UM REGISTRO HISTÓRICO DO BRASIL EM LATIM
Amós Coêlho da Silva (UERJ - UGF)
MELO, José Rodrigues de. De Cultura Herbae Nicotinae in Brasilia.Tradução e apresentação de Silva Bélkior.Rio de Janeiro: Gráfica Edil, 2004.
(Contato: Profa. Fernanda (21) 2543-7573)
Sob o patrocínio da Souza Cruz, o Prof. Bélkior Cornélio da Silva, titular de Filologia Românica da UFRJ, traduziu a obra de José Rodrigues de Melo, De Cultura Herbae Nicotinae in Brasília, A Cultura do Fumo no Brasil, em edição bilíngüe.
De Cultura Herbae Nicotinae in Brasilia foi escrito em Roma durante o exílio do Autor, sob a égide do pontificado de Clemente XIII, e publicado em 1781. Nascido em Portugal, cidade do Porto, em 1704, ordenou-se sacerdote jesuíta e veio a falecer talvez aos oitenta e um anos. O seu exílio se deve ao decreto que expulsou a Companhia de Jesus do Brasil, pelo Marquês de Pombal, em 1759.
O volume oitocentista contém também, além de De Rusticis Brasiliae Rebus, outros poemas de José Rodrigues de Melo que tratam da vida rural brasileira: De Cura Boum in Brasiliae, desenvolvendo o assunto da criação de bois, e De Cultura Radicis Brasilicae. De Vsu Vario Radicis Brasilicae, cujo tema é o cultivo da mandioca. Há também o de Prudêncio do Amaral, baiano, também jesuíta (1675-1715), sobre a fabricação do açúcar, De Sacchari Opificio.
Inspirado pelo uso do rapé, em tom épico, relata em latim, este idioma que eterniza tudo: um poema aere perennius, mais perene que o bronze, como afirma na orelha da capa J. J. de Oliveira Freitas. Aí temos a origem do nome nicotina desde o seu patronímico francês Nicot e o seu berço baiano da altaneira Salvador, ela que ergue a sua cabeça entre as outras colinas altaneiras..., Caput illa e collibus altis interea attolens tradução minha, mas aproximada do Prof. Bélquior)...
Em versos hexâmetros datílicos, o poeta descreve a escolha do local do plantio do fumo, tratamento adequado, a colheita, o armazenamento do fumo nas protetoras folhas da bananeira, em cuja passagem aproveita para elucidar que o ‘fícus brasílica’, popularmente conhecida como bananeira, (conforme tradução do meticuloso latinista Bélquior) é uma árvore cheia de formosura, da qual o fruto é delicioso. Ainda sobre a bananeira, ressalta a sua econômica produção em um só cacho, que é abundante de frutos, num processo herdado da natureza de vitam brevem. Porém, antes de se despedir, eis que teve o cuidado de nos deixar em seu lugar algumas herdeiras, Haeredes tamen illa suas moritura relinquit. Note o escrúpulo do tradutor em procurar uma expressão que não se apresente como mais importante que o discurso poético vazado neste hexâmetro com o quinto pé, sintetizado nos termos moritura relinquit (TURA RE), que está para morrer deixa - e isso se traduziu assim: antes de se despedir, eis que teve o cuidado de nos deixar. É claro que a extensão da tradução compete ao analitismo português.
Os versos seguintes tratarão da exportação do tabaco. Neste passo, ressalta o Poeta como fizera Vergílio, As Bucólicas, 24 e 25, afirmando que Mas Roma ergue tanto a cabeça entre as outras cidades quanto costumam os ciprestes entre os viburnos dóceis, Verum haec tantum alias inter caput extulit urbes quantum lenta solent inter viburna cupressi. É o verso a que nos referimos no quarto parágrafo acima. Nesta passagem, destaca ainda a riqueza conquistada pelos magnatas da Cidade, graças aos lucros no comércio do açúcar, (nam neque tellus,/ Qua dulces veniant cannae felicius, ulla est), pois nenhuma terra do mundo é mais generosa do que as da Bahia na produção de cana. A tradução literal seria: pois nenhuma terra é mais generosa que esta onde brotam as doces canas. Nesta oração subordinada adjetiva circunstancial consecutiva, quiseram o Poeta e o tradutor, dada a fidelidade de tradução, assinalar a importância do Recôncavo Baiano e da primeira capital do Brasil.
Porém, uma página triste de nossa História: a troca de rolos de fumo por escravos: perpetuos labores.
Conclui-se com versos finais a deliciosa experiência do rapé: desde a sua confecção ao seu uso saudável. A conciliação do seu uso com os preceitos de higiene. Os benefícios para o espírito e corpo. Depois o uso do cachimbo, bem com sua fabricação. Finalmente, o fecho com invocação do rio Tibre, Tibri Pater, que lhe há de conceder permissão para existência do seu poema. A elisão do e breve e supressão do s para sustentar a métrica do hexâmetro.