A descrição do gênero gramatical
do substantivo NA LÍNGUA PORTUGUESA

José Pereira da Silva (UERJ)

BOTELHO, José Mário. O gênero imanente do substantivo no português. Rio de Janeiro: JMBotelho, 2004, 90 p.

Com um pequeno atraso, saiu, enfim um importante trabalho para aprimorar os argumentos relativos à polêmica questão da expressão do gênero nos substantivos, não somente do português, mas de grande número de línguas ocidentais de cultura.

Trata-se de nova versão da dissertação de mestrado apresentada pelo autor na PUC-Rio, em 1996, com a proposta de negar a “flexão” de gênero dos substantivos, aceita e consagrada pela tradição gramatical sem qualquer contestação fundamentada, até então.

É natural que o fato, já percebido por alguns gramáticos e lingüistas, apareça nas entrelinhas de trabalhos como alguns publicados por Antônio J. Sandmann, José Gonçalo Herculano de Carvalho e Joaquim Mattoso Câmara Jr., entre outros.

José Mário defende a idéia de que a expressão do gênero nos substantivos da língua portuguesa não deve nem pode ser descrita como flexão, apresentando com sucesso argumentos suficientes para fazer refletir os lingüistas, gramáticos e demais estudiosos.

Hoje, lembra-nos Botelho:

Muitos outros estudiosos de defendem a idéia de que a formação do gênero feminino dos substantivos não se dá por meio de flexão, como é o caso do eminente gramático e lingüista Evanildo Bechara, o qual na trigésima sétima edição de sua Moderna gramática portuguesa, privilegiou o tema e reformulando a descrição das edições anteriores, apresenta uma descrição convincente, acerca do assunto. (1ª orelha).

Apesar de ser um trabalho pioneiro neste particular, como dissertação de mestrado e como livro, o professor José Mário só tem a aparência de inovador nesta sua proposta agora apresentada ao público para aplicação ao ensino gramatical do português no que se refere à descrição do gênero nos substantivos. E é ele mesmo que assim apresenta sua proposta:

Aparentemente inovadora, por razões óbvias: qualquer estudioso, e até mesmo uma pessoa [não especializada] interessada nos assuntos acerca de gramática, vem percebendo desde muito tempo que o tratamento dado à questão do gênero é, no mínimo, insatisfatória.

Em verdade, a incoerência da descrição encontrada em nossos compêndios gramaticais é do conhecimento de muitos pesquisadores e há muito. A prova disso pode ser encontrada na última edição da Moderna gramática portuguesa, de E. Bechara, que, aliás, até então, é o único gramático a se posicionar sobre o assunto, e nos Fundamentos de gramática do português, de J. C. de Azeredo.

Logo, inovador é o registro de tal descrição, a partir do qual a formação do feminino dos nomes substantivos é vista como um processo de formação de palavras (derivacional), na maioria dos casos, uma estruturação sintática, em muitos, [e] em relacionamentos de natureza sexual através de pares heterônimos, em outros. (4ª capa)

No seu livro de poesias, Sem resposta (o prelo), encontramos os seguintes versos, que bem retratam sua preocupação ao se lançar em polêmica tão desatinada, que já o incluiu na lista dos conferencistas convidados pelas comunidades acadêmicas mais questionadoras (no dia 16 de abril debate o tema na UERJ/FFP, no dia 2 de maio debate o assunto na UNIVERSO etc.):

Pior do que julgar certo

O que se diz infundado

É considerar errado

O que alguém diz com ciência,

Embora soe estranho.

E depois, a insensatez,

Causa menos mal que a estupidez.

(BOTELHO, 2005b: 23)

O autor lembra, na apresentação de seu livro, que se tem a impressão de que o assunto “variação de gênero dos substantivos” é de consenso geral, apresentado com uma uniformidade admirável em todos os manuais de ensino de língua portuguesa, nas gramáticas pedagógicas e nas gramáticas tradicionais e normativas, sem exceção.

Bastará que se reflita sobre os conceitos de flexão e derivação, assim como sufixo flexional e sufixo derivacional, para se perceber que não seria lógico tratar-se de flexão o fato gramatical que atinge apenas um em cada trinta substantivos da língua (verificado no dicionário “Aurélio” e no “Houaiss”), por maior que seja a boa vontade do pesquisador honesto.

Levando-se em conta o fato de que é a derivação (e não a flexão) que constitui processo de formação de palavras, fica bastante contestável entender-se que “menina” seja uma flexão de “menino”, que “barraca” seja uma flexão de “barraco”, visto que qualquer pessoa em perfeito estado de consciência sabe que “menina” não é a mesma coisa que “menino”, assim como “barraca” não é a mesma coisa que “barraco”.

Assim como a mudança de gênero em substantivos como “capital”, “cabeça”, “língua”, “rádio” etc. é um processo de formação de palavras (e, portanto, derivação) e assim como os pares de machos e fêmeas como bode/cabra, boi/vaca, homem/mulher etc. não têm qualquer relação gramatical entre si, sendo elementos lexicais independentes, fica claro também (para quem pensa com a própria mente e não só com as informações colhidas nos livros) que vale a pena refletir melhor sobre a questão da expressão do gênero para todos os demais substantivos.

E conclui assim, o Autor, a sua apresentação (p. 9):

Os dados da língua mostram que a formação de uma palavra para o gênero feminino a partir de uma forma-base e uma marca de gênero não constitui um processo sistemático e obrigatório para todos os substantivos portugueses.

Acreditando na IMANÊNCIA do gênero desta classe de palavras e buscando respaldo nos trabalhos de Câmara Jr., Basílio, Herculano de Carvalho, Matthews e outros, e principalmente na afirmação feita por Sandmann de que “O morfema que indica gênero nos substantivos (...) é um traço lexical, é um sufixo. Já nos adjetivos o morfema de gênero é uma flexão (...) (SANDMANN, 1991: 41), desenvolvemos este trabalho (...) com a intenção de negar o caráter flexional do gênero dos substantivos e oferecer subsídios para reflexões e formulação de novas hipóteses.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SANDMANN, Antônio J. Morfologia geral. São Paulo: Contexto, 1991.

BOTELHO, José Mário. Sem resposta (Poesias). Rio de Janeiro: Botelho, 2005.