EPISTOLOGRAFIA E LINGUAGEM
(ESTUDOS PRELIMINARES)
Aileda de Mattos Oliveira
1. INTRODUÇÃO
O gênero epistolográfico não é um dos mais entusiasticamente preferidos pelos que se detêm na análise das produções textuais. A palavra, circunscrita a um contexto situacional particular e, por isso mesmo, individualizado, não parece exercer o
mesmo fascínio ao estudioso, o leitor-crítico, que, em maioria, recorre a outros tipos de composição como fontes de perquirição lingüística.
Neste gênero, entra-se em contato com experiências vivenciais do outro, marcadas pela temporalidade das ações na sua história social, porém, transferidas para os limites espaciais da carta e enclausuradas na iconicidade da escrita.
Cabe, então, ao epistológrafo solucionar o problema das leituras interpretativas que cada exemplar oferece, em razão da estratificação gráfica dos fatos narrados ou comentados, no trabalho de desfazer a autonomia semântica de seu autor.
O “desfazer a autonomia semântica” significa que o leitor crítico terá que resolver de início problemas hermenêuticos, em razão de que, na leitura, terá que distanciar-se do texto para não só evitar contaminar-se com as questões afetivas e
emocionais que por acaso possam dele emanarem, mas também e, principalmente, em razão de ter que solucionar questões dialéticas como suprimir o distanciamento cultural que se interpõe entre o seu mundo e o do autor e preservar esse mesmo distanciamento
cultural, a fim de promover o resgate da significação do texto e compreendê-lo dentro da conceituação ético-moral de quem assim o expressou.
Essa constante luta cultural entre o código escrito do missivista e o decodificador é o que transforma o estudo do discurso numa espécie de arqueologia da palavra.
Por serem destinadas a um dado destinatário e, por isso mesmo, aparentemente resguardadas das indiscrições dos que não compartilham do mesmo contexto situacional, as cartas são formas expressionais de grande valor analítico, por tentarem reproduzir
uma passagem verdadeira, vivenciada, sentida, exteriorizada por quem confia na cumplicidade do receptor e do seu compromisso ético da não revelação.
Inúmeros autores dedicaram-se à epistolografia, tanto nos domínios das letras nacionais, quanto nos das letras estrangeiras, propiciando ao leitor interessado neste tipo de gênero literário, a possibilidade de compartilhar da leitura de pensamentos,
muitas vezes exclusivos de destinatários específicos e, portanto, inacessíveis, na ocasião, ao público leitor.
Padre Antônio Vieira, fazendo jus a seu pensamento barroco, dizia que uma carta é uma produção artística, mas sem nenhuma arte, referindo-se ao aspecto estético característico desse gênero de escritura, ao qual também se dedicou e no qual deixou
registrada a sua eloqüência, como na carta que enviara aos judeus de Ruão, fugitivos da Inquisição lusa (1646); na que endereçara a D. Rodrigo de Meneses, em que exprimiu a sua crítica desolada ao processo que vinha sofrendo pelo Santo Ofício (1670);
na que remetera a El-Rei D. João IV, defendendo a igualdade dos indígenas (1695), para citar apenas algumas peças epistolares do grande pregador.
Nessas obras, a palavra de Vieira adquire a violência da argumentação em defesa de posições ideológicas assumidas como missionário em terras distantes do centro do poder, quando em confronto com a violência da palavra polifônica da Metrópole.
Diz-se “polifônica”, porque as cartas do jesuíta respondem a uma voz imperiosa que, antecipadamente, fizera-lhe ouvir as questões determinantes da Coroa, razão, portanto, das veementes réplicas epistolares do clérigo.
Não se pode, também, deixar sem referência o viver intenso de Sóror Mariana Alcoforado, expresso em cada enunciado de suas cartas ao Cavalheiro de Chamilly. Nelas, a autora não apenas acende a fogueira do amor interdito pelos dogmas monásticos, mas o
faz de maneira a vitimar duplamente o seu próprio eu: nas pautas do papel, encerrando-o nas palavras de agonia e inquietação, que os adjetivos epitéticos tão bem espelham, e entre as grades do convento de Conceição de Beja, onde macera a alma pela
inútil espera do retorno do silencioso destinatário
Belos exemplares da contradição humana, tema ideal para um exame acurado na linha de estudos da semiótica das paixões, já teorizados por Algirdas Julien Greimas e Jacques Fontanille.
Há um prazer inexaurível em sentir-se a dor, reflexionando-se sobre ela e expondo-a através de signos representativos do mundo afetivo, organizados na sintaxe elaborada.
A correspondência do poeta social Antônio Frederico de Castro Alves, dividida pelos críticos em ativa (a que enviou a seus amigos) e passiva (a que recebeu desses mesmos amigos), deixa-se ficar à espera dos interessados na coleta de dados lingüísticos
para um trabalho comparativo com a sua posição político-social cantada nos versos épicos de seus poemas.
O debruçar-se sobre o diálogo epistolar entre os escritores José de Alencar e Machado de Assis, tendo como pretexto a vinda de Castro Alves ao Rio de Janeiro, onde se fez conhecer através de uma carta de apresentação ao autor de Senhora, iria mostrar
o jogo verbal de dois intelectuais brasileiros, tão diferentes no seu estilo, mas conscientes do seu fazer lingüístico, no emprego sólido da palavra vibrante.
A correspondência do poeta simbolista João da Cruz e Sousa, que deixa fluir o romantismo nas cartas à Gavita, sua noiva; e que expõe de forma realista as suas necessidades materiais ao Senhor Wendhausen, quando do pedido de um empréstimo financeiro; ao
amigo Nestor Vítor, a quem, relata com nuanças naturalistas o momento em que vive, tormentoso, por causa da doença nervosa de Gavita, agora, sua mulher, é um campo de análise das transformações do homem pela sua linguagem e que vai ressoar nos versos de
seus poemas, como um meio de evasão e de alívio de tensões.
Outros exemplos poder-se-iam citar, como as inúmeras cartas de Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos endereçadas à sua mãe, D. Córdula de Carvalho Rodrigues dos Anjos, a Sinhá-Mocinha, nas quais se podem acompanhar cronologicamente a vida do poeta
na sua passagem pela Paraíba, por Pernambuco e pelo Rio de Janeiro e estabelecer um estudo comparativo entre as construções lingüísticas que marcaram as relações familiares da época e as que determinam hoje essas mesmas relações, a fim de se ir
compondo fundamentadamente a deriva cultural e lingüística da sociedade.
Em outros idiomas, a correspondência de Jean-Jacques Rousseau, a de François Marie Arouet, o Voltaire, as missivas do romântico Wherter, que Johann Wolfgang von Goethe ofereceu ao mundo, pois, o gênero epistolográfico não adquire importância pela
razão única de sua temática, mas por levar o analista a percorrer os caminhos da História de uma época, a reconhecer os valores dos que fizeram e escreveram essa História, os costumes que determinaram o comportamento ético e moral dos grupos sociais, o
momento político-econômico em que a sociedade estava inserida, enfim, a radiografia de uma dada sincronia, através do ato acionário da palavra.
2. DESENVOLVIMENTO
Mas o salto no tempo se faz necessário e, com ele, chega-se a um outro contexto situacional representativo de uma nova concepção de mundo que, em conseqüência, faz estabelecer uma nova relação entre o falante e a língua que utiliza.
Instrumento especular do homem, por ela entrevêem-se os aspectos característicos da mudança por que a sociedade passou na sua marcha inexorável em direção ao amanhã.
Falou-se, mais acima, da importância da epistolografia como fonte de investigação sócio-histórica, e acrescenta-se, aqui, que a partir da análise acurada das formas lingüísticas, das preferências vocabulares na organização lúdica do pensamento e
da visão ontológica desse mesmo pensamento, pode-se regozijar, ou lamentar, que mudanças tão radicais tenham acontecido.
A sociedade foi-se transformando ao embalo da música encantatória dos benefícios tecnológicos e científicos, e deixou-se anestesiar pelos proveitos advindos da visão pragmática de mundo, que modulou novas formas de viver e de interação humana.
Assim, se a linguagem realizava-se feliz ao pôr as coisas em palavras, estas, agora, perturbam-se na boca do falante, no endurecimento das artérias estruturais da tessitura sintática.
Percorreram-se os caminhos da comunicação interpessoal contemporânea e chegou-se não a uma produção autografada por grandes nomes, mas a um exemplário da epistolografia popular, em que a importância da expressão do pensamento do povo reside na
maneira espontânea, emotiva, de expor as suas aspirações e evidenciar as características culturais do seu viver cotidiano.
Livro recente /1993/, testemunha, através da coletânea de vozes ali registradas, o pensamento do cidadão comum em relação ao Governo, ao Presidente da República, tornando-se essas vozes material analítico de grande valor, no que se refere ao estudo
crítico do comportamento ético de uma parcela da população. Ao mesmo tempo, expõem essas vozes, publicamente, pelas palavras trôpegas numa sintaxe falha, as deficiências do setor educacional e, em conseqüência dessa displicência governamental, a
ausência de uma consciência crítica, coletiva e efetiva, da situação política, displiciência que, há muito, lhes vem deixando num estado de entorpecida alienação.
Esse distanciamento cultural, diferente do distanciamento exigido pelo trabalho hermenêutico de busca da gênese significativa do texto, impõe àqueles, como os missivistas analisados, um compulsório exílio nas próprias limitações de seu pensar.
Essas cartas são comprobatórias des-sas existências insulares, no que diz respeito a uma não compreensão racional de problemas nacionais e servem como contundente argumentação de que Executivo e povo não se situam na mesma margem do rio para
resolver a construção da ponte que beneficiaria ambas as partes. Um deseja que o outro se transforme em sua ponte particular, para que cada qual possa atravessá-la, tranqüilamente, e sem esforço.
Têm-se em mãos as cartas enviadas por aqueles que alçam o Presidente à ara da idolatria e que, com expressões de servilismo, beijam-lhe as “santas” mãos e depõem nelas a sua “última esperança”. Palavras de pedintes em linguagem
metaplástica e elíptica encontram-se no pequeno livro Cartas do povo brasileiro ao presidente, que coleta as orações epistolares da “consciência ingênua”i nacional, endereçadas ao Senhor Fernando Affonso Collor de Mello, quando no exercício de seu
mandato presidencial.
Vincular o Presidente a Deus é iconizar esse Deus distante e inacessível, porque abstrato, e torná-lo alcançável pelas vias terrenas do correio, tendo como meios de comunicação os traços raramente não vacilantes da escrita:
Estabelece-se, assim, em algumas passagens, não uma visão sintagmática entre o Poder Divino e o Poder Governamental, não uma relação hierárquica entre entidades de categorias diferentes, mas uma visão paradigmática em que a substituição de um
pelo outro corrobora a idéia de uma identidade comum.
“A voz do Presidente é a voz de Deus.”ii
Para compreender esse aspecto da rigidez normativa da maneira de ser do homem comum como, por exemplo, o de estimular a cultura à personalidade daqueles que se destacam em algum setor de atividade, o de cultuá-los e deixar-se acomodar no prazer da
admiração passiva desses privilegiados, tem-se que ir em busca , para a análise lingüística, de subsídios sociológicos de estudiosos do caráter brasileiro, como Sérgio Buarque de Holanda, que situa nas raízes coloniais a questão comportamental e dos
valores intelectuais do homem desta Nação.
Na busca de resolver seus problemas domésticos, o discurso desse brasileiro, linguagem expressa de sua imaturidade política, desfaz-se das amarras da timidez vocabular, extrapola os limites de seu pequeno horizonte e penetra no mundo de outrem, que só o
conhece coletivamente, como povo, desprovido, portanto, de identidade.
Esse discurso, agora individualizado, não vai ser reconhecido pelo destinatário, que somente habituou-se a interpretar a voz do povo, quando esta se manifesta em conjunto, ocasião em que os signos utilizados para a comunicação representam a linguagem
não-verbal dos aplausos, mas significativas formas auditivas da aceitação tácita da oratória envolvente do governante.
O discurso individualizado daquele que se destaca momentaneamente da multidão passa, então, a adquirir uma característica epistêmica, uma vez que o seu enunciador crê no recebimento de ajuda particular como um reconhecimento e, até mesmo, uma
obrigatória retribuição pela fiel admiração que vem tributando ao seu ídolo: Este, porém, não reconhece, agora, nas formas gráficas do missivista, o autor então inominado nos atos laudatórios da coletividade. Portanto, esta questão, a do confronto
entre a ipseidade e a alteridade, é a responsável pelo hiato social, em virtude da amnésia governamental, quando respeitante ao cumprimento de promessas juramentadas.
“Meu marido também trabalha ele também não consegui dinheiro para me dar. Então eu pensei no Senhor. Como minha sauvação. Me ajude se for me ajudar deposite no Banco Bradesco.”iii
“Vou fazer um pedido, desta vez espero que você me ajudace assim com si você tivesse dando uma mesada a um filho.”iv
Realmente, só assim, fundamentando-se na gênese histórica do povo, podem-se compreender as cartas provindas das mais diversas regiões do País, com idêntica configuração, traduzindo idênticos desejos, transformados em idênticos pedidos ao
Presidente, ser onipotente e, portanto, provedor particular dos signatários:
Fixa-se, pelas marcas materiais da escrita, a mensagem firmada pela urgência do atendimento, desprovida da expressão vocal amenizadora, dos meneios auxiliares dos gestos, da insistência do olhar pedinte. O discurso realizou-se no ato de inscrição do
dizer do subscrevente, que deixou perceptível na pauta .a sua praticidade e a peremptoriedade do seu querer.
“Eu sei que o Senhor tem podé de mim ajudar.”v
“Se não nos ajudar é porque não quer nossa única esperança é o Senhor.”vi
Assim, para os missivistas, o discurso do Presidente tem que se apresentar sempre de forma deôntica, em razão de lhe caber a obrigação de atender as solicitações privativas dos que se comprazem em admirá-lo, elogiá-lo, súditos que são daquele que
ocupa posição imperial tão sobranceira, unicamente por vontade divina:
“O Senhor não foi eleito pelo povo; foi eleito por Deus.”vii
”Confiando em Vosso Espírito de Bondade e de sua Nobre Esposa e seus Nobres Filhos.”viii
“Um abraço respeitoso do súdito.”ix
“Tenho a súbita honra de apresentar a V. Excia. minhas respeitosas saudações, excusando-me, ao mesmo tempo, perante a sua augusta pessoa, pela importunação que esta minha missiva ora representa...”x
“O meu único desejo é que V. Excia., jovem e destemido, seja realmente o Imperador do Brasil, isto é, o supremo magistrado que põe a sua coragem, a desambição, a sua cultura, em defesa dos pobres e humildes.”xi
Essa sobranceria que significa para a multidão anônima a superação dos obstáculos no mundo existencial é a representação sígnica de que esse alguém foi o escolhido, o assinalado pelas forças superiores e, portanto, tem entrada livre, a qualquer
momento em que deseje, no espaço metafísico e pode manter, quando quiser, o diálogo com a entidade suprema: Para alguns missivistas, ao contrário de outros aos quais já se fez referência, a relação sintagmática entre as entidades sobrepõe-se à
relação paradigmática da interpenetração de imagens.
“Sr. Presidente Fernando Collor, é com grande emoção que estou escrevendo esta carta porque tenho certeza de que vou ser atendida, porque eu sei que Deus anda e fala com o Senhor!’xii
“Você é melhor e nunca esqueça disso, Deus o escolheu e estará sempre com você onde quer que você vá.”xiii
A mitificação do homem pelo homem é um dado significativo de registro entre outras atitudes do indivíduo em relação àquele que, por sua posição hierárquica, é, na concepção do missivista, o possuidor dos mais altos valores morais, de acordo com
o seu raciocínio inflexível, conservador, impermeável, para não dizer, reacionário, esclarecendo, aqui, embora dispensável, que o último termo está desvinculado de qualquer conotação político-partidária:
“Nunca jamais pude imaginar que do ventre de uma mulher pudesse surgir tamanho gigante.”xiv
Esse tipo de subscrevente perde a noção da realidade e deixa-se penetrar nos domínios do imaginário, onde, mais facilmente, pode ver o que deseja e fazer dessa visão a sua verdade, que ganha forma, graças, exclusivamente, à sua crença nela:
“Exmo. Sr. Fernando Collor, bem antes das eleições eu tive uma grande visão ao meio dia, que o Predidente ia ser Collor de Mello.”xv
As imagens do Presidente, adequadamente contextualizadas aos seus objetivos, aliadas aos signos representativos da retórica programada do ataque e da defesa, do destruir e do construir, do tomar e do dar, que o caracterizam, é o ponto de partida para a
criação de impressões que vão moldar a consciência ingênua desse povo:
“Eu gostava de ver o Senhor na telelvisão quando falava à multidão e fechava os punhos mostrando garra, muita força e coragem.”xvi
“Senhor Presidente, nós assistimos a sua posse nunca tinha visto um presidente fazer um discurso tão bonito e inteligente, com franqueza e com amor a população pobre, dava para ver nos seus olhos a sinceridade de um homem que queria fazer um Brasil
mais justo, que outros não puderam ou quiseram fazer.”xvii
A leitura literalizada do discurso do Presidente pelo homem comum é a continuação da leitura sígnica do seu mundo individual, sem a reflexão crítica indispensável que o conduza ao discernimento das verdades relativas do ‘possível’, do ‘impossível';
do ‘provável’, do ‘improvável’, pela simples razão de que quem fala como Presidente de uma Nação, quem dirige os destinos de milhões de pessoas, tem que se situar, logicamente, num estágio axiológico superior e, como tal, não pode ser
contestado, porque o seu fazer representa efeitos de uma vontade maior (o Presidente é amigo de Deus) e o seu dizer, a verdade absoluta (o Presidente é o porta-voz de Deus).
Esse é o raciocínio elementar, condicionado à simplificação dos fatos de maneira maniqueísta, por não compreender o missivista que o Chefe de uma Nação é um funcionário público, eleito para um cargo administrativo; por não perceber as mudanças
de humores que determinam o jogo político que o alçaram a esse cargo; por não estar apto a interpretar as filigranas semânticas do discurso retórico, muitas vezes a considerar o próprio povo como entrave às manipulações partidárias.
O Governo, para esse indivíduo, é a forma macrocósmica de seu próprio grupamento familiar, onde a hierarquia entre ascendentes e descendentes, quando há, é determinada pela voz patriarcal ou matriarcal, considerada a sábia, pela experiência, pelo
trabalho ou, até mesmo, pela idade, e, como tal, a voz governamental, deve também ser acatada, simplesmente porque deve ser assim, numa observância de ritual ancestral. É necessário, pois, manter a obediência ao pai:
“O Brasil estava precisando de um Pai. É Fernando Collor de Mello, é o Pai que quer ver o Brasil caminhar em paz e ordem.”xviii
Analisar as cartas do povo endereçadas ao Presidente é um dos caminhos que levam o pesquisador a avaliar a ausência de consciência cívica (de cidadão) de grande parcela da população e, conseqüentemente, a extensão de sua completa ausência no
contexto interacional da vida política do País.
Não há como lhe exigir uma participação ativa, se inexiste a capacidade reflexiva de estabelecer diferenças entre um governo para mim, voltado, apenas, para o atendimentos de satisfações pessoais e um governo para a coletividade, preocupado em
estender os benefícios a toda sociedade. A questão da ipseidade e da alteridade não se limita, apenas, aos domínios governamentais; ao contrário, é um ponto de preocupação analítica que se acrescenta ao estudo do discurso.
Perceber, portanto, os fatores que determinam as mudanças constantes na arena das divergências políticas, e aceitar um Presidente desprovido da aura divina e admiti-lo como um articulador de ações, dependente de fatos circunstanciais, não é possível
a esse signatário, em razão da obstinação religiosa de sua maneira de ser, que lhe veda, principalmente, os olhos do espírito.
No entanto, é interessante notar que o trato do homem comum com o homem Presidente, considerado por ele hierarquicamente superior, pode também tomar o rumo compadresco, comparável à mesma intimidade dos senhores e das senhoras de engenho com os Santos e
Santas de seus altares, na hora do pedido candente de ajuda ou de casamento para as sinhá-moças, como já assinalara Gilberto Freire.
A aversão ao ritualismo comportamental constitui-se uma das marcas da ausência de polidez do brasileiro, como já salientara Sérgio Buarque de Holanda, e que torna frouxas quaisquer regras de convivência social.
“ ... estou aguardando qualquer tipo de ajuda para que eu possa adiguirir uma casa para eu e minha família. Estou aguardando resposta. Que tal se me mandasse o n0 do telefone? A gente se entenderia melhor.”xix
Assim, se o Presidente mantém uma relação estreita com Deus, ele é o seu intermediário ou o seu representante mais próximo, o que facilita ao missivista a transmissão de seu desejo e a possibilidade de ser o mais rapidamente atendido, pois
considera-se sempre o primeiro na escala temporal das respostas.
“... peço-lhe em nome de Jesus Cristo, pelo amor que o Senhor tem a seus filhos, de volta o emprego do meu filho (...). Por este motivo, tomei a liberdade de escrever-lhe e pedir em nome do que é mais sagrado que V. S. envie um mandato de readmissão
para ele, pois eu sei o que o senhor tem a força e o poder nas mãos, só basta agir.”xx
“Ajude-me e lembre-me do meu pequenino caso para um homem tão poderoso quanto o senhor (...). Sei que uma ordem sua basta.”xxi
“Sr. Collor, é só uma pequena ajuda do seu bolso, basta esse trabalho pode manda alguém no correio para eu receber aqui. vou ficar rezando pra na hora que estiver lendo Deus ilumine sua boa consciência para que me ajude. Anciosamente, ficarei
aguardando.”xxii
Embora pareça paradoxal esse comportamento do homem comum em considerar o Presidente uma pessoa de outra esfera no campo das relações sociais e, ao mesmo tempo, bater-lhe com a mão amigavelmente nas costas através de convites os mais inesperados e
surpreendentes, para Sérgio Buarque de Holanda isso já fazia parte da permeável nobreza portuguesa, uma aristocracia aberta, em que não prevalecia , como em outros países, a nítida separação de classes, fato observado e registrado por Gil Vicente em
suas obras.
“... tenho uma deficiência auditiva mais eu vou em frente e se o senhor quiser me conhecer pessoalmente é só me telefonar para ... ou passar um telegrama para...”xxiii
“Se o Senhor viér em Rio Grande e quizer tomar um chimarrão conosco será um enorme prazer “é casa de pobre,” mas é sempre de bom coração.”xxiv
“Se o Senhor quiser saber da minha vida é só vir aqui e perguntar por mim.”xxv
O que se destaca na análise das cartas recebidas pelo ex-Presidente é o desconhecimento dos eleitores do papel exercido pelo Chefe da Nação, que se resume, para eles, num instrumento de facilitação ao atingimento de interesses imediatos, seja o
ingresso num órgão federal, seja a aquisição de objetos materiais, seja qualquer ajuda financeira, pois ele, missivista, é o parceiro do Presidente na troca de favores, já que o voto lhe foi pedido e lhe foi concedido, o que contribuiu para que viesse a
conquistar o cargo que ocupa:
“...o senhor, pediu a nossa ajuda nos ajudemos, agora eu peço a sua ajuda em meu favor, eu gostaria de ganhar uma casa para morar, que fosse minha.”xxvi
O missivista sente-se, por isso, co-participante do Governo, uma vez que é conclamado na oratória do Presidente, que penetra na casa de cada um, pelos meios eletrônicos de informação, a sempre apoiá-lo, a manter-se fiel a seu voto:
“O Senhor tem capacidade de entrosamente, de falar a cada minuto a hora que o Senhor quizer com o ministro da Aeronáutica ou até mesmo do Exército. Senhor Presidente não lhe custa nada dar-me um futuro a um amigo que tanto o estima (...). Telefone
(...) ou se o Senhor achar conveniente use um elicoptero para visitar-me e passar uma tarde de domingo comigo.”xxvii
“... estou vos pedindo qualquer tipo de ajuda para que eu possa adiguirir uma casa para eu e minha família. Estou aguardando resposta. Que tal se me mandasse o no do telefone? A gente se entenderia melhor.”xxviii
A análise da epistolografia popular não pode reduzir-se, portanto, aos domínios da própria língua, no que concerne a um visão meramente estrutural, uma vez que a oralidade explícita na forma escrita, remete o analista ao contexto sócio-histórico do
agente da enunciação.
Naturalmente, é o panorama contextual endofórico, o texto em si, que leva o pesquisador a uma visão mais esclarecedora do contexto situacional exofórico, as circunstâncias em que ocorre o ato da enunciação, e à compreensão das reações
extravasadas nas formas vocabulares que ratificam o despreparo do brasileiro no ato de votar, acostumado à cultura da influência, do valimento, desinteressado de qualquer ação, cujo objetivo seja o bem-estar da coletividade:
“Eu implorei tanto e lutei tanto pela sua vitória que até emagreci de tanto fazer jejum para lhe ver subir a rampa deste Palácio na esperança que com a sua ocupação desta cadeira eu ia ter o direito de morar em uma cazinha que fosse minha isto era o
maior sonho, e achei que ele ia ser realizado com a sua prezidência. Mais eu agora estou perdendo a esperança por que já escrivi tantas carta e até hoje nada foi feito Collor, eu vou enfrentar carona de caminhão mais chego aí, para te falar pessoalmente
sobre isto tudo.”xxix
Os ainda numerosos exemplos de cartas que aqui deixaram-se de citar, mantêm-se nos mesmos padrões dos que já foram transcritos, e caracterizam-se todos por não apresentarem os missivistas qualquer indício de sentimento de nacionalidade, no sentido de
que não há um pensamento voltado para a comunidade, um pensamento que considere em primeiro lugar as necessidades coletivas. Ao contrário, há, apenas, a urgência de conquista pessoal, de solução imediata dos próprios problemas, o olhar para dentro de
si mesmo.
Na linguagem de cada missivista, ignora-se o emprego do pronome nós, elemento lingüístico referencial de brasileiros, e usam-se apenas o eu, o me, o mim, que circunscrevem os limites da ação de ganhar, de receber, de beneficiar-se, de cada um.
Quando surge, de repente, a primeira pessoa do plural, após o registro das pretensões do remetente, ainda sim, este nós mantém-se delimitado ao espaço social familiar, introduzindo-se de maneira política numa frase que, sinteticamente, finaliza o
compadrio da ação e o aspecto comercial do ato de votar.
“...pode confiar na minha pessoa, mesmo pela carta que lhe envio, não sou falso, serei e sou sempre o seu companheiro, preciso muito deste carro sem falta, e espero com sua colaboração. Somo todos 10 votos, todos seus.”xxx
“Sendo eu sua eleitora me acho com direito de lhe escrever aqui fomos na família 14 votos, já é alguma coisa, eu acho.”xxxi
Não cessa nesses exemplos, a capacidade de o missivista negociar a sua cidadania. Há aqueles mais atuantes, veteranos que são na arte eleitoreira do voto mercenário, que expõem, de forma explícita, as suas atividades transacionais em diferentes
Partidos. Afirmando ter “em média cinqüenta votos” disponíveis, ter ajudado a eleger este ou aquele candidato e não ter obtido a ajuda prometida que os políticos beneficiados pela sua atuação haviam oferecido, põe-se à disposição do Presidente,
enganadoramente, tal como lhe fizeram os candidatos criticados, dizendo que o oferecimento é “independentemente de qualquer solicitação”xxxii
Sabe-se que a linguagem oral é a modalidade preferencial do brasileiro e, no entanto, dispôs-se ele a enfrentar a comunicação escrita, a traçar as suas idéias no papel, deixando momentaneamente, de lado, a sua aversão às letras, para realizar a
transformação das palavras em benesses que esperava rapidamente concretizarem-se. Por isso, escreveu. Afinal, esse missivista depositou toda a sua fé no verbo vibrante de um Presidente jovem, bem apessoado, com a melodia de sua voz demarcada pela
entonação de palavras-chave, previamente selecionadas, e gestualização de um guerreiro. É certo que esse missivista ouvia, estimulado pela retórica presidencial, justamente o que estava desejoso de ouvir.
Compreende-se, então, porque o sofista Górgias, já no século V a. C., dizia não ter as palavras valor pelo seu significado, mas pelo seu poder encantatório, que leva o ouvinte a extasiar-se pela sua musicalidade, pela sua doçura, deixando-se embalar
nas suas próprias emoções, emoções que as palavras suscitam. As palavras seriam, então, um estimulador psíquico.
A crença no poder total da expressão verbal de um governante encontra, assim, explicação satisfatória, se se tiver sempre em mente o perfil psicológico do homem comum, disposto a agarrar-se numa esperança, já que se sente desprotegido pelos órgãos
institucionais. Instituições como o Congresso são coletivas e, portanto, desarmônicas aos olhos do homem do povo. É do Chefe da Nação a voz única do poder, portanto, a voz do dar, a voz do ajudar, a voz do socorrer, a voz do auxiliar.
São as cartas do povo ao Presidente uma radiografia cultural do homem brasileiro, disposto a ultrapassar os entraves da organização burocrática do Estado, por via da comunicação direta com a autoridade, desconhecendo, porém, esse homem brasileiro, a
existência de assessores designados para lerem a correspondência, selecioná-las, arquivá-las, sem que o destinatário tenha, muitas vezes, sequer conhecimento do esforço do subscrevente em mal traçar as suas linhas.
Após um trabalho de reflexão sobre as características dos missivistas, podem-se adquirir os fundamentos necessários ao estudo da psicologia social, a fim de que melhor seja interpretada a sua visão ética de mundo.
Em termos de análise lingüística dos textos escolhidos, é importante salientar, de imediato, que as redações dos próprios missivistas são a demonstração do esquecimento dos sucessivos governos de uma política educacional efetiva para todos e em
todos os níveis.
A ausência dessa preocupação com o desenvolvimento cognitivo do homem comum brasileiro é uma das causas de ele se manter num reduzido círculo de raciocínio e, em conseqüência, sem condições de avaliar os seus próprios atos e os de outrem.
Essa é uma das razões por que tenham os seus próprios valores éticos e morais, uma vez que a percepção dos fatos está relacionada à própria circunstância de sua ocorrência.
Assim, se o Presidente é o Chefe de todos os brasileiros, poderá, por sua única vontade, presentear, oferecer empregos, etc., a uma parcela considerável da população, pela simples razão de ter sido eleito por ela e por emanar dele o poder de
satisfazer quem quer que seja, desde que seja essa a sua vontade.
Ignoram essas pessoas o significado da palavra público, uma vez que o erário, por ser assim denominado, não é para servir a cada um em particular, como de hábito, imaginam, mas ao povo, no seu sentido coletivo de representatividade nacional e não no
individual (eu sou povo).
No simplismo dos pensamentos, em sua maioria mal formulados, os subscreventes se fixam na idéia elementar da troca de favores, porque é assim que deve funcionar o mecanismo das relações entre vizinhos na sua esfera vivencial. A idéia de Nação, no
sentido político-social do termo, traz certa complexidade de conceituação, considerando a dificuldade de se estabelecer a prioridade de todos, dos quais se desconhecem os sofrimentos, em detrimento daquele que, em carta, expôs o seu drama familiar ou,
apenas, quer a satisfação de um desejo caprichoso.
Deixar de lado as suas características personalísticas de agir e oferecer ajuda imediata e espontânea, quase sempre em forma de mutirão assistencial, somente em casos de grande impacto emocional, divulgados e visualizados à exaustão pelos meios de
informação eletrônicos que, momentaneamente, representam o papel de estimulador da solidariedade nacional.
O fato de eles apresentarem um grau de escolaridade que lhes permite manter, apenas, uma interação dialógica superficial, não impede de se estabelecer outros dados avaliativos sobre o discurso da ação, além dos que já foram desenvolvidos neste
trabalho.
É, justamente, na superficialidade do dizer dos missivistas em questão, que se observa a ausência de conceitos relacionados à obrigação, ao dever, à moral, ao direito. Este último jamais relacionado à uma posição jurídica, adquirida pela
cidadania e, portanto, dependente do dever que se expressa pelo hábito da ação moral. Ao contrário, o direito é entendido, apenas, como prerrogativa de que se acham detentores, precisamente, pelo escambo de favores, e não pelo cumprimento de sua
obrigação de cidadão, de manter o voto impermeável e, portanto, invulnerável à sedução do jogo argumentativo de outrem.
As cartas, que aqui serviram de objeto de análise, retratam a maneira impressionista de ver os fatos e deixar-se viver esses fatos, de uma parte considerável da população brasileira, que registra as suas reações imediatas por meio de iconicidade
verbal, através de signos elementares e sincopados.
3. CONCLUSÃO
A conclusão a que se chega, é que o estudo da epistolografia é uma porta que se abre ao mundo do missivista, crédulo da manutenção sigilosa de seus rasgos de emoção; de fraqueza; de audácia.
É por esse devassar das letras alheias, que se chega às diferentes capacidades de o homem dispor das palavras para dizer-se presente no mundo, para levar a sua voz impressa aos olhos reflexivos ou admirados do destinatário, através da capacidade de
articulação complexa de pensamentos argumentativos (Vieira); da dolorosa expressão de sua profunda decepção amorosa (Sóror Alcoforado); do lúdico desenvolver de articulações sintático-estilísticas (Alencar e Machado de Assis); das impressões
juvenis de um poeta (Castro Alves); das angústias de quem se sobrepôs intelectualmente à rejeição étnica (Cruz e Sousa); do respeito e consideração filiais (Augusto dos Anjos) ou dos arroubos da irreflexão, ou das formas de adulação e de lisonja do
homem brasileiro, não eleitor, mas... que vota.
4.RECAPITULAÇÕES SUMÁRIAS
4.1 - RESUMO
A epistolografia popular permite ao pesquisador obter um conhecimento mais acentuado da psicologia social por meio da análise do contexto discursivo dos signatários. A superação da oralidade e a incursão pela palavra escrita são demonstrativos do
esforço desses missivistas no empenhar-se em obter a satisfação dos seus interesses materiais. O trabalho hermenêutico que se está realizando, visa a resgatar o significado natural do mundo em que se movimenta uma parcela considerável do povo brasileiro
e a compreender as manifestações de idolatria, que marcam o seu perfil psicológico.
4.2 - RESUMEN
La epistolografia po-pular permite al investigador obtener un conocimiento más acentuado de la psicología social por medio del análisis del contexto discursivo de los signatarios. La superación de la oralidad y la incursión por la palavra escrita son
demonstrativos del esfuerzo de esos misivistas al empeñar-se en obtener la satisfacción de sus intereses materiales. El trabajo hermenéutico que se está realizando tiene por objeto rescatar el significado natural del mundo en que se mueve na parte
considerable del pueblo brasileño y comprender las manifestaciones de idolatría, que marcan su perfil psicológico.
4.3 - ABSTRACT
The popular epistolography permits to get a more accentuated knowledge of social psicology by means of the discursive context of their signers. The surpassing of orality and the incursion through the written word are demonstrative of the effort of those
letter writers in the perseverance in order to get the satisfaction of their material interest. The hermeneutic work what is being executed aims to rescue the natural meaning of the world in which a large part of the Brazilian population is moving and to
understand the manifestation of idolatry that marks its psycological profile.
5. BIBLIOGRAFIA
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ANJOS, Augusto dos. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
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CRUZ E SOUSA, João da. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.
FREIRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. 13. ed. bras. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966. 2. tomo.
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RICŒUR, Paul. Teoria da interpretação. Trad. Artur Morão. Rio de Janeiro: Edições 70, /1987/.
6. NOTAS
i. Álvaro Vieira Pinto, in: Cartas do povo brasileiro ao presidente, p. 17
ii. Op. cit. p. 27
iii. Op. cit. p. 33
iv. . Op. cit. p. 50
v. Op. cit. p. 32
vi. Op. cit. p. 32
vii. Op. cit. p. 25
viii. Op. cit. p. 49
ix. Op. cit. p. 44
x. Op. cit. p. 44
xi. Op. cit. p. 43
xii. Op. cit. p. 23
xiii. Op. cit. p. 29
xiv. Op. cit. p. 61
xv. Op. cit. p. 60
xvi. Op. cit. p. 62
xvii. Op. cit. p. 62
xviii. Op. cit. p. 40
xix. Op. cit. p. 46
xx. Op. cit. p. 32
xxi. Op. cit. p. 32
xxii . Op. cit. p. 41
xxiii. Op. cit. p. 45
xxiv. Op. cit. p. 45
xxv. Op. cit. p. 47
xxvi. Op. cit. p. 52
xxvii. Op. cit. p. 45-46
xxviii. Op. cit. p. 46
xxix. Op. cit. 52-53
xxx. Op. cit. p. 53
xxxi. Op. cit. p. 53.
xxxii. Op. cit. p. 54.