OS ESTUDOS DIALETAIS NO NORDESTE BRASILEIRO

Maria do Socorro Silva de Aragão

Introdução
 

 O presente trabalho é a continuação natural e o resultado de cerca de vinte anos de estudos e pesquisas no campo da Dialetologia e da Geografia Lingüística, por nós desenvolvidos na Universidade Federal da Paraíba e atualmente na Universidade Federal do Ceará.

 Apesar dos problemas e dificuldades que tal tipo de trabalho enfrenta, mas com esforço e pertinácia, temos tenatdo, juntamente com outros abnegados de todo o Brasil, manter os estudos dialetais sempre presentes e atuantes, a fim de que nossos alunos e as gerações futuras possam ter pontos de referência sobre os vários aspectos do Português do Brasil em suas variedades diatópicas, diastráticas e diacrônicas.

 A situação atual dos estudos de Dialetologia e de Geografia Lingüística em nosso país, de modo geral e no Nordeste, em particular, ainda não pode ser considerada ideal, mas já conseguimos alguns resultados e suas perspectivas futuras podem vir a ser as melhores possíveis.
 

1. Os Estudos Dialetais no Brasil

1.1. Histórico
 

 Os estudos dialetológicos em sentido amplo, e a geografia lingüística em particular, não têm ainda tradição muito firmada no Brasil.

 Apesar do esforço de um grupo de pioneiros como os professores Serafim da Silva Neto, Antenor Nascentes e Cândido Jucá Filho inicialmente e, posteriormente, dos professores Sílvio Elia, Celso Ferreira da Cunha, Nelson Rossi e Heinrich Bunse, poucos são os cursos de Dialetologia e Geografia Lingüística em nossas universidades e menos ainda os Atlas Lingüísticos existentes ou em elaboração.

 O professor Serafim da Silva Neto, um desses pioneiros, iniciou seus cursos de Dialetologia em 1951, na Universidade de Minas Gerais. Em 1953, fundou, no Museu Nacional do Rio de Janeiro, o Centro de Estudos de Dialectologia Brasileira e em 1954, ministrou curso de Dialetologia na Universidade do Rio Grande do Sul. Ainda em 1954, no 2º Colloquium de Estudos Luso-Brasileiros, em São Paulo, propôs uma série de passos a serem dados para a concretização do estudo dos nossos falares. Em 1955, ministrou na Faculdade Nacional de Filosofia do Rio de Janeiro um curso sobre a técnica das monografias dialetais. Em 1958, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia publicou a 2ª edição melhorada e ampliada de sua obra ‘Guia para Estudos Dialectológicos’, resultado de uma série de cursos e conferências proferidas na Faculdade Catarinense de Filosofia.

 Como resultado desses cursos e da pregação do prof. Silva Neto o Centro de Pesquisas da Casa de Rui Barbosa, através de sua Comissão de Filologia, propôs como um de seus objetivos a elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil. Para a consecução desse objetivo, e a convite da Casa de Rui Barbosa, esteve no Rio, em 1954, o Professor Sever Pop que ministrou um curso, a partir do qual se esperava que surgissem pessoas interessadas em desenvolver pesquisas dialetológicas, o que não ocorreu.

 O professor Antenor Nascentes, outro dos precursores da Geografia Lingüística no Brasil, publicou as ‘Bases para Elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil’, em duas partes. A primeira, em 1958, dedicada ao questionário geral e sugestões de pontos para o inquérito e a segunda, em 1961, com o questionário específico e o vocabulário piloto.

 Em 1957, os professores Serafim da Silva Neto e Celso Ferreira da Cunha, no III Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, em Lisboa, apresentaram a idéia de um Atlas Lingüístico-Etnográfico do Brasil, por regiões, tarefa que não pode até hoje ser realizada face às dificuldades inerentes a esse tipo de pesquisa, à dimensão continental do Brasil e à falta de uma coordenação nacional com o objetivo de uniformizar os objetivos, os métodos e o questionário para a realização de tão importante e necessário trabalho. Essa lacuna começou a ser preenchida, nos últimos tempos, com o surgimento dos Atlas Lingüísticos regionais e, no momento, há uma comissão iniciando os estudos para a realização da pesquisa para a elaboração do Atlas Lingüístico do Brasil - ALiB.

1.2. Os Atlas Lingüísticos Regionais

 Numa rápida visão do que temos no Brasil em termos de Dialetologia e Geografia Lingüística podemos listar os Atlas Lingüísticos publicados, os que estão em fase adiantada de elaboração e os projetos que estão se iniciando.

1.2.1. Atlas Publicados

1.2.1.1. Atlas Prévio dos Falares Bahianos
  Equipe da Universidade Federal da Bahia, coordenada pelo Prof. Nelson Rossi

1.2.1.2. Esboço de um Atlas Lingüístico de Minas Gerais
 Equipe da Universidade Federal de Juiz de Fora, coordenada pelo Prof. Mário Roberto Zágari

1.2.1.3. Atlas Lingüístico da Paraíba
 Equipe da Universidade Federal da Paraíba, coordenada pela Profa. Maria do Socorro Silva de Aragão

1.2.1.4. Atlas Lingüístico de Sergipe
 Equipe da Universidade Federal da Bahia, coordenada pela Profa. Carlota Ferreira
 

1.2.1.5. Atlas Lingüístico do Paraná
 Equipe da Universidade Estadual de Londrina, coordenada pela Profa. Vanderci de Andrade Aguilera

1.2.2. Atlas em Realização

1.2.2.1. Atlas Lingüístico do Ceará
 Equipe da Universidade Federal do Ceará, coordenada pelo Prof. José Rogério Bessa

1.2.2.2. Atlas Lingüístico  Estado de São Paulo
 Equipe da Universidade Estadual de São Paulo, coordenada pelo Prof. Pedro Caruso

1.2.2.3. Atlas Etnolingüístico dos Pescadores do Estado do Rio de Janeiro
 Equipe da Universidade Federal do Rio de Janeiro, coordenada pela Profa. Sílvia de Figueiredo Brandão

1.2.2.4. Atlas Lingüístico-Etnográfico da Região Sul
 Equipe da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, coordenada pelo Prof. Walter Koch

1.2.2.5. Atlas Etnolingüístico do Acre
 Equipe da Universidade Federal do Acre, coordenada Pela Profa. Luísa Galvão Lessa

1.2.3. Atlas Projetados

1.2.3.1. Atlas Lingüístico do Mato Grosso do Sul
 Equipe da Universidade Federal do Mato Grosso, coordenada pela Profa. Albana Xavier Nogueira

1.2.3.2. Atlas Lingüístico do Estado do Pará
 Equipe da Universidade Federal do Pará, coordenada pelo Prof. Abdelhak Razky

 Ainda a nível nacional há uma série de teses, dissertações, monografias, artigos e comunicações apresentadas em congressos no país e no exterior. Esses trabalhos incluem descrições, análises e caracterizações dos falares regionais-populares, nos aspectos fonético-fonológico, léxico, morfo-sintático e semântico, bem como abordagens sócio e etnolingüísticas de um falar específico e ainda aspectos gramaticais de determinados fatos lingüísticos.

 É de se lembrar ainda a observação feita pelo Prof. Dr. Ataliba T. de Castilho, na apresentação da obra ‘Bibliografia Dialetal Brasileira’, da importância que vêm tomando os estudos e pesquisas da ‘Dialetologia Urbana’, com ênfase na descrição da norma culta do Português do Brasil, a partir do material do projeto da Norma Urbana  Culta (NURC) e da organização do projeto da Gramática do Português Falado, ora em realização.

 Assim, apesar do atraso com que têm sido feitos esses trabalhos, e da falta de condições e de motivação, os dialetólogos brasileiros não têm medido esforços para desenvolver esta importante área e têm, aos poucos, alcançado resultados dos mais promissores.
 

2. Os Estudos Dialetais no Nordeste Brasileiro

2.1. Antecedentes
 

 Os estudos dialetais na região nordestina, até a segunda metade dos anos sessenta e início dos anos setenta, são poucos e em grande parte levados a efeito sem objetivos específicos bem definidos e metodologia adequada.

 Muitos trabalhos, além de imprecisos quanto à delimitação do corpus, apresentam problemas metodológicos relativos à própria análise do material coletado. Na maioria deles, são considerados apenas alguns níveis de análise. E esta não é exaustiva em cada um dos aspectos sob os quais poderia ser levada a efeito.

 Vale ressaltar que os primeiros trabalhos, de modo geral, focalizaram mais o aspecto diacrônico, registrando-se apenas as alterações fonéticas sofridas pela língua, as palavras cujo significado sofreram mudanças na sua evolução em cada Estado ou as que permaneceram com seu significado ou pronúncia inalterados.

 Isto não quer dizer, entretanto, que todos os trabalhos até então efetuados no Nordeste pequem por absoluta ausência de rigor científico. Há trabalhos realizados com base em pesquisa de campo, com corpus bem delimitado, em que são considerados não só os aspectos puramente lingüísticos mas, também, os aspectos sócio e etnolíngüísticos.
 Outro problema quanto aos trabalhos realizados no Nordeste é sua pouca divulgação. Muitas vezes, são conhecidos apenas na instituição onde são realizados, não passando, sequer, para outras instituições do mesmo Estado.
 A partir de meados dos anos sessenta, com a obrigatoriedade da disciplina Lingüística nos cursos de Letras e, na década de setenta, com o surgimento dos cursos de Pós-Graduação em Letras em nossa região, essa situação vem mudando radicalmente.

 Um levantamento por nós realizado, para a publicação de dados sobre trabalhos nas áreas de Dialetologia, Sociolingüística e Etnolingüística no Brasil, entre os anos 60 e 80, mostrou que num total de 550 trabalhos, cerca de 35%,  foram feitos no Nordeste ou sobre Falares Nordestinos.

 Esses trabalhos, além de abrangerem os nove Estados nordestinos e parte de Minas Gerais, estudam temas tais como arcaísmos, atitudes lingüísticas, coordenação e regência, dialetos sociais, empréstimos, estruturação silábica, linguagem popular, linguagem regional, norma lingüística, variação lingüística, variação profissional, verbos, glossários e vocabulários, em termos de língua falada e escrita, com enfoques da Dialetologia propriamente dita, Sociolingüística e Etnolingüística.

 Nesse levantamento e em outras pesquisas que realizamos, verifica-se que cada Estado nordestino tem uma tradição específica em estudos lingüísticos, embora alguns somente agora estejam se definindo em termos de áreas de interesse, geralmente relacionadas a professores e pesquisadores que se especializaram, em seus cursos de Pós-Graduação, em determinados ramos da Lingüística ou nível de Análise Lingüística.

 Há trabalhos e nomes, por exemplo, que ao serem citados levam-nos imediatamente ao Estado a que pertencem, como no caso da Bahia, com os trabalhos do Prof. Nelson Rossi e sua equipe, responsáveis pela pesquisa e publicação do Atlas Prévio dos Falares Bahianos e todos os demais trabalhos que a partir do Atlas e com seu material foram desenvolvidos naquele estado.

 Sergipe tem a marca dos trabalhos dialetais desenvolvidos pela mesma equipe do Prof. Nelson Rossi, com destaque para as Professoras Nadja Andrade, Carlota Ferreira, Vera Rollemberg, Jacyra Mota e Suzana Cardoso.

 Alagoas tem seus estudos dialetais bem definidos na obra do Prof. Mário Marroquim, ‘A Língua do Nordeste’, não tendo, contudo, anteriormente e posteriormente a ele, uma marca de seus interesses lingüísticos, tendo os estudos dialetais atualmente uma abertura através de uma linha de pesquisa na Pós-Graduação em Letras desse estado.

 Pernambuco tem a obra magistral de Pereira da Costa, um dos pioneiros no estudo do léxico regional nordestino, com seu trabalho ‘Vocabulário Pernambucano’ e Mário Souto Maior, com seus Dicionários e Vocabulários populares, que marcaram época nos estudos da linguagem regional popular.

 Os pioneiros dos estudos lingüísticos na Paraíba foram, sem qualquer dúvida, os Professores Leon Clerot, com seu ‘Vocabulário de Termos Populares e Gíria da Paraíba’, Hugo Moura e Horácio de Almeida, que também publicaram trabalhos sobre o léxico paraibano.

 No Rio Grande do Norte destaca-se Luiz da Câmara Cascudo que, apesar de não ser um lingüística no sentido restrito do termo, foi um grande antropólogo e folclorista, publicando uma série imensa de trabalhos sobre a linguagem regional popular do Nordeste.

 O Ceará tem uma tradição muito grande nos estudos dialetais, sociolingüísticos e lexicológicos, onde aparecem Tomé Cabral, com seu magnífico ‘Dicionário de Termos e Expressões Populares’, Raimundo Girão, com seu ‘Vocabulário Cearense’ e Florival Serraine, com vários trabalhos sobre a linguagem regional popular.

 No Maranhão surge como nome marcante o Prof. Ramiro Correa, que fez análise sócio e etnolingüística do falar daquele Estado.

 Quanto ao Piauí, não temos informações sobre pesquisadores na área de lingüística em períodos mais antigos, o que felizmente não marcou a geração atual.

 Como frisamos anteriormente, com a obrigatoriedade da disciplina Lingüística nos cursos de Letras, no início dos anos sessenta, e por não haver um número suficiente de professores de Lingüística,  e ainda como os existentes ou tinham feito cursos no exterior ou eram autodidatas, foi necessário que professores de Língua Portuguesa e de Filologia tivessem que se preparar, muitas vezes improvisadamente, para assumir a nova disciplina.

 Isso, se por um lado trouxe alguns problemas, por outro criou toda uma gama de estudiosos e pesquisadores da Língua Portuguesa com bases lingüísticas.

 Nesse período, década de sessenta, muitos lingüístas estrangeiros vieram ao Brasil ministrar cursos de curta duração ou por períodos maiores, especialmente nas Universidades do Rio de Janeiro e São Paulo, criando, a partir daí, todas as condições para a instalação dos Cursos de Pós-Graduação lato sensu e stricto sensu que se disseminaram por todo o país no início dos anos setenta.
 No Nordeste, o primeiro curso de Pós-Graduação stricto sensu dentro dos parâmetros estabelecidos pelo Ministério da Educação e Cultura / MEC e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior / CAPES foi o da Universidade Federal da Paraíba, que se iniciou em 1975, com a maioria de seus professores sendo Mestres ou grandes professores de reconhecida competência, além de alguns Doutores visitantes. Os estudantes eram  provenientes de  todo o Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul do país.

 Importante ressaltar que a primeira linha de pesquisa da Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba foi a de Dialetologia e Geografia Lingüística.

 As demais universidades nordestinas, a partir daí, foram criando seus Mestrados em condições semelhantes, com maiores ou menores dificuldades, mas algumas delas com objetivos bastante definidos no sentido de estudar os falares regionais nordestinos, sob os mais variados enfoques.

 Com a implantação dos Mestrados e a exigência cada vez maior do MEC para que as instituições qualificassem seus professores, foram sendo implantados e fortalecidos cursos de Pós-Graduação em quase todo o Nordeste e mesmo aquelas Universidades que não têm cursos stricto sensu, já possuem seus cursos lato sensu, que têm preparado, com bastante eficiência, pessoal para concorrer ao Mestrado não só no Nordeste, mas no Sul e Sudeste do Brasil.

 Porém, a grande revolução desencadeada pelos cursos de Pós-Graduação no Nordeste foi a criação de Grupos de Pesquisa e, como conseqüência, o grande número de trabalhos apresentados em Encontros no país e no exterior, publicados por pesquisadores nordestinos.

 A partir daí, a vocação de cada Estado ou de cada grupo foi marcando sua posição no cenário nacional, e os estudos dialetais passaram a ser uma das linhas de pesquisa de maior interesse e de maior quantidade de trabalhos realizados e publicados em algumas Universidades como a Federal da Bahia, Federal de Sergipe, Federal da Paraíba e, em menor escala, a Federal do Ceará.

 Muitos outros nomes surgiram em cada Estado, e esses professores, pesquisadores e verdadeiros desbravadores marcaram e marcam toda uma geração de professores e pesquisadores em nossa região.
 

2.2. Situação Atual
 

 A elaboração e publicação de Atlas Lingüísticos no Brasil tem sido feita prioritariamente na região nordestina, por causas ainda não estudadas ou divulgadas.

 A realidade é de que dos cinco Atlas Lingüísticos até aqui publicados, da Bahia, Minas Gerais, Paraíba, Sergipe e Paraná, quatro são de Estados nordestinos, levando-se em conta que para efeito de subvenções e apoio da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste - SUDENE, o Sul de Minas Gerais é considerado Nordeste.

 É de se ressaltar que as Universidades Federais da Bahia, da Paraíba, do Ceará e de Juiz de Fora, possuem equipes de pesquisadores de estudos dialetais em permanente atividade, realizando pesquisas, elaborando monografias, dissertações e teses e divulgando seus trabalhos através de conferências, artigos e comunicações em Seminários e Congressos de Lingüística no Brasil e no exterior.

 A pesquisa, nesse contexto, tem posição privilegiada, com as exigências da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior / CAPES, do Ministério da Educação e Cultura / MEC e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico / CNPq, quanto à criação de Linhas de Pesquisa nos Cursos, obrigando de forma quase que compulsória, que esses Cursos marquem sua posição e sua vocação em áreas específicas de estudo, direcionando os trabalhos dos alunos e as pesquisas dos professores para campos específicos de estudo.Como exemplo podemos citar:

2.2.1. Universidade Federal da Bahia

 A UFBA possui uma Linha de Pesquisa sobre a Diversidade Lingüística no Brasil, com ênfase no estudo fonético-fonológico e léxico dos dialetos rurais do português do Brasil e da região de Sergipe e Bahia.

2.2.2. Universidade Federal de Alagoas

 A UFAL possui uma Linha de Pesquisa sobre a Variação Lingüística  do português falado em Alagoas, com enfoque sociolingüístico.

2.2.3. Universidade Federal de Pernambuco

 A UFPE possui uma Linha de Pesquisa sobre Interculturalismo, na qual são vistos os relacionamentos sócio e etnolingüístico entre o falar culto e o popular, entre o falar urbano e o rural.

2.2.4. Universidade Federal da Paraíba

 A UFPB possui uma equipe trabalhando sobre o falar paraibano, especialmente nos aspectos fonético-fonológico e léxico, com enfoque dialetal, sociolingüístico e lexicológico.

2.2.5. Universidade Federal do Rio Grande do Norte

 A UFRN possui uma equipe trabalhando sobre o falar riograndense do norte sob os aspectos fonético-fonológico e lexical.

2.2.6. Universidade Federal do Ceará

 A UFC possui dois grupos de pesquisa trabalhando em dialetologia, o primeiro elaborando o Atlas Lingüístico do Ceará e o outro tratando dos dialetos sociais cearenses, o falar culto e o falar popular.

 Outros trabalhos, independentemente das Linhas de Pesquisa das Pós-Graduações, têm sido feitos em projetos nacionais, com atuação regional, como:

 a) o da Norma Urbana Culta  - Nurc, abrangendo, no Nordeste, Salvador e Recife e atualmente sendo desenvolvido, se bem que em faixa própria, mas com os mesmos objetivos e metodologia, em Fortaleza.
 b) o de Variação Lingüística Urbana na Região Sul do País - VARSUL, com atuação regional, como é o caso do projeto Variação Lingüística no estado da Paraíba - VALPB, além de trabalhos desenvolvidos por grupos de pesquisadores ou pesquisadores individuais.

2.3. Exemplos Fonético-Fonológicos

 A título de exemplificação falaremos sobre alguns aspectos fonético-fonológicos do falar regional popular do estado da Paraíba, onde vimos desenvolvendo nossas atividades de pesquisa nos últimos vinte anos.

 No que diz respeito ao falar da Paraíba, a partir de seu Atlas Lingüístico e de outros trabalhos na área da Dialetologia e Sociolingüística, após sua caracterização, através da metodologia utilizada e de uma análise dos principais fatos fonético-fonológicos por ele registrados, tais como tipo de fonemas, posição por eles ocupadas nos signos, incidência do acento tônico no fonema e na sílaba; realização e distribuição dos fonemas, neutralização e variação, com os arquifonemas e variantes, bem como as possibilidades combinatórias dos fonemas em ditongos, tritongos e grupos consonantais, além de outros aspectos observados isoladamente, constataram-se os seguintes fatos no falar paraibano:

 1. Em determinados contextos alguns fonemas neutralizam-se, surgindo, em conseqüência 10 arquifonemas:

/ e / [ edu’ka? ]                   / e / [ e? ‘tow ]                     / o / [ o?a’sãw ]
/ E / <                                   / I / <                                / O / <
/ ? /  [ ?du’ka? ]                   / i / [ i? ‘tow ]                      / ? / [ ??a’sãw ]

/ o / [ o’ve?a ]                    /  î / [ î’tãw ]                        / w / [ ‘awta ]
/ U / <                                  / Î / <                                / W / <
/ u / [ u’ve?a ]                    / ê / [ ê’tãw ]                       / l / [ ‘a? ta ]

/ s / [ ‘besta ]                       / s / [ ‘mesmu ]                  / ? / [ ‘n?? ti ] - [‘n? J ti]
/ S / <                                   / S / <                               / R / <
/ ? / [ ‘be? ta ]                      / z / [ ‘mezmu ]                  / r / [ ‘n? rti ] - [‘n?? ti ]

 / ô / [ kô’pad?i ]
/ Û / <
/ û / [ kû’pad?i ]

 2. Quanto à posição dos fonemas nos signos, verificou-se que, em posição inicial só não ocorrem as consoantes / r /, / ? / e / ? / ; em posição medial, todas as consoantes ocorrem; em posição final, onde as consoantes / r / , / s / , / z / , e  / l / poderiam ocorrer, elas se neutralizam;

 3. Excetuando-se as variantes combinatórias dos fonemas vocálicos   / a / , / e / ,  / i / ,
/ o /, / u /, todas as demais variantes do falar paraibano são variantes dos arquifonemas e não dos fonemas;

 4. Na combinatória dos fonemas vocálicos e semivocálicos, que dão em conseqüência, entre outros, os ditongos, percebeu-se que, além dos ditongos normais na língua portuguesa de todo o país, o falar paraibano apresenta outros ditongos puramente fonéticos, ou seja, na articulação, foi acrescentada, sempre em sílabas tônicas finais, uma semivogal, criando, assim, um novo tipo de ditongo;

 [ ‘t?es > ‘t?ejs ]     [ ?a’pas > ?a’pajs ]     [ ‘a?os > ‘a?ojs ]    [ ??‘dus > ??‘dujs ]

 5. Ainda em relação aos ditongos, verificou-se uma considerável redução dos mesmos em determinados contextos, pelo fenômeno da monotongação;

[ ‘kaj?a > ‘ka?a ]     [ bej’?a? > be’?a? ]     [ ‘ow?u > ‘o?u ]     [ fa?‘masja > fa?‘masa ]

 6. Queda dos fonemas / l / , / r / e / s /, em posição final absoluta;

 [ te?‘s?w > te?‘s? ]     [ ka’za? > ka’za ]     [ ‘k??tas > ‘k??ta ]

 7. Iotização dos fonemas  / ?  / , / ? / , e  /? /;

 [ a’be?a > a’beja ]     [ ‘se?ka > ‘sejka ]     [ mâ’?ã > mâj’ã ]

 8. Redução do grupo  / nd /;

 [ ow’vîdu > ow’vînu ]

 9. Queda do grupo  / ad /;

 [ ‘figadu > ‘figu ]

 10. Semivocalização do fonema  / l / ;

 [ ‘awma > ‘ajma ]
 

2.4. Perspectivas Futuras

 Apesar de todos os problemas até aqui surgidos é de se esperar que os estudos de Dialetologia e Geografia Lingüística no Brasil venham em futuro próximo a assumir o papel de relevância que lhes cabe no âmbito dos estudos da Língua Portuguesa, e o Nordeste  tem dado sua contribuição neste sentido.

 Embora muitos dos problemas inicialmente apontados ainda permaneçam,  acreditamos que as perspectivas futuras para os estudos dialetais no Nordeste brasileiro são boas e promissoras. Levamos em conta para essa afirmação os seguintes fatos:

 - os cursos de Pós-Graduação estão se equipando com modernos instrumentos e meios de comunicação ;
 - o envolvimento, cada vez maior, de alunos de Graduação nos projetos de pesquisa, através dos programas institucionais de iniciação científica;
 -  o fortalecimento dos programas de capacitação docente;
 - a organização bastante profissional da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Lingüística - ANPOLL, com seus Grupos de Pesquisa e coordenação nacional dos Cursos de Pós-Graduação e Pesquisa e, acima de tudo,
 - a conscientização de professores, pesquisadores e alunos, da importância e valorização dos estudos dialetais em nossa região.

 Creio que nosso futuro possa vir a ser bem melhor, para que possamos falar de uma Dialetologia Nordestina Brasileira.
 

3. Conclusão

 Pelo que se pode observar a partir da rápida análise acima realizada, num país como o Brasil, com 26 estados e o Distrito Federal é muito pouco o que foi realizado ou está em elaboração no que concerne à Geografia Lingüística.

 Tal fato tem se refletido negativamente no ensino da Língua Portuguesa em nosso país, por não haver, em termos das variantes diatópicas e diastráticas, um conhecimento da realidade lingüística regional e nacional.

 O professor Serafim da Silva Neto, no seu ‘Guia para os Estudos Dialetológicos no Brasil’, propôs uma série de sugestões para um incremento maior dos estudos de Dialetologia e Geografia Lingüística entre nós, às quais poderíamos acrescentar outras que, certamente, fariam com que esses estudos se desenvolvessem mais segura e rapidamente. Este, contudo, poderá ser tema de um novo trabalho.
 

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