SOBRE A EXISTÊNCIA DE UM QUARTO MODO NO PORTUGUÊS

Afrânio da Silva Garcia (UERJ)

 

Tradicionalmente, convencionou-se chamar de modo às nuances emo-cionais que podem ser expressas pelo verbo ou por algum elemento a ele relacionado. A maioria das línguas apresenta os seguintes modos: um modo declarativo neutro, desprovido de nuances emocionais, em que a situação é vista simplesmente como um fato; um modo conativo, usado para ordens, pedidos, súplicas, persuasões, etc.; e uma série de modos expressando uma vasta gama de emoções e relações, como o modo desiderativo (que expressa o desejo), o modo optativo (que expressa a dúvida), o modo subjetivo (que expressa a hipótese), o modo volitivo (que expressa a vontade), o modo condicional (que expressa a condição), o modo imprecativo (que expressa a injúria), o modo conjuntivo (que expressa a subordinação de uma situação a outra), etc., variando o número desses modos expressivos de língua para língua.

Muitas línguas flexionais, como o português, costumam desenvolver uma categoria gramatical para expressas esses modos, constituindo-se assim os modos gramaticais, que muitas vezes associam às noções de modo outras noções, como as de aspecto e fase. Temos, portanto, duas noções distintas: a noção semântico-pragmática de modo e a expressão dessas noções, por vezes associadas a outras, nos modos gramaticais de determinadas línguas.

As gramáticas da língua portuguesa distinguem três modos verbais, ou seja, três modos gramaticais: um modo indicativo, para orações declarati-vas neutras; um modo imperativo, para orações conativas, que exprimem ordens, pedidos, súplicas, persuasões, etc.; e um modo subjuntivo, que serviria para expressar tanto uma situação hipotética (uma dúvida, uma pressuposição, um desejo, uma esperança, etc.) quanto uma situação dependente de outra, ainda que essa situação fosse não-hipotética (uma declaração, uma certeza, etc.).

Teríamos, assim, uma situação bastante interessante no português: de um lado, teríamos três modos gramaticais: indicativo, imperativo e subjuntivo; de outro lado, teríamos quatro modos expressivos: declarativo, conativo, subjetivo e conjuntivo, sendo estes dois últimos representados conjuntamente pelo subjuntivo, como podemos constatar nos exemplos que se seguem:

a)  A luz está acesa. (modo declarativo modo indicativo)

b)  Abra essa porta. (modo conativo — modo imperativo)

c) Talvez eu vá à feira. (modo subjetivo — modo subjuntivo)

d) Admirei-me de que ela comparecesse. (modo conjuntivo — modo    subjuntivo)

      Como se pode constatar nas sentenças c e d, o modo subjuntivo tanto pode expressar uma situação hipotética (sentença c) como uma situação tida como um fato (sentença d).  Porém o título do presente trabalho não se refere à existência de um quarto modo no português no sentido de uma quarta noção semântico-pragmática, mas sim à ocorrência de um quarto modo gramatical no português, uma quarta maneira de expressar certas noções modais gramaticalmente. Se analisarmos os períodos seguintes:

e) Isso que você falou talvez seja verdade.

f)  Isso que você falou talvez fosse verdade.

g) Se eu fizer isso, serei um canalha.

h) Se eu fizesse isso, seria um canalha.

Notaremos que, embora todos os exemplos estejam, formalmente falando, no modo subjuntivo, existe uma diferença marcante entre os exemplos e e f, por um lado, e entre os exemplos g e h, por outro. No exemplo e, o falante admite a possibilidade de que aquilo que o interlocutor disse seja verdade, enquanto no exemplo f, o falante está, em realidade, chamando o interlocutor de mentiroso. Da mesma forma, no exemplo g, o falante admite a possibilidade de fazer determinada coisa, com a ressalva de que, fazendo isso, ele se tornará um canalha, ao passo que no exemplo h a simples possibilidade de o falante fazer determinada coisa é totalmente descartada.

Por expressar uma situação como uma hipótese que contraria os fatos, uma hipótese impossível ou inaceitável dentro de uma certa noção de reali-dade, optamos por chamar esse quarto modo gramatical, distinto tanto dos modos indicativo e imperativo, quanto do modo subjuntivo, pelo nome de modo hipotético-contrafatual, visto que sua função é enfatizar que uma determinada situação ou acontecimento constitui uma oposição clara à realidade dos fatos.

Uma segunda característica do modo hipotético-contrafatual que o diferencia dos outros três modos gramaticais é o fato de não apresentar flexão temporal, ao contrário do que ocorre com o modo subjuntivo, ou seja, a mesma forma do verbo, correspondente à forma verbal do pretérito perfeito do subjuntivo (terminação sse), serve tanto para expressar uma situação no presente, no passado ou no futuro, como podemos constatar nos exemplos abaixo:

i)   Se eu fosse à festa ontem, isso não teria acontecido.

j)   Se eu fosse convocado hoje, não me alistaria.

k) Se eu fosse ao seu casamento amanhã, estragaria tudo.

Essas duas características parecem-nos suficientes para configurar a existência de um quarto modo gramatical do português, destinado especificamente a expressar uma situação como uma hipótese descabida, flagrantemente contrária à realidade: o fato de o modo hipotético-contrafatual estar em oposição excludente com todos os outros modos gramaticais do português, inclusive com aquele ao qual mais se assemelha formalmente: o modo subjuntivo (cf. exemplos e, f, g e h); e o fato de um verbo no modo hipotético-contrafatual manter sempre a mesma terminação (equivalente, mas de forma alguma idêntica, à do pretérito imperfeito do subjuntivo), quer expresse uma situação no presente, no passado ou no futuro (cf. exemplos i, j e l).