ENTREVISTA
COM
ANTÔNIO MARTINS DE ARAÚJO[1]

por Vito Manzolillo (UNESA)[2]

 

O entrevistado deste volume é o Professor Antonio Martins de Araujo, Doutor em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira) pela UFRJ e professor aposentado de Língua Portuguesa da mesma instituição. Atualmente, o Professor Antonio Martins é a maior autoridade brasileira na obra de Arthur Azevedo. Membro da ABF (Academia Brasileira de Filologia) e da AML (Academia Maranhense de Letras), é ainda Professor do Instituto de Língua Portuguesa, do Liceu Literário Português. Entre suas principais obras é possível mencionar: Arthur Azevedo – a palavra e o riso, Noel Rosa língua e estilo (em parceria com Castelar de Carvalho) e A herança de João de Barros e outros estudos. Pronto para o prelo, O peito do pelicano ensaios maranhenses e, em fase de conclusão, Unidade e variedade da língua portuguesa.

 

Vito Manzolillo – A que projetos o senhor se dedica atualmente?

Antonio Martins de Araujo – A curto prazo, são dois estudos. O primeiro é sobre o falar costeiro de Porto Rico e Catiaua (pescadores e lavradores do noroeste maranhense maiores de 70 anos e analfabetos). Esse trabalho vai ser publicado no jornal O Imparcial, de São Luís, agora em novembro. O outro é a fala dos pescadores e lavradores de Cedral, Mirinzal e arredores, a sair no jornal O Estado do Maranhão também em novembro. A médio prazo, a conclusão do livro Unidade e variedade da língua portuguesa. A longo prazo, a ministração de um curso sobre a obra de Antônio Vieira na Casa de Cultura Josué Montello em São Luís em agosto de 2005 e o lançamento, , do livro O peito do pelicano, análise literária de um ângulo das obras de escritores maranhenses falecidos (Arthur Azevedo, Graça Aranha, Lago Burnett) e vivos (Lino Moreira, Sônia Almeida etc.).

 

VM – Na sua opinião, que autores e obras não podem faltar na biblioteca dos estudantes de Letras?

AMA – Na área de Lexicografia, os trabalhos de Dieter Messner (Universidade de Salzsburgo, na Áustria) Dicionário dos dicionários portugueses, cerca de 50 volumes previstos, dos quais 22 editados; o Kwic index, do professor Toru Maruyama, listagem alfabética de todos os vocábulos de obras de gramáticos como Fernão de Oliveira, João de Barros, Pero de Magalhães de Gândavo e Bento Pereira (os dois últimos a sair). Outra obra de fundamental importância é o dicionário de Antônio Houaiss, hoje dirigido por Mauro de Salles Villar. Como bibliografia passiva, As origens da gramaticografia e da lexicografia latino-portuguesa, de Telmo Verdelho. Outros volumes indispensáveis são As ideias ortográficas em Portugal (1734-1911), de Maria Filomena Gonçalves, e Para uma gramatologia portuguesa, de Carlos da Costa Assunção. Quanto às gramáticas atuais, Celso Cunha, Evanildo Bechara e Rocha Lima. Das mais antigas, Mário Pereira de Souza Lima, Eduardo Carlos Pereira, Francisco Sotero dos Reis e Augusto Freire da Silva.

 

VM – E com relação especificamente aos dicionários etimológicos?

AMA – O mais atualizado é o de A. G. Cunha, enquanto o mais completo é o Diccionario crítico etimológico castellano e hispánico, de Corominas e Pascual, em 6 volumes.

 

VM – Em 2004, a comunidade científica nacional celebrou o centenário de nascimento de Joaquim Mattoso Câmara Jr. Como o senhor avalia o papel desempenhado pelo autor na difusão dos estudos lingüísticos no Brasil?

AMA – As homenagens recebidas por Joaquim Mattoso Câmara Jr. no corrente ano, em que se celebrou seu centenário de nascimento, são um atestado do reconhecimento da comunidade científica brasileira a seu papel de reformulador e atualizador dos estudos lingüísticos entre nós. Depois dele, os estudos lingüísticos ganharam mais cientificidade e objetividade.

 

VM – Nos últimos anos, temos percebido um certo esvaziamento da Filologia em nossas universidades. A que o senhor atribui esse fato?

AMA – À valorização do hic et nunc (aqui e agora) em detrimento dos alicerces e da estrutura do edifício lingüístico. Não se aprofundam as razões das mudanças, é uma espécie de tentativa de assassinato da história, como se fosse possível assassinar a história. Além do que, não se fazem edições críticas como antigamente.

 

VM – De alguns anos a esta parte, um tema tem mobilizado a comunidade científica brasileira da área de Letras: a questão dos estrangeirismos. Isso ocorreu especialmente em função do projeto de lei proposto por Aldo Rebelo em 1999. Na sua opinião, um projeto dessa natureza é eficaz?

AMA Ele é tão inconseqüente quanto fechar os portos às demais nações, que foram reabertos em 1808 pelo Regente Dom João, a instâncias do Visconde de Cairu. Enquanto no século XIX era impossível conter a influência francesa nos usos e nos costumes (inclusive lingüísticos), hoje se dá o mesmo com o inglês por causa da grande força que os EUA impõem ao resto do mundo. Hoje o inglês está para nós como o latim estava para a época clássica, principalmente no ocidente.

 

VM – No que respeita ao ensino do português nos níveis fundamental e médio, que comentários poderia fazer?

AMA Sem comentários. O estado lastimável em que este se encontra está na razão direta do desprezo que os últimos governos têm votado ao setor da cultura e da educação. O Japão é o que é, pelo respeito que os seus governos dão ao ensino.

 

VM – Para finalizar, o que o senhor achou da iniciativa do CiFEFiL de passar a incluir entrevistas na revista Philologus?

AMA – É interessante ouvir várias vozes sobre os temas da revista, porque cada um dos entrevistados tem a sua própria visão do mundo. Podemos concordar ou discordar delas, mas elas são o que são.


 


 


[1] Esta seção de “entrevistas” está sendo inaugurada neste número e os próximos entrevistados deverão ser, caso não haja alguma dificuldade especial, os professores João Bortolanza, Bruno Bassetto e Evanildo Bechara, e estará sempre a cargo do Vice-Diretor de Publicações do CiFEFiL.

[2] Vito Manzolillo é professor universitário, recém-doutor pela UFRJ, e Vice-Diretor de Publicações do Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Lingüísticos, do qual foi Vice-Diretor-Presidente e Diretor de Publicações.