O LINGUAJAR DAS FAVELAS DO RIO DE JANEIRO
(ELEMENTOS GRAMATICAIS)

José Pereira da Silva

INTRODUÇÃO

Neste pequeno trabalho, o objetivo inicial é o de caracterizar o linguajar das favelas do Rio de Janeiro, assim como chamar a atenção dos estudiosos da língua popular do ponto de vista lingüístico-dialetológico.

Embora não falte boa vontade, este trabalho ainda fica apenas iniciado, pois esta “não é uma tarefa simples, para ser levada a cabo por uma só pessoa”, conforme se justificava o pioneiro da dialetologia brasileira, que se considerava “um hóspede em Glotologia”.

Atendendo o apelo do mestre Amadeu, foram recolhidos nas favelas do Rio de Janeiro, os elementos e fatos lingüísticos mais marcantes, “limitando-me estritamente ao terreno conhecido e banindo por completo tudo quanto for hipotético, incerto, não verificado pessoalmente” , pois só assim se poderia apresentar um trabalho de alguma utilidade, embora imperfeito, do mais conhecido dos subdialetos brasileiros.

Serviu-se das lições dos mestres que nos precederam em tão árdua tarefa, principalmente as que estão indicadas na bibliografia apresentada.  No entanto, não se recolhem nessa pesquisa os “termos e locuções apenas referidos por outrem, mas só os que foram pessoalmente apanhados em uso, na boca dos indivíduos desprevenidos”, conforme ensinou Amadeu Amaral em O dialeto caipira.  Ou, então, confirmadas, posteriormente, em entrevistar feitas com dezenas de jovens, além das observações anotadas há tempos, seja em sala de aula, na rua ou da janela de nossa casa, no Jacarezinho, vendo os guris jogar bolas de gude e pião ou soltar pipa nas lajes.

Embora o estudo aqui apresentado seja dificultado pelo grande número de termos e expressões adotadas ou em face de adaptação, provenientes de subfalares os mais diversos, a pesquisa do linguajar das favelas do Rio de Janeiro apresenta-se facilitada, em parte, pela fusão rápida que sofrem todos estes subfalares regionais ao entrar em contato com o linguajar das favelas, grandemente influenciado pelo linguajar da malandragem.

É que a percentagem de migrantes nas favelas, vindos para cá em busca de melhores meios de sobrevivência, é bem maior que a dos nativos (não descendentes de sertanejos ou caipiras).

Ali, quem não é “paraíba”, mineiro ou capixaba, sem dúvida é descendente deles ou provém do interior do Estado.  Todos, quase sem exceção, foram atraídos pelo ritmo e pela beleza de expressão, ainda tão mal explorada, do linguajar da malandragem.

Esta pesquisa foi feita em quatro favelas, cada uma com uma característica bem marcante, que a distingue das demais: Jacarezinho, Manguinhos, Mangueira e Rato Molhado.

A primeira, com uns cem mil habitantes, tem tudo para ser um bairro, faltando apenas o alargamento das ruas como elemento de urbanização preliminar, pois suas ruas tortuosas e becos sem saída não permitem a entrada de um socorro urgente em horas de angústia, facilitando a fuga dos marginais, que driblam facilmente a polícia.

A Mangueira é a mais antiga de todas, toda em morro, sem água, sem esgotos, sem asfaltamento; em petição de miséria. É ali que se encontra o samba mais vivo e mais quente, exportado para todo o Brasil na época do carnaval.

As duas outras são pequenas.  Manguinhos, muito violenta, vive às margens de excelentes vias de comunicação, o que facilita a entrada e saída dos elementos perigosos, que exploram constantemente a população.  Já a favela do Rato Molhado, a mais recente de todas, com uns quatro anos de criação, vive sempre esperando o despejo, pois todos ainda são novos no lugar, que é terreno “do governo”.  A mais pobre, a mais imunda, a mais abandonada de todas as favelas do Rio, é habitada exclusivamente por imigrantes do Nordeste, de Minas e do Espírito Santo, a maior parte vinda de outras favelas.

A gíria, a fraseologia e os provérbios das favelas cariocas são, de um modo geral, os mesmos que se encontram disseminados por todo o interior do Brasil, principalmente nas regiões abrangidas pelos subfalares nordestino, baiano, mineiro e fluminense.

Isto é facilmente explicável.  É que as favelas do Rio de Janeiro são os pontos de encontra da classe inculta e semiculta de todas estas regiões, para onde trazem suas contribuições regionalistas e de onde levam o sotaque do malandro e a sua gíria, que é a linguagem mais expressiva e mais atual que o carioca possui; na qual se contagia grande parte de sua alma cosmopolita.

É, pois, importante frisar que o linguajar dos malandros, ou seja, a sua gíria e o seu sotaque, é o mais prestigiado dos linguajares, seja pela classe inculta em geral, seja pela semiculta, com especialidade os indivíduos da ala jovem e avançada.

O trabalho foi dividido em duas partes: gramática e vocabulário.

Na primeira, focalizou-se não o aspecto geral, que é usado por todos os brasileiros (de outras regiões), mas o que é de uso particular e local ou que foge à gramática tradicional, próprio das favelas do Rio de Janeiro, os fatos gramaticais não aceitos pela gramática normativa.

No “vocabulário”, pequeno e misto, foram apresentados mais de 2.500 vocábulos, frases e provérbios populares de uso comum nas favelas do Rio de Janeiro, mas não será apresentado agora.

Quanto à bibliografia, foi utilizada apenas como ponto de apoio, principalmente no que respeita ao vocabulário.

Espera-se que este trabalho sirva como uma contribuição para o estudo folclórico e dialetológico da linguagem popular brasileira, embora não tenha sido feito para ter grandes pretensões.  Se este trabalho tiver alguma utilidade prática neste particular, terá alcançado seu principal objetivo.

Dos especialistas, pede-se a compreensão e a colaboração crítica, indispensável para uma posterior aperfeiçoamento ou reelaboração, fazendo-se votos de sucesso aos que se dignarem servir-se desses dados para fazer algo mais completo e melhor.

 

GRAMÁTICA

Os elementos gramaticais aqui arrolados não constituem, é lógico, toda a sistematização do linguajar das favelas,  mas tão somente os casos mais particulares, os que se distanciam da língua padrão da classe culta.

Sob esse título, os fatos serão tratados apenas do ponto de vista de exceção ou excentricidade em relação à língua padrão nacional.

 

FONÉTICA

A pronúncia carioca, além de ser “solta e suave”, como já afirmara Antenor Nascentes em O linguajar carioca, tem um ritmo especial, muito mais musical do que o de qualquer outra região do País, visto que se constitui de sílabas longas e breves, caprichosamente combinadas, como também já observara Marroquim em seu excelente trabalho A língua do Nordeste.

Embora sofram algumas alterações, de que se falará mais adiante, as vogais átonas são todas pronunciadas claramente, como acontece, em geral, em todo o Brasil.

O “e” e o “o” pretônicos são fechados em quase todas as palavras em que não correspondam a um “é” ou “ó”  abertos e tônicos de outras palavras das quais derivem. Ex.: fêchar, ôbêdiente, côrrêsponder; cadérneta, Jacarézinho.

O “e”  e o “o”  átonos finais pronunciam-se sempre “i” e “u”, respectivamente.  Ex.: cárru, dêntchi, pêitu, pêixi (ou pêxi), gátu, lébri.

A vogal tônica se nasaliza toda vez que vem seguida de consoante nasal, recebendo a nasalidade desta por contaminação.  Ex.: cãma, mãnha, emble?ma, ciu?me, mãno, sõmos, si?no.

“Em” e “en”, no início de palavras, mudam-se em “im” ou “in”, respectivamente.  Ex.: imprestar, ingenho, ingraçado, imbaçar, intregar, indereço.

No final de palavras, “em” e “en” perdem a nasalidade, transformando-se em “i” ou permanece como ditongo decrescente nasal, principalmente, neste último caso, se for sílaba tônica.  Ex.:  viági  ou viage?im, jóvi ou jóve??im, folhági ou folháge??im; hífe??im, tambe??im,  algue?im.

Quando seguida de “s” ou “z”, no final de palavras, a vogal tônica recebe um “i” semivocálico, transformando-se num ditongo decrescente.  Ex.: rapáiz, nóis, caféis, cuscuis, cruiz, paiz, péis, cipóis.

Os ditongos decrescentes “êi” e “ou” reduzem-se, geralmente, às vogais fechadas “ê” e “ô”, respectivamente. Ex.: pêxe, quêjo, côve, falô, dêxa(r), bêjá(r), pôpá(r), rôpa.

No entanto, quando o ditongo “ôu” aparece nos verbos de primeira conjugação, transforma-se em “ó”, principalmente na sílaba tônica.  Ex.: róba, afróxa, estóra, encóra, enrópa.

Nos ditongos crescentes em que aparece a semivogal anterior no final de palavras, esta é absorvida com a destruição do ditongo.  Ex.: espéci, superfíci, históra, otáro, secretára.

Do mesmo modo, no ditongo decrescente “ai”, cai a semivogal antes de consoante chiante.  Ex.: baxo, caxa, facha.

O ditongo átono nasal /ãw/, seja grafado “ão”, seja “am”, perde o elemento vocálico, vocalizando-se, freqüentemente a semivogal.  Ex.: órfu, órgu, faláru, fugíru, perdêru.

O hiato “ôa” se desfaz com a interposição de uma semivogal posterior.  Ex.: pessôua, vôua, enjôua, atôua, sôua, bôua.

Quanto às consoantes, quase não há variações em relação à língua culta.  Vejam-se os seguintes casos, entre os mais importantes:

O “s” e o “z”, no final de sílabas, soam chiantes e não sibilantes.  De modo geral, o “s” e o “z” só não são chiantes quando, no final de palavras, vêm seguidos de palavras iniciadas por vogal, sem pausa.  Neste caso, soam como “z”, isto é, sibilantes sonoras.  Ex.: azázazazúix; ozãnjozamígox.

Quando em final de sílaba, seguido de pausa ou de consoante surda, soam como “ch”, isto é, chiantes e surdas; quando seguidas de consoantes sonoras, soam como “j”, isto é, chiantes sonoras.  Ex.: extá, extudãmux, dêjdi, trézantôntchi, azázaj da cigarra.

O “r” forte tem uma articulação pós-velar, uvular, gutural e até faríngea, muito parecida com o “r” do francês de Paris ou com o “h’ aspirado do inglês, não muito fixa, porém mais tendente para a faringe que para a úvula.  Ex.: O rato roeu a roupa do rei Raul.

O “r” no final de palavra é, geralmente, omitido.  Ex.: cantá, cumê, sorri, compô, culé, mulé, pió.

Nos grupos consonantais, geralmente, ele cai quando a sílaba em que se dá o encontro é átona. Ex.: pobrema, nêgu, pádji, cumádji.

O “t” e o “d”, quando seguidos de /i/, sofrem uma palatalização.  Ex.: tchitchía, dgía, gêntchi, dêntchi, ôndgi, dgistrair.

O “l”, no final de sílabas, pronuncia-se como a semivogal posterior /w/, formando um ditongo decrescente com a vogal que o precede.  Outras vezes, ele se transforma em “r” brando (podendo cair, como todo “r” final).  Ex.: Brasíu, papéu, báudji ou bárdji, séuva ou serva, sóuda ou sorda, Raúu ou Raú, sóu ou só (= sol), cáudu ou cárdu, enxováu ou enxová.

Quando constitui um grupo consonantal, o “l” se muda freqüentemente em “r”.  Ex.: pranta, cárdu, pôbre?ma, brócu, brúsa, cráru, prantãu.

Quando seguido de ditongo crescente constituído de semivogal anterior mais vogal, o “l” se palataliza, em regra.  Ex.: famílha, mobílha, ólho (= óleo).

O dígrafo “lh” se transforma na semivogal /y/ ou na consoante /l/, caindo antes da vogal /i/.  Ex.: muié ou mulé, fôia, moiá, cuié ou culé, paínha ou palinha, foínha ou folínha, véínha ou vélínha.

O encontro consonantal formado de uma oclusiva seguida de outra consoante qualquer, na sílaba seguinte, é desfeito, geralmente, com a interposição de uma vogal entre as duas consoantes.  Ex.: abissolútu, baquitéria, oquicipitáu, oquissítonu, adevogádu, adimissãu, pinêu, rítimu.

É muito freqüente a aférese do “a”, principalmente nos verbos.  Ex.: doecê, gëntá, manhecê, noitecê, jeitá.

A síncope é mais freqüente nos proparoxítonos.  Ex.: árvi, pórva, cósca, músga, másga, relampu.

A apócope é comum para o “r” e, às vezes, para o “l” e para o “s”, ou, ainda, para a última sílaba dos proparoxítonos.  Ex.: contá, fazê, sorri, lápi, píri, ônibu, solúvi, legíti, múscu ou músgu, másca, quadrúpi.

A metátese é comuníssima.  Ex.: açalpãu, bicabornátu, cardenêta, largátu, largatixa, sastifaçãu.

A desnasalização se dá com os ditongos átonos /ãw/ e /e?y/. Ex.: órfu, órgu, faláru, fugíru, perdêru; viági, jóvi, folhági ou foiági.

 

MORFOLOGIA

As desinências de número desaparecem nos termos determinados, continuando apenas nos determinantes.  Mesmo assim, quando há mais de um determinante, geralmente se omitem nos que vê depois do determinado.  Ex.: Us hõmi due?thci, mêus cadérnu véi, u?as minina linda.

Do mesmo modo, também as formas verbais se simplificam.  Aqui, os pronomes é que funcionam como morfemas flexionais de pessoa e número, reduzindo-se estes a duas formas apenas: uma para a primeira pessoa do singular, outra para as demais pessoas, com raras exceções.

Do que ficou dito atrás se conclui que o adjetivo só varia em número quando anteposto ao substantivo.  Ex.: Ux rapáiz ixtudgiôsu fôru prêsu.

Embora se use também o grau analítico-sintético e o sintético, o grau analítico é o mais freqüente.  Ex.: muito bonito, bonito paca, bonito pra caralho, bonito pra burro, bonito pra chuchu, bonito pra caramba, bonito pra cacete; mais menó, mais maió, mais pió etc.

O pronome de segunda pessoa é “você” e “o senhor’, ou “vocês” e “os senhores”, com suas variadas formas populares.

– Num vô não!... Pregunta lá pru Zé, se ele vai c’ocêis.

– Ôh, Zé!... Cê vai na festa com nóis?...

O pronome “tu” é quase totalmente desprezado, e o “vós”, ainda mais.

O pronome “se” é usado indiscriminadamente, quando reflexivo, para todas as pessoas.  Ex.: Nóis se intende.  Já vô s’imbora.

Usa-se “a gente” como pronome de tratamento de primeira pessoa do plural, substituindo o pronome pessoal “nóis”.  Ex.: A gente contãmu c’ocêis.  Se Deus quisé, a gente vãmu lá.

Não há distinção entre os demonstrativos “este” e “esse”.  Ex.: Esse anel que trago no dedo é mió do que os d’ocêis tudo.

O indefinido “todos”, nas locuções “vocês todos”, “eles todos”, “nós todos” etc., pode ser substituído por “tudo”.  Ex.: Nóis tudo é u?a corja só.  Ocêis tudo num monte num vale um.

Quanto aos verbos, podem-se reduzir o seu estudo com a apresentação esquemática do quadro (na página seguinte) de sua conjugação no linguajar das favelas do Rio de Janeiro.

É importante frisar que alguns tempos verbais são quase totalmente desprezados e substituídos por outros.

O mais-que-perfeito simples do indicativo é substituído pelo mais-que-perfeito composto ou pelo perfeito do mesmo modo.

Os tempos do futuro do indicativo são substituídos pelo presente e pelo pretérito imperfeito, respectivamente; o mesmo acontecendo com o presente e com o pretérito imperfeito do subjuntivo.

O futuro do subjuntivo é substituído, geralmente, pelo infinitivo.

Quanto às preposições, foram registradas aqui as que apresentam certas modificações e importância: a, inté ou té, cum ou cu, contra, dê ou dji, dêjdji, êntri, im ou ni, pra, pru, séim.

Dos advérbios, apenas os seguintes: ôntchi, antôntchi, tresantôntchi, inhântchis ou im ântchis, dispois, inriba ou im riba, adonde, donde (= onde), num (= não, quando proclítico) e mau (= mal).

A adversativa “mas” se confunde com o advérbio “mais”, pronunciando-se ambos com “i”, assim como o advérbio “mal” se confunde com o adjetivo por se pronunciarem ambos com “u”.

 

SINTAXE

Conforme lembra Antenor Nascentes, “por enquanto as divergências sintáticas são grosseiros solecismos, mas lembremo-nos de que é assim que se constituem as línguas”,  mas já é tempo de serem examinadas mais cuidadosamente estruturas tão peculiares de frases como as que aqui se constroem, tão diversas das de Portugal e até mesmo de outras partes do Brasil, que nem parecem ser da mesma língua.  Já é tempo de se valorizar o estilo brasileiro.  Isto, porém, só poderá ser feito a partir de alguns elementos básicos, que só estarão sistematizados quando se chegar a um ponto comum entre os diversos falares e linguajares da língua nacional.

Peço a permissão dos entendidos para expressar minha opinião: O linguajar das favelas do Rio de Janeiro é o ponto-chave para a caracterização do dialeto brasileiro.  A partir dele, todos os demais linguajares, falares ou subdialetos podem ser facilmente delimitados, levando-se em conta seus inúmeros pontos de contato e seus raros pontos de diversificação.

Em relação ao subdialeto do interior de Minas Gerais, o linguajar das favelas do Rio de Janeiro está no extremo oposto; tanto aquele se conserva com características da primitiva colonização, quanto este vem influenciado pelas mais recentes evoluções da língua.

A nossa sintaxe, embora não tenha tão numerosas divergências dos restantes dialetos ou falares brasileiros, trás alguns elementos dignos de referência.

 QUADRO GERAL DA CONJUGAÇÃO DOS VERBOS

PRONOMES ANDÁ(R) BEBÊ(R) PARTCHI(R)

Presente do indicativo

Eu Ându bêbu pártu

tu, ele(s), ela(s), (v)ocê(is) Ânda bébi pártchi

Imperfeito do indicativo

Eu andáva (távu)  bebía partchía

tu, ele(s), ela(s), (v)ocê(is) Andáva bebía partchía

Pretérito imperfeito do indicativo

Eu Andei bebi pártchíu

Tu andô (andássi) bebeu (bebêssi) pártchíu (partchíssi)

ele, ela, (v)ocê Andô bêbeu pártchíu

Nóis andô (andêmu) bêbeu (bebêmu) pártchíu (partchímu)

eles, elas, (v)ocêis andô (andáru) bébeu (bebêru) pártchíu (partchíru)

Imperativo

(v)ocê(is) Ânda bébi pártchi

Presente do subjuntivo

eu, tu, ele(s), ela(s), (v)ocê(is) Ândji bêba párta

Pretérito imperfeito do subjuntivo

eu, tu, ele(s), ela(s), (v)ocê(is) Andássi bebêssi partchíssi

Futuro do subjuntivo

eu, tu, ele(s), ela(s), (v)ocê(is) andá bebê partchi

Infinitivo (im)pessoal

eu, tu, ele(s), ela(s), (v)ocê(is) andá bebê partchi

Gerúndio

 andân(d)u bebên(d)u partchín(d)u

Particípio

 andádu bebídu parthídu

Por exemplo:

Usam-se freqüentemente as formas analítico-sintéticas: mais mió, mais pió, mais maió, mais menó, assim como mais superior e mais inferior.

O pronome pessoal do caso reto é usado como objeto direto.  Ex.:  Ôh, meu chapa, cê tá vendo ela aí?  O Cabeção viu ela ali fora.

Além disso, o mesmo pronome pode ser o sujeito de uma oração reduzida do infinitivo, quando deveria ser usado o pronome do caso oblíquo.  Ex.: Mandei ele passear.  Vi eles chegarem.  Deixou nós cantar.

O pronome “lhe” é usado como objeto direto.  Ex.: Não lhe encontrei ontem.  Eu lhe vi hoje.

É comum também ouvir alguém dizer: “Pediram pra mim chegar cedo”, com o sujeito da reduzida na forma oblíqua, quando deveria ser a reta.

O reflexivo de terceira pessoa, quando precedido de preposição, geralmente vem substituído pelo pronome do caso reto.  Ex.: O Cara de Caçapa comprou pra ele uma calça de veludo (pra ele = para si).

Com os verbos pronominais, é freqüente a reduplicação do pronome do caso oblíquo.  Ex.: Ele se feriu-se.  João se suicidou-se.

Nas frases de anúncio, é muito comum a concordância ideológica com um sujeito indeterminado ativo.  Ex.: Vende-se bujões vazios.  Aluga-se quartos para rapaz.

Nas interrogações enfáticas, o povo emprega a expressão “quem que” em lugar de “quem”.  Ex.:  Quem que vem aí?  Sabem com quem que cê tá falando?

Outro caso.  O pronome interrogativo “que” aparece sempre precedido do demonstrativo “o”.  Ex.:  O que é, ôh cara?  O que tá pegando, hein meu chapa?

O tratamento comum é “você”, representado no acusativo por “te” e nos demais casos por “ti”, com o verbo na terceira pessoa do singular, visto que a única forma verbal para a segunda e terceira pessoas é essa.

O possessivo de segunda pessoa pode ser “teu” ou “seu”, indistintamente, dada a confusão criada com o uso do pronome “você”.  Em vez de “com você”, é mais comum usar-se “contigo”, e não “consigo”, como já foi registrado algures.  Ex.: Gostei muito de você e gostaria de levar um papo contigo.

O verbo “haver” impessoal é substituído por “ter”.  E, quando usado, concorda em número com o objeto direto, indo, quando for o caso, para a terceira pessoa do plural.  Do mesmo modo, o verbo “fazer” impessoal pode ir para o plural.  Ex.: Tem muita gente nesta sala.  Haviam garotas lindas.  Fazem três dias que não te vejo.

A preferência pela preposição “em”, para os verbos de movimento, é quase absoluta, principalmente para o verbo “chegar”.  Ex.: Cheguei cedo em minha casa.  Vou na cidade fazer uma compra.

A idéia de negação, principalmente quando expressa pelas palavras “nada”, “ninguém” e “nenhum’, vem reforçada pleonasticamente pelo advérbio “não”.  Ex.: Ninguém não me viu, não senhor.  Não quero nada, não.

O advérbio “meio”, ou se reduz a “mei”, ou varia em gênero e número, como o adjetivo.  Ex.:  Ela é meia doidinha.  Ele é mei zureta.  Tô mei cabrero contigo.

 

CONCLUSÃO

Espera-se contribuir com este trabalho para o desenvolvimento dos estudos do estudo da linguagem popular brasileira e da dialetologia, já que o que se tem feito nesses dois setores dos estudos folclóricos e lingüísticos está muito aquém das necessidades percebidas por todos quantos labutam com o assunto.

Exatamente por isso, quando se pretende fazer um trabalho de pesquisa sobre este ou aquele falar ou sobre este ou aquele aspecto da linguagem popular, sente-se logo a falta de um trabalho cientificamente desenvolvido por pessoa que possa figurar entre as autoridades no assunto, para que se possa ter um modelo de estudo atualizado com os avanços da lingüística e ciência do folclore.

Sem a pretensão de sanar este problema,  fica aqui um apelo aos especialistas para que esse trabalho seja feito o mais brevemente possível.

Para satisfação de quantos se entregam à tarefa de mostrar a realidade lingüística da classe inculta, a Professora de Dialetologia Brasileira da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Dra. Mônica Rector, publicou no primeiro número da Revista Brasileira de Lingüística, do ano de 1978 (quando foi elaborado esse artigo), uma orientação à pesquisa da linguagem das favelas cariocas.  É um trabalho excelente, sem dúvida, mas ainda mais se valoriza, quando apresenta, no final, uma bibliografia que acredito ser a mais completa que se publicou até então sobre as favelas do Rio de Janeiro.

Quando se deu início a este trabalho, falou-se do critério que seria usado para tratar da gramática e do vocabulário do linguajar objeto do estudo.  Agora é a vez de lembrar os leitores de que insuficiência de justificação para a seleção de fatos lingüísticos aqui arrolados não poderia figurar neste volume, pois foi ultrapassado o seu objetivo principal, que é o de caracterizar o linguajar das favelas do Rio de Janeiro.  Além disso, foi preciso desprezar alguns elementos interessantes, por falta de espaço e tempo.

Por esses motivos também que tratou-se da gramática, apresentando apenas o que caracteriza o linguajar, abandonando o que é geral ou que segue a evolução natural da língua no Brasil, com raras exceções.  Essas, quando feitas, obedeceram ao critério único da grande importância do fenômeno dentro do “linguajar”, mesmo que tenha um caráter nacional.

Pelo mesmo motivo, quando se tratar do vocabulário, serão registrados os vocábulos e as expressões usuais, não somente nas favelas, mas em todas as camadas inferiores da população, não só do Rio de Janeiro, mas  quase todo o Brasil.  Isto seria inevitável, visto que a língua que usam os moradores dessas favelas é a mesma que usam os sertanejos nordestinos e os caipiras do interior brasileiro, principalmente da Região Sudeste.

Tratando-se ainda do vocabulário, é bom frisar que ali ficou registrado não só o catálogo das palavras, mas também das frases-feitas e provérbios populares dos favelados.

Se ficar evidente, pelo menos, que este linguajar deve ser estudado melhor pelos especialistas, já terá sido alcançado o principal objetivo perseguido.