CONTRIBUIÇÃO DO MÉTODO COMPARATIVO PARA A DETERMINAÇÃO DA  EXISTÊNCIA DO INDO-EUROPEU

João Bittencourt de Oliveira

1. INTRODUÇÃO

Convencionou-se denominar indo-europeu, indo-germânico ou  ariano, a língua pré-histórica, falada com relativa unidade, há cerca de três mil anos antes de Cristo, numa região incerta da Europa Oriental, mas que a grande parte dos lingüistas concordam tratar-se da região meridional da atual Rússia. Não obstante as divergências da origem e o emprego de termos diferentes para designar o povo que falava essa língua, o certo é que ela realmente existiu. Atestam-no as línguas desprendidas da protolíngua (pelo método comparativo), o estudo das religiões comparadas, a geografia lingüística e a Antropologia.

2. AS LÍNGUAS DA FAMÍLIA INDO-EUROPÉIA

A certa altura de sua história, por razões ainda não satisfatoriamente esclarecidas, entregou-se o povo indo-europeu a grandes migrações, espalhando-se por uma parte da Ásia e uma grande parte da Europa. A evolução lingüística, de par com o contato com povos de diferentes línguas,   determinou uma intensa diferencição em múltiplas línguas cognatas.
Costumam os lingüistas dividir o indo-europeu em dois grandes ramos: o asiático e o europeu.

2.1  AS LÍNGUAS DO RAMO ASIÁTICO

No ramo asiático destacam-se o hitita, o tocário e o indo-iraniano.

2.1.1 O hitita

Atualmente extinto, o hitita teria sido falado durante o primeiro e o segundo milênios a. C. na antiga Anatólia, onde hoje se localizam a  Turquia e o norte da Síria. Pouquíssimos textos hititas eram conhecidos até o início do século XX, e sua confirmação como língua indo-européia só se deu após 1915. A integração do hitita na gramática comparativa do indo-europeu, entretanto, tem sido uma grande contribuição para os estudos do indo-europeu neste século.

2.1.2 O tocário

Tudo o que se sabe sobre o tocário é através de textos fragmentários encontrados no Turquestão Chinês, contendo matéria de natureza religiosa budista. Esse ramo do indo-europeu foi falado por um povo de origem possivelmente européia, de cultura bem adiantada, que viveu na Ásia até cerca do século X da Era Cristã. É  uma língua extinta.

2.1.3 O indo-iraniano

O indo-iraniano compreende dois sub-ramos, o da Índia e o do Irã, antiga Pérsia. Os povos que falavam as antigas línguas do grupo se denominavam  arya, transformado em iran, nome que significa, portanto, “dos árias”.
O sub-ramo índico do indo-iraniano foi falado na área que corresponde atualmente ao centro-norte da Índia e do Paquistão. Além de um dialeto pouco conhecido falado ao norte do Iraque durante o segundo milênio a. C., o mais antigo registro que se conhece nessa língua é o sânscrito védico do Rigveda (“Veda dos Cantos”), que contém as mais antigas escrituras sagradas da Índia, escritas por volta do século X a. C. O sânscrito védico é, pois, o mais antigo dos idiomas indo-europeus que se conhece. As grandes e famosas epopéias Mahabhárata e  Ramayana foram escritas em sânscrito clássico, variante culta que foi muito bem estudada por vários gramáticos, destacando-se Panini no século IV a. C. Em nossa época, o sub-ramo índico está representado por dezenas de línguas e dialetos na Índia, destacando-se o hindi, o bengali, o  singalês (na ilha do Ceilão) e o  romani, conhecida como a língua dos ciganos.
Do sub-ramo persa do indo-iraniano conhecem-se como línguas mais antigas o  velho-persa, falado no primeiro milênio a. C.,  onde hoje se localizam o Irã e o  Afganistão,  língua   oficial de  Dario I (que reinou de 422 a 486 a. C.) e o avesta, a  língua  sagrada  de  Zoroastro.  As principais línguas iranianas modernas são o  persa, o curdo e o osseta.

2.2  AS LÍNGUAS DO RAMO EUROPEU

Vimos até aqui as línguas indo-européias do continente asiático.Vejamos agora sucintamente as línguas do ramo europeu. São elas: o grego, o  latim, o  céltico, o  germânico, o eslavo, o báltico, o albanês, e o armênio.

2.2.1 O grego

O grego é a língua dos antigos helenos e é falada na Grécia desde 1600 a. C. O grego, apesar dos inúmeros dialetos, tem sido uma língua de relativa uniformidade ao longo de sua história. O textos antigos revelam que na Grécia antiga, cada cidade ou região tinha seu falar próprio, havendo, porém, a existência de um sentimento lingüístico comum: o ático (em Atenas), o aqueu (arcaico-cipriota), o eólico (empregado na  Beócia, na Tessália e em Lesbos), o dórico (na Lacônia)  e o jônico (na ilha Eubéia) eram sentidos como variantes de uma língua ideal.
Dos diversos falares gregos assumiu particular importância o dialeto de Atenas, o ático, cuja feição literária é o  grego clássico, e que serviu de base a uma língua comum (koiné dialectos), de onde deriva o grego moderno. As obras de Platão são os documentos mais antigos escritos nesse dialeto. Já os poemas homéricos a Ilíada  e a Odisséia, que precedem ao resto da literatura grega, estão mesclados de elementos dialetais jônico e eólico.
 

2.2.2 O latim

O latim, originalmente um simples dialeto de pastores e agricultores, foi falado no Lácio , pequena região às margens do rio Tibre, onde mais tarde se edificou a cidade de Roma, na Península Itálica.  Tornou-se depois a língua dominante da península, e foi levada  pelos romanos para os países por eles conquistados, onde o adotaram, por fim, para língua própria as populações vencidas e romanizadas.
As mais antigas inscrições latinas datam de aproximadamente do século VI a. C. A tradição literária, porem, começa em Roma no século III a. C., com o aparecimento dos primeiros escritores: Lívio Andronico, Cneo, Ênio. O período de ouro do latim clássico é representado pela época de Cícero, Augusto e Vírgílio. Por essa época, passa o latim então a apresentar dois aspectos que, com o correr do tempo, se tornam  cada vez mais distintos: o clássico (língua escrita, literária, um tanto artrficial) e o vulgar (falado pelas classes inferiores da sociedade romana).
Denominam-se línguas românicas as que conservam vestígios indeléveis de sua filiação ao latim no vocabulário, na morfologia, e na sintaxe. São elas: o português, o francês, o espanhol, o italiano, o provençal, o romeno, o reto-românico,  o sardo e o dalmático (extinto).

2.2.3 O céltico

Os celtas  eram um grupo de  povos de língua indo-européia, individualizados por volta do segundo milênio. Seu habitat primitivo foi, com muita probabilidade, o sudoeste da Alemanha, de onde se viram compelidos para a Gália, para a Espanha, para as ilhas Britânicas, para o vale do Pó, até que por fim, foram submetidos pelos romanos (século III a. C. -  século I a. C.). É representado pelo gaulês (celta-comum), o britônico (que continua no galês, falado no País de Gales), o gaélico (falado na Irlanda, na Escócia e na Ilha de Man) e o bretão, hoje usado na zona rural da Bretanha.

2.2.4 O germânico

O ramo germânico vem despertando especial interesse para os comparatistas devido às suas peculiaridades fonéticas e morfológicas. Em meados do primeiro milênio a. C., tribos germânicas habitavam o sul da Escandinávia e norte da atual Alemanha. Suas expansões e migrações a partir do século I a. C. estão bem documentadas.
Distribuem-se as línguas germânicas em três sub-grupos: o gótico, o nórdico e o ocidental. O gótico, hoje língua morta, é atestado principalmente por fragmentos de tradução da Bíblia pelo bispo Wúlfila, no século IV a. C. No sub-ramo nórdico incluem-se o islandês, o norueguês, o sueco  e o  dinamarquês.  No germânico ocidental  costumam os lingüistas distinguir o alto-alemão (de onde deriva o alemão moderno), o baixo-alemão (que deu origem ao holandês), o frisão (hoje representado por dialetos locais do norte da Holanda), e o velho-inglês, língua dos anglos, saxões e jutas, que deu origem ao inglês moderno.

2.25  O báltico

O báltico e o eslavo desenvolveram-se  paralelamente do indo-europeu,   guardando entre   si muitas semelhanças. Alguns comparatistas, entretanto, inclinam-se a rejeitar a unidade balto-eslava. No início da Era Cristã, tribos bálticas e eslavas ocuparam uma extensa área do oeste europeu. Por volta do século V a. C., os eslavos começaram a se expandir em todas as direções, e até o presente falam-se línguas eslavas na maior parte do oeste europeu e norte da Ásia.
Do ramo báltico fazem parte o velho-prussiano (desaparecido nó século XVII) e o lituano, de grande interesse para os comparatistas, devido ao seu caráter conservador. No ramo eslavo desperta grande interesse o  velho-eslavo: idioma em que se encontram os mais antigos textos, inclusiive uma antiga tradução búlgara dos Evangelhos feita pelos missionários Cirilo (ou Kirilo) e Metódio, datável do século IX. Do velho-eslavo derivam-se  o búlgaro, o serbo-croata, o  esloveno, o russo, o  ucraniano, o tcheco e o  polonês.
O russo, bem como diversas outras línguas eslavas, escreve-se em alfabeto cirílico, baseado no grego porém bem mais complexo.

2.2.6 O albanês

O  albanês, a língua oficial da República da Albânia, é conhecido a partir do século XV d. C. Constitui um dos ramos do indo-europeu que ainda aguarda pesquisas.

2.2.7 O armênio

O armênio, como o grego, é uma língua única. É atestado desde o século V d. C. através de uma tradução dos Evangelhos, conservada em manuscritos do século IX, grafados em alfabeto próprio. Fala-se o armênio na República da Armênia, na Geórgia, e em certas regiões da Síria, Turquia e Bulgária.

3. COMPARATIVISMO E RECONSTRUÇÃO

O comparativismo é a técnica de pesquisa na gramática histórica, que consiste em estabelecer a comparação das palavras e estruturas gramaticais de línguas que possuem uma origem comum. O método comparativo permite-nos depreender fonemas, elementos morfológicos ou étimo, não documentados na língua de origem, ou seja, permite a reconstrução das formas desaparecidas. O indo-europeu foi esquematicamente reconstruído pela gramática comparativa das línguas indo-européias antigas, documentadas, como o sânscrito, o grego  e o latim.

3.1 ESTUDOS  LINGÜÍSTICOS  DA  FAMÍLIA  INDO-EUROPÉIA

Nesta seção, pretendemos fazer uma resenha das principais contribuições dos comparatistas na tentativa de elucidar os enigmas que envolvem a protolíngua que deu origem às mais importantes línguas  modernas da Europa e parte da Ásia.
Os antigos gregos e romanos já haviam percebido que as línguas que falavam guardavam entre si algumas semelhanças e, como outras línguas européias, se tornaram objeto de atenção acadêmica na Idade Média e no Renascimento, constatando-se que muitas delas apresentavam maior semelhança com o latim e o grego do que com o hebraico e o húngaro, por exemplo. Porém uma delimitação precisa das fronteiras da família indo-europeéia só se tornou possível quando, no século XVI, os europeus começaram a aprender o sânscrito.
Em 1786, Sir William Jones, orientalista e jurista britânico, que incentivou os estudos orientais no Ocidente, escreveu um ensaio em que observa  a semelhança do sânscrito com o grego e o latim. Jones apresentou a hipótese de que essas três línguas eram rebentos de uma só árvore e que provavelmente o germânico e o céltico tinham também uma origem comum.
No século XIX, os lingüistas históricos e comparatistas besearam suas teorias nas observações de que há semelhanças entre determinadas línguas e de que as diferenças são sistemáticas, particularmente no que diz respeito a certa regularidade nas correspondências sonoras. Admitiram também que as línguas que apresentam diferenças sistemáticas, por menores que sejam, haviam descendido de uma protolíngua comum.
O objetivo principal dos comparatistas históricos do século XIX era desenvolver e elucidar o parentesco genético existente nas línguas faladas no mundo. Procuraram, assim, estabelecer as principais famílias de línguas do universo e definir princípios básicos para a classificação dessas línguas.
Em 1816, o lingüista alemão Franz  Bopp chamou a atenção para as relações morfológicas entre o sânscrito, o latim, o grego, o persa e o germânico, em sua obra Übes des conjugationssystem der Sanskritsprache in Vergleichung mit jenem der greichischen, lateinischen, persischen und germanischen Sprache (“Sobre o sistema de conjugação da língua sânscrita, em comparação com a do grego, latim, persa e germânico”). Dois anos mais tarde, o filólogo dinamarquês Rasmus Rask publicou Udersogelse om det gamle Nordiske aller Islandske Sprogs Oprindelse (“Investigação sobre  a origem do velho dinamarquês ou língua islandesa”), em que mostra, de maneira sistemática, a relação do germânico com o latim, o grego, o eslavo e o báltico.
As investigações de Rask foram retomadas pelo lingüista alemão Jacob Grimm, que publicou um tratado em quatro volumes (1819-1822) intitulado Deutsch Grammatik (“Gramática  Alemã”). Nesse monumental trabalho, Grimm discute as alternâncias vocálicas peculiares do indo-europeu por ele denominadas Ablaut (como por exemplo em inglês:  sing, sang, sung, “canto”, “cantei”, “cantado”). Grimm também contribuiu para o estabelecimento de certas correspondências fonéticas entre o sânscrito, o grego, o latim e o germânico, como veremos no quadro mais adiante. Devido à regularidade dessas mudanças, tal fenômeno ficou conhecido como a “Lei de Grimm”.
Em 1838, Bopp demonstrou que as língusas célticas eram indo-européias. Em 1850, o filólogo alemão August Schleicher fez o mesmo com relação ao albanês, e em 1877, outro filólogo alemão, Heinrich Hübschmann, mostrou que o armênio constituía um ramo independente do indo-europeu, e não um sub-ramo do iraniano, como se supunha. Desde então, a família indo-européia tem sido aumentada pela descoberta do tocário e do hitita e outras línguas da Anatólia.
A filiação do tocário ao indo-europeu foi anuciada pelos eruditos alemães Emil Sieg e Wilhelm Siegling em 1908. O orientalista norueguês Jorgen Alexander Knudtzen reconheceu o hitita como língua indo-europeía com base em duas cartas encontradas no Egito em caracteres cuneiformes (traduzidas em Die zwei Arzawa-briefe, 1902; “As duas cartas de Arzawa”), porém seus pontos de vista só foram acatados após 1915, quando Bedrich Hrozný publicou, em Mitteilungen der deutschen Orient-Gesellschaft, o primeiro trabalho por ele realizado de decifração de copioso material encontrado nas ruinas da própria capital hitita.
A primeira gramática comparativa das principais línguas indo-européias foi a Vergleichende Grammatik des Sanscrit, Zend, Greichischen, Lateinischen, Litthaunschen, Altlaswischen, Gotischen und Deutschen (“Gramática comparativa do sânscrito, zenda, grego, latim, velho eslavo, gótico e alemão”; priemira edição 1833-52) de Bopp. Tanto o trabalho de Bopp quanto o menos ambicioso de August Schleicher intitulado Compendium der vergleichenden Grammatik der indogermanischen Sprache (“Compêndio de gramática comparativa das línguas indo-européias”; primeira edição 1861-62) se tornaram obsoletos pela grande ruptura dos anos 70, quando os eruditos perceberam que as correspondências sonoras não são apenas regras empíricas que não precisam ser observadas com rigor, e que as aparentes exceções às leis fonéticas podem ser freqüentemente justificadas mediante uma análise mais precisa do sistema sonoro no próprio indo-europeu. A diferença entre o gótico d em fadar “pai” e o p em bropar “irmão”, por exemplo, ambos correspondentes ao t  em sânscrito, grego e latim, se justifica pela posição original do acento tônico. Essa descoberta ficou conhecida entre os comparatistas como a “Lei de Verner” (em homenagem ao lingüista alemão Karl Verner). Desse modo, o  d aparece em palavras cujas sílabas precedentes eram originalmente átonas (compare: grego patér-, sânscrito pitár-); já o p  ocorre em palavras cujas sílabas precedentes eram tônicas (compare: grego phráter- “membro de um clã,” sânscrito bhrátar-).
Os conhecimentos e as opiniões que se acumularam no final do século XIX estão copiosamente  incorporados na obra do lingüista alemão Karl Brugmann, intitulada Grundriss der vergleichenden Grammatik der indogermanischen Sprache (“Esboço da gramática comparativa indo-européia”; segunda edição 1897-1916).
A edição de 1937 da Introduction a l’étude comparative des langues indo-européenes  de Meillet, republicada pela Universidade de Alabama em 1964, permanece entre os melhores e mais abrangentes trabalhos de gramática comparativa indo-européia. Este foi, por sinal, o texto básico de que nos servimos para a elaboração da presente comunicação.

3.2 UM EXEMPLO DE RECONSTRUÇÃO

Um grande número de línguas indo-européias possui uma palavra similar para o termo de parentesco “nora”, como por exemplo: sânscrito snusa, inglês antigo snoru, antigo eslavo eclesiástico snukha (cf. russo snokha), latim nurus, grego  nuos, armênio  nu  e albanês nuse (que também significa “noiva”).
Todas essas formas, conhecidas como cognatas, evidenciam a configuração fonética da palavra indo-européia pré-histórica para designar “nora”, que é seu ancestral comum. Podemos observar que o sânscrito, o germânico e o eslavo têm  sn no início da palavra. Sabe-se que o s  indo-europeu desapareceu antes de n em outras palavras no latim, grego, armênio e albanês; assim podemos assegurar que as formas latina, grega, armênia e albanesa remontam à raiz indo-europeia *sn (compare o latim  nix, nivis, “neve” com o inglês snow e o alemão Schnne). Prosseguindo a análise minuciosa dos demais fonemas dessa mesma palavra, os comparatistas chegaram a sugerir uma forma original hipotética *snusos, de gênero feminino.
Esse princípio é conhecido no comparativismo como a regularidade nas corrrespondências sonoras; ela é a base das ciências da etimologia e da lingüística comparativa.
O quadro 1 procura mostrar a regularidade das correspondências fonéticas entre algumas línguas provenientes da língua comum a que se convencionou chamar indo-europeu.
 QUADRO    1
____________________________________________________________________________
indo-europeu            sânscrito            grego           latim             inglês           alemão
                p                       p                      p                  p                   f                     f (v)
                t                        t                       t                   t                    th                  d
                k                       k (ou ç)            k                  c                   h                    h
                kw                    k (ou ç)            p (ou t )       qu                 wh                 w
                b                       b                      b                   b                   p                   pf
                d                       d                     d                   d                    t                    z
                g                       j                      g                   g                    k                   k
                gw                    g (ou j)            b   (ou d)      v                    qu (ou c)       k
                bh                     bh                    ph                 f (e b)            b                   b
                dh                     dh                    th                  f (e d)            d                   t
                gh                     h                      kh                 h                    g (ou y)        g
                gwh                  gh                    th (ou ph)      f (ou v)          w                 w
                w                      v                      w                  v                    w                 w
                m                     m                      m                  m                   m                m
                s                       s                       s                   s                     s                  s

O quadro 2 apresenta uma seleção de vocábulos que têm servido de base para os comparatistas reconstruirem as formas ou raízes originárias na protolíngua.

QUADRO 2
_________________________________________________________________________
indo-europeu      significado   sânscrito         grego           latim        inglês       alemão
__________________________________________________________________ _______
    *ped-               pé                    pádah             pous            pes          foot           Fuss
    *pater-             pai                   pitar               pater            pater        father       Vater
    *tre-                três                   tráyah             treis            tres          three         drei
    *kap-              cabeça              kapulam         kephalé      caput       head          Haupt
    *kerd-             coração            -------             kardia          cor           heart         Herz
    *kw-               quem?              káh                poteros, tis  quis         who           wer
    *dam-             domar              damitá            dmazó         domare    tame         zähmen
    *gen-               raça                 jánah              genos          genus       kin            Kind
    *gwen-            vir                   gámati            bainô          venire       come         kommen
    *bher-             carregar           bhárami         pherô          ferre         bear          Bahre
    *bhrater-         irmão              bhratar           phrater        frater        brother      Bruder
    *dhugter-        filha                 duhitár           thugater      ------        daughter   Tochter
    *dhwer-          porta                d(h)várah       thura           fores        door          Tor
    *ghes-             ontem               hyáh              khthes         heri         yesterday   gertern
    *gwherm-       calor                gharmáh         thermos      formus     warm        warm
    *weid-             ver                   vedá               (w)eidos     videre      wit            Wit
    *matr-            mãe                  mater             mater          mater      mother      Mutter
    *seu                filho                 sunus             huios          _____      son            Sohn
    *swes-            irmã                  svásar            ______      soror        sister         Schwester
    *swol-             sol                    _____           hélios         sol           sun            Sonne

Como se pode depreender dos quadros acima, o p  inicial indo-europeu se manteve no sânscrito, grego e latim e transformou-se em f nas línguas germânicas; o m inicial foi preservado em todas as línguas descendentes; o  k se manteve no sânscrito, grego e latim, passando a  h  nas línguas germânicas; o  s  foi preservado em todas as línguas exceto no grego onde passou a h ; o b se manteve no sânscrito e nas línguas germânicas, passando a  f
no grego e no latim. Os espaços vazios indicam que as noções correspondentes nessas línguas não derivam da mesma raiz indo-européia.

4.  CONCLUSÃO

Entende-se por indo-europeu a língua tronco, pré-histórica, falada há cerca de três mil anos antes de Cristo numa região ainda incerta da Europa Oriental. Daí se espalhou, em virtude de grandes movimentos migratórios, por uma parte da Ásia e uma grande parte da Europa, constituindo amplos grupos ou famílias dialetais. Desses grupos, depreendidos principalmente pelo método comparativo, temos documentadas algumas línguas hoje mortas, como o sânscrito (na Índia), o  velho-eslavo ou eslavo eclesiástico  (nos Bálcãs), o Gótico (também nos Bálcãs), o grego (na Grécia). Dessas línguas uma é o latim, do grupo itálico, cuja existência na região do Lácio, na Itália, está documentada desde o século VII a. C. A essas línguas prendem-se, por filiação direta, ou indireta, as principais línguas modernas  da Europa.
Examinando a estrutura interna das línguas bem como comparando línguas de um mesmo tronco, os lingüistas conseguiram reconstruir formas primitivas de uma determinada família de línguas. Uma técnica particularmente eficiente, e ainda não superada, de reconstruir as línguas “mortas” é o método comparativo. Comparando as diversas línguas ou dialetos descendentes, a história lingüística de uma família de línguas pode ser parcialmente reconstruída e representada numa árvore genealógica.
Devido às limitações do presente trabalho, deixamos de desenvolver outras características importantes do indo-europeu, tais como: a existência de aspecto verbal, o complexo sistema de declinações, os morfemas reduplicativos e suas funções.
 

5. BIBLIOGRAFIA SUMÁRIA

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