PALAVRAS TAMBÉM TÊM HISTÓRIA

Vito Manzolillo (Unesa)

VIARO, Mário Eduardo. Por trás das palavras: manual de etimologia do português. São Paulo: Globo, 2004..

Nos últimos anos, o mercado editorial brasileiro tem sido invadido por várias publicações dedicadas à abordagem de aspectos diversos ligados à etimologia.

Títulos como De onde vêm as palavras I e II e A vida íntima das palavras: origens e curiosidades da língua portuguesa (Deonísio da Silva), A casa da mãe Joana I e II (Reinaldo Pimenta), Palavras sem fronteiras (Sergio Corrêa da Costa), A origem curiosa das palavras (Márcio Bueno), Por dentro das palavras da nossa língua portuguesa (Domício Proença Filho) e 1001 estrangeirismos de uso corrente em nosso cotidiano (Ernani Terra et al.) têm despertado a atenção dos interessados no tema. Até mesmo Marcelo Duarte, jornalista responsável por uma série de “guias dos curiosos”, lançou um volume relativo à língua portuguesa.

Sem querer desmerecer ninguém, em muitos casos, as leituras anteriores nada mais eram do que passatempo ameno surgido das penas - ou das teclas - de autores esforçados e sem formação específica na área de Letras - o que, fique bem claro, por si só não constitui demérito algum -, cujos textos visavam muito mais ao público geral do que aos especialistas em filologia, lingüística ou língua portuguesa.

Outra é a situação deste Por trás das palavras, do filólogo e professor de língua portuguesa da USP Mário Eduardo Viaro, que vai interessar, de maneira especial, ao estudioso de gramática histórica do português, apesar de, na introdução de sua obra, o autor afirmar que pretendeu atingir também os leigos (p. 15).

O livro encontra-se dividido em duas grandes partes, havendo ainda a introdução já mencionada. Na primeira seção, conceitos como os de raiz, radical, forma popular, forma erudita, forma semi-erudita, caso, forma divergente, forma convergente e metaplasmo, importantes para estudos de cunho histórico, são discutidos.

Nessa primeira parte, há espaço igualmente para alguns comentários pertinentes ao empréstimo lingüístico, sem dúvida alguma, um assunto que se encontra “na moda” na atualidade. Na página 59, por exemplo, ao explicar que

...não fomos nós, brasileiros, que inventamos a Informática, então por que rejeitaríamos os termos do país em que se originou essa Ciência? Também não inventamos o violino e o violoncelo e usamos os termos italianos desde o século XVI. Não inventamos a pizza, a lasanha, o estrogonofe, o hambúrger [sic] ou o sushi, e não me consta que precisemos de nomes alternativos para eles,

o autor indiretamente expõe a causa mais comum para a ocorrência de empréstimos, causa essa que, muitos séculos atrás, já se encontrava refletida nas seguintes palavras do poeta latino Horácio (65 - 8 a. C.): Verba sequuntur rem (As coisas são seguidas pelas palavras).

Nas duas páginas seguintes, o professor Viaro apresenta, com base no dicionário Zingarelli da língua italiana, alguns portuguesismos em processo de internacionalização (autodafé, bossa nova, favela, samba e viado), os quais servem de pretexto para que o mestre comente que “antes de lançarmos batalhas quixotescas contra invasões de termos estrangeiros, é preciso observar que também exportamos palavras para as demais línguas do globo” (p. 61).

Mais adiante (p. 94), dedica algumas linhas ao decalque, empréstimo insidioso e camuflado, cuja existência, freqüentemente, escapa ao falante comum. Nas palavras do autor, trata-se de

...uma espécie de tradução literal para o vernáculo dos elementos que compõem um determinado vocábulo, como encontramos na palavra cachorro-quente, composição que não foi criada no português, mas montada por decalque a partir do inglês hot dog.

A segunda parte da obra se presta a examinar os elementos não-latinos do léxico do português, encontrando-se dividida em capítulos dedicados a afixos e raízes gregas e a palavras pré-românicas, germânicas, árabes, ameríndias, africanas e asiáticas. Há ainda um capítulo sobre etimologia dos nomes próprios.

Na conclusão do estudo (p. 335), encontram-se, de forma resumida, “os passos de uma etimologia confiável”, apresentados e discutidos ao longo do manual. São eles:

conhecimento da estrutura e do léxico das línguas-fonte;

conhecimento do momento histórico do contato da língua-fonte com a língua estudada;

datação dos textos que comprovem os étimos ou que justifiquem a sua reconstrução;

conhecimento dos metaplasmos regulares da passagem da língua-fonte para a língua estudada;

conhecimento da freqüência de uso das palavras nas línguas em questão.

No final do volume, dois índices (um de palavras e outro de assuntos) facilitam a consulta a este oportuno lançamento da Globo.