ETIMOLOGIAS BEM-HUMORADAS

José Pereira da Silva (UERJ)

BUENO, Márcio. A origem curiosa das palavras /ou dos significados. 2ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003, 259 p.

Apesar de não se tratar de um livro técnico nem ter o autor a pretensão de etimologista ou de filólogo, estamos diante de um interessante livro que deve ser sugerido como leitura complementar para os estudantes e profissionais de letras, assim como o foi outrora a Grammatica Portugueza pelo Methodo Confuso do capixaba Mendes Fradique.

Além do bom humor e dos aspectos deveras curiosos arrolados pelo autor para explicar a origem das palavras, muitas das histórias arroladas pelo famoso jornalista são de fato correntes, apesar de muitas serem meras e descabidas invenções, apesar de apresentadas dentro de um contexto de verossimilhância que torna o trabalho deveras interessante.

Como o objetivo da seção de resenhas da Revista Philologus é divulgar os bons trabalhos que vem surgindo, partiremos para a descrição do conteúdo do livro, transcrevendo os argumentos que o editor publicou nas suas orelhas:

Por que razão chamamos profissional inábil de barbeiro, indivíduo que leva vida desregrada de boêmio, ônibus que circula em área rural de jardineira, escola para crianças de jardim-de-infância, uma ave muito consumida no Natal de peru, sanduíche de salsicha de cachorro-quente e dizemos, sobre um carro que se movimenta em ponto morto, que está na banguela? Um dos aspectos mais cativantes desta obra é a revelação das origens de palavras intrigantes como essas, cujos novos sentidos adquiridos não têm aparentemente qualquer relação com as acepções originais.

O autor mergulhou no assunto com muita disposição, trazendo à tona respostas objetivas, elucidando as questões ou, em alguns casos, apresentando as explicações mais plausíveis. A linguagem é leve, não acadêmica, mas respeitando fundamentalmente as conclusões dos principais estudiosos da área, tanto de português quanto de outras línguas românicas e também germânicas.

Foram devidamente estudadas as origens de palavras de formação recente, incluindo gírias, como são os casos de aloprado, azarar (no sentido de paquerar), brega, mico (na expressão pagar mico) e sarado. E também de outras, nem tão recentes assim, como biruta, conchavo, galera, gato (no sentido de ligação), merreca, paquerar, porre etc. Foi descoberta uma relação muito curiosa entre o termo bárbaro e a palavra gringo, cujo significado seria uma espécie de vingança bárbara.

O autor não se deixou levar pela tentação de publicar como verdadeiras explicações fantasiosas, não apenas por respeito ao leitor, mas também por entender que a realidade costuma suplantar os produtos da imaginação mais criativa e delirante. Um caso exemplar é o da palavra baderna, que tem como base o nome da bailarina italiana Marietta Baderna. A história real é tão instigante que o verbete baderna tornou-se o mais extenso desse livro - Para Márcio Bueno, Baderna foi “uma Leila Diniz com mais de um século de antecedência”. De acordo com o autor de A origem curiosa das palavras, se a verdade é encantadora e apaixonante, não há porque tentar glamorizá-la ou então brigar com ela.

Márcio Bueno foi feliz ao “descobrir” que o homem sempre se interessou pela origem de tudo e não é diferente em relação à origem das palavras, razão de tantas lendas e de tantos livros que tentam explicá-la.

Na apresentação do livro, diz que só apresenta como verdadeiras as etimologias sobre as quais haja consenso entre os filólogos e etimólogos, dando apenas como prováveis as que ainda não contam com o juízo crítico desses especialistas.

As histórias que explicam a origem das palavras com determinados sentidos na língua portuguesa é que são interessantes para dar um sabor de lazer à leitura desse livro, assim como agrada ao leitor tomar conhecimento das palavras portuguesas que deram origem a palavras de outras línguas importantes para a cultura global, como o inglês, o francês, o japonês etc.

Quanto aos termos considerados chulos, não houve preconceito nem qualquer forma de discriminação. Foram explicados com os mesmos critérios utilizados para qualquer outro termo técnico ou comum na fala do brasileiro de hoje.

Gostaria de registrar aqui parte de um parágrafo em que, no meu conceito, o autor se valoriza ainda mais, quando afirma:

Um veio que procurei trabalhar, escarafunchando suas origens, é o dos regionalismos, das palavras que são correntes apenas em determinados locais. Esses regionalismos parecem dar mais vida e beleza ao idioma, independentemente das brincadeiras que possam gerar ou até mesmo por causa delas. (p. 11)

Já no final do capítulo, compartilho com o autor do sentimento de auto-estima elevado com as informações sobre palavras ou expressões do português que hoje são correntes (com as devidas adaptações vernáculas) em diversos outros idiomas:

Não é segredo que o nosso idioma recebeu contribuições de diversos outros. O mais interessante, e que eleva nossa auto-estima, é descobrir que houve diversos termos que fizeram o caminho inverso - saíram do português e foram adotados por outras línguas neolatinas e também germânicas, orientais etc. São os casos, por exemplo, de tank (reservatório e carro de combate) e command, da língua inglesa, de fétiche, do francês, e de tempurá, do japonês. Esses casos e muitos outros estão agrupados no capítulo Influência Portuguesa.

O capítulo sobre a Influência Portuguesa na Língua Japonesa também tem a mesma motivação, mas, como o livro não tem a pretensão de ser exaustivo, naturalmente, numerosíssimos termos ali existentes, de procedência principalmente brasileira, não estão registrados neste livro.

E acredito que podemos concluir esta resenha com a transcrição de sua quarta capa:

A ave que na língua portuguesa conhecemos como peru é chamada estranhamente de turkey [Turquia], em inglês, e de dinde [da Índia], em francês. Quais as razões dos nomes de três países diferentes, se não é originária de nenhum deles? Esclarecimentos de questões como essas se sucedem em todas as páginas do livro. No verbete ‘cuba-libre’, são revelados os interesses políticos que motivaram a criação da bebida e do nome. O autor não economiza nas explicações, indo muito além da origem etimológica em si. Ilustrado com diversas fotografias, nos permite conhecer tanto personagens históricos quanto objetos que deram origem a palavras que usamos no dia-a-dia. No capítulo Influência Portuguesa, um momento de elevação da nossa auto-estima - o autor brinda os leitores com palavras de várias outras línguas (em japonês são dezenas), que tiveram origem em nosso idioma.