ATLAS LINGÜÍSTICO RURAL
DA ZONA DA MATA DE MINAS GERAIS – BRASIL
NOMES DE DOENÇAS AGROPECUÁRIAS E HORTALIÇAS

Joseph Ildefonso de Araujo

SUB-PROJETOS

ATLAS LINGÜÍSTICO MUNICIPAL RURAL

S-P.1 - MICRORREGIÃO 060 DE PONTE NOVA
S-P.2 - MICRORREGIÃO 061 DE MANHUAÇU
S-P.3 - MICRORREGIÃO 062 DE VIÇOSA
S-P.4 - MICRORREGIÃO 063 DE MURIAÉ
S-P.5 - MICRORREGIÃO 064 DE UBÁ
S-P.6 - MICRORREGIÃO 065 DE JUIZ DE FORA
S-P.7 - MICRORREGIÃO 066 DE CATAGUASES

1 - INTRODUÇÃO

Em 1990, iniciou-se, no Departamento de Letras e Artes da Universidade Federal de Viçosa, uma pesquisa dialectológica, restrita à Microrregião 062 de Viçosa, que ora se estende a toda Zona da Mata de Minas Gerais.

Em julho de 1996, a FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) atendeu a nosso pedido de ajuda, dotando a pesquisa com pouco mais de R$22.000,00 para as despesas parciais com material de consumo, diárias, viagens e trabalhos de terceiros.

De agosto de 1993 a julho de 1996, a pesquisa teve continuidade, tendo as despesas corrido por nossa conta e do Departamento de Letras da UFV. A cooperação do CNPq foi valiosa, desde o início da pesquisa, pois chegamos a ter 5 (cinco) alunos de Iniciação Científica, trabalhando conosco em um único período. De julho de 1993 a julho de 1996, com a pesquisa realizada nos Municípios de Astolfo Dutra, Rodeiro, São Geraldo e Tocantins, pertencentes à Microrregião de Ubá, foram elaboradas as bases atuais da pesquisa, estendendo-a a toda Zona da Mata. O levantamento e análise dos dados nesses municípios serviram de experiência para laçar novas diretrizes nos trabalhos da pesquisa, juntamente com a revisão e ampliação das leituras bibliográficas sobre dialectologia e geografia lingüística e com a experiência adquirida, a equipe debateu sobre a validade e importância de se elaborar, para cada município, o seu Atlas Lingüístico Municipal Rural e respectivo Glossário dos nomes de doenças de criações e culturas agrícolas.

A idéia ganhou corpo e surgiu, em caráter experimental, o primeiro Atlas Lingüístico Municipal Rural e Glossário Popular-Técnico e Técnico-Popular de Astolfo Dutra. A esse seguiram os outros três - Rodeiro, São Geraldo e Tocantins - que foram apresentados, para apreciação e sugestões, ao Grupo de Dialectologia do XI Congresso Internacional de la ALFAL, realizado em julho de 1996, em Las Palmas de La Gran Canaria, Espanha. Aí recebemos, para dar maior amplitude a esses Atlas Lingüísticos Municipais, várias sugestões e observações que serão esplanadas mais abaixo no item três.

2 - OBJETIVO

O objetivo fundamental da pesquisa é fazer o levantamento do léxico rural dos nomes populares das doenças de criações, culturas agrícolas e hortaliças que afetam o meio rural. Os dados obtidos irão contribuir para a elaboração do ATLAS LINGÜÍSTICO RURAL E RESPECTIVO GLOSSÁRIO POPULAR-TÉCNICO E TÉCNICO-POPULAR DA ZONA DA MATA DE MINAS GERAIS, para uso de professores, estudantes e pessoas envolvidas na produção rural.

Com o desenvolvimento da pesquisa, criou-se um novo objetivo: ELABORAÇÃO DOS ATLAS MUNICIPAIS RURAIS E RESPECTIVOS GLOSSÁRIOS. Para alcançar esse objetivo, seria necessários um amplo trabalho junto às autoridades municipais para convencê-las da importância de se conhecer a realidade sociolingüística do respectivo município, mostrando o estudo que pode ser feito para melhor conhecer a realidade de vida do povo, promovendo um desenvolvimento voltado o ser humano, isto é, a ciência na busca do bem-estar do ser humano.

O objetivo do glossário é, por sua vez, compatibilizar a “nomenclatura” popular rural com a terminologia técnico-científica apreendida na escola, a fim de facilitar a comunicação entre a fala rural e a linguagem técnica. O homem do campo pouco, ou quase nada, entende o que diz o técnico e este, aquele. Cada um tem sua linguagem própria, o que dificulta uma interação verbal mais eficiente para uma maior e melhor compreensão entre ambos. Para minimizar esse problema, a pesquisa vem sofrendo reestruturações e mudanças na sua metodologia toda vez que surgem dados relevantes que possam contribuir para melhorar a busca desses mesmos dados.

3 - MUDANÇAS METODOLÓGICAS

Apesar de só termos recebido financiamento em julho de 1996, o projeto, elaborado em 1993, começou logo a ser executado com nossos recursos. Nessa fase tivemos, como já foi dito, a colaboração de alunos de Iniciação Científica do CNPq que culminou com a elaboração dos quatro primeiros Atlas Lingüísticos Municipais Rurais de que falamos mais acima.

A ampliação e aprofundamento da leitura e a experiência adquirida não só no contato direto com as localidades e, especialmente, com a realidade de vida das propriedades rurais, levaram a equipe a sentir que poder-se-ia levar os municípios a participar mais ativamente da pesquisa ao colaborar na elaboração do próprio Atlas Lingüístico Municipal. Essa participação promoveria uma integração mais eficiente entre Universidade/Comunidade através de convênio em que o município tivesse participação mais atuante com pequena ajuda financeira para a confecção se 12 exemplares do Atlas Municipal, impressos por meios computadorizados. Para isso foi elaborado o esboço de um convênio e apresentado e discutido com a administração municipal de Guiricema, onde fora filmado um clipe sobre a pesquisa e transmitido pela TV-VIÇOSA e, posteriormente, em rede nacional através da TVE no programa PAIDEIA.

A boa aceitação dos termos do convênio pelos municípios e a nossa participação no XI Congresso da ALFAL na Espanha, levaram-nos a uma revisão da metodologia usada até então.

Os quatro Atlas Lingüísticos Municipais, submetidos à apreciação do subgrupo de Dialectologia Portuguesa, geraram algumas observações sobre as características da pesquisa tendo sedo apresentadas algumas sugestões.

As principais sugestões foram:

1) Ampliar para 10 ou 12 o número mínimo de propriedades para uma amostragem maior ampliando a riqueza de informações que foram obtidas até então.

2) Fazer o levantamento do léxico geral do município.

3) Abordar as variantes fonéticas e fonológicas e fazer respectiva transcrição fonética das entrevistas.

4) Abordar os aspectos morfológicos, sintáticos e semânticos do meio rural.

5) Investigar a origem dos verbetes e as causas e tipos de neologismos e analogias.

As características que mais chamaram atenção foram:

1. A “inovação” na escolha do Informante no restrito meio rural de uma propriedade, e não na amplitude de uma aglomeração humana, como prevê a pesquisa dialectológica clássica, trazendo dificuldades para traçar o perfil do informante.

2. A criação da Ficha da Propriedade e da Ficha de Descrição das Doenças.

3. A mudança de metodologia em que o Informante fornece o nome da coisa (doença), fazendo, a seguir, a sua descrição.

Para assumir as sugestões acima, tornou-se necessário rever os objetivos e readaptar a metodologia.

No momento, está sendo feita uma revisão dos quatro Atlas Municipais que deverão ser apresentados a pesquisadores brasileiros para a devida apreciação e julgamento, atendendo às sugestões dos congressistas.

Com a ampliação dos estudos de novos aspectos lingüísticos - fonética, morfologia, sintaxe, semântica - a nova versão do projeto de pesquisa tem necessidade de mais recursos, porque será ampliado o estudo do seu corpus e respectiva análise. Isso implicará no aumento no número de viagens e de diárias, nos serviços de terceiros, digitação, levantamento de dados e respectivas análises, etc.

Em julho de 1996, a FAPEMIG aprovou uma dotação de R$ 22.000,00, para financiar parte do material de consumo, de diárias, passagens e serviços de terceiros. A parte de material de consumo é satisfatória, devendo ser completada. Não há recursos para a aquisição de material permanente como micros, impressoras, filmadoras, escâner, gravadores, arquivos, “zip drive”, etc. - para que a pesquisa possa desenvolver-se num ritmo mais acelerado. Não há recursos para esse material.

Com o objetivo de uma maior eficiência no novo direcionamento dos trabalhos, é necessário de um número maior de participantes na pesquisa de campo e na prestação de serviços e de serviços de terceiro. Para um melhor rendimento das atividades, planejou-se trabalhar com duas equipes de Iniciação Científica - CNPq e FAPEMIG ou outro órgão fomentador - que se revezarão como âncoras na execução das atividades juntamente com 7 (sete) outras equipes prestadoras de serviços, com dois membros em cada uma, assim distribuídas:

a) duas equipes de coordenação, uma em cada turno de 4 horas, que serão responsáveis: -pela responsabilidade da manutenção e conservação do equipamento; -pelo fichamento e controle na distribuição do material de consumo; -pela orientação e fiscalização das atividades das demais equipes; -pela supervisão da digitação e revisão dos dados; -pela coordenação da impressão e encadernação dos Atlas; -pela organização dos arquivos dos originais, das digitações e dos levantamentos e análises dos dados; -pela organização das atividades burocráticas da secretaria; -pela organização dos álbuns fotográficos e de tudo que for atinente para o bom andamento da pesquisa; -pela apresentação do relatório mensal das atividades desenvolvidas pelas equipes.

b) sete equipes de prestação de serviços que serão encarregadas pela pesquisa de campo, digitação, levantamento e análise de dados das localidades, cumprindo as etapas metodológicas previstas;

c) cada equipe deverá apresentar 3 (três) Atlas Municipais concluídos a cada quadrimestre, perfazendo 9 (nove) anuais. As 7 equipes pesquisarão 126 (cento e vinte e seis) localidades em dois anos visitando as 1 523 (mil e quinhentas e vinte e três) propriedades demarcadas;

d) cada equipe realizará 4 (quatro) pesquisas de campo por dia, dispendendo cerca de 3 (três) a 4 (quatro) dias para os municípios menores, conforme previsão demonstrada no quadro abaixo;

e) cada equipe, após a coleta, processará os dados e elaborará os atlas dos municípios pesquisados, observando as etapas metodológicas previstas;

f) os atlas terão uma parte em comum, levando cada equipe a concluir 3 (três) atlas por quadrimestre, se houver o equipamento necessário: micros em número suficiente, escâner, impressoras, xerox, etc. ;

g) cada microrregião constituirá um Tomo com o número de Volumes variando de acordo com o número de localidades (municípios). Cada volume será um Atlas Lingüístico Municipal Rural.

A pesquisa atingirá 7 (sete) microrregiões, constituindo cada uma um Tomo com os respectivos volumes correspondentes ao número de localidades. Em cada município haverá um número variável de propriedade, de acordo com a sua extensão, conforme quadro abaixo:

TOMOS VOLUMES Nº PROPRIEDADES DIAS DE PESQUISA
Tomo I 15 176 51
Tomo II 13 158 46
Tomo III 20 254 79
Tomo IV 16 176 54
Tomo V 17 201 59
Tomo VI 31 390 124
Tomo VII 14 168 53
TOTAL 126 1 523 466

4 - CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE DIALECTOLOGIA

A dialectologia é a ciência que estuda a fala das várias camadas da sociedade rural e urbana. Por meio do mapeamento cartográfico, procura mostrar as características peculiares desses falares, fazendo o levantamento de seu vocabulário usado, de suas tendências lingüísticas e de suas características gramaticais nos diversos aspectos da fonética e da fonologia, da morfologia e da sintaxe (regência, concordância, colocação), da semântica e da estilística. Ampliando esses estudos, pode-se, ainda, fazer o levantamento cartográfico do folclore e da etnografia para conhecer não só as características da própria comunidade mas também para compará-las com o universo das demais localidades da região.

Ora, cada agrupamento humano sente a vida a seu modo, porque cada agrupamento faz o recorte da vida de acordo com sua vivência local e com as necessidades que o envolve, não só na linguagem como também na criação de instrumentos de trabalho adap-tados à sua região. Cada aglomerado humano, portanto, se externa, através da fala, aquilo que sente no seu viver diário. Por isso a fala de cada grupo humano é a manifestação das características próprias do seu meio que adapta a língua a seu modo de sentir a vida. Isso pode provocar, muitas vezes, distúrbios e ruídos ou perturbações de comunicação entre os falantes de comunidades diferentes, até mesmo na própria comunidade de acordo com as várias classes sociais corporativistas.

Se a fala revela e caracteriza os vários grupos comunitários ou sociais, não haverá, portanto, uma fala errada, mas uma manifestação da tendência comunitária. É a manifestação real e espontânea da língua corrente e viva, de uso constante na comunicação oral.

Conhecer um povo é conhecer a sua língua porque ela reflete todas as experiências históricas desse povo, todos os aspectos socioculturais, enfim, toda sua vivência. A língua é um fator tão forte para um povo que levou Monteiro Lobato a dizer “A pátria é a língua, nada mais” e Fernando Pessoa compara a Pátria com a língua quando disse “Minha Pátria é a Língua Portuguesa”. Gagné, lingüista francês, diz que “a língua constitui um dos fatores de existência de uma comunidade, um elemento essencial de identificação nacional”. Humboldt, lingüista alemão, arremata:

“A língua não é um simples meio de comunicação, mas a expressão do espírito e da concepção do mundo dos sujeitos falantes: a vida em sociedade é um auxiliar indispensável do seu desenvolvimento, mas de modo nenhum o fim para que tende” .

Ora, essa língua viva, falada e quase nunca escrita, é de uso contínuo e está sujeita a desgastes que, na realidade, são transformações operadas numa evolução lenta e gradual, quase imperceptível, que nada mais é que uma adaptação da fala de um povo, ou agrupamento humano, ao seu modo de sentir e viver sua vida.

Charles Bally, lingüista francês, diz: “as línguas mudam sem cessar e não podem funcionar senão mudando” . Tem o mesmo pensamento N.Harrtmann ao dizer: “a língua viva não permanece nunca em repouso, está em contínua transformação”. E Eugênio Coseriu sintetiza o que dizem os dois lingüistas, afirmando que a língua “pela sua função não está feita e sim se faz continuamente pela atividade lingüística concreta”.

Os três lingüistas mostram, com clareza, a mutabilidade que a língua falada estão sujeitas. Essa mutabilidade só acontece porque está em uso contínuo e, por isso, sujeita aos “desgastes materiais” como tudo aquilo que é de uso constante e diário. Não é um desgaste igual ao de uma peça de uma máquina que pode ser substituída por uma nova. Se a substituição não for feita a máquina pode não funcionar ou apresentar desempenho deficiente e perigoso para seu usuário. Os “desgastes” a que as línguas estão sujeitas criam, ao contrário da máquina, um fato lingüístico novo, alterando, de algum modo, a sua imutabilidade, ou melhor, criando algo de novo para si. Não é um mero desgaste, uma mera modificação, um mero capricho, mas uma mudança, uma necessidade de alteração no arcabouço da língua para adaptá-la à realidade do momento. No entanto, essa mudança não perturba, nem afeta a comunicação lingüística por ser ela gradual e lenta, visto que a língua continua funcionando corretamente, atingindo seu objetivo social de comunicação no meio em que está sendo inserida, sem colocar em risco a comunicação entre seus utentes... Ora, se não há distúrbio na comunicação, a mudança introduzida não pode constituir erro porque, muitas vezes, em uma expressão nova para uma idéia nova ou de uma que já existira ou foi abandonada. Por exemplo, a alteração de fonema ocorre, geralmente, no nível fonético e não no fonológico, não constituindo características pertinente. Muitas vezes a alteração ocorre num fonema; noutras as alterações ocorrem num feixe de fonemas que provoca a incompreensão para os ouvintes estranhos ao meio. Pode-se citar como exemplo o verbete dicionarizado mal-de-ano que deu origem a várias sincronias como mardiane, manjina, marjiana constadas na Microrregião de Viçosa.

Concluindo, toda língua tem suas variantes que não chegam a constituir uma nova língua. São variantes provenientes das diversidades culturais que cada agrupamento humano desenvolve. São tendências regionais do grupo que refletem os recortes que cada um faz do ambiente em que vive. Faraco, com clareza, diz que:

“Toda e qualquer língua é um conjunto heterogêneo de variedades e cada variedade é resultado das peculiaridades das experiências históricas e socioculturais do grupo que a usa: como ele se constitui, como é sua posição na estrutura socioeconômica, como ele se organiza socialmente, quais seus valores e visão do mundo, quais suas possibilidades de acesso à escola, aos meios de informação, e assim por diante.”

Toda e qualquer língua é um conjunto heterogêneo de falares porque as “línguas mudam sem cessar e não podem funcionar senão mudando”. A mudança na língua é uma conseqüência “impositiva” e imprescindível para que a língua possa “adaptar-se às necessidades expressivas dos falantes, e continua a funcionar como língua na medida em que se adapta”. Há portanto, não só uma tendência para alterar a língua mas uma necessidade de alteração para adaptar-se às características culturais de vida de uma comunidade, de uma região. É fato comum a todas as línguas faladas de qualquer povo e cultura porque evolução e mudança são características de todas as línguas faladas de todos os povos. Diante disso, é necessário compreender que as diferenças da fala não são erros de linguagem, mas características culturais peculiares e necessárias à fala para que reflitam, satisfatoriamente o ambiente cultural do agrupamento ao qual pertencem.

O conjunto de variedade de linguagem não constitui, todavia, um dialeto “stricto sensu”. Mas, se esse conjunto de variedades for tão acentuado que impeça a comunicação normal ou dificulte a compreensão de outros grupos, constituir-se-á, então, num dialeto. E esse dialeto será uma nova língua com estrutura própria, apesar da semelhança que possa apresentar com a língua da qual é uma variante

Essas alterações da fala constituem objeto dos estudos lingüísticos. E a ciência que se dedica a fazer o levantamento das diferentes falas regionais é a Dialectologia que procura, ainda, compará-las, analisando suas características e tendências lingüísticas, uti-lizando os levantamentos cartográficos que geram as Cartas Lexicais, demarcadoras das diversidades lingüísticas de cada região.

4.1 - DIALECTOLOGIA E DIALETO

A Dialectologia é a ciência que busca a investigação dos dialetos, pois, “uma dialectologia consciente... deve exercitar-se em trabalhos experimentais...”

A Dialectologia tem por objetivo o estudo científico dos falares populares que irão formar o dialeto.

Há dois conceitos para dialeto: um, de sentido restrito (stricto sensu) referindo-se a uma fala regional que apresenta divergências acentuadas em relação à língua da qual se origina, não só perturbando, mas impossibilitando uma comunicação satisfatória; o outro, de sentido amplo (lato sensu) referindo-se às divergências regionais da fala que não provocam distúrbios na comunicação em estranhos ao meio.

De fato, há um bilingüismo. De um lado a língua escrita, a língua literária, a língua oficial de uma nação, a língua pátria, a língua nacional regida pelas normas dos oradores e escritores cultos. De outro, os matizes das falas diárias, cultas ou populares que constituem os dialetos.

4.2 DIALECTOLOGIA E GEOGRAFIA LINGÜÍSTICA

Dialectologia e Geografia Lingüística constituem, ambas, modalidades de estudo dos dialetos, objeto comum de estudo. A diferença entre elas está no modo de apresentar o estudo do dialeto. A Geografia Lingüística irá apresentar, em Atlas Lingüísticos, o levantamento cartográfico das características dialetais, tirado dos diversos tipos de Mapas ou Cartas Lingüísticas. Já a Dialectologia irá apresentar, em seus estudos, o Glossário e a análise aprofundada das variantes da língua, tais como as variantes fonéticas, morfológicas, sintáticas, lexicais, etc. Portanto, os dois estudos não se excluem mas se completam.

A Dialectologia usa dos métodos da Geografia Lingüística que faz o levantamento dos dados dos falares regionais para que se possa estudar e delimitar o território dos dialetos.

A Geografia Lingüística, segundo Navarro, “ocupa-se especialmente em descobrir e traçar as áreas e limites dos fenômenos dialetais...” Carreter diz que a geografia lingüística é um

“método de investigação lingüística que consiste em situar sobre o mapa da região estudada cada uma das formas com que se expressa um conceito ou uma expressão especial. Para cada noção ou expressão emprega-se um mapa distinto. O conjunto de mapas constitui um atlas lingüístico”.

Portanto, a Dialectologia é a “investigação científica dos dialetos” e a Geografia Lingüística “é um novo processo de estudar a linguagem humana” A finalidade é estudar a fala popular existente nas várias camadas sociais rurais e urbanas. O estudo é feito através do mapeamento cartográfico da fala popular com suas características peculiares, buscando conhecer as variedades na fala: a pronúncia, o vocabulário, as características gramaticais, semânticas, etc.

4.3 - DIALECTOLOGIA E ATLAS LINGÜÍSTICO

O objetivo da Dialectologia é, portanto, fazer, através de entrevistas com os habitantes regionais, o levantamento cartográfico das variantes de fala para elaborar as Cartas Lingüísticas e, através destas, os Atlas Lingüísticos.

O Atlas Lingüístico é o resultado de uma complexa metodologia de trabalho na busca, em fonte segura, dos dados lingüísticos das diversas falas que traçam o perfil de uma língua. As variedades regionais da fala são formas dialetais conhecidas através das pesquisas de campo que propiciam o mapeamento lingüístico das regiões com a respectiva elaboração dos Mapas (ou Cartas) Lingüísticos.

O Atlas Lingüístico irá mostrar as localidades em que ocorrem as características lingüísticas regionais. Nele podem estar reunidas as várias espécies de Cartas Lingüísticas que receberão denominações diferentes de acordo com o assunto lingüístico pesquisado. Assim teremos as Cartas Lingüísticas que representam a variedade de estudo que a pesquisa de fala pode proporcionar conforme o enfoque dado:

a) Cartas Fonéticas: diferentes pronúncias de um mesmo fonema na região.

b) Cartas Fonológicas: características pertinentes dos fonemas.

c) Cartas Morfológicas: as modificações na estrutura interna da palavra: morfemas, derivações, flexões.

d) Cartas Lexicais: as diferentes palavras usadas num dado território para expressar um mesmo conceito ou expressão.

e) Cartas Sintáticas: as diferenças na organização das estruturas das sentenças.

f) Cartas Semânticas: a mudança de significado das palavras.

g) Cartas Folclóricas: a cultura folclórica da região.

h) Cartas Lingüístico-Etnográficas: ocorrem quando as indicações lingüísticas se agregam às indicações etnográficas - traços antropológicos, objetos de cultura material - com desenhos, esboços adicionais, fotografias.

i) Cartas Neologismáticas: criação popular de neologismos.

4.4 - DIALECTOLOGIA: “PALAVRAS E COISAS” E ONOMASIOLOGIA

A Geografia Lingüística incrementou o aparecimento de duas outras correntes lingüísticas que penetram na vida da linguagem. São elas PALAVRAS E COISAS e ONOMASIOLOGIA. Estas duas correntes estão ligadas a Dialectologia porque:

1. Palavras e Coisas busca o vocabulário de uma língua, estudando as palavras e as realidades que elas expressam; procura determinar o verdadeiro significado das palavras, muitas vezes não encontrado no étimo mas na história da palavra devido a sua relação com a coisa que nomeia. O método palavra e coisa pode, assim, refletir a cultura do povo através do estudo do vocabulário que designa as coisas.

2. A Onomasiologia estuda os diferentes nomes (palavras) atribuídos a um objeto ou ser (coisa) em uma (ou mais) região. A onomasiologia é um grande auxílio da Semântica. Numa mesma localidade pode existe mais de uma palavra para designar a mesma coisa. É o estudo para o enriquecimento do léxico.

4.5 - DIALECTOLOGIA: SEU INTERESSE

A Dialectologia desperta vários interesses, tais como o interesse cultural para saber como o povo está usando sua língua e conhecer as tendências mais profundas de fala regional, podendo contribuir na elaboração, por exemplo, de cartilhas de alfabetização mais eficientes de acordo com o modo de pensar e de viver, refletido na realidade regional.

ARAUJO (pág. 23) , em sua tese de doutorado, apresenta um leque de estudos mais amplos que a pesquisa dialectológica pode propiciar, mostrando a gama de fenômenos lingüísticos e sociolingüísticos, socioeconômicos, geolingüísticos, geoeconômicos, político-administrativos, etc.

A Dialectologia mostra, ainda, um aspecto crucial na comunicação que ocorre entre o homem do campo e o técnico de ciências agrárias: cada um tem sua linguagem própria, sua nomenclatura própria para designar as mesmas doenças de criações e culturas agropecuárias que atingem o meio rural . A Dialectologia pode reduzir o fosso existente entre as duas linguagens, propiciando uma maior aproximação entre ambos.

Um técnico, de formação nos bancos escolares, ao expor seus conhecimentos usa uma linguagem que não é entendida ou assimilada pelo ruralista. Este, em grande maioria, como revelaram as pesquisas feitas nas microrregiões de Viçosa e de Ubá, não passa de uma segunda série primária incompleta; um bom número são analfabetos, pois só “assinam” o nome desenhando-o, e, às vezes, só conseguem soletrar uma ou outra palavra. O técnico usa dos termos científicos dados às doenças e remédios que são desconhecidos do produtor rural. Por outro lado, na linguagem rural, inúmeras doenças tem seu nome, dado pelo homem do campo e tirado da sua experiência de vida, fundamentada, muitas vezes na analogia, como se constatou nas pesquisas feitas nas duas microrregiões mencionadas. Essa situação provoca uma falta de assimilação, de compreensão entre as duas linguagens.

A orientação técnica, se feita ao vivo, torna-se mais fácil a compreensão porque as explicações tornam-se mais detalhadas. Mas a orientação escrita em bulas de remédio ou em palestras e conferências, ou ainda em comunicação à distância como o rádio e a televisão (hoje tão comum nos jornais rurais), é pouco proveitosa se o comunicador técnico não conhece o vocabulário usado pelo homem do campo para que possa haver uma compreensão mútua. Para que possa haver um mútua compreensão, está previsto, neste trabalho, a elaboração de um Glossário Popular-Técnico e Técnico-Popular, para uso especialmente dos técnicos agrícolas, que pela sua formação acadêmica, devem descer ao nível do produtor rural, formado, apenas na escola da vida e da vivência diária. (Aliás, aqui cabe uma digressão. A formação que se dá às crianças nas escolas rurais nada têm a ver com sua vida no campo. Talvez por isso a evasão escolar no meio rural. A pesquisa revelou que essa situação é crônica, pois a maioria dos homens, hoje proprietários rurais, não “passaram ainda além da Taprobana” pois não concluíram, em sua maioria, a metade completa do curso primário).

A pesquisa Dialectológica revela, ainda, a realidade de vida do município em seus agrupamentos humanos como povoados, aldeias, vilas, distritos e outros menores como as propriedades rurais - fazendas, sítios, chácaras. Estes últimos constituem o alvo da pesquisa que procurará conhecer o seu modo de vida, sentir o seu isolamento cultural e lingüístico, procurando as causas que levam o homem rural a deixar o campo em busca de centros maiores ao sentir as dificuldades que tem para ter escola para seus filhos, assistência médico-hospitalar condizente. Não se pode deixar de ressaltar a precariedade da convivência no campo onde predomina o isolamento e a solidão como se pôde constatar pela visita às propriedades. As grandes casas de fazendas estão desertas e abandonadas. Muitas e muitas em ruínas. Os grandes engenhos de água são sucatas. Terreiros de café com seu piso todo rachado onde já não mais se seca o café, fonte de riqueza... A desolação é grande... Pode-se imaginar o que foram no passado essas fazendas. Como devia trepidar de vida, com os homens andando de um lado para outro cumprindo suas tarefas na faina diária das grandes fazendas... Hoje tudo é só desolação e abandono...

5 - ETAPAS METODOLÓGICAS

Com as modificações introduzidas na pesquisa, foi necessário acrescentar novas etapas metodológicas às já adotadas:

1. Escolha da região a ser pesquisada.
2. Determinação das Localidades a serem pesquisadas.
3. Aquisição dos Mapas Oficiais das Localidades (Municípios).

4. Escolha aleatória das Propriedades a serem pesquisadas.
5. Escolha dos Informantes.

6. Elaboração e Impressão das Fichas:
a) da LOCALIDADE
b) da PROPRIEDADE
c) do INFORMANTE
d) de DESCRIÇÃO DAS DOENÇAS
7. Elaboração e impressão dos Questionários:
a) Questionário I- CRIAÇÃO (quadrúpedes)
b) Questionário II- CRIAÇÃO DE AVES
c) Questionário III- CULTURAS AGRÍCOLAS
d) Questionário IV- ERVAS DANINHAS
8. Viagens às Localidades e respectivas Propriedades.
9. Entrevista com os informantes e preenchimento de fichas.
10. Anotação e Gravação das respostas a questionários e fichas.
11. Digitação dos dados de amostragem.
12. Digitação das anotações das Descrições das Doenças.
13. Elaboração do GLOSSÁRIO GERAL com nomes de doenças.
14. Levantamento dos verbetes com variante no significado.
15. Levantamento dos verbetes com variante alofônica.
16. Levantamento dos verbetes com variante alomórficas.
17. Levantamento dos verbetes não-dicionarizados.
18. Levantamento das descrições populares.
19. Levantamento dos verbetes dicionarizados e respectivas descrições.
20. Compatibilização dos nomes populares com os nomes técnicos.
21. Confronto entre as descrições populares e técnicas das doenças.
22. Confecção das Cartas Lexicais com as devidas legendas.
23. Elaboração do GLOSSÁRIO POPULAR / TÉCNICO E TÉCNICO/POPULAR.
24. Levantamento e análise dos aspectos fonéticos.
25. Levantamento e análise dos aspectos morfológicos.
26. Levantamento e análise dos aspectos sintáticos: concordância e colocação.
27. Levantamento e análise dos aspectos semânticos.
28. Análise e Conclusão gerais.
29. Digitação e Impressão computadorizada dos Atlas.
30. Digitação e Impressão do Glossário Popular-Técnico e Técnico-Popular.
31. Elaboração dos Atlas Lingüísticos Rurais Municipais.
32. Elaboração dos Atlas Lingüísticos Rurais das Microrregiões.
33. Elaboração do Atlas Lingüístico Rural da Zona da Mata de Minas Gerais.
34. Negociação com as Prefeituras Municipais, para a ampliação da análise dos dados da pesquisa e impressão de 12 (doze) exemplares do Atlas Municipal.

6 - CONCLUSÃO

A pesquisa será direcionada para a área rural, buscando nomes populares rurais de doenças de criações, culturas agrícolas e horticultura. A UFV, nos seus 70 anos de funcionamento, tem no campo das Ciências Agrárias, sua prioridade com tradicional atuação na trilogia: Ensino, Pesquisa e Extensão. São muitas as pesquisas e experimentos nos setores agrário, pecuário, medicina veterinária, economia rural, biotecnologia, tecnologia de alimentos, agronomia, economia doméstica, zootecnia, etc. Os vários cursos de Pós-graduação a nível de mestrado e doutorado se dedicam à pesquisa em ciências agrárias. Com a criação dos novos cursos, nos últimas vinte anos, voltados para área humana e tecnológica (Letras, Educação, Economia, Administração, Direito, Informática, Engenharia Civil e Arquitetura), a pesquisa vem ampliando o seu leque de pesquisa. Para isso a Universidade tem incentivado os departamentos a promoverem a integração Universidade/Comunidade com cursos de extensão e incentivando as pesquisa emergentes.

Com base nas conclusões da pesquisa dialectológica, os departamentos poderão montar programas de ajuda aos municípios para que haja um melhor desenvolvimento da região, especialmente do meio rural, amenizando suas dificuldades e promovendo o progresso e a modernidade, lema de uma sociedade moderna e globalizante.

A união entre Universidade e Comunidade poderá levar ao campo o progresso cultural e material, batalhando por um Brasil, voltado para a célula máter da administração federal: o Município, baluarte da indústria sem chaminés e poluição que produz alimentos para milhões de estômagos vazios aqui nesta Pátria e para outras Pátrias do planeta, com sua produção agrícola. Para isso é necessária a união de forças para a conquista do ideal brasileiro a fim de ocuparmos um lugar no mundo moderno com um desenvolvimento também moderno.