O ENSINO DA FILOLOGIA: REFLEXÕES

Cristina Alves de Brito

1. INTRODUÇÃO

Estas reflexões não são frutos em abstrato, elas resultam de pesquisa de campo realizada entre 1990 e 1993, envolvendo um universo de 33 instituições, tendo, portanto, envergadura bastante ponderável.

Ao longo de sua história, a Filologia sofreu uma evolução causada pelas próprias necessidades que iam surgindo e pelas descobertas que iam ocorrendo; mas, como ponto comum, sempre apresentou como característica fundamental a pesquisa da língua com objetivos diversos: ora no sentido de estabelecer regras gramaticais, ora buscando comentar obras, ora estabelecendo glossários quando tratavam de significado, ora elaborando descrições de estados da língua, isto é, abrangendo da perspectiva histórica da língua até os assuntos puramente sincrônicos - descrição de estados da língua.

A Filologia sempre apresentou uma preocupação única - o estudo aprofundado da linguagem: do valor primitivo dos vocábulos, da fonologia, da morfologia, dos dialetos diversos, além da evolução da própria linguagem. Para explicação da língua presente nos textos houve a necessidade de tantos outros estudos lingüísticos, históricos,  para que pudesse estabelecê-la, com o objetivo de demonstrar da forma mais precisa o produto final de seu trabalho: textos inteligíveis, glossários, levantamentos de pontos da língua característicos de uma dada região.

Tais levantamentos não são feitos com base em teorias, mas a partir de observações, estudos e constatações. Talvez aí esteja o seu grande problema - estar relegada ao abandono - não partir de teorias em suas pesquisas, pois de acordo com a colocação de Mata Machado, quando afirma que o trabalho filológico não se apóia em pomposas considerações subjetivas. Outrossim, firma-se de modo pertinaz nos dados recolhidos em estudos acertadamente interpretados.

2. DESENVOLVIMENTO

2.1. A FILOLOGIA NO ENSINO SUPERIOR

A Filologia não estacionou. Ela vem evoluindo, como é particular a qualquer ciência, adquirindo novas roupagens. Estudos mais recentes ratificam a idéia de que a Filologia lança mão de um conjunto de meios para atingir o sentido da palavra escrita ou falada.

A Escola Francesa defende a idéia de que o estudo deve restringir-se à parte impressa do discurso, já a Escola Americana entende a análise do discurso, segundo Maingueneau, como a disciplina que tem como objeto de estudo a conversação regular.

A divergência continua, agora com nova roupagem. Presenciamos escolas tratando do mesmo tema - o discurso - porém priorizando pontos diversos em suas análises.  Já Serafim da Silva Neto e Anthony J. Naro também entendiam essas duas linhas como pertinentes à Filologia.

Não é de agora que o estudo de Filologia apresenta problemas no que se refere a seu ensino, a forma que deve assumir, o que deve ser oferecido ao aluno para que tenha livre trânsito em uma área tão vasta em trabalhos. Outro fator importante no ensino é a oportunidade dos alunos realizarem trabalhos práticos para que tenham um maior contato com a área.

Na visão de M. Paiva Boleo, o ensino superior negar-se-ia, caso pusesse o estudante o tempo todo, diante somente da ciência pronta, no lugar de encaminhá-lo para uma ciência a fazer.

Albino Bem Beiga também afirma que há necessidade de que sejam feitos estudos e pesquisas fora dos quadros de rotina pelos alunos.

Os diversos conceitos de Filologia reclamam variados conhecimentos para o seu exercício; buscou-se nos programas desenvolvidos pelas diversas Instituições do país, entre 1990 e 1993, o que vinha sendo ministrado na cadeira de Filologia nas diferentes Faculdades públicas e particulares do país.

Centralizou-se a atenção no que as diversas Faculdades desenvolviam como Filologia. E a partir do levantamento, constatou-se como estão sendo preparados os filólogos. É momento de lembrar-se das palavras de Gladstone C. de Melo, quando afirma que não se improvisa um filólogo, ele deve ser formado.

O levantamento feito demonstrou que a denominação da disciplina na maioria dos cursos permanece com o rótulo de Filologia; destaquem-se outras que a nomeiam de Lingüística Românica, Lingüística Histórica do Português, Gramática Histórica, História da Língua Portuguesa. Porém há Faculdades que não apresentam o curso ou o modificam, de forma que muito dos conteúdos de Filologia são ministrados de forma geral dentro de outras disciplinas: Língua Portuguesa ou Gramática Histórica. Entre as diversas razões apresentadas para a ausência da disciplina temos:

a) o fato de o curso não requerer conhecimentos de outra língua latina moderna, a ausência de tal base torna difícil demonstrar, através de textos, a evolução destas línguas;

b) os conteúdos de Filologia são desenvolvidos na disciplina de Língua Portuguesa V;

c) até 1978 a disciplina era obrigatória, hoje - abril de 1990 - aparece no Curso de Pós-Graduação sob a denominação de “Crítica Externa e Interna da Língua Portuguesa”, sendo recomendada ao graduando;

d) ou simplesmente não apresenta a disciplina em seu currículo.

2.2. GRADUAÇÃO - O QUE PREDOMINA EM SEU ENSINO

 

No ensino superior, a abordagem da Filologia verificada nos programas, é realizada pela maioria das Instituições sob um dos aspectos que abrange a disciplina.

Assim no que se refere às Línguas Românicas, o estudo desenvolve-se predominantemente no sentido do aspecto histórico, da romanização e da fragmentação ocorrida; o mesmo acontece com a Língua Latina onde alguns aspectos são abordados pela grande maioria e um reduzido número não faz qualquer referência ao assunto; na parte de Filologia, a grande maioria trata de alguns aspectos, um pequeno número não aborda o tema.

Semelhante é a situação de Língua Portuguesa, onde 50% das faculdades consultadas não tratam do assunto, as demais referem-se a sua história, mencionando a sua situação dentro das Línguas Românicas em geral.

Ressalte-se aqui que os programas enviados são os de Filologia, assim não se descarta a possibilidade de ser tratada mais profundamente na cadeira de Língua Portuguesa.

Finalmente, entendido como parte prática e conceituação, 45% não fazem qualquer referência ao assunto e as demais tocam em um ou outro aspecto; esta é a parte prática do trabalho filológico; aí, constatou-se que tal tarefa não é motivo de interesse maior nos programas.

A partir dos assuntos mais tratados e mesmo não deixando de considerar os menos abordados,  a disciplina Filologia é trabalhada predominantemente sob aspecto teórico, isto é, as línguas românicas que resultam da fragmentação do latim.

Em sua maioria, nos programas desenvolvidos, pouquíssimos partem para a pesquisa e o trabalho dentro da área filológica. Nesse sentido há que destacar apenas quatro faculdades que para o exercício efetivo do trabalho filológico fornecem não só os meios, mas também uma visão mais concreta do exercício dentro da área de Filologia.

Assim, constata-se um reduzido número de Instituições que desenvolvem algum trabalho, procurando colocar em prática o que tanto M. P. Boleo como A. B. Veiga defendiam como fator caracterizador do curso superior - a prática da ciência.

 

2.3. PÓS-GRADUAÇÃO - A SUA REALIDADE

No curso de pós-graduação também há faculdades que não oferecem o curso por motivos diversos: ora por causa do falecimento do professor titular, ora simplesmente não apresentam a disciplina, e um pequeno número ainda mantém o curso.

Em linhas gerais,  o ensino e a forma como se desenvolvem os programas estanciam-se no setor das informações teóricas sobre as Línguas Românicas, o Latim, a Filologia, a Língua Portuguesa, detendo-se, predominantemente, na parte histórica de cada um. Além das justificativas apresentadas por diversas Faculdades para a ausência do Curso, acrescente-se aqui os programas enviados por dois cursos, apresentam o mesmo conteúdo desenvolvido tanto na graduação como na pós-graduação, o que não quer dizer que a abordagem seja a mesma, mas...

Dessa forma, percebe-se que pouco ou quase nada é desenvolvido no sentido de formar filólogos através da organização de trabalhos práticos na área, embora a nível de pós-graduação nem sempre cabe estabelecer o trabalho que seria desenvolvido pelo aluno.

Sabemos que as informações teóricas são essenciais para os estudos filológicos, porém esbarram em outros problemas, porque para o exercício filológico são necessárias muitas e profundas informações e o que se verifica nitidamente nos programas desenvolvidos é que no geral esse aprofundamento não ocorre na maior parte dos programas das Instituições.

Além disso no depoimento de algumas Faculdades, a ausência da disciplina em seus currículos ou a sua diluição por outras matérias torna-se um fator preocupante na formação de filólogos.

Se não é obrigatório o conhecimento de latim e outras línguas românicas, como se pode esperar que sejam formadas pessoas com habilitação para tal exercício sem que tenham conhecimento de pontos fundamentais?

Em relação à prática filológica, onde se torna imperioso adquirir-se o hábito de observar e de exercitar-se, este aspecto deixa muito a desejar; no universo pesquisado, somente um número reduzido de instituições coloca em prática o papel preconizado de há muito para os Cursos de Letras, o de encaminhar os alunos para estudos e pesquisas fora dos quadros rotineiros.

3. CONCLUSÃO

Todos sabem que para o exercício efetivo da Filologia tem de haver muito treino, exercício, aprender a pesquisar, enfim tem de ser preparado aquele que pretende atuar na área. Para E. Auerbach são ilimitados os conhecimentos que podem ser exigidos de um filólogo, considerando-se as necessidades de cada caso (conhecimentos estéticos, literários, jurídicos, históricos, teológicos, científicos, filosóficos).

Percebe-se de modo geral que pouco ou quase nada é desenvolvido no sentido de formar filólogos através da organização de trabalhos por parte dos alunos. Os programas ministrados abordam os assuntos superficialmente, justificando-se dessa forma a ausência de grandes tarefas práticas para um efetivo exercício da ciência.

Hoje verificamos que as cobranças no que se refere aos conhecimentos reclamados para o exercício da Filologia não são ofertados de forma ampla àqueles que pretendem atuar na área, pois os programas estão bem distantes dos conhecimentos inerentes à Ciência.

O problema não é atual, já vem se arrastando há muito tempo. E. Coseriu numa avaliação do trabalho desenvolvido entre 1940 e 1965 constatou que naquela época o desinteresse pela Filologia já se manifestava plenamente. Verificou, por exemplo, que na Argentina, o ensino de Filologia Românica foi eliminado; no Chile, após a reforma de ensino, a Lingüística Românica não é mais lecionada; no Brasil, eram ministradas as cadeiras de Filologia Românica e Filologia Portuguesa em contrapartida não havia a de Lingüística Geral, fato que parece não ter sofrido mudanças após quase 30 anos, baseando-se nos programas consultados.

Em Montevidéu apresentava uma situação mais favorável, havendo as cadeiras de Lingüística Geral, Indo-Européia e Românica - além da cadeira especial de Ciencias del Lenguaje dedicada ao estudo do espanhol.

Com base nos programas desenvolvidos pelas diversas Instituições e considerando todos os conhecimentos requeridos pela ciência filológica, deparamo-nos com uma grande defasagem entre os conhecimentos reclamados para o seu exercício e os conteúdos dos programas desenvolvidos. O que é ofertado está muito aquém de fornecer os meios adequados para o trabalho filológico, quer como professor, quer como pesquisador.

De modo a dar uma contribuição, deveriam ser os objetivos principais dos Cursos de Filologia em nossas Instituições:

1. O estudo da história externa e interna da Língua Portuguesa;

2. O entendimento do caráter específico da língua literária nos vários momentos históricos, proporcionando condições de abordagem filológica do texto;

3. A compreensão e o aprofundamento da metodologia filológica;

4. O julgamento crítico dos fatos lingüísticos relativos à língua portuguesa e demais línguas românicas;

5. A ampliação da capacidade de observação no tratamento ecdótico de textos de interesse filológico e lingüístico;

6. A capacitação para o estudo comparativo das estruturas das línguas românicas;

7. A aquisição do conhecimento e o desenvolvimento de perspicácia estilística;

8. A percepção da importância e do interesse dos estudos da Romanística para o magistério.

Para alcançar esses objetivos, há necessidade de conhecimentos mínimos, que conduziriam o estudioso de forma segura a melhorar o seu desempenho; também se poderia pensar em dois tipos de currículos: um rígido para a formação de professores; outro flexível, amplo, diversificado, aprofundado, para a formação de pesquisadores, com cursos de extensão, especialização, sugestão apresentada por José Carlos Lisboa no Simpósio de Filologia Românica publicado em 1970.

Aí, quem sabe, não haveria mais comentários como os de Segismundo Spina e muitos outros professores que dizem que os diferentes conhecimentos que levam à edição de textos não poderiam ser desenvolvidos na Graduação, devido ao baixo nível dos alunos, por serem carentes de um conhecimento mínimo de cultura clássica e desconhecimentos da história da língua portuguesa.

Enfim, o que há, é uma dicotomia profunda entre os conhecimentos reclamados e os programas/prática que estão bem distantes dos pré-requisitos para o exercício filológico.

Apesar de o levantamento ter sido feito entre 1990 e 1993, não acredito que tenha, pelos dados de então, melhorado o tratamento dispensado à disciplina, mas tão somente tenha havido um dar de ombros sobre a Filologia, isto é, a diminuição de interesse e da organização da mesma.

Em informação mais recente, na UFRJ, a Filologia hoje permanece como linha de pesquisa e o Curso de Pós-Graduação não é mais ofertado; e na UFF, com a aposentadoria do Professor Maximiano, houve, evidentemente, um enfraquecimento da área.

É importante que não se esqueça de que os temas filológicos não estão esgotados; cada nova época tem sua contribuição a dar sobre os vários temas pertinentes à Filologia.

Há de se ter consciência de que a Filologia ocupa lugar de importância no conjunto dos estudos lingüísticos e devemos, portanto, manter o caminho aberto para que receba o devido destaque.

4. RECAPITULAÇÕES SUMÁRIAS

4.1. RESUMO

O objeto de trabalho da Filologia ao longo de sua história e a dicotomia existente entre a Ciência e os programas ministrados nas diversas Faculdades do país.

4.2. ABSTRACT

The work’s object of Philology throughout its history and the dicotomy between the Science and the subjects that are put into practice in several Brazilian Universities.

5. BIBLIOGRAFIA

AUERBACH, Erich. Introdução aos estudos literários. São Paulo: Cultrix, 1972. 2 ed.

BOLEO, M. da Paiva. Introdução ao estudo filologia portuguesa. Lisboa: Revista de Portugal, 1946, p. 74-75.

LISBOA, José Carlos. Anais do primeiro simpósio de filologia românica. Rio de Janeiro: MEC, 1970, p. 45.

MACHADO Fo,, A. da Mata. Anais do primeiro simpósio de filologia românica.  Rio de Janeiro: MEC, 1970, p. 41.

MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em análise do discurso. Campinas, São Paulo: Pontes, Editora Unicamp, 1989, p. 10.

NARO, Anthony J. (org.). Tendências atuais da lingüística e da filologia no Brasil. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. p. 73.

SPINA, Segismundo. Introdução à edótica (crítica textual). São Paulo: Cultrix, Editora da USP, 1977, p. 13-14.

VEIGA, Albino de Bem. In: AZEVEDO F.O,  Leodegário de A. Estudos filológicos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1967, p. 30.