzare, francês avancer, provençal avansar, supõem um latim vulgar *abantiare, já que as formas italiana e francesa, por exemplo, por causa da sibilante (cf. *acutiare), não poderiam ter surgido diretamente do francês avant e italiano avanti (as derivações de avant  e avanti teriam sido em francês e italiano *avanter e *avantiare respectivametne). Mas seria completamente equivocado, por exemplo, supor uma forma latina vulgar nitidiare baseado apenas no francês nettoyer (de nitidus ‘limpo’ com o sufixo       -idjare > -oyer), já que o francês nettoyer, documentado no século XII, pode ser uma derivação do francês net independentemente do latim.

3. CONCLUSÃO

O método histórico-comparativo, partindo das línguas românicas e convergindo para o latim vulgar, pôde demonstrar assim, por indução, que as línguas românicas derivam do latim vulgar. Se, então, ao contrário, partindo do latim vulgar, chegamos às diversas línguas românicas e desta maneira, fizemos história da língua, isto só poderá ser feito também de maneira indutiva, com o método comparativo. Coloquemos, por exemplo, o francês miel ao lado do latim vulgar mel (latim mel) e afirmaremos que o e do latim vulgar passou a ie em francês. Se quisemos saber agora se esta mudança é casual ou não, e em que condições ocorreu, deveremos trabalhar comparativamente. Comparemos o latim vulgar mel  > francês miel de um lado com o latim vulgar fe > francês fiel, latim vulgar celu > francês ciel, latim vulgar pede > francês pied, etc, e de outro lado latim vulgar septe > francês sept, latim vulgar testa > francês tête, latim vulgar ferru > francês fer, etc, e concluiremos que o e tônico do latim vulgar passou em francês a ie, não incondicionalmente, mas apenas em sílaba aberta, permanecendo imutável em sílaba fechada. Se comparamos, por exemplo, o latim vulgar mel  > espanhol miel, de um lado, com o latim vulgar fel > espanhol hiel, latim vulgar pede > espanhol pie, etc, e do outro o latim vulgar septe > espanhol siete, latim vulgar testa > espanhol tiesta, latim vulgar ferru > espanhol hierro, etc, chegamos à conclusão de que o e tônico do latim vulgar, em espanhol diferentemente do francês, se converteu em ie tanto em sílaba aberta quanto em sílaba fechada. Assim vemos que o método histórico em nossa ciência só pode ser comparativo e indutivo.

4. RECAPITULAÇÕES SUMÁRIAS

4.1 - Resumo

O estudo comparativo das línguas românicas é a mais importante fonte de estudo do latim vulgar, possibilitando uma reconstituição bastante segura dessa língua-mãe.

O método histórico-comparativo, que combina o método histórico (baseado em fontes documentais antigas) com o método comparativo (baseado nas evidências dos exemplos comparados) prova que as línguas românicas provêm do latim vulgar e explica numerosos fatos sincrônicos e diacrônicos dessas diferentes línguas de seus dialetos.

Efetivamente, não existe um método puramente histórico dos fatos lingüísticos. A Lingüística Histórica tem de ser também comparativa.

4.2 - Résumé

L’étude comparative des langues romanes est la plus importante source d’étude du latin vulgaire, que rend possible une reconstitution trop sûre de cette langue-mère.

La méthode historique-comparative, que combine la méthode historique (basée sur les sources documentaires anciènnes) et la méthode comparative (basée sur les évidences des éléments comparés) prouve que les langues romanes proviennent du latin vulgaire et explique-t-elle de nombreux faits synchroniques et   diachroniques de les differentes langues et de leur dialects.

Éffectivement, il n’éxiste pas de méthode purement historiques des faits linguistiques. La Linguistique Historique doit être aussi comparative