O TEXTO LITERÁRIO
SOB UMA PERSPECTIVA LINGÜÍSTICO-EXPRESSIVA:
A LEITURA E A LÍNGUA PORTUGUESA EM QUESTÃO

Maria Teresa Gonçalves Pereira (UERJ)

Resumo

O texto literário apresenta-se como corpus ideal para que se vivencie a língua materna em todas as suas possibilidades, estabelecendo uma relação de empatia que redunda em conhecimento e prazer. Os recursos expressivos da Língua Portuguesa em seus vários planos: fonológico, morfossintático e léxico-semântico dão forma à linguagem literária, resgatando o jogo verbal no que tange, não só à correção e à adequação, mas à inventiva lingüística.

Palavras-chave: texto literário; fatos da língua; expressividade

Os ortodoxos ainda acreditam que a linguagem de se escrever para crianças, jovens e adultos deve ser calcada em modelos tradicionais, com registro culto, com concordâncias, colocações e regências respeitadas e vocabulário erudito. O objetivo desse perfil lingüístico proporcionaria aos leitores condições de aprimoramento da Língua Portuguesa.

Não nos incluímos nessa categoria, razão pela qual temos algumas idéias diferentes sobre como pode(m) ser verdadeiramente instigante(s) a(s) linguagem(ns) utilizada(s) nos livros de literatura.

Quando se pensa em Literatura, se pensa fundamentalmente na história do livro, no seu conteúdo. Quase sempre se deixa em segundo plano a linguagem.

Não nos esqueçamos, porém, da relação intrínseca em que vivem história e linguagem num texto destinado a qualquer tipo de público, motivo suficiente para que estejam no mesmo nível.

São duas faces da mesma moeda, como já dizia Saussure em relação ao signo lingüístico: o significante e o significado.

Pensando no livro, podemos fazer um paralelo: o conteúdo/significado tem como expressão/significante, a linguagem, a forma de que o autor se utiliza para tornar pública, entendida e apreciada (ou não) a sua história. Assim, é lícito supor que a linguagem torna-se fundamental na análise crítica de qualquer livro.

Recuando no tempo, observamos que inicialmente havia as traduções, baseadas numa língua convencional, para que as crianças se mirassem em modelos lingüísticos tradicionalmente aceitos, passando, então, a copiá-los na modalidade escrita e, sempre que possível, na oral. Até os próprios autores nacionais da época demonstravam a mesma preocupação em seus textos.

Monteiro Lobato provocou uma verdadeira revolução na literatura infantil não só em termos de conteúdo — pela sua intensa brasilidade — como pela linguagem original e criativa, eminentemente coloquial, repleta de gírias, brasileirismos, construções inusitadas, com particular ênfase nos neologismos, muitos dos quais antológicos. Isto, é bom lembrar, em 1921, por ocasião do lançamento de A Menina do Narizinho Arrebitado, depois Reinações de Narizinho.

Para combinar com todas as tendências em se tratando de conteúdos na Literatura Infanto-Juvenil contemporânea, só vemos um caminho em nossos dias: que a linguagem seja inovadora, reflexo do seu tempo, totalmente divorciada dos inhos que menosprezam a inteligência da criança e do purismo exacerbado que revela uma realidade distorcida.

O autor de talento, ou porque conhece a fundo o sistema lingüístico ou porque se apóia em sua sensibilidade e intuição ou ainda pela soma de ambos, deve expressar-se através de todos os meios que a língua oferece: fônicos, como onomatopéias, aliterações, estruturas sonoras motivadas; morfo-lexicais, como formação de palavras; léxico-semânticos, como polissemia, decodificações, caracterizações; sintáticos, como ordem das palavras, estruturas frasais, numa harmonia bem trabalhada para gerar expressividade, nada parecendo artificial ou gratuito.

Somos adeptos de uma mistura saudável de recursos, trazendo “oxigenação” à Língua Portuguesa. Longe de empobrecê-la ou descaracterizá-la, a manipulação lingüística exercida com genialidade e conhecimento lhe dará feição nova, ressaltando seu potencial expressivo. São bem-vindos os neologismos (morfológicos e semânticos), as gírias (e conseqüentemente o palavrão bem aplicado), os brasileirismos, as construções abreviadas e frases curtas ao lado de construções elaboradas, vocábulos até eruditos, períodos bem formados, numa conjugação equilibrada artesanalmente cujo objetivo será encaixar, como num quebra-cabeça, fenômenos lingüísticos aparentemente tão diversos.

A linguagem é, na verdade, a chave que abrirá as portas para o leitor de um mundo novo, desconhecido, mas repleto de perspectivas fantásticas. Caso tal código não seja adequadamente escolhido, as intenções se perderão pelos caminhos.

Não nos julgamos capazes de falar de expressão ignorando o conteúdo. Como tratar de linguagem, omitindo o que lhe serviu de motivação? Destacar a Língua Portuguesa na Literatura Brasileira é, antes de mais nada, ratificar que, para uma tal Literatura, se torna necessário um código eficiente, mas estimulante.

Por meio da linguagem, a literatura se concretiza. A palavra é o instrumento de que se utiliza o escritor para transmitir seu pensamento; por isso, manipulá-la criativamente, mas com clareza e eficiência é o desafio proposto. A língua somente cumpre sua função se atinge um grande número de indivíduos que apreendem sem ambigüidades as mensagens por ela concatenadas, revelando-se perfeito instrumento de comunicação. Entendemos que hermetismo não traduz qualidade nem consistência. Além desse objetivo prioritário – funcional – também poderá tornar-se expressiva, com finalidade estética, proporcionando as mais agradáveis e genuínas sensações aos que a escutam, escrevem ou lêem.

Tratando-se da criança, o leitor do futuro, cremos que a boa literatura tem de acompanhar seu crescimento. Ao dominar a palavra escrita, irá acostumando-se com ela, explorando-lhe as possibilidades, desvendando os seus mistérios, tendo prazer no seu convívio.

A manipulação lingüística adequada dos que instrumentam o corpus da Literatura como criadores do material utilizado determina toda a incorporação do texto ao modus vivendi do leitor.

Qualquer erro de avaliação pode transformar-se em desastre, o que acontece com grande parte da produção destinada ao público infanto-juvenil: ou há subestimação do destinatário (o leitor), dando-lhe material envolto numa linguagem pueril ou há superestimação através de um falso aparato retórico. Ambas têm resultados negativos, afastando o público ao invés de cativá-lo.

A linguagem se produz de modo integral quando intervêm as estruturas fonológica, morfossintática e semântica, ocorrendo, tanto na criança quanto no adulto. A diferença prende-se aos modelos que se geram, um não sendo inferior ao outro, mas diferentes.

Crianças, jovens e adultos devem ser atraídos pela linguagem no que possa apresentar de lúdico ou poético através do trocadilho inteligente, das imagens sutis, da paródia, do nonsense, dos fenômenos da polissemia e da homonímia, (re)discutindo o provisório da significação e conhecendo alternativas de usar a Língua Portuguesa de forma plena, sem peias nem limitações a normas que reduzem e simplificam o fazer lingüístico.

A criatividade buscada na linguagem encontra-se na maneira de trabalhar, combinar e (re)aproveitar a imensa gama de recursos lingüísticos da língua materna, sendo criado, pelo escritor, um sistema eficiente, mas, sobretudo, instigante e original. As combinações lingüísticas engendradas resultam em marcas próprias que alcançam efeitos surpreendentes com fatos da língua simples e comuns, mas operacionalizados com mestria.

A palavra, considerada em diferentes níveis, numa abordagem lingüística plena, será apreciada, mesmo inconscientemente, porque possibilitará divertimento, aliado à sensibilidade. O texto, com tal tratamento, sem dúvida, "pegará pelo pé" o leitor mais resistente, envolvendo-o e conquistando-o definitivamente para manter viva a Língua Portuguesa nos seus variados desdobramentos e alternativas, sem teorias ou conceitos, apenas pela leitura atraente, passando, de maneira subliminar, um conhecimento, às vezes, não internalizado na escola.

Deve ter reconhecida qualidade (literária) o discurso apresentado nos textos assentado sobre as bases tradicionais da língua, revitalizado por enfoque lingüístico inovador, antenado a um mundo em permanente mudança.

Os autores que se encaixam nesse perfil são verdadeiros artífices da palavra, trabalhando-a artesanalmente, garimpando, na infinita gama de possibilidades lingüísticas, aquelas que vão instaurar o toque mágico que abrirá corações e mentes. Erra quem assevera que os leitores de todas as idades não se interessam pela boa “escritura”, acostumados ao discurso fácil, vazio e redundante. Não gostam é da retórica empolada e hermética.

Esses autores apresentam domínio das estruturas de seu idioma, revelando escolhas expressivas o bastante para encantar e "aliciar" com elegância e sutileza, sem perder de vista jamais a simplicidade, a clareza e a objetividade. Buscam uma renovação constante, dinamizando a língua, explorando-lhe ao máximo as potencialidades, as suas diversas realizações, no nível gramatical e das idéias, não se prendendo ao convencional, apenas reavaliando-o, reaproveitando-o ou, a partir dele, apresentando novas propostas.

A crítica parece inevitável: ou as pessoas se posicionam a favor de uma língua culta que sirva de modelo ao “falar e escrever bem” ou acompanham os novos tempos, com as crianças e os jovens, livres, principalmente, para escolherem o melhor caminho em relação à língua materna.

O registro dos textos em questão deve ser do tipo “coloquial elaborado”, o tom da conversa natural e relaxada, mas capaz de altos vôos de inventiva idiomática. O autor/escritor com lastro optará pelo tratamento adequado nesta ou naquela situação, articulando harmoniosamente os fenômenos lingüísticos fornecidos pela língua. Sua intuição lingüística e natural pendor artístico dirigirão o texto para a (re)criação lingüística, para um maior rigor gramatical, ambas as tendências ou ainda qualquer outra solução. A dose certa, o "know how" é da competência de quem escreve.

Tal elaboração mencionada não se concretiza por meio de idéias mirabolantes, vocabulário erudito ou construções preciosas; consegue-se quando o texto é produzido com gênio peculiar, embasado numa postura lingüística que lhe permita buscar expressões próprias com a noção exata dos seus limites.

Torna-se irrelevante a intencionalidade. O fato inquestionável é que pertence à consciência lingüística do escritor. Através de um prisma particular, utiliza-se das regras, das normas nas quais a língua repousa, criando, não no sentido de inovar por inovar, sacrificando, às vezes, uma estrutura equilibrada e eficiente. Regem-no o bom senso para revitalizar quando for possível — e necessário — posturas lingüísticas desgastadas, apoiando-se na qualidade literária do texto.

A gramática de uma língua concretiza-se funcional e esteticamente através de textos com tendências e tipos os mais diversos em se tratando de linguagem. A qualidade e a excelência do material lingüístico não passa pelo critério só do popular, do erudito, do fácil, do difícil, do inovador ou do tradicional. Podemos — e devemos — ser vários em um.

No momento em que se lê com deleite, num exercício de pura fruição, conjugando-se a história ao modo de contá-la, consegue-se algo que talvez parecesse impossível: transformar a Língua Portuguesa – na percepção de tantos enfadonha, difícil e pouco digerível nas suas regras e limites – em instrumento de imenso prazer e enriquecimento interior.

Na Literatura Brasileira contemporânea existem várias obras que resgatam essa língua materna ainda tão estigmatizada, mostrando-a em toda sua pujança e beleza.