A GRAMÁTICA DO POBRE
Salatiel Ferreira Rodrigues
1. INTRODUÇÃO
Quem escreve e quem fala - continua o autor do excerto em epígrafe - "tem à sua disposição, para traduzir exatamente o pensamento, séries de palavras ligadas por um sentido comum, que acodem ao espírito, para as necessidades de expressão. Quando se evoca uma delas, sucede geralmente como quando se colhem cerejas: vêm as outras atrás".1 São palavras ou modos de dizer, muitas das vezes equivalentes, possíveis de serem considerados sinônimos, ou apenas ligados entre si por uma noção comum que os põe na mesma competência semântica.
Verifica-se aí a extraordinária versatilidade da língua no exercício da comunicação, como é realizado na prática. Com efeito, a arte de bem comunicar-se reside essencialmente na escolha da expressão adequada para veicular as idéias e os sentimentos conforme o lugar, o momento e as circunstâncias.
O segredo da economia da língua situa-se , em grande parte, na seleção e uso que se faz do material lingüístico que melhor se ajusta àquilo que se quer exprimir.
As condições em que a fala se produz tem viva influência sobre a forma que ela toma para atender às necessidades do momento.
O político, por exemplo, quando discursa na Câmara, não usa as mesmas palavras que usaria ao conversar com o homem do açougue. Um executivo, falando com amigos no bar, não tem o mesmo discurso com que se comunica com o diretor da empresa. Ocorre que certas palavras e expressões são em princípio sinônimas, mas algumas formas são preferidas nos meios cultos, outras nos meios populares e com o tempo, cada qual em sua área de ação, vão se distanciando e adquirindo autonomia e direito de cidade. "Enfim, são termos usados em circunstâncias diferentes e basta este fato para os tornar desiguais".2
Esta diferenciação circunstancial é de hábito determinada pelos diversos meios sociais.
“Para prova disso, dá-se geralmente este exemplo: o dinheiro recebido em troca da prestação de serviços tem variadíssimas designações, conforme a escala social da pessoa que o recebe: honorários , ordenado , mensalidade , soldo , pré , salário , féria , etc. Seria extremamente reparável e incorreto dizer-se: 1) "O major recebeu o pré"; 2) "O salário do ministro é grande". É que as palavras evocam os meios sociais em que são geralmente empregadas, e não se pode confundir o seu uso sem nos expormos a graves mal-entendidos. O termo pré lembra logo o ambiente militar dos soldados e sargentos , salário sugere uma classe especial: a dos pequenos serviçais. Isto é, as palavras, os sinônimos, são um espelho da sociedade: também se dividem em classes. No campo diz-se: comer uma tigela de CALDO; na cidade: comer um prato de SOPA. vem a dar na mesma; mas o caldo sugere o campônio, a sopa é própria do homem da cidade.”3
Circunstancial é também a variação que se verifica entre a linguagem literária e a linguagem corrente. Ninguém relata um livro que leu usando as mesmas palavras e a mesma sintaxe do texto lido. O falante descontraído tem a seu dispor a flexibilidade da língua, a expressividade da metáfora, a dramaticidade, a liberdade de uso da gíria e do chulo, o abuso das lexias, dos lugares -comuns e dos jargões.
No galpão da oficina, sob o telhado da olaria, no campinho de pelada do subúrbio, onde se ajuntam pessoas do mesmo sexo, quase sempre gente simples, os termos obscenos, escatológicos e vulgares são em geral de grande economia.
Seria mesmo de estranhar que os peões que empurram o carrinho de concreto, os feirantes, os estivadores se entendessem através de termos elegantes e de uma sintaxe rebuscada. Isto porque a aquisição de um plano cuidado de expressão está em proporção direta com uma série de fatores entre os quais se alinham a escolaridade, o conhecimento acumulado, a convivência com os livros e o meio em que se vive. Associando-se de um lado a classe privilegiada com a sua escola, os meios de comunicação, os órgãos de informação que a assistem, a intimidade com a leitura e um padrão social melhorado, e , de outro lado, a massa trabalhadora, o habitante do bairro pobre e o passageiro do trem - cada divisão com a sua linguagem peculiar - pode-se dizer que o poder aquisitivo serve de marco divisor entre os dois modelos e, em conseqüência, o pobre tem a sua gramática, plena de características originais.
Para atenuar a dureza de certas expressões que lembram imagens agressivas ou desagradáveis o eufemismo é a solução. E ainda aqui grita alto o sentimento das conveniências sociais. Se é um homem de posição quem deixa de existir, o dicionário não lhe nega o verbo para suavizar a brutalidade do transe: falecer , expirar , perecer , acabar , fechar os olhos , fazer a passagem , passar-se , entregar a alma a Deus ; mas se o finado é de poucos haveres, a língua não lhe falta , igualmente, com o termo ríspido e às vezes jocoso: abotoar , apagar , defuntar , empacotar , espichar , bater as botas , comer capim pela raiz , cantar para subir , desinfetar o beco , e muitos outros da mesma natureza. Rodrigues Lapa atentou para este "efeito por evocação" das palavras e exemplifica-o com estas quatro frases : a) O pobre homem morreu cheio de sofrimento; b) Às dez horas, o mariola esticava o pernil; c) O estadista expirou com o pensamento no seu país; d) Faleceu ontem o Sr. José dos Santos Abreu".4
Percebe-se que ,em cada frase , o verbo evoca a posição social, o prestígio, de cada personagem. "O pobre homem" é daquele tipo sobre quem o vulgo afirma que "não cheira nem fede"; "O estadista" certamente ficará na história, porquanto "expirar" aparece-nos como um vocábulo literário, só usado nos livros"5; "O Sr. José dos Santos Abreu" foi reverenciado na forma eufemística "faleceu"; mas não se tem dúvida de que a expressão "esticar o pernil" relaciona o "mariola" com as esferas baixas da sociedade.
A palavra evoca a classe social por afinidade. Não precisa necessariamente estar na boca da gente humilde para ser língua do pobre. Pode ser de uso da classe abonada, mas continuará pobre se ao pobre se refere. Na segunda frase do exemplo de Rodrigues Lapa, "esticar o pernil" aponta para um lado pobre (seja de dinheiro, seja de moral), mas quem pronunciou aquela sentença não era pobre, já que usou também um "mariola"; se o fosse, teria dito sem-vergonha , patife , bunda-mole ou bundão .
Machado de Assis, já em 1873, reconhecia, em artigo publicado, que o povo tem uma maneira própria de se expressar e que este modelo popular merece atenção e respeito , uma vez que reflete o modo de ser da sociedade que lhe é contemporânea
“Não há dúvida que as línguas se aumentam e alteram com o tempo e as necessidades dos usos e costumes. Querer que a nossa pare no século de quinhentos é um erro igual ao de afirmar que a sua transplantação para a América não lhe inseriu riquezas novas. A este respeito a influência do povo é decisiva. Há , portanto, certos modos de dizer, locuções novas, que de força entram no domínio do estilo e ganham direito de cidade.”6
Justifica-se assim o gosto declaradamente assumido por esses "modos de dizer" e pelas "locuções novas" surgidas "por influência do povo " que Machado sempre procurou documentar ao longo de toda a sua obra.
Não se pretende aqui defender, em hipótese alguma, que a gramática do pobre seja a do homem carente, de nenhuma ou quase nenhuma instrução. Quer-se entendê-la como a variante do povo nas ruas , nas fábricas, nos bares, nos trens, descontraída, em face de uma gramática formal que está nos jornais de elite, nas revistas, nas diversas situações em que não se pode dispensar uma linguagem cuidada. Pobre aqui está associado com povo, com popular, com coloquial, distenso, próprio das massas, do uso corrente da linguagem. Rico , a sua contrapartida, representa o uso cuidado da língua, a palavra escolhida, a expressão trabalhada, a preocupação com a forma e com a elegância do material fônico.
Muitas vezes é a freqüência do uso que leva o falante a optar, mesmo inconscientemente, por esse ou aquele padrão verbal. O rico sente-se atingido diante de palavras ou expressões que não estão de acordo com as de seu uso, especialmente quando essas ferem o seu recato ou desagradam o seu gosto fonético. O pobre recebe como incômodas e pedantes as chamadas palavras bonitas ou palavras difíceis com que poucas vezes se deparam. A linguagem reflete o ambiente social em que um e outro se colocam. A presença de um termo em território que não lhe é próprio pode soar como fato estranho e desagradável. Isso, contudo, não impede que um mesmo falante use com regularidade os dois modelos de língua: seja rico nas situações tensas e pobre na descontração.
2 - O MODO DE DIZER DO POBRE
O rico é inconveniente, incômodo, cansativo
O pobre é chato, enchedor de saco, pentelho
Ricos trocam afagos
Pobres trocam amassos
O rico provoca uma desordem
O pobre faz uma bagunça
O rico agita o leque
O pobre sacode o abano
O rico lança por terra
O pobre joga no chão
O rico dá um desconto
O pobre tira uns trocados
O rico está deprimido
O pobre está capiongo
O rico está desalentado
O pobre está de crista caída
O rico fica deprimido
O pobre cai na fossa
Segredo de rico está oculto, abscôndito
Segredo de pobre está debaixo dos panos
Refeição de rico é comida
Refeição de pobre é gororoba
O rico tem cognome, pseudônimo
O pobre tem apelido, nome de guerra
O rico se rende
O pobre baixa a crista
O rico é delator
O pobre é dedo-duro
O rico vem em pessoa
O pobre vem em carne e osso
O rico supera a crise
O pobre sai do sufoco
O rico sai discretamente
O pobre sai de fininho
O rico arrisca
O pobre faz uma fezinha
O rico penhora a jóia
O pobre bota a jóia no prego
O rico está debilitado em extremo
O pobre não agüenta uma gata pelo rabo
O rico se altera
O pobre fica puto
O rico investe com denodo
O pobre bota para quebrar
O rico tem suas economias
O pobre tem seu pé-de-meia
O rico é muito trabalhador
O pobre é pé-de-boi
O rico é polivalente
O pobre é pau para toda obra
O rico abandona os negócios
O pobre chuta os negócios para o alto
O rico fica ancilosado
O pobre fica encaranguejado
Plano de rico falha, malogra
Plano de pobre vai para a cucuia, para o beleléu
O rico está inquieto
O pobre está com o diabo no couro
O rico é extravagante
O pobre é acavalado
O rico une-se em matrimônio
O pobre junta os trapos
O rico é acéfalo
O pobre é burro
O rico assume a defesa
O pobre compra a briga
O rico fica melancólico
O pobre fica jururu
O rico ataca
O pobre cai em cima
O rico fica retraído
O pobre fica encorujado
O rico é acriançado
O pobre é bocó
O rico é esquivo
O pobre é bicho-do-mato
O rico se enfurece
O pobre vira bicho
O rico dispensa
O pobre deixa para lá
O rico tolera, admite
O pobre deixa passar, deixa correr
O rico faz exclusão
O pobre deixa de fora
O rico dissimula
O pobre faz vista grossa
O rico faz ameaça
O pobre mostra os dentes
O rico volta depauperado
O pobre volta com a língua de fora
O rico deplora
O pobre abre o berreiro
O rico fica sem dinheiro
O pobre fica depenado
O rico está financeiramente liquidado
O pobre está pelado, está na dependura
O rico fica despido
O pobre fica pelado
O rico muda de repente
O pobre muda do dia para a noite
O rico foge num instante
O pobre foge enquanto o diabo esfrega um olho
O rico conversa, dialoga
O pobre bate papo, leva um lero
O rico tem um desentendimento
O pobre tem um arranca -rabo, arranca -toco
O rico elimina a testemunha
O pobre queima o arquivo
O rico toma um drinque
O pobre toma uma truaca
Descanso de rico é repouso
Descanso de pobre é deforete
O rico é granfino, vaidoso
O pobre é metido a sebo, metido a besta
O rico é descontraído
O pobre é sebite
Pele de rico tem oleosidade
Pele de pobre tem sebo
Braço de rico tem axila
Braço de pobre tem sovaco
Suor de rico é transpiração
suor de pobre é sovaqueira
O rico ganha uma insignificância
O pobre ganha uma merreca
O rico fica indeciso
O pobre fica abestado
O rico trabalha
O pobre dá duro
Caldo de rico é consomê
Caldo de pobre é canja
O rico vacila
O pobre dá bobeira
O rico está inspirado
O pobre está com a cachorra
O rico é autista, esquizofrênico
O pobre é doido, pirado, abilolado
O rico é abstêmio
O pobre é careta
O rico é conservador
O pobre é quadrado
Bens antigos de rico são antigüidades
Bens antigos de pobre são velharias
Descuido de rico é abstração
Descuido de pobre é bobeira
O rico é loquaz
O pobre é falador
Rico que não paga é inadimplente
Pobre que não paga é mal-pagador
O rico é impotente
O pobre é brocha
O rico põe os olhos
O pobre mete as botucas
O rico está desmotivado
O pobre está sem tesão
O rico está obstinado
O pobre é cabeça-dura
O rico sonha, fantasia, faz castelos
O pobre viaja na maionese, delira no ki-suco
O rico amola
O pobre enche o saco
O rico bajula
O pobre puxa o saco
O rico é inconveniente
O pobre dá no saco, pentelha
O rico fica aborrecido
O pobre fica de saco cheio
O rico é vilão
O pobre é 171
O rico anima excita
O pobre bota pilha
O rico é deficiente físico
O pobre é aleijado
O rico é deficiente visual
O pobre é cegueta
O rico é deficiente mental
O pobre é biruta
O rico tem rosto largo
O pobre tem cara de bolacha
O rico estimula os ânimos
O pobre bota lenha na fogueira
O rico confessa
O pobre solta a língua
O rico não diz o que pensa, o que sabe
O pobre fica na moita
O rico faz esgares
O pobre faz mogangas
O rico trai a mulher
O pobre bota chifre
O rico é traído
O pobre é chifrado
O rico faz um superesforço
O pobre corta um dobrado
O rico fala demais
O pobre fala pelos cotovelos
O rico tem rugas
O pobre tem pregas
O rico é contumaz
O pobre é cabeçudo
O rico é jactancioso
O pobre é papo-furado
O rico fica lívido, pálido
O pobre perde a cor
O rico fica ruborizado
O pobre muda de cor
Sobra de rico é resíduo
Sobra de pobre é resto
O rico está em situação relevante
O pobre está na crista da onda
O rico está suspeitando de alguma coisa
O pobre está com a pulga atrás da orelha
O rico acelera
O pobre pisa fundo
O rico desorganiza-se
O pobre desgringola
O rico se deixa envolver
O pobre vai no arrastão, vai na onda
O rico faz grande sucesso
O pobre arrebenta a boca do balão
O rico pede arrego
O pobre pede o penico
O rico tenta aproximação amorosa
O pobre paquera, arrasta a asa
O rico enfeza-se
O pobre sai vendendo azeite
O rico é preparado
O pobre é cabeça feita
O rico deixa a casa desarrumada
O pobre deixa a casa de pernas para o alto
O rico é mal-acabado
O pobre é feito nas coxas
O rico fica violento, colérico
O pobre fica uma fera, uma arara
O rico dá um impulso
O pobre dá um adianto
O rico é avarento
O pobre é unha-de-fome
O rico diligencia
O pobre anda, vira, mexe
O rico é pouco inteligente
O pobre é uma anta, uma mula, um camelo
3- CONCLUSÃO
Como se vê, esta pesquisa procura mostrar que a língua dispõe ao mesmo tempo de duas possibilidades de expressão que se substituem: uma para servir à forma, outra a serviço do plano expressional do falante. A comunicação poderia perfeitamente se fazer como dependente apenas de uma dessas duas modalidades lingüísticas, se a realidade da língua escrita não fosse outra na fala; se a forma tensa não fosse diferente da distensa; se o formal não estivesse longe do coloquial.
A palavra, como instrumento de uso social, recebe de acordo com a classe em meio à qual é utilizada, uma gradação que vai da noção técnica, científica ou literária até as mais baixas expressões chulas ou da gíria popular . Muitas das expressões populares arroladas neste trabalho estão classificadas nos dicionários como chulo ou gíria . Partindo-se de que o verbete chulo tem no Aurélio a definição de "usado pela ralé", e que esta é compreendida como "a camada mais baixa da sociedade", há forte razão para se relacionar linguagem popular com pobreza e com descuido, descaso, desinformação. Mas pobreza não é aqui entendida apenas como reduzida competência financeira, mas também como ausência de recomendáveis atributos morais. Se bem que o poder aquisitivo e a posição social têm atuação decisiva na seleção do material vocabular.
“A um homem da plebe que comete um furto, as gazetas não hesitam em explorar ao ladrão , ao gatuno , o roubo que praticou; mas se um homem da alta sociedade cometeu o mesmo crime, então os redatores adoçam servilmente a frase e escrevem: desvio de fundos , fraude , alcance , etc. O povo observou perfeitamente esta injustiça e fez sobre ela um provérbio admirável: "Quem rouba um pão é ladrão ; quem rouba um milhão é barão.”7
O falante culto é quase sempre nobre de coração e praticante das boas maneiras. Evita tanto quanto possível encolerizar-se e ferir sentimentos alheios. Esta fineza no trato se reflete no modo de falar. Eça de Queiroz valorizou estas formas delicadas de expressão, tanto que as incorporou no conselheiro Acácio, caricata personagem de O primo Basílio , de quem diz o autor: "nunca usava palavras triviais; não dizia vomitar , fazia um gesto indicativo e empregava restituir".8
O homem do povo não tem qualquer reserva quanto à sensibilidade dos outros no ponto em que a linguagem possa intermediar. Sua preocupação é ser franco, direto, objetivo. Como ele próprio diz, "não tem papas na língua" e "lasca".
Procura evitar as proparoxítonas e palavras de origem erudita e tem uma preferência especial pelas locuções, metáforas, comparações e modos de dizer próprios da linguagem comum no dia-a-dia das massas falantes. Ele emprega manducar em lugar de comer , mutreta por estratagema , mané por desfibrado , cricri por tedioso , cu-de-boi por confusão , tomar o freio nos dentes por soltar-se e assim por diante.
Essa diversificação lingüística já existia em latim, onde era levada a rigor. O latim clássico , a língua escrita, configurada na obra dos escritores latinos, "caracterizava-se pelo apuro do vocabulário, pela correção gramatical, pela elegância do estilo, numa palavra, por aquilo que Cícero chamava, com propriedade, a urbanitas ".9 Era uma língua artificial, inflexível, imota, que não refletia a vida vibrante e dinâmica do povo romano.
"A literatura latina era uma espécie de círculo fechado às manifestações da vida popular. Os escritores punham sempre grande empenho em evitar o emprego de palavras ou expressões da plebe".10Ao mesmo tempo havia o latim vulgar , "falado pelas classes inferiores da sociedade romana"11 inicialmente e depois de todo o Império Romano.
"Nestas classes estava compreendida a imensa multidão das pessoas incultas que eram de todo indiferentes às criações do espírito, que não tinham preocupações artísticas ou literárias, que encaravam a vida pelo lado prático, objetivamente".12
“Representava esse latim, pois, a soma de todos os falares das camadas sociais mais humildes. Era uma espécie de denominador comum, que se sobrepunha às gírias das várias profissões como um instrumento familiar de comunicação diária.”13
Logo o latim vulgar , a que Serafim da Silva Neto achou melhor chamar de latim corrente ou latim coloquial 14 foi o latim do povo, a língua que corria na boca das massas de falantes do grande Império. Não é possível supor que a urbanitas de Cícero, em contato com o latim corrente , não tenha recebido deste alguma contribuição, como também não se pode negar que a língua do povo contivesse elementos pertencentes à língua culta.
A situação continua no português. Quem escreve acredita estar escrevendo a boa língua, logo depurada de todos os vícios e vulgaridades que andam na boca do povo. Com isto, entre um e outro modo de dizer, separando-os, se instala um abismo.
A Gramática do pobre quer mostrar essa diferença. Não tem de a pretensão de ser exaustiva, mas a de destacar, com grande número de exemplos, que a língua é uma em situação formal e é outra no uso descomprometido do falar corrente.
4. RECAPITULAÇÕES SUMÁRIAS
4.1 Resumo
Já os falantes do grande Império Romano tinham a seu dispor dois destacados modelos de expressão. Não eram duas línguas diferentes mas dois aspectos da mesma língua. No entanto, entre um e outro havia profundas diferenças. O latim clássico era a língua dos escritores e dos oradores. Distinguia-se pelo vocabulário apurado, pela correção gramatical e pelo estilo elegante. O latim vulgar ou corrente era a língua dos soldados e das camadas sociais mais humildes. Era falado pela imensa multidão das pessoas incultas, de todo indiferentes às criações artísticas ou literárias. Os escritores empenhavam-se em evitar o emprego de palavras ou expressões da plebe. A situação continua no português. Quem escreve acredita estar escrevendo a boa língua, logo depurada dos vícios e vulgaridades que andam na boca do povo. A Gramática do pobre quer mostrar essa diferença. Não tem a pretensão de ser exaustiva, mas a de destacar, com grande número de exemplos, que a língua apresenta um aspecto em situação formal e outro no uso descomprometido do falar corrente.
4.2 Abstract
The speakers of the Great Roman Empire had already two outstanding models of expression at their disposal. They were not two different languages, but two aspects of the same language. Therefore there were marked differences between them. Classical Latim was the language of writers and orators. It distinguished itself by an accurate vocabulary, by grammatical correction and by an elegant style. Vulgar or Current Latim was the language of the soldiers and of the lower social stratum. It was spoken by the immense multitude of illiterate people, wholy indifferent to literacy and artistic creation. The writers used to strive to avoid the use of words or expressions of the populace. The same situation continues in Portuguese. Whoever writes believes that he or she is writing the good language, therefore, purified of the vices and vulgarities which are on everybody`s langue. The Grammar of the poor aims at showing this difference. It has no pretension to being exhaustive, but to emphasize , by providing a great number of examples, that presentes an aspect in formal situation and another one in the relaxed use of current speaking.
5. BIBLIOGRAFIA
ALMEIDA, Horácio de. Dicionário popular paraibano . João Pessoa: Editora Universitária - UFPB, 1979. 179 p.
ASSIS, Machado de . Obra completa . Rio de Janeiro: Aguilar, III, 1959. p. 822
COUTINHO, Ismael de Lima . Gramática histórica . 7. ed. Rio de Janeiro: Ao Livro técnico, 1976. 357 p.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa. 2.ed. revista e aumentada. 31. impressão. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. 1838 p.
JUCÁ (filho), Cândido. Dicionário escolar das dificuldades da língua portuguesa. 5.ed. Rio de Janeiro: Ministério da Educação/FAE, 1986. 804 p.
LAPA, M. Rodrigues. Estilística da língua portuguesa. 9. ed. revista e aumentada. Coimbra: Coimbra Editora, 1977. 302 p.
QUEIRÓS, Eça de . O primo Basílio . S. Paulo: Formar, s/d. 248 p.
SILVA NETO, Serafim da. Fontes do latim vulgar , O Appendix Probi, 3.ed. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1956.
6. NOTAS
i. LAPA, M. Rodrigues, (1977), p.22.
ii.Op. cit., p.24.
iii. Op. cit., p.26-27.
iv.Op. cit., p.37.
v. Id. ibidem.
vi. ASSIS, Machado de, (1959), p.822.
vii. LAPA, M. Rodrigues, (1977), p.27.
viii. QUEIRÓS, Eça de, (s/d), p. 24.
ix. COUTINHO, Ismael de Lima, (1976) , p.29.
x.Op. cit., p.31.
xi. Op. cit., p.30.
xii. Id. ibidem.
xiii. Id. ibidem.
xiv. SILVA NETO, Serafim da, (1956), p.27.