CONSIDERAÇÕES ACERCA DA FRASEOLOGIA,
SUA CONCEITUAÇÃO E APLICABILIDADE
NA IDADE MÉDIA

 

Álvaro Alfredo Bragança Júnior (UFRJ)

I. INTRODUÇÃO

As fórmulas colectivas e tradicionais reflectem maravilhosamente a mentalidade de um povo,  sua história,  seus costumes , crenças, estados afectivos, tendências gerais, aos olhos de quem saiba vê-las e utilizá-las como instrumentos de indagações superiores.

(AMARAL, A. 1948:242)

 

Uma das formas de conhecimento da história do pensamento social no correr dos séculos está presente em um vasto número de expressões, muitas vezes caracterizadas como populares, as quais seriam portadoras das vivências de uma ou mais gerações e que funcionariam como instrumentos de conduta aptos para serem aplicados no cotidiano.
A questão da classificação das expressões fraseológicas em populares ou eruditas coloca-nos diante de algumas questões: quais os limites da ciência fraseológica e até que ponto, em sua origem, os chamados ditos populares emanaram da tradição popular de uma coletividade?
Denomina-se fraseologia a ciência que estuda o conjunto de frases ou locuções de uma língua, em primeiro plano, ou de um autor isolado, num segundo momento. No segundo caso, muitas vezes, o estudo fraseológico adentra o campo da estilística. Distingue-se da fraseografia por esta ser um “ramo da Lexicografia e da Fraseologia 2),  que se ocupa da  apreensão lexicográfica e caracterização da fraseologia 1) de uma ou mais de uma língua...”[1].
Essas “frases ou locuções de uma língua” recebem uma classificação tipológica que normalmente não consegue delimitar suas características formais e conteudísticas básicas, pelo contrário, muitas vezes associando-as praticamente como sinônimas. Os maiores dicionaristas da língua portuguesa não conseguem estabelecer limites rígidos no tocante à definição dos chamados ditos populares, como podemos depreender a partir da recolha desses termos feita por SIMON (1989:18-25). À guisa de exemplificação, confrontemos aqui o Novo dicionário da língua portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda com o Dicionário etimológico da língua portuguesa, de José Pedro Machado e com o Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa, de Silveira Bueno:

I. Aurélio Buarque de Holanda.   Novo dicionário da língua portuguesa

 

- adágio1 [Do lat. adagiu] S.m. V. provérbio ...;
- aforismo [Do grego aphorismós, pelo lat. aphorismu.] s.m. sentença moral breve e conceituosa; máxima ...;
- anexim (x=ch). [Do ar. an-naxid.] s.m. 1. v. provérbio... 2. Dito sentencioso.;
- apotegma. [Do grego apophtegma.] s.m. 1. Dito curto e sentencioso, aforismo, máxima...;
- axioma (cs ou ss). [Do gr. axioma, pelo latim axioma.] s.m. 1. Filos. Premissa imediatamente evidente que se admite como universalmente verdadeira sem exigência de demonstração. 2. P. ext. Máxima, sentença ...;
- brocardo. [Do lat. medieval brocardu] s.m. 1. Axioma jurídico. 2. Axioma, aforismo, máxima, sentença, provérbio...;
- chufa1. [Voc. onom., calcado no lat. vulg. sufilare, sibilare, ‘assobiar’.] s.f. Dito trocista; caçoada, troça, remoque, mofa...;
- ditado [Do lat. dictatu.] s.m. ... . 3. v. provérbio (1)...;
- dictério. [Do gr. deiktérion, pelo lat. dicteriu] s.m. Troça, zombaria, motejo, escárnio, chufa, dichote...;
- ditame. [Do lat. dictamen.] s.m. ... 2. O que a consciência e a razão dizem que deve ser... 3. Regra, aviso, ordem, doutrina...;
- ditério. s.m. 1. Var. de dictério. 2. Bras. S. Pop. V. dito (5);
- dito. [Do lat. dictu.] Adj. 1. Que se disse; mencionado, referido. S.m. 2. Palavra, expressão. 3. Sentença, frase. 4. Provérbio, ditado. 5. Mexerico, enredo, ditinho...;
- dizer1. [Do lat. dicere.] s.m. ... Expressão, dito ...;
- gnoma. [Do gr. gnóme, pelo lat. gnome. s.f. sentença moral | V. máxima (2) |;
- máxima (ss). [Fem. substantivado de máximo.] s. f. 1. Princípio básico e indiscutível de ciência ou arte; axioma. 2. Sentença ou doutrina moral... 3. Conceito, aforismo, pensamento, apotegma... 4. Anexim...;
- motejo (ê). Do it. moteggio. S.M. 1. V. zombaria... 2. Dito picante; gracejo.;
- parêmia. [Do gr. paroimía, pelo lat. paroimia.] s.f. 1. Breve alegoria. 2. Provérbio, prolóquio.;
- prolóquio. {Do lat. [proloquiu.] S.m. Máxima, ditado, adágio, provérbio, anexim. ... pp. 1400-1401
- provérbio. [Do lat. proverbiu.] s.m. 1. Máxima ou sentença de caráter prático e popular, comum a todo um grupo social, expressa em forma sucinta e geralmente rica em imagens; adágio, ditado, anexim, refrão, rifão... 2. Pequena comédia que tem por tema o desenvolvimento de um provérbio...;
- refrão. [Do provenç. ant. refrahn, ‘canto dos pássaros’.] s.m. 2. Adágio, provérbio, anexim, rifão, refrém ...;
- rifão. [F. dissimilada de refrão.] s.m. V. provérbio (1)...;
- sentença. [Do lat. sententia.] s.f. 1. Expressão que encerra um sentido geral ou princípio ou verdade moral máxima. 2. Rifão, provérbio, anexim... .

II. José Pedro Machado - Dicionário etimológico da língua portuguesa

- adágio1, s. Do lat. adagiu-.... Séc XVII, no Dic. de Agostinho Barbosa, 1611, s.v.... p. 71
- aforismo, s. Do grego aphorismós, “limitação; definição; breve definição, sentença”, donde: “sentença breve e indiscutível que resume uma doutrina... p. 105
- anexim, s. Do ar. an-naxid, “elevação da voz, canto; poema que se recita nas assembleias; trecho de declamação, hino”; deve ter tomado o sentido de “adágio”no Andaluz, a substituir o clássico mathal;... p. 201
- axioma, s. Do gr. axioma, “preço, valor, qualidade (de um exército) ... “princípio que serve de base a uma demonstração, princípio evidente de si próprio, axioma, proposição;... p. 288
- brocardo, s. Do lat. medieval brocardu, deduzido do pl. brocarda, -um, de Burchardus, nome do bispo de Worms (séc.XI), autor de uma compilação de direito canónico. ... p. 409
- chufa, s. Vocabulo onomatopaico, com representação românica... p. 595
- dicho do esp. dicho. p. 788
- ditado de ditar; a acepção de “composição poética” ... p.788
- ditério do lat. dicteriu-, “boa piada, boa saída, motejo, sarcasmo”; ... p. 789
- dito; como s., do lat. dictu-, s., “palavra; boa saída, palavra espirituosa; sentença, preceito, provérbio; ordem, opinião” ... p. 789
- gnome, s. Do gr. gnóme, “sentença, adágio” pelo lat. gnome. Séc XIX ... p. 1108
- máxima do lat. maxima (sententia), no Latim escolástico a proposição maior, que tem o valor de uma verdade geral e absoluta; ... p. 1449
- motejo, do esp. motejo, ... p. 1544
- parémia do gr. paroimía, “provérbio; parábola”, pelo lat. paroemia, “provérbio”; ... p. 1677
- prolóquio do lat. proloquiu-, “proposição, ideia (enunciada)”. ... p. 1353
- provérbio do lat. proverbiu-, “provérbio, dito, rifão”; ... p. 2158
- refrão do ant. prov. refrahn, ‘canto de pássaros, refrão’... p. 1869
- rifão, s. De refrão, através da forma dissimilada *refão ... p. 1893
- sentença do lat. sententia, “sentimento, opinião, ideia, maneira de ver; opinião (dada no senado); voto, sufrágio (nos comícios); ... sentença, máxima” ... p. 1973
 

III. Francisco da Silveira Bueno - Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa

 

- adágio - s.m. Dito, provérbio, rifão, etc. Lat. adagium. ... p. 76
- aforismo - s.m. Sentença, ditado, provérbio, definição. Gr. aphorismòs, definição, sentença, conceito. p. 111
- anexim  - (chim) s.m. Rifão, adágio, ditado, provérbio. Ár. an-naxid, elevação da voz, canto, etc. ... p. 239
- apoftegma - s.m. Dito sentencioso, provérbio, expressão rara de grandes homens. Gr. apophthegma, de apophthéngomai, digo de modo conciso. ... p. 290
- axioma - s.m. Princípio evidente que não precisa de demonstração. Proposição clara por si mesma. Gr. axioma, atos, dignidade. p. 455
- brocardo -s.m. Ditado, provérbio, rifão, anexim. Derivado do nome do bispo de Worms, Burkard, alatinado em Brocardus, do séc. XI, autor de um livro de direito canônico. ... p. 550
- chufa -s.f. Motejo, vaia. Langobardo zupfa ... p. 703
- ditame - s.m. Aviso, regra, lema. Lat. dictamen. p. 1037
- ditério -s.m. Zombaria, motejo. Gr. deikterion; lat. dicterium, sarcasmo. p. 1037
- dito - adj. subst. Frase, expressão, provérbio. Lat. dictus ... p. 1038
- gnoma - s.f. Máxima, sentença moral. ... p. 1597
- máxima - s.f. Dito, provérbio, sentença, doutrina, regra, aforismo que contém um conceito moral. Do latim medieval maxima (sententiarum), a maior de todas as sentenças. p. 1353
- mofa - s.f. Escárnio, troça, pândega, caçoada, zombaria. Deverbal de mofar. p. 2493
- motejo -s.m. Mofa, escárneo, caçoada, crítica, burla, gracejo. Deverbal de motejar. p. 2542
- parêmia - s.f. Maneira de dizer que se afasta da comum, maneira de dizer figurada, donde provérbio, ditado, rifão, que quase sempre encerra uma sentença moral. Lat. tardio paroemia, gr. paroimía, de para, ao lado de e oimè, caminho, estrada. ... p. 2888
- prolóquio - s.m. Provérbio, adágio, anexim, sentença, máxima. Lat. proloquium, de proloqui, falar, manifestar-se por palavras. p. 3213
- provérbio - s.m. Rifão, anexim, aforismo, máxima, sentença, ditado, adágio. Lat. proverbium. p. 3237
- refrão - s.m. Estribilho, adágio, provérbio, rifão, ditado. ... p. p. 3429
- rifão - s.m. Ditado, provérbio, prolóquio, adágio, refrão, sentença. Dissimilação de refrão. ... p. 3537
- sentença - s.f. Máxima, pensamento, provérbio, dito moralístico, julgamento proferido por juiz ou autoridade competente... . Lat. sententia. p. 3704
Tentativas mais precisas de se delimitar as especificidades de cada termo estão presentes em obras mais recentes. No Diccionario de aforismos, proverbios e refrans (1967:5), obra de consulta sobre expressões fraseológicas em geral, encontramos uma  tentativa de proposta de definição terminológica:
O aforismo é uma sentença lacônica e doutrinal que apresenta em forma sintética o mais interessante de alguma matéria, regra, princípio, axioma ou máxima instrutiva.
O adágio encerra um sentido doutrinal encaminhado a proporcionar algum conselho para saber se conduzir na vida ...
O provérbio leva consigo um certo significado histórico,...
Quando os ditos sentenciosos procedem do campo da ciência recebem o nome de máximas ou aforismos, e quando se trata de sentenças proferidas por  algum personagem  célebre  são qualificados com o nome de apotegmas.
O refrão é um dito breve, sentencioso, anônimo, popular e conhecido ou admitido comumente.
José Pereira da Silva (1992:194-97) ocupou-se do tema em nível textual e sintagmático, classificando o provérbio como preso a “diferentes formas de expressão tradicional”, que se caracterizam, segundo Amadeu Amaral (1948:219), por encerrar “um fundo condensado de experiências refletidas”, onde estão presentes traços distintivos como a concisão, a elegância e expressões arcaizantes. Diferenciar-se-ia do ditado por ser uma “construção metafórica ou conotativa, (que) diz respeito a verdades gerais e faz um julgamento de valor”, enquanto este último seria “uma construção direta ou denotativa, (que) diz respeito a setores precisos da atividade e a grupos específicos e fica na simples observação e constatação dos fatos, sem julgá-los.” O refrão apresentaria um caráter popular e familiar. Já a máxima, segundo José Pereira, obedece “à gramática, não permitindo a omissão do artigo necessário nem transgredindo o modelo gramatical.” O adágio seria utilizado como termo equivalente a provérbio, ditado e refrão. O aforismo seria uma “sentença breve e doutrinal, que em poucas palavras explica e compreende a essência das coisas.” O apotegma poderia ser definido como uma “fórmula coletiva e tradicional, pertencente a um personagem ilustre, que se constitui de pequenas histórias extremamente condensadas, que se aplicam às mais variadas situações da vida.”          
Se, no que tange às análises eminentemente de cunho lingüístico, não se chega a uma delimitação precisa das diversas manifestações tipológicas da fraseologia, podemos traçar, por outro lado, um esboço da sua história, onde depreendemos com base em seu acervo, um fundo didático-filosófico-moralizante que lhe serve de fio condutor.
As primeiras fontes de que dispomos remontam aos egípcios, onde segundo as palavras de Maria Helena Trench de Albuquerque (1989:35),

  os  ‘sebayts’ (ensinamentos), equivalentes aos provérbios atuais são citados desde o terceiro milênio A.C. Entre os hebreus  e  os aramaicos o provérbio representava a palavra de um sábio.    No século VI A.C. aparecem as Palavras de Ahiqar e no século  IV A.C. os Provérbios de Salomão. Entre os gregos, ‘gnômê’ (pensamento) e ‘paroemia’ (instrução) cobrem as noções de provérbio, sentença, máxima, adágio, preceito etc., aparecendo  em obras de Platão, Aristóteles e Ésquilo....
 

Também na China e entre os sumérios dispomos de exemplos desta “sabedoria” universal. Dentre os autores latinos, Catão, Cícero, Sêneca, Publílio Siro constantemente incluíam sentenças suas ou não, com finalidade instrutiva.[2]  Com os estudos dos clássicos gregos e latinos durante a Idade Média, a difusão das fórmulas clássicas alcançou praticamente todas as incipientes línguas nacionais. Através do latim, língua universal de cultura, Erasmo de Rotterdam com a sua Adagiorum Collectanea viabilizou definitivamente a incorporação de numerosos provérbios gregos e latinos ao tesouro lexical de várias línguas.[3]
O Livro das Sentenças de Pedro Lombardo e os Disticha Catonis, de autoria duvidosa, fariam parte da bibliografia indispensável das escolas eclesiásticas e das universidades, servindo praticamente como primeiros livros para os alumni.
Pelo exposto, percebemos que homens com domínio do código da escrita encarregaram-se de ilustrar seus textos com frases ou expressões, que em determinado lugar e dentro de seu contexto específico, teriam o valor de uma verdade validada pela experiência. Entretanto, como afirma Maria H. Trench de Albuquerque (1989:36)
Não se  pode  confundir as origens remotas e comuns ao  acervo paremiológico da humanidade com os  meios  pelos quais  essas estruturas chegaram aos nossos dias:  a  mais breve  observação sobre a verdadeira fonte comum proverbial permite afirmar  que a tão decantada origem popular dos provérbios é um mito surgi- do em função de alguns dos modos pelos quais os E.P. (Enunciados Proverbiais -parênteses nossos-) foram veiculados e utilizados em certas épocas. Na Idade Média  essas  fórmulas gozavam de grande prestígio, constituindo-se na base  de  exercícios gramaticais  nas escolas elementares  e  capitulares... .  A  partir dessa época grande número desses enunciados foram transmitidos por autores ... ligados ao clero ... e chegaram até os  nossos dias e até o nosso meio contemporâneo.  
Do ponto de vista social, a origem e o papel das expressões fraseológicas através de gerações prendem-se à transmissão de um legado cultural de conselhos práticos de vida baseados na experiência e na sabedoria dos antigos. Através de observações feitas a partir da realidade circunjacente ao mundo de sua época, o homem procurava, por meio de expressões fraseológicas, ter em mãos subsídios práticos para sua própria orientação e das próximas gerações no que diz respeito às condutas a serem seguidas ou refutadas. Uma extensa terminologia ligada a essas expressões reflete, ou pelo menos tenta refletir, nuances distintas de forma e conteúdo, que, de certa maneira, tentam delimitar suas raízes populares ou eruditas, onde o provérbio se destaca pela sua expressividade e peculiaridades externas e internas.
 

II. O PROVÉRBIO: PROPOSTA DE DEFINIÇÃO
 
Vamos nos contentar em reconhecer que o provérbio é um dito corrente entre o povo.[4]
Assim sumariza o paremiologista americano Archer Taylor no início de seu livro, considerado pelos estudiosos como o marco de surgimento da paremiologia moderna,  The proverb. O problema da precisa delimitação de provérbio e seus correlatos passa, em primeiro lugar, pela necessidade de esclarecimento do conceito de fraseologia, como procuramos analisar na introdução do presente trabalho.
Heda Jason também vê o provérbio como “uma obra de literatura”.[5]  Já Peter Grzybek define os provérbios como “uma forma de  textos estereotipados,  que  em  uma  cultura são transmitidos por muito tempo numa forma relativamente estável, embora a própria cultura se transforme constantemente.”[6]
Para a Academia de Ciências da antiga República Democrática Alemã, provérbios são “unidades lexicais memorizáveis e reproduzidos em nível textual, que nomeiam uma situação ou experiência de vida de uma forma reduzida e pregnante”[7]. A concepção medieval de aliar à sabedoria humana, centrada na experiência e na autoridade do saber das auctoritates clássicas dentro de uma perspectiva científico-filosófica de fundamento cristão, uma sabedoria divina, norteadora do próprio comportamento humano, encontra na palavra  provérbio sua  melhor exteriorização.

Maria Lúcia Mexias Simon (1989:26-27) assim precisa o termo provérbio:

  Tem-se como estabelecido que as lexias textuais de caráter judicioso, extraídas da Bíblia, serão chamadas provérbios e não receberão nenhuma das outras denominações.  Outro ponto comum é quanto ao aspecto da gravidade do provérbio; é um aconselhamento ou um juízo que  pode  ser  repetido  pelos eruditos,  pela classe elevada, enquanto que, ao  menos numa visão sincrônica, os  ditérios, os  anexins,  as chufas ficam  com  as  crianças ou a classe menos elevada.

 
A transmissão cultural e seu próprio desenvolvimento podem ser bem analisados, se levadas em consideração as informações de cunho social contidas nas expressões proverbiais. Partindo-se de temas comuns ao homem, procura-se chegar a um consenso sobre o posicionamento do mesmo perante o mundo e as tribulações e alegrias nele encontradas. Como afirma Heda Jason, o provérbio

  pretende ensinar ao ouvinte: ele critica o comportamento humano; ele o adverte dos perigos. O provérbio faz isso de dois modos: (a) ele dirige-se ao leitor diretamente, dizendo-lhe como se comportar ou como não se comportar;  ele aconselha ou  dá ordens ou proibições diretas; ele adverte de perigos  e  armadilhas e critica o comportamento humano. (b) O outro modo, no qual   o provérbio leva suas intenções até o ouvinte é resumir experiências de vida e deixar o ouvinte, ele próprio, tirar as conclusões e aplicá-las no futuro para o seu comportamento.[8]

 
Já Amadeu Amaral (1948:219) caracteriza-o como “um conjunto de verdades gerais adequadas à mentalidade média dos povos e expresso com a segurança da convicção”, também salientando que “...o provérbio, quando não é puro verso, é parente próximo deste, pelo ritmo e, muitas vezes, também pela rima.  O todo, firme, enérgico, definitivo, brilha de uma certa originalidade de invenção e de expressão e grava-se facilmente na memória.”
Um dos recursos, talvez o mais preciso para a eficácia da mensagem proverbial, seja a metáfora, já que esta, não apenas pela beleza literária, mas principalmente pela sua funcionalidade, encerra em si um valor conotativo simbólico universal, depreendido pelo público. Peter Seitel, citado por Ambrose A. Monye, nos fala que “um termo proverbial é caracterizado por um  número  de  traços culturais que juntos incluem o conceito metafórico (e) os termos são investidos com um traço culturalmente definido devido a aparecer ou ter aparecido algum dia em um certo ambiente culturalmente reconhecido.”[9]
E define o provérbio como “o uso social estratégico da metáfora, isto é, a manifestação  em uma forma tradicional, artística e relativamente  curta  da  razão metafórica, usada em um contexto interacional para resolver certos problemas (sociais).[10]
A eficiência da mensagem proverbial, entretanto, está indissoluvelmente associada à sua clareza. O significado da mesma somente poderá ser entendido, quando “lado a lado com a tradução for dado um relato completo da situação social que a acompanha - a razão para seu uso e sua significância no discurso”.[11]
A complexidade de uma resposta concludente sobre a origem popular dos enunciados proverbiais traz, contudo, outros pontos polêmicos. Se, de acordo com Renzo Tosi, com uma análise mais simples de provérbio o entendemos  como “uma  frase feita segundo uma formulação padronizada  (mesmo que não absolutamente rígida),que se tornou tradicional e à qual se atribui autoridade de verdade inconteste,  fruto  da  sabedoria antiga e popular,[12]  por outro lado somos obrigados a concordar que “muitas vezes os provérbios não passam de redações estereotipadas de topoi literários e que as relações entre a tradição literária e a pretensa “sabedoria popular” se revelam profundas e complexas.”[13]
A continuidade da tradição cultural clássica durante a Idade Média, porém, nos leva a considerar a difusão dos provérbios e demais expressões fraseológicas, não apenas como mero exercício de latim com finalidades estéticas de metrificação, mas do mesmo modo, como consolidação de uma mentalidade moral cristã de dominação e de regulamentação da vida social através do discurso (oral e escrito), que sintetiza através de exempla, florilegia e libri proverbiorum, por exemplo, um manual de conduta dos membros do clero e das demais classes sociais.[14]
Como afirmam François Suard e Claude Buridant, provérbio seria “um enunciado autônomo, metafórico, exprimindo uma observação popular de valor geral.”[15] A observação popular, referendada pelo saber empírico de gerações e assentada sobre os ensinamentos da Igreja, teve nos provérbios medievais um veículo de conhecimento e de dominação.
À “disciplina componente autônoma da Fraseologia e Folclore, especialmente da ciência da poesia popular, que se ocupa com a descrição, classificação, etimologia e pragmática dos provérbios”[16] dá-se o nome de paremiologia, termo retirado do grego paroimia, latinizado paroemia. .
No que concerne à sua estruturação, o provérbio possui alguns níveis, sobre os quais podemos rapidamente discorrer. Do ponto de vista de sua estruturação fônica, os provérbios apresentam uma entonação, ritmo e métrica próprios, fazem uso freqüente de aliterações, assonâncias e rimas, com uma estruturação rítmica binária, no caso de boa parte dos dísticos medievais rimados, onde a métrica e a rima, além da cadência fônica, auxiliam a memorização da mensagem proverbial.

e.g. 1:   Balnea cornici non prosunt nec meretrici

 

Tradução: “Os banhos não são úteis nem para a gralha nem para a meretriz.”

e.g. 2:   Ad mensam dum quis sedeat, nil turpe loquatur!

Sed mense semper honor ingens exhibeatur!

 

Tradução: “Que ninguém fale coisas torpes, enquanto sentado à mesa!

Que nela sempre se mostre uma notável dignidade!”

 

Burton, citado por Maria Helena Trench de Albuquerque, enumera outras propriedades distintivas do provérbio:[17]

 

  A) Propriedades semânticas
1. operam com aspectos básicos da vida - amor, saúde, idade, pobreza, riqueza, trabalho, etc. - que não podem ser banais;
2. dizem respeito a expressões de opinião geral, mais do que da pessoal, e implicam em que a sociedade em geral endosse os sentimentos através delas propostos;
3. podem ser tomados metaforicamente ou literalmente;
4. advogam estratégias e dão conselhos;
5. estabelecem uma verdade geral em contraste com a especificidade do contexto no qual aparecem, referindo-se muitas vezes a uma categoria de experiência mais ampla e geral que a de seu contexto de uso.
 
B) Propriedades sintáticas
1. tempo no presente, sugerindo atemporalidade, ou referência a qualquer tempo;
2. simetria evidente: paralelismos, repetições, lemas, estruturas bipartidas;
3. uso freqüente da cópula;
4. uso freqüente dos pronomes pessoais e substantivos;
5. uso de formas imperativas.
 
C) Propriedades fonológicas
1. freqüente uso de aliteração, assonância e rima.
 
D) Propriedades léxicas
uso de arcaísmos, mas em caso algum os enunciados proverbiais deixam de ser coloquiais.

Os aspectos formais do provérbio, associados à sua contraparte conteudística, definem um tipo de discurso de dominação, pois, citando Maria Lúcia Mexias Simon (1989:93), “Enunciados genéricos, fixados em  uma forma  conhecida  pelos falantes de uma comunidade, avalizados pelo longo uso, preocupam-se os provérbios em manter essa mesma comunidade tal como está, uniforme e imutável.”
O provérbio é, então, por nós entendido como unidade fraseológica caracterizada externamente por uma certa concisão e brevidade e, no plano interno, por apresentar elementos metafóricos que contêm uma mensagem de valores gerais referendada através de gerações e que deve ser seguida. Atua em nível do discurso escrito corrente na literatura medieval em língua latina como meio pedagógico, proporcionando aos interessados o discurso da sabedoria, que, no teocêntrico ambiente do medievo, pode ser alcançada através da revelação das verdades (humanas e bíblicas) e através do aprendizado dos discípulos dentro dos padrões éticos e morais condizentes com um cristão e que configuram implicitamente a aceitação de uma visão de mundo revelada e transmitida pela Igreja através de sua retórica de dogmatização do sagrado. Isto poderia perfeitamente ser referendado pela própria etimologia do termo proverbium, de pro, “em lugar de, em vez de”, entendido aqui como prevérbio e verbum, a “palavra”, o próprio Verbo original transmutado em carne e representado no mundo terreno pela Igreja.
 

III. BIBLIOGRAFIA

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TAYLOR, Archer. The proverb and an index to ‘The proverb’. Bern; Frankfurt am Main; New York: Lang, 1985.
TOSI, Renzo. Dicionário de sentenças latinas e gregas. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
 



[1]  BAHNER, W. et alii (1990) p. 102. Os números 1 e 2 referem-se ao verbete fraseologia, onde 1 significa “conjunto das unidades fraseológicas de uma língua” e 2 “pesquisa fraseológica, estudo da fraseologia bem como das unidades fraseológicas.”
[2]  Para um estudo mais aprofundado sobre a temática proverbial dos principais autores latinos conferir a obra clássica de A. Otto, indexada na BIBLIOGRAFIA.
[3] Foge ao escopo deste artigo uma história dos provérbios até os dias atuais
[4] TAYLOR, A. (1985: 3).
[5]  JASON, Heda apud Proverbium (1971: 617).
[6]  GRZYBEK, P. (s.d.: 240).
[7]  BAHNER, W. & alii. (1990: 121).
[8]  JASON, Heda apud Proverbium (1971: 618).
[9]  SEITEL, Peter apud MONYE, Ambrose A. In: Proverbium (1986: 87).
[10]  Ibidem, p. 87-88.
[11] FIRTH, Raymond apud MONYE, Ambrose  A. In: Proverbium (1986: 95).
[12]  TOSI, R. (1996: XIII).
[13]  Ibidem, p. XIII.
[14]  Este tópico pode ser melhor analisado à luz da tese de doutorado do autor intitulada A fraseologia medieval latina como reflexo de uma sociedade, constante do Banco de Teses da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
[15]  SUARD, F. & BURIDANT, C. (1986: 10).
[16]  BAHNER, W &  alii (1990: 96).
[17]  ALBUQUERQUE, M. H. T. (1989: 28-29). Fizemos algumas alterações quanto à apresentação do citado texto para adequá-lo ao nosso trabalho, sem, contudo, modificar as palavras da autora.