O PROBLEMA DA LÍNGUA INTERNACIONAL
Alfredo Maceira Rodríguez
1. INTRODUÇÃO
As línguas são criações dos homens para satisfazer suas necessidades de comunicação. Os povos antigos, mesmo os mais primitivos, desenvolveram algum sistema de comunicação oral, de acordo com sua cultura, suas crenças e seu modo de vida. Estes
sistemas de comunicação variavam no âmbito geográfico, particularmente devido a barreiras naturais ou de outra natureza, entre elas as erigidas pelo pró-prio homem, por considerar seu povo culturalmente superior aos povos vizinhos.
A Bíblia relata-nos a tentativa dos homens de ser tão poderosos como Deus, pretendendo construir uma torre que chegasse até o céu. Para pôr fim a sua absurda ambição, o Senhor confundiu-lhes as línguas, colocando por terra eu mirabolante projeto.i
Sem levar em conta a interpretação que se queira dar esta passagem bíblica, o certo é que o termo babel - nome da torre - tornou-se sinônimo de confusão lingüística.
À medida que as civilizações iam evoluindo e se expandindo, mais se acentuava a necessidade de comunicar-se com outros povos, por motivos diversos, predominando os de natureza militar ou comercial. A invenção e utilização da escrita contribuiu com um
grande avanço neste campo, quanto à fixação e preservação de uma dada língua, porém não resolveu a comunicação entre línguas diferentes, principalmente em sua expressão oral.
O aprendizado de outra língua é tarefa penosa e demanda tempo e estudo. Poucos serão os que conseguem adquirir conhecimento ra-zoável de uma língua estrangeira nas modalidades oral e escrita, sem estarem expostos a ela, ou seja, so-mente através de
estudo, apesar dos modernos recursos disponíveis e da longa experiência em ensino de lín-guas desenvolvida e aperfeiçoada nos grandes centros urbanos durante longo tempo.
Vemos que as barreiras lingüísticas já preocupavam o homem da Antigüidade. Seria de esperar que com os assombrosos avanços desde então havidos nas diversas áreas do conhecimento humano, sobretudo nas comunicações, onde o fator tempo deixou de ser
considerado porque em segundos é possível entrar em contato com qualquer região do planeta, o problema da barreira lingüística já pertencesse a um passado longínquo, mas é fácil verificar que ele teima em permanecer cada vez mais atual. Muitas
tentativas foram e continuam sendo feitas para superá-lo, e, embora haja provas concludentes de sua possível e até fácil solução do ponto de vista lingüístico, por diversos motivos, que denotam a complexidade do emaranhado das relações humanas, essa
luta parece que ainda permanecerá por muito tempo.
2. INTERLINGÜíSTICA
Chama-se Interlingüística a rama da Lingüística que estuda as línguas ou projetos de línguas internacionais, também denominadas interlínguas.
As diversas propostas de línguas internacionais para servirem como segunda língua aos demais povos podem agrupar-se grosso modo como segue:
a) as que propõem a simples adoção de uma língua já existente;
b) as que pretendem o emprego de uma língua morta como o latim;
c) as que pugnam por uma língua (viva ou morta), porém simplificada;
d) as que preferem uma língua criada artificialmente com esse ob-jetivo.
Observe-se que somente em casos extremos de anexação de territórios manu militari se tem pretendido em algumas ocasiões, geralmente sem sucesso, proibir o uso da língua dos vencidos. O que se pretende é encontrar uma solução para os contatos entre
pessoas de línguas diferentes.
2.1 INTERLÍNGUAS: PRÓS E CONTRAS
2.1.1 Uma língua existente
Uma língua moderna, apta a expressar as complexidades do mundo atual, com um grande contingente de usuários nativos, além dos aloglotas que já a tenham adquirido, parece a alguns que seria a melhor solução. Bastaria para isso que os demais a
aprendessem como segunda língua. Indica-se por mui-tos o inglês, alegando que, de certa forma, já funciona como língua universal, por ser a mais estudada e empregada no comércio interna-cional, ao menos no Ocidente. Há nisso algo de verdade. É um fator
imposto pela hegemonia econômica dos países anglofalantes, mas é aí que já começam a surgir os aspectos negativos dessa escolha. O que se constata é que o inglês é uma língua muito estudada, porém pouco aprendida. Sua complexidade fonética e
lexical faz com que a maior parte dos que se dedicam a seu estudo obtenham pouco resultado prático. Há bastantes evidências em diversos países de todos continentes que dão testemunho do fracasso do aprendizado do inglês. Poucos são os que conseguem
dominá-lo, mesmo muitos dos que são expostos à língua, como se verifica com diversos imigrantes nos EUA que, embora residindo ali longos anos, permanecem usando suas línguas nativas e mostram-se incapazes de integrar-se na comunidade de fala inglesa.
Não faltou quem propusesse outra língua moderna, como o francês, que já teve um período de certa internacionalidade, quando era considerado a língua da diplomacia. Outros ainda mencionam o espanhol, por ser a língua de mais de 20 países, com
fonética simples e gramática sem grandes complexidades. Algo semelhante poderia dizer-se do italiano, que simplificou a ortografia e, na Itália, funciona, de certa forma, como língua de compromisso, sobrepondo-se ao com-lexo mosaico de línguas (ou
dialetos) peninsulares.
Os argumentos contrários à adoção de uma importante língua moderna residem não só na convicção da dificuldade de seu aprendizado -mesmo que a língua escolhida não seja considerada muito complexa -, mas, principalmente, na suposição da vantagem
que seus nativos te-riam sobre todos os demais. Por estes e outros motivos, esta opção parece que deixou de ser considerada.
2.1.2 Uma língua do passado
Na Grécia antiga, a Coiné funcionou como interlíngua no mundo helênico, adquirindo esse termo o significado de língua geral.
Os romanos levaram o latim a todos os recantos de seu vasto império e foram tão bem sucedidos em sua implantação, que em algumas regiões onde a romanização foi mais intensa, perderam-se totalmente as línguas nativas que eles ali encontraram,
restando apenas alguns vestígios de sua existência no substrato toponímico ou em algum item lexical que sobreviveu no latim ou em alguma das línguas dele derivadas. Mas, mesmo depois da queda do Império Romano, quando o latim já tinha deixado de ser
língua falada, ainda permaneceu em uso na língua escrita durante séculos, e ainda é a língua da igreja católica, para suas relações internacionais.
A indicação do latim como interlíngua apresenta alguns aspectos favoráveis como o de ainda existir certa tendência tradicional para seu estudo em muitos países, assim como boa parte de seu léxico se identificar em diversas línguas européias,
particularmente em suas derivadas, as línguas neolatinas.
O que dificulta o latim como língua internacional é sua complexidade gramatical, visto que o latim ensinado nas escolas é o chamado latim clássico ou literário, modalidade utilizada por uma elite cultural, espécie de língua de compromisso, bastante
diversa do latim corrente ou vulgar, como se denominava o latim falado pelo povo. Por outro lado, uma língua do mundo antigo não dispunha de significantes para designar nem mesmo muitos elementos do cotidiano da vida moderna, pelo que não podia satisfazer
as necessidades da comunicação hodierna. Contudo, não faltou quem se propusesse a adaptar o latim para servir como interlíngua. Um projeto importante neste sentido foi o Latino sine flexione, de Giuseppe Peano, como veremos adiante.
2.1.3 Uma língua simplificada
Para superar o problema da dificuldade de apren-dizado de uma língua natural, viva ou morta, surgiram vários projetos de línguas simplificadas, pretendendo resolver o problema da língua universal. Já nos referimos a uma proposta de simplificação
morfológica do latim para que pudesse servir como interlíngua. Outras tentativas foram feitas com outras línguas, despojando-as de suas complexidades e limitando seu vocabulário para fa-cilitar sua internacionalidade. Des-taca-se neste tipo de projetos um
que pretende simplificar o inglês, denominado Basic English (Inglês Básico), de C. K. Odgen, do que nos ocuparemos oportunamente. Estes projetos têm a seu favor o conhecimento que o aprendiz já pode ter da língua-base e o estímulo de uma grande
comunidade lingüística já existente. Contudo, estes projetos não foram bem sucedidos como in-terlínguas porque não se mostraram adequados às necessidades da comunicação internacional.
2.1.4 Interlínguas artificiais
Já no século XVIII começaram a aparecer projetos de línguas elaboradas por um único homem, geralmente não lingüista, ou por uma comissão de cientistas, com o objetivo de seu uso universal. Estas línguas são chamadas artificiais, embora sua
artificialidade seja ques-tionada, pois elas, geralmente, se utilizam de elementos mórficos e regras sintáticas de forma semelhante às chamadas línguas étnicas ou naturais. É comum a preferência de denominações como língua planejada, ou língua
programada em vez de língua artificial.
Alega-se em favor destas línguas, entre outras vantagens, seu fácil aprendizado, por obedecer a regras regulares e lógicas, portanto sem as idiossincrasias e irregularidades de que estão eivadas as chamadas lín-guas naturais. Ao mesmo tempo, por não
pertencer a nenhum povo, estão isentas de preconceitos que porventura algum povo possa ter contra os falantes da língua adotada. Por outro lado, não falta quem alegue que as línguas desse tipo seriam artificiais, válidas, quando muito, para a
comunicação científica e tecnológica, porém carentes de nuanças e peculiaridades para seu uso artístico, qualidades que seriam pertinentes às línguas que sofreram um longo período de evo-lução em seu processo de desenvolvimento histórico-cultural.
3. PRINCIPAIS INTERLÍNGUAS
3.1. LÍNGUAS APRIORÍSTICAS
As primeiras tentativas de criação de línguas universais baseavam-se primordialmente na lógica. Não se levavam em conta as línguas naturais, por considerá-las imperfeitas e até irracionais. Tudo era inventado, buscando-se a maior economia e
simplicidade lógica e matemática. Assim, cada letra teria um sentido exato, como propunha Sir Thomas Urquhart em seu projeto denominado Logopandecteision, já em 1653.ii Poucos anos depois, surgiu outro projeto do professor de Ox-ford, George Dalgarno, com o
nome de Ars Signorum, que dividia os conceitos em 17 grupos, identificando cada um por meio de uma letra. Estes e outros planos de línguas lógicas ou filosóficas foram examinados pelo grande filósofo e matemático alemão Leibniz. Considerou acertado o
princípio, porém achou que a lógica dos projetos examinados não era suficiente e propôs a criação de outra língua em que cada idéia fosse representada por um número, o qual seria multiplicado quando fosse necessário denotar as idéias compostas.
Este plano de língua não foi elaborado, porém outros com bases semelhantes foram publicados em diversos países. Entre eles a Gramática de la Lengua Universal do Rev. B. Sotos Ochando, baseado numa classificação rigorosa das idéias, publicado em Madri
em 1852, seguido da publicação de um dicionário. Projetos de princípio semelhante foram a Lingualúmina, (língua da luz), de F. W. Dyer, e o da Chabé Aban (língua natural), do engenheiro Maldant.iii
A maior parte destes projetos de línguas, ditas apriorísticas, embora elaborados isoladamente, apresentam certas semelhanças estruturais, sempre em busca de uma pretendida simplicidade. Entre estes projetos, destaca-se, por sua curiosidade, o Solresol,
de Jean-François Sudre, criado em 1817. Seus elementos básicos não são fonemas nem sílabas e sim as sete notas musicais: dó, ré, mi, fá, sol, lá si. É, portanto, uma língua musical na que as palavras e suas classes formam-se com a adequada
combinação das notas musicais.
3.2. LÍNGUAS SIMPLIFICADAS
Entre as várias tentativas de simplificar uma língua viva ou morta para servir como interlíngua já mencionamos o Latino sine flexione do filósofo e matemático italiano, Giuseppe Peano, em 1903. Este projeto, mais tarde, denominou-se Interlíngua. Teve
algum sucesso no início, mas não sobreviveu.
Em 1925, A Sociedade de Nações interessou-se pelo problema da comunicação universal e criou uma comissão para estudar o assunto. Essa comissão propôs a adoção de um Latim medieval simplificado, mas nem se chegou a elaborar um projeto.
Em 1956, reuniram-se, em Avinhão, 200 representantes de 22 países num Congresso Internacional pelo Latim Vivo para estudar as possibilidades de adaptar o latim para uso internacional. Realizaram-se outros três congressos até 1969, porém nos dois
últimos seu tema central já não era o uso do latim como língua internacional e sim a volta do estudo do latim às escolas.iv
A partir de 1915 foram feitas tentativas de simplificação de outras línguas (inglês, francês, espanhol, italiano) todas com pouca repercussão. O projeto mais bem sucedido de língua simplificada foi, sem dúvida, o chamado Basic English (Inglês
Básico) do professor de Cambridge, C. K. Odgen, em 1930. O projeto inicial constava de um léxico de apenas 850 palavras, ne-las incluídos os 18 verbos, que o autor julgava suficientes. Neste lé-xico, porém, não contavam os numerais, termos do
calendário, de medidas e outros indispensáveis. O autor publicou também outro livrinho, Basic by exemples, no que explica por meio de exemplos o significado dos seus 850 vocábulos originais. Publicou também um roteiro para os professores, um dicionário e
diversos outros livros relacionados com o Inglês Básico. Ele e outros adeptos desta interlíngua, entre os quais seu colaborador, o conhecido lingüista I. A. Richards, adaptaram para o Inglês Básico vá-rios textos literários. Os resultados em geral não
agradaram devido à pobreza a que se viam reduzidos os textos originais. O Inglês Básico teve adeptos e opositores. Entre os adeptos encontravam-se muitos professores de inglês para estrangeiros, inclusive alguns no Brasil. Entre os opositores
encontravam-se os adeptos de outras línguas internacionais. O filólogo Mario Pei fez críticas contundentes ao Inglês Bá-sico, mostrando que não era honesta a alegação da ausência quase total de verbos porque os sufixos -ed e -ing formavam,
respectivamente particípios e gerúndios. Uma das críticas mais freqüentes ao Inglês Básico e que seu vocabulário não se limita ao número propalado. Além das flexões e derivações, exis-tem as flexões pronominais, que o autor incluiu na gramática.
Também não são incluídos muitos outros termos indispensáveis. Outra crítica feita a esta língua é a permanência de excrescências do inglês como a desinência -s na 3a pessoa do singular, os comparativos e plurais irregulares, etc. O
autor e seus colaboradores alegam que o Basic English não é uma nova língua, mas o próprio inglês simplificado. Quando o estudante quiser aprender inglês não terá que reaprendê-lo, bastará apenas ampliar seu estudo. O fator mais importante da
decadência desta língua parece residir mais na dificuldade dos próprios anglófonos em reduzir a complexidade de sua língua aos es-treitos limites do Inglês Básico.
3.3. LÍNGUAS EM PARTE ARTIFICIAIS
Costumam ser chamadas línguas artificiais as interlínguas fundamentadas na lógica e na filosofia. Porém grande parte das interlínguas aproveitam o acervo de uma ou mais línguas naturais e utilizam seus elementos (fonemas, morfemas, itens lexicais,
processos de de-rivação e composição, etc.), construindo com eles a nova língua. Surgem assim interlínguas que, a rigor, não podem ser chamadas artificiais porque pouco se afastam das línguas naturais. Estas também estão organizadas estruturalmente,
embora estejam longe das regularidades das línguas planejadas. Vemos, então, que existem vários tipos de interlínguas: umas que reduzem a comunicação lingüística ao racio-cínio lógico e filosófico (seriam as mais artificiais de todas); outras que se
limitam à simplificacão de uma língua natural (seriam as menos artificiais) e ainda outras que, embora cientificamente planejadas, se utilizam de material lingüístico e da experiência de funcionalidade de línguas bem conhecidas. Estas seriam
parcialmente artificiais, se-guindo o critério dominante no universo da Ciência da Linguagem. É aqui que se encontram as principais interlínguas, entre elas a mais importante de todas: o Esperanto.
3.3.1. Volapuque
Em 1879, o prelado alemão Johann Martin Schleyer criou a língua internacional Volapük, palavra composta de vol e pük, obtidas, res-pectivamente, das inglesas world e speak. O autor compôs seu vocabulário adaptando grande número de termos do inglês,
mas também utilizou o de outras línguas importantes como o francês, o alemão e as línguas neolatinas. Suprimiu os grupos consonantais, o fonema [R] e colocou o fonema [l] no início de todas as palavras começadas por vogal. Todos os radicais foram
reduzidos a monossílabos e sua representação tinha por base a pronúncia, o que tornava os de origem inglesa quase irreconhecíveis: sel de sale (venda), nufv de roof (telhado), fom de form (forma), lilvi e ear (ouvido). O autor quis criar uma língua com
radicais internacionais muito simples, mas muitos tiveram que ser substituídos para evitar ho-monímia.
Apesar da aparência estranha e das complexidades da língua, o Volapuque difundiu-se com muita rapidez. Em 1888 havia cerca de um milhão de volapuquistas no mundo, 2803 sociedades e 25 jornais destinados a difundir o idioma. Sua gra-mática foi traduzida
em 24 idiomas. No 3o Congresso Volapuquista realizado em Paris, em 1889, delegados de 13 países falaram unicamente em Volapuque. Sua expansão como língua estrangeira na Europa superava a maioria das lín-guas nacionais, porém, mais rápido que sua
ascensão foi seu descenso. Pouco tempo depois do 3o e último congresso, quase se extinguiram as sociedades e publicações divulgadoras da língua. Foram apontadas diversas causas para essa decadência, mas a mais provável foi porque sua facilidade
era apenas aparente. Os filólogos volapuquistas achavam falhas na sua língua. O 3o congresso nomeou uma comissão para efetuar as reformas necessárias, mas seu autor julgou-se desprestigiado por não ter poder de veto e abandonou a comissão. Esta,
abandonou o Volapuque e resolveu criar uma nova língua: o Idioma Neutral.vii
Alguns cientistas egressos do Volapuque refizeram a língua com outros nomes. Nenhuma destas novas línguas chegou a prosperar, pois o fracasso do Volapuque causou grande ceticismo em relação à pos-sibilidade de uma língua artificial funcionar como
interlíngua. Foi neste clima de descrédito que, em 1897, surgiu na Polônia a mais im-portante das interlínguas, sinônimo de língua internacional auxiliar: o Esperanto.
3.3.2. Esperanto
O primeiro manual para o aprendizado do Esperanto, Doktoro Esperanto (Doutor que tem esperança) foi lançado em Varsóvia em 1887. Seu autor, Lazarus Ludwig Zamenhof, não lhe deu nome. Referiu-se a sua criação apenas como Língua Internacional.
a) O autor
Zamenhof nasceu em 1859, na localidade de Bialystok, Polônia, naquele tempo sob o domínio da Rússia. Era de família judia e vivia num ambiente de multilingüísmo e diglossia. Além do iídiche, língua familiar, era necessário o conhecimento de pelo
menos o polonês, língua local, e das línguas impostas pelos dominadores russos e alemães. Desde pequeno presenciou conflitos entre as pessoas que conviviam na mesma área geográfica falando línguas diferentes. Idealista, achava que a causa dos conflitos
se devia a problemas lingüísticos. Eles desapareceriam se houvesse uma língua comum e se propôs a criá-la, desconhecendo o que já se vinha fazendo no mundo nesse sentido. Tinha talento e dedicação especiais para o aprendizado de línguas e já com 15
anos, além das línguas com que convivia, aprendeu em Varsóvia, no curso secundário, o grego e o latim. Já no 5o ano travava conhecimento com o inglês. Em todas as línguas que conhecia procurava elementos que pudessem servir pa-ra a elaboração de sua
sonhada língua. Do inglês chamou-lhe a atenção a simplicidade de sua gramática. Já no polonês verificou que a tonicidade na mesma sílaba facilitava a pronúncia e tornava desnecessário o acento gráfico. O problema do léxico parecia-lhe mais
complexo. As palavras monossilábicas eram difíceis de reter, então resolveu adotar afixos, já usados de alguma forma em muitas línguas, porém sem a regularidade possível numa língua planejada. Esta ampla possibilidade de composição e derivação
vocabular é talvez a característica mais marcante do Esperanto e a que torna esta língua verdadeiramente internacional, fato sobejamente provado em todos os usos possíveis, durante os mais de cem anos de sua existência.
O léxico foi buscá-lo no amplo leque de línguas que conhecia, pre-dominando os itens lexicais com maior circulação universal, grande parte adaptados do francês - por sua vez de origem latina -, mas en-contrando-se também grande número originário do
alemão e de ou-tras línguas européias.
Em 1878, Zamenhof já tinha preparado um projeto de língua internacional, bem diferente do Esperanto atual, que experimentou em sua casa com um grupo de colegas. Ao terminar os estudos, no ano seguinte, os amigos se afastaram. Vários conhecidos começaram
a ridicularizar a idéia de criação de uma língua. O próprio pai, temendo pela saúde mental do filho, mandou-o para Moscou para estudar Medicina. Estudou seriamente e especializou-se em oftalmologia, porém não deixou de lado a idéia da criação da
língua. Dois anos depois, quando voltou à casa dos pais, soube que seu pai lhe tinha queimado os manuscritos, com a intenção de “salvá-lo”. L. L. Zamenhof, não se abalou com a perda e logo refez os manuscritos até melhorados porque os sabia de
cor e se tinha aperfeiçoadoviii. Cumpriu a promessa feita ao pai de formar-se em medicina e concluiu seus estudos em Varsóvia. Tornou-se oculista e lutou com dificuldades financeiras, mas trabalhou intensamente em seu projeto. Em 1887, com a ajuda do sogro,
lançou o primeiro manual Doktoro Esperanto, destinado aos leitores da língua russa. As respostas e os adeptos não se fizeram esperar. Al-guns deles tornar-se-iam famosos esperantistas. Começaram a formar-se grupos para a prática da língua pelo mundo e a
aparecer publicações. Zamenhof fez muitas traduções para o Esperanto e outros autores dedicaram-se a produzir textos literários em todas as modalidades e a traduzir obras da literatura universal.
Em 1905, em Boulougne-sur-Mer, na França, realizou-se o 1o Congresso Universal de Esperanto, e-vento que desde então se vem realizando anualmente em algum país - com exceção dos anos de guerra. Este primeiro congresso, sob a direção de Zamenhof, foi
a grande pro-va da funcionalidade da língua. Neste congresso ele apresentou seu Fundamento de Esperanto, livro que contém seu pensamento e suas determinações referentes à língua e ao papel do autor no Movimento Esperantista. Neste Fundamento, obra
básica do Esperanto, o autor fixa o alfabeto, as 16 regras de sua gramática, apresenta uma grande quantidade de exercícios para a prática da língua e termina com um dicionário dos radicais que julga necessários para o uso da lín-gua. O Fundamento
poderá no futuro ser ampliado se houver necessidade, mas nunca alterado, para evitar a dialetização da línguaix.
b) A língua
O Esperanto possui apenas 16 regras gramaticais, sem exceções, se-gundo o Fundamento. A pronúncia é fonética. A cada fonema corresponde uma única letra. O artigo la é único e invariável. Não há gênero gramatical. Quando se precisa indicar o sexo
usa-se o sufixo -in-. Os substantivos terminam em -o : viro (homem), virino (mulher). O adjetivo indica-se com a desinência -a: bela (bonito, bonita), granda (grande). Os advérbios terminam em -e: forte (fortemente), klare (claramente). Existem, porém,
alguns vocábulos que são originaria-mente advérbios. O plural indica-se com a desinência -j [i], libroj (li-vros), la belaj virinoj (as belas mulheres). O Esperanto possui a desinência -n para indicar o acusativo: Li legas libron (Ele lê um livro), Vi
vizitas viajn amikinojn (Você visita suas (de você) amigas. Os verbos no infinitivo terminam sempre em -i: ami (amar), vendi (vender), ridi (rir). Os tempos são indicados por um morfema temporal. As pessoas do discurso são indicadas por seu respectivo
pronome. O presente in-dica-se por -as : mi cantas (eu canto), ni dancas (nós dançamos), ili skribas (eles, elas, as coisas escrevem). O passado é indicado por -is: La knabo legis (O menino leu). O futuro é representado por -os : La knabinoj venos. (As
meninas virão). O condicional (futuro do pretérito) e o imperfeito de subjuntivo são indicados por -us: Se Petro vidus vin, li estus kontenta. (Se Pedro visse você, (ele) ficaria contente. O subjuntivo presente e o im-perativo representam-se em Esperanto
pelo morfema -u: Vi volas que mi studu. (Você quer que eu estude). Estu bonvena! (Seja bem-vindo!, bem-vinda!). Existem particípios ativos e passivos para os três tempos.
Talvez o que melhor caracterize o Esperanto seja a possibilidade de formar novas classes de palavras partindo de qualquer item lexical assim como a possibilidade de com-por novas palavras pela adição de elementos lexicais. Os prefixos tem significado bem
definido: mal (con-trário, oposto) bona (bom), malbona (mau). As preposições e os afixos podem existir isoladamente e receber outros elementos lexicais: -ejo é um sufixo que indica local definido: lernejo (local onde se aprende, escola), librovendejo
(lo-cal onde se vendem livros, livraria), mas ejo também pode ser substantivo isolado: la ejo (o local). O sis-tema de derivação e composição do Esperanto permite-lhe reduzir o vo-cabulário básico e aumentar quase até o infinito o número de
palavras possíveis. Esta flexibilidade permite que encontrem facilidades em seu uso os nativos de línguas aparentemente sem qualquer relação com as línguas que serviram de base ao Esperanto. Existem esperantistas em quase todos os países,
independentemente do grupo lingüístico a que pertençam.
c) Dificuldades do Esperanto
Desde o início, o Esperanto teve grande número de adeptos incondicionais, mas também logo apareceram opositores e reformadores. Uns propuseram reformas, outros criaram novas línguas semelhantes ao Esperanto. Uma dessas línguas que obteve algum sucesso
foi o Ido, (filho, em Esperanto) que não passa de um Esperanto pouco alterado. Até hoje existem projetos de modificação, porém a maioria dos esperantistas mantém-se fiel ao Fundamento. Um dos pontos mais visados pelos reformistas é o das letras com
sinal superposto: î, û, ï, ö, ä, ë :îemizo (camisa), reûo (rei), ïi (ela), ambaö (ambos), ëaödo (quinta-feira). Alega-se que existe dificuldade na obtenção desses caracteres tipográficos, já que atualmente não se usam na maioria das línguas.
Realmente isso tem apresentado alguma dificuldade às pequenas gráficas, porém têm sido encontradas soluções com caracteres aproximados. Atualmente, com a Informática as soluções tornaram-se mais fáceis.
3.3.3 Os Movimentos
A maior parte dos projetos de interlínguas foram publicados apenas uma vez. Outros tiveram um pouco mais de divulgação através da publicação de algum dicionário ou de outras obras de referência. Poucos tiveram um movimento continuado,
representado por organizações divulgadoras e publicações periódicas, com exceção do Esperanto. Entre as línguas adap-tadas, já nos referimos ao Inglês Básico, que conseguiu, durante algum tempo relativa popularidade. Entre as línguas planejadas, a
primeira a ter um movimento internacional foi o Volapuque, lançado em 1879, pelo abade Schleyer. Em 1888, esta interlíngua gozava de grande prestígio, contando com mais de duas mil associações divulgadoras e 25 publicações periódicas. Realizaram-se
três congressos de Volapuque, porém no terceiro e último já se sentia a necessidade de reformas, devido às dificuldades de seu aprendizado. O Autor não aceitou qualquer reforma e o movimento de-resceu rapidamente até sua quase total extinção. Um
importante volapuquista, Rosenberg, publicou seu próprio projeto: O Idioma Neutral, mais tarde reformado, porém sem atingir grande divulgação.
Desde que foi publicado o primeiro manual, Doktoro Esperanto (1897), o movimento de divulgação do Es-peranto (Movado) não cessou. Esse movimento, continuado pelo próprio Autor com a publicação de textos inéditos e traduções, foi logo secundado por
seus simpatizantes, cada vez mais numerosos. Começaram a surgir em diversos países da Europa associações destinadas ao ensino, divulgação e cultivo da lín-gua. Em torno da livraria e editora Hachette de Paris, reuniu-se uma elite intelectual da que
faziam parte renomados lingüistas da época, entre eles, Edmont Privat, Couturat e L de Beaufront. Em 1905 teve lugar a grande prova do funcionamento do Esperanto como língua falada: o Primeiro Congresso Internacional de Esperanto, em Boulogne-sur-Mer
(França). Inscreveram-se 688 pessoasx, usando-se oficialmente apenas o Esperanto. O Autor fez um memorável discurso e entregou o Fundamento e a direção do Movimento às associações esperantistas, permanecendo ele apenas, segundo suas próprias
palavras, como mais um esperantista. Não tardaram em surgir os reformistas, entre eles alguns intelectuais esperantistas da primeira linha. A maioria dos esperantistas opôs-se a qualquer reforma, permanecendo fiéis ao Fundamento . Em conseqüência, foi
lançado o Ido, com poucas alterações em relação ao Esperanto. Começaram então acirradas disputas entre idistas e esperantistas, porém, embora estas e outras contendas semelhantes abalassem o prestígio das interlínguas planejadas, o Esperanto
continuou seu caminho, com altos e baixos, firmando-se como única interlíngua possível entre as que chegaram aos nossos dias. Não lhe faltaram nem lhe faltam concorrentes, pois, além do Ido, surgiram vários projetos de interlínguas tendo como base o
Esperanto, o Ido ou ambos. René de Saussure, lingüista franco-suíço, irmão do conhecido lingüista Ferdinand de Saussure, deixou o movimento esperantista e apresentou um projeto de reforma intermediário entre o Esperanto e o Ido, chamado Antido. Mais
tarde elaborou o Esperantido, o Antido II e o Nov-Esperanto. Estes projetos não tiveram um movimento de di-vulgação como teve o Ido e, particularmente, o Esperanto. Ficaram quase sempre restritos à publicação de seus respectivos projetos. Entre outros
projetos posteriores às tentativas de reforma do Esperanto e do Ido, cita-se o Occidental, que apareceu em 1922, de autoria do estoniano von Wahl, quem já tinha sido adepto de outros projetos de interlínguas e o do lingüista Otto Jespersen, Novial, em
1928. Ambos os projetos estavam fortemente in-fluenciados pela corrente naturalista, que acreditava que as línguas se regiam pelas mesmas “leis” biológicas das ciências naturais. Em 1931, Jespersen chamou a atenção num congresso internacional de
lingüística, em Genebra, para o valor da interlingüística e das pesquisas pro-movidas pela IALA (Interna-cional Auxiliary Language Association). Seu projeto do Novial foi re-formado e publicado em 1934 com o título de Novial II, porém o Novial não
sobreviveu a seu autor, falecido em 1943.
Em 1946, o lingüista francês André Martinet tornou-se diretor do setor de línguas da IALA e esta entidade promoveu uma pesquisa para tentar conhecer a preferência dos usuários por uma interlíngua. Depois dos resultados, ficou decidida a elaboração
de uma língua definitiva, mas Martinet declarou não interferir na escolha do projeto, embora manifestasse sua simpatia pela linha naturalista, oposta à li-nha esquemista, que tem por base a regularidade das estruturas da língua. Em 1951 foi aprovado o
projeto vencedor, de Alexander Gode, denominado Interlíngua, nome pouco apropriado por ser genérico e já ser o nome de um projeto anterior, pelo que esta língua ficou mais conhecida pela sigla ILA. Um dos argumentos favoráveis à Interlíngua é o de que
surgiu depois de longo período de estudos e pesquisas. Durante algum tempo chegou a ser usada em vários congressos internacionais, porém não despertou muito interesse e, embora ainda possa contar com alguns defensores, está em franco processo de
desaparecimento, talvez porque o interesse da IALA não era o de conseguir adeptos para seu uso comum e sim apenas para o uso escrito nos meios científicos internacionais.
3.3.4 Esperantismo
O Esperanto completou cem anos em 1987 e durante todo esse tempo não cessou seu movimento de difusão. Desde o início, este movimento caracterizou-se:
a) pelo estabelecimento e organização de associações esperantistas, em quase todos os países - algumas com finalidades específicas;
b) pela divulgação através de todas as formas de material impresso e por outros meios;
c) pela luta pelo reconhecimento oficial;
d) pela realização de eventos, destacando-se os congressos universais.
Das muitas organizações esperantistas existentes pelo mundo, a mais importante internacionalmente é a UEA (Associação Universal de Esperanto), com sede em Rotterdam (Holanda). Esta organização coordena o movimento Esperantista mundial. É uma
entidade reconhecida pela UNESCO e que luta pelo reconhecimento e uso oficial do Esperanto nos organismos internacionais, centros educacionais, etc., pela coordenação dos movimentos nacionais, e por tudo o que diz respeito ao progresso do Esperanto.
Recentemente o PEN Clube Internacional reconheceu oficialmente o Esperanto como língua literária no seu 60o Congresso Internacional, em Santiago de Compostela, em 1993.xi
As publicações periódicas contam-se por centenas, embora muitas delas com modesta apresentação gráfica e periodicidade irregular. Não faltam, porém, boas publicações como as da UEA, entre outras. Esta entidade publica um anuário (Jarlibro) e uma
revista mensal (Esperanto). Além das publicações periódicas, o Esperanto dispõe de grande número de publicações lite-rárias, que cobrem quase todos os gêneros. Já é copiosa a literatura original, mas maior ainda é a traduzida. Boa parte dos
autores clássicos da literatura universal possui pelo menos alguma de suas obras traduzida para o Esperanto. Há grande preocupação com a qualidade e fidelidade dessas traduções para o Esperanto. Por outro lado, já começam a ser traduzidas para outras
línguas algumas obras literárias escritas originalmente em Esperanto. A publicação de trabalhos científicos em Esperanto, embora não ausente, ainda está longe de atingir as proporções da literária. Existem bibliotecas esperantistas em quase todas as
entidades que tratam do Esperanto. Várias emissoras de rádio, em diversos países, transmitem periodicamente em Es-peranto, geralmente em ondas cur-tas, de alcance mundial. Eventualmente a televisão e a imprensa ocupam-se com o Esperanto, embora nem sempre
favoravelmente, às vezes por desinformação. Atualmente as redes internacionais de computadores, principalmente a Internet, contam com grande número de endereços de instituições esperantistas. Há nessa rede universal grande atividade esperantista.
A maior parte das organizações esperantistas internacionais ou na-cionais são filiadas à UEA. Podem ter caráter nacional, regional ou local, assim como podem agrupar os esperantistas de uma determinada faixa, como a juventude, os ferroviários, os
escoteiros, etc.
É tradicional no movimento esperantista a realização de diversos ti-pos de eventos: congressos, seminários, encontros, cursos, etc., podendo ser universais, internacionais, regionais ou de determinada especialização, como ocorre com as organizações.
O mais importante destes eventos é o Congresso Universal de Esperanto, realizado cada ano em uma cidade de um país previamente escolhido. Ocorre no mês de julho, durante uma semana, com sessões de trabalho e muitas outras atividades, de alguma forma
relacionadas com a língua. Desde o primeiro congresso, em 1905, foram realizados 81, com uma média de participantes superior a 2000. O próximo (1997) será realizado em Adelaide (Austrália)xii. Estes congressos representam o ponto alto do movimento
esperantista mundial. São organizados pelas entidades es-perantistas locais e costumam contar com o apoio das autoridades nacionais e locais, além da mídia local. É ali que se decidem os rumos do movimento e que se reafirma a
funcionalidade da língua. A única língua permitida em todas as sessões é o Esperanto. Estes congressos servem de ponto de encontro e ligação entre esperantistas de mais de 80 países.
3.4. LINGÜISTAS E INTERLINGÜÍSTICA
Vimos que as primeiras interlínguas não foram elaboradas por lingüistas e sim por matemáticos e filósofos que acreditavam no funcionamento de uma interlíngua totalmente lógica. Outros autores não eram lingüistas, mas tinham bons conhecimentos de
diversas línguas e de filologia. Zamenhof era profissionalmente um oculista, mas de-dicou a maior parte de sua vida ao estudo de línguas e da lingüística. Alguns lingüistas manifestaram-se favoráveis às línguas artificiais, mas muitos não entenderam
sua necessidade, preferindo ignorar a existência do problema ou acreditando que nunca seria solucionado.
J. Passini acredita que a solução do problema da comunicação internacional possa às vezes ser prejuducada pelo preconceito:
O problema da comunicação internacional está ainda por merecer a atenção dos lingüistas. O pouco que se publicou sobre o assunto - quase sempre um capítulo de livro - aborda apenas o aspecto histórico de alguns projetos de línguas, ou faz análise
extremamente superficial, não raro prejudicada pelo preconceito. É de se lamentar seja assim tratado esse problema que, paradoxalmente, se agrava na mesma proporção em que progridem os meios de comunicação e de transporte.*
Ferdinand de Saussure acredita que o Esperanto sofrerá evoluções diacronicamente por estar submetido às mesmas leis das demais línguas naturais. Seu irmão, o também lin-güista, René, elaborou vários projetos de interlínguas, porém sem grande
sucesso. H. Schuchardt ma-nifestou-se a favor das línguas artificiais e teve como companheiro de luta nessa área Otto Jespersen:
Schuchardt partiu da necessidade que os homens têm de se compreender melhor por meio da língua, o que conduz ou pode conduzir à aproximação dos povos. Por este motivo, participou nas discussões sobre as línguas artificiais como o volapük, o
esperanto, etc. Com argumentos lingüísticos sólidos defendeu o direito de existência de tais línguas ao contrário da grande maioria dos especialistas que se declararam expressamente contra elas.*
Os lingüistas C. K Odgen e I. A. Richards acreditaram no uso interlingüístico de uma língua simplificada e dedicaram seus esforços ao Inglês Básico, porém o primeiro lingüista de renome a elaborar um projeto de língua artificial foi Otto
Jesperson. Participou do lançamento do Ido e, mais tarde, lançou seu próprio projeto, o Novial. Posterior-mente o Novial foi reformado e apresentado como Novial II. Outro lingüista que se preocupou com o problema da língua internacional foi o francês
André Martinet. Como diretor da IALA, tentou solucionar o problema da língua internacional mas não considerou útil nenhuma das interlínguas existentes e foi aberto um concurso concurso para um novo projeto, que resultou na Interlíngua ou ILA. Em 1993,
numa longa entrevista à revista da UEA, Esperanto, afirma que todas as línguas são em grande parte artificiais e que não deveria chocar ninguém a qualificação de artificial.
Eles não são lingüistas, ou mais corretamente: eles se sentem chocados não como lingüistas. Como lingüistas informados, eles deveriam saber que o Esperanto funciona, conforme disse clara e explicitamente Meillet; conseqüentemente não se deveria
objetar contra ele.xii
Outro lingüista preocupado com o problema da língua internacional foi Mário Pei. Escreveu uma vasta obra sobre o problema das línguas no mundo, manifestando-se em várias ocasiões a favor do Esperanto. O conhecido escritor e crítico italiano Umberto
Eco escreveu recentemente um livro sobre o problema da língua internacional, traduzido para o Esperanto, cujo título em português deverá ser: A busca da língua perfeita na cultura européia. O crítico literário da revista Esperanto, Carlo Minnaja afirma
que Eco vem manifestando várias vezes nos últimos anos sua crença no futuro papel do Esperanto como meio de comunicação internacional. Este livro, em italiano, está sendo indicado nos cursos de interlingüística e esperantologia da Universidade de
Turim.xiii Nem todos os intelectuais, nem mesmo todos os lingüistas são favoráveis ao uso de uma interlíngua. Existem opiniões contrárias, umas vezes por desconhecimento, outras por interesses diversos e ainda outras por preconceitos injustificáveis.
Dificilmente alguém poderá apresentar argumentos convincentes contra a utilidade de uma interlíngua, máxime numa época em que o mundo se torna cada vez menor.
3.5. QUAL A MELHOR INTERLÍNGUA?
Diversos países vêm levando a cabo projetos de planificação lingüística em seus respectivos territórios em busca de sua uniformidade lingüística. O árabe procurou a uniformidade com base no árabe clássico, visando transformar uma língua arcaica
numa língua adaptada às necessidades da vida moderna. Para isso é necessário a generalização do ensino e espera-se que essa desejada uniformidade ainda demore vários anos, tal a quantidade e diversidade de dialetos no mundo árabe. Outras tentativas de
planificação realizam-se com a língua malaia na Federação Malásia, na Indonésia e em Singapura. Tentativas de planificação também estão sendo realizadas em vários países africanos recentemente descolonizados.xiv As condições são diversas e para
cada uma procuram-se os meios que parecem ser mais apropriados. Além dos problemas puramente lingüísticos, existem, com freqüência problemas de política lingüística, talvez mais difíceis de resolver. Em muitos países há problemas lingüísticos
internos, mas mesmo nos que desfrutam de certa homogeneidade, resta o problema além fronteiras. Alguns países ocupam uma limitada área geográfica e possuem uma língua quase desconhecida fora de seus limites. Isto força muitos de seus habitantes à
aprendizagem de pelo menos uma língua estrangeira de um país vizinho importante. Isto ocorre principalmente na Europa pelo que foi nessa parte do mundo onde sempre se procurou solucionar esse problema. Atualmente, a União Européia conseguiu prosperar
economicamente, existe passaporte comum e caminha para à moeda única, porém o problema lingüístico continua. Não há barreiras alfandegárias, mas há problemas lingüísticos sérios. No Parlamento Europeu, os trabalhos têm que ser traduzidos em
várias línguas, o que é demorado e muito caro. O número de línguas aumenta à medida que novos membros vão aderindo à União. Na ONU o problema é ainda mais complexo. Por que não se resolve o problema se já foram resolvidos tantos outros que pareciam
muito mais difíceis? Interesses contrariados? Falta de vontade política? Os problemas mais simples são paradoxalmente os que ficam sem resolver? Talvez. Qual seria a solução mais viável? Adoção de uma das principais línguas? Parece que sim, mas na
certa não se conformariam os outros países. Adoção de uma interlíngua existente? Parece ser a melhor solução. Mas qual? Atualmente só existe uma interlíngua neutra capaz de exercer a função de língua internacional auxiliar que é o Esperanto. Ela
já tem mais de um século de existência. Já está mais que provada sua funcionalidade em seus diversos usos, já tem literatura própria, é fácil de aprender e dispõe de professores e material didático em qualquer país. É uma língua conhecida até do
grande público, pois seu nome é sinônimo de língua internacional. Também car-rega consigo a idéia de língua do amor universal, transmitida por Zamenhof e muitos de seus seguidores. A elaboração de outro projeto demandaria um longo tempo e,
possivelmente, fracassaria, como tem ocorrido com os outros, em que pese o esforço e a inteligência de seus autores. Não cabe dúvida que a adoção oficial do Esperanto só poderia trazer benefícios para a humanidade.
4. CONCLUSÃO
A interlingüística é a parte da lingüística que estuda as línguas internacionais, também denominadas interlínguas. Desde muito cedo o homem se preocupa com a intercomunicação com os povos que o cercam e que falam línguas ou dialetos diferentes.
No mundo antigo, o grego e, posteriormente o latim, desempenharam de certa forma o papel de interlínguas. Aquele no Mundo Helênico e este no vasto Império Romano. O latim continuou desempenhando esse papel durante a Idade Média e, em parte, até muito
depois na língua escrita. Até hoje exerce algo dessa função na igreja católica. Devido a esse longo período de internacionalidade, ele foi várias vezes proposto, depois de sofrer reformas, como a interlíngua moderna. Essas tentativas não deram
resultado, mas provaram que uma interlíngua pode funcionar. Nos séculos XIX e XX vieram à luz diversos projetos de interlínguas. Os primeiros eram baseados na lógica e na matemática, mas não funcionaram lingüisticamente. São os chamados projetos
apriorísticos. Outros projetos pretendiam simplificar uma língua existente para facilitar seu aprendizado aos aloglotas. Foram feitas várias tentativas com o latim, o inglês e outras línguas modernas, mas, apesar de algum sucesso inicial, com o tempo
acabaram desaparecendo. Ainda outro grupo diferente dos anteriores constava da utilização de elementos de uma ou mais línguas, mas que obedecem às normas estabelecidas pelo autor ou autores. Estas línguas, embora cha-madas artificiais, não são muito
mais artificiais que as conhecidas como línguas naturais. De todas as interlínguas até agora aparecidas, somente o Esperanto permaneceu, embora não desempenhe oficialmente o papel de língua auxiliar por diversas causas difíceis de explicar, pois possui
todas as condições de ser a interlíngua da atualidade e sua necessidade é cada vez mais premente, devido à internacionalização por meio dos modernos meios de comunicação.
5. RECAPITULAÇÕES SUMÁRIAS
5.1 RESUMO
No final do século XIX e durante o século XX surgiram vários projetos de línguas pretendendo resolver o problema da comunicação internacional. Os projetos apresentados eram muito diversos e alguns chegaram a ter algum sucesso durante certo período,
porém com o tempo, por motivos diversos, todos acabaram quase no esquecimento menos o Esperanto. Esta interlíngua já tem mais de um século de existência e possui ampla bibliografia e um movimento de divulgação universal. É fácil de aprender e já
provou seu funcionamento de todas as formas. Não se concebe como ainda não foi adotada oficialmente pelas instituições internacionais, devido à urgente necessidade de um meio eficaz de comunicação internacional.
5.2 ABSTRACT
At the end of the 19th century and during the 20th century, several language projects apeared with the aim of solving the problem of international communication. The presented projects were very diferent and some of them achieved some sucess for a certain
period of time, but with time, by diverse motives all fell in forgetfulness except Esperanto. This interlanguage is already more than a century old and possesses a vaste bibliography and a universal movement of divulgation. It is easy to learn and it has
already proved its good functioning in all ways. We can’t understand why it wasn’t still officially adopted by international institutions, due to the urgent necessity of an efficient means of internacional communication.
5.3 RESUMO (ESPERANTO)
En la fino de la 19a jarcento kaj dum la 20a jarcento aperis diversaj lingvprojektoj pretendinte solvi la problemon de internacia komunikado. La prezentitaj projektoj estis tre malsamaj kaj kelkaj atingis ian sukceson dum kelka tempo, sed dum certa tempo,
pro diversaj motivoj, îiuj finis en forgeson, ekscepte Esperanto. Îi tiu interlingvo lastas pli ol jarcento kaj posedas vastan bibliografion kaj universalan movadon de disvastiûo. Ûi estas facile lernebla kaj jam pruvis sian funkciadon en îiaj manieroj.
Oni ne komprenas kiel ankoraö ûi ne estas oficiali adoptata de la internaciaj institucioj, pro la urûa neceso de efika ilo de internacia komunikado.
6. BIBLIOGRAFIA
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IORDAN, Iorgu. Introdução à linguística românica. Trad. Júlia Dias Ferreira. 2. ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, /1982/.
MARTINET, André. Elementos de lingüística geral. Trad. Jorge Morais-Barbosa. Lisboa: Sá da Costa, 1964.
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RÓNAI, Paulo. Babel & Antibabel ou o Problema das línguas universais. São Paulo: Perspectiva, 1970.
SAPIR, Edward. A linguagem: introdução ao estudo da fala. Trad. J. Mattoso Câmara Jr. 2. ed. Rio de Janeiro: Acadêmica, 1971
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Lingüística geral. Org. por Charles Bally e Albert Sechehaye. Trad. A.ntônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. 8. ed. São Paulo: Cultrix, 1978.
ZAMENHOF, L. L. Fundamento de Esperanto. Franca eldono. Paris: Esperantista Centra Librejo, 1931.
7. NOTAS
i. Gênese, 9,11.
ii. RÓNAI, P. Babel..., p. 30
iii. Op. cit. p. 31.
iv. PASSINI, J. Babel..., p. 96
v. Não existe o fonema [R]. É substituído por outro fonema consonantal.
vi. Palavras iniciadas por vogal recebem o fonema inicial [l].
vii. RÓNAI, P. Op. cit. p. 48-55.
viii. PRIVAT, E. Vivo..., p. 23-37
ix. ZAMENHOF, L. L.Fundamento..., p. I-xi.
x. JARLIBRO (Anuário) de UEA,. p. 30, 1996.
xi. Idem, ibidem.
xii. IORDAN, I. Introdução..., p. 98.
xiii. ESPERANTO, Revista, jul-ago/96, p. 133. Tra lupeo filozofa kaj lingvista. (Artigo de Carlo Minnaia).
xiv. ESPERANTO, Revista, jan/93.p. 4-5. “La lingvoj estas ege artefaritaj” (Entrevista com André Martinet).